Revista Contra-Relógio
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Willian Bonner: um corredor que é notícia

Edição 165 - JUNHO 2007 - MARCIO DEDERICH


Foi a paixão pela escrita que levou William Bonemer Junior, jovem paulistano nascido em 16 de novembro de 1963, a cursar a faculdade de Comunicação da USP, em São Paulo. Ainda era estudante quando começou a trabalhar como redator publicitário. Até aí, tudo normal. As coisas começaram a mudar no instante em que colegas do curso de rádio e televisão, por causa de sua voz grossa, pediram que gravasse um programa.


Quando foi ao estúdio da faculdade, o diretor da Rádio Universidade de São Paulo FM passou e gostou. Chamou-o para apresentar o Concerto de Rock. Logo depois, ainda como universitário, estava no comando de mais dois outros programas. Assim foi a largada na carreira profissional de William Bonner, hoje apresentador e editor-chefe do telejornal de maior audiência do país.

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Convidado a fazer a locução do programa Oito e Meia, em 85 Bonner entra para a TV Bandeirantes. No mesmo ano vai para a frente das câmeras para apresentar, pela primeira vez, o Jornal de São Paulo. No ano seguinte já estava em rede nacional no extinto Jornal de Amanhã, da mesma emissora.


O convite da Rede Globo não demorou a chegar. Em 86 foi chamado para trabalhar na emissora como apresentador e um dos editores do também já extinto SP TV 3ª edição. Na noite de sua estréia inventou e adotou o sobrenome Bonner. Logo depois, em 88, começou a apresentar o Fantástico. Em 89 transferiu-se para o Rio de Janeiro e passou a apresentar o Jornal da Globo. Quatro anos depois assumiu o Jornal Hoje, onde acumulou as funções de editor-chefe e apresentador.


Casado com a jornalista Fátima Bernardes, desde abril de 96 William Bonner apresenta o Jornal Nacional, o mais importante noticiário da Rede Globo e cuja chefia assumiu em 99. Seus primeiros passos nas corridas datam exatamente dessa época. Para saber um pouco mais sobre essa sua outra carreira, nada melhor que ouvir o que ele mesmo tem a dizer. Plim-plim.


Você começou no rádio por causa da voz grossa... Foram as canelas finas que o trouxeram às corridas?
Não, nada disso. As corridas vieram depois das caminhadas, que por sua vez vieram depois de muitos anos de sedentarismo. Em 1999, já pai de trigêmeos, meu peso não baixava de jeito nenhum dos 93, 94 kg. Minha mulher marcou uma consulta com o Dr. Guilherme Azevedo Ribeiro, nutricionista. Ele prescreveu uma dieta pela qual eu perderia um quilo por semana se permanecesse sedentário. Como funcionou, depois do quarto quilinho perdido comecei a andar todos os dias. E, como acontece com quase todo mundo, quando senti que as caminhadas estavam começando a ficar enfadonhas, passei a trotar. Em semanas estava completamente dependente da corrida.


Caminhar, trotar e correr são, como você bem disse, etapas. Para alguns as competições surgem na seqüência. Já se meteu em alguma?
Já. A primeira vez foi em 2004. Uns malucos do Jornal Nacional me convenceram a participar da Maratona de Revezamento Petrobras. Nossa equipe tinha 8 pessoas. Dava 5,2 km pra cada corredor. Foi uma experiência intensa. Amarelei!


Como assim, amarelou?
Saí disparado com a adrenalina da multidão e não agüentei o ritmo. No fim, quando enxerguei a linha de chegada, disparei de novo. Fiz um tempo inferior ao que estava habituado por puro nervosismo. Mas fiquei muito orgulhoso de ter completado a prova, de ter participado daquela maluquice. Agora, em março passado, os mesmos malucos me arrastaram para a Super 40. Com a diferença que dessa vez a equipe foi de 10. Fiz meus 4 km em 19:44.


Telejornal é trabalho de equipe; correr pode não ser. Quando corre costuma estar sozinho ou prefere fazê-lo em grupo?
Prefiro sozinho. Principalmente porque os minutos dedicados ao exercício alternam momentos de concentração absoluta na corrida, em si, com instantes em que viajo. E aí a viagem pode ser pra longe - ou pra dentro de mim mesmo. Odeio esse papo-cabeça pseudo-filosófico de auto-conhecimento. Mas sou obrigado a reconhecer que, como as bruxas, essas coisas existem.


Bem, já que estamos falando em bruxas... como são seus treinos? Sou um amador que corre apenas por prazer. Não tenho, na verdade, uma disciplina rígida. Às vezes faço intervalado com meu professor, Marcos Marinho. Costumo alternar treinos entre minha esteira, em casa, e na praia, no Rio. Depende do tempo disponível, das condições climáticas e do meu espírito. Às vezes, mesmo num dia em que não preciso estar na TV tão cedo - e o sol brilha - prefiro a esteira. Em geral é quando sinto que minha concentração está meio perdida. Enquanto a esteira me impõe ritmo, na praia meu desempenho depende do quanto estou concentrado.


Depois dos revezamentos, já pautou o próximo desafio? Pretende algum dia se meter numa prova solo, tipo São Silvestre, meia ou mesmo numa maratona?
Com sinceridade, acho que esse negócio de corrida em equipe acaba me botando mais tenso. Nos dias anteriores à prova, a responsabilidade de não decepcionar os colegas me torna intratável. Acho que, no futuro, talvez eu tente uma meia. A maratona completa exige uma dedicação que o jornalismo, em minhas funções, me impede de ter.


Nesse ponto, corrida e jornalismo têm algo em comum: ambos requerem dedicação. No seu mundo real você percebe alguma relação direta entre as duas atividades?
Fora meu humor, que melhora estratosfericamente em dias de corridas mais prazerosas, o raciocínio se torna mais ágil. Sinto-me mais capaz nessas ocasiões. A relação que estabeleço é esta. No mais, são duas atividades tão distintas (intelectual x físico, coletivo x individual, responsabilidade x prazer, insalubridade x saúde) que as coloco, em minha vida, como complementares. E, hoje, fundamentais para minha sobrevivência.


Você já se emocionou no ar, ao vivo, frente a milhões de telespectadores... Por vezes, terminar uma corrida também traz forte carga emocional. Que sensações experimenta quando corre?
Aexperiência física da corrida me oferece um prazer químico muito particular. Não sei se é o oxigênio, se são as endorfinas, se é isso tudo junto. A sensação de bem-estar, ainda que, às vezes, simultaneamente de exaustão, é totalmente compensadora depois do esforço. E é delicioso ver os números da corrida, no freqüencímetro: média de batimentos cardíacos, freqüência máxima... e as calorias queimadas, claro!


Ao assumir o comando do JN você escreveu um decálogo que, dizem, não mostra pra ninguém. São dez fundamentos que observa para que o jornal não se desvie do sucesso. E o decálogo das suas corridas, já escreveu? Dá pra mostrar?
Tá maluco? Se com dez "mandamentos" pessoais já carrego um piano sobre os ombros, ainda vou arrumar mais dez? Quem conseguiria correr com um peso desses?


É conceitual: além de fechar com uma boa notícia, o JN não pode deixar de apresentar aquilo que de mais importante aconteceu no dia. Se o tempo for curto você dá um jeito, aperta daqui e dali, edita... Na mesma linha de raciocínio, o que não pode faltar nas suas corridas?
Um tênis, que além de amortecer impactos, ofereça estabilidade às minhas passadas; meias que não permitam a formação de bolhas; um calção que não seja ridiculamente curto nem longo a ponto de ralar as coxas; uma camiseta que favoreça a evaporação do suor sem parecer um "outdoor"; um boné; óculos escuros; e, se a corrida for só pelo prazer, música nos ouvidos.


Até aqui, dentre todas as conquistas já realizadas na vida, qual delas você considera a mais significativa?
A única conquista digna do nome, para mim, é a de ter ajudado minha mulher a construir uma família. Pai, mãe, filhos e um clima harmonioso, de amor e respeito. Isso é uma conquista, sim. E se, apesar de toda a dificuldade de horários, mantenho o hábito de correr, é porque se trata da maneira mais prazerosa de assegurar minha saúde até que nossos filhotes possam caminhar, com as próprias perninhas, os bons caminhos.


E se os três resolverem correr?
Estarei aplaudindo desde a largada.

Uma resposta para “Willian Bonner: um corredor que é notícia”

  1. Oi,willian

    Sou sua fã torço pelo seu trabalho, e espero um dia poder cursar a faculdade de comunicação acompanho seu trabalho, quem sabe um dia ao longo da vida nos encontremos.
    Abraços

    Cristiane Nogueria

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