Revista Contra-Relógio
// Fisiologia //

Vale a pena monitorar a cadência de passada?

Edição 292 - JANEIRO 2018 - FERNANDO BELTRAMI

Muitos se perguntam se é melhor correr com maior amplitude ou maior frequência nas passadas. Será que faz sentido ter essa preocupação?

A popularização dos computadores de treino, que hoje possuem sensores para contar os passos embutidos no próprio relógio (se ainda podemos chamar de relógio...), popularizou o monitoramento da cadência de corrida, ou frequência de passada. A evolução tecnológica deu impulso à ideia lançada há algumas dezenas de anos pelo treinador e cientista Jack Daniels, que dizia que corredores de elite parecem preferir a cadência de 180 passadas por minuto. Entre a proposta de um treinador reconhecido e a disputa de diferentes plataformas de análise de corrida, facilmente foi reacendido o interesse dos corredores pelo tema e, com isso, a busca pela tal cadência ideal.
A velocidade de um corredor é determinada pela multiplicação do comprimento e frequência de suas passadas. Elas normalmente são definidas como o intervalo entre o toque dos pés no chão (não do mesmo pé), e é esta definição que utilizaremos aqui. Caso algum leitor utilize a outra definição possível (a batida dos dois pés), basta dividir a frequência por dois.
Assim, uma velocidade de 12 km/h pode ser atingida, por exemplo, com 180 passadas de 1,11 m a cada minuto ou 160 passadas de 1,25 m cada, sendo a combinação destes dois possivelmente influenciada por fatores anatômicos e de força muscular. Dada a larga janela de variação, é possível questionar se existiria uma cadência ideal para fins de performance, que otimize o gasto energético, e também uma outra perfeita, do ponto de vista mecânico, que diminua o risco de lesões. Se for possível achar uma frequência de passada que ofereça os dois, melhor ainda.

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CADÊNCIA E DESEMPENHO. Em condições normais de corrida, na maioria das velocidades, desde trote até antes de um sprint, a frequência aumenta muito pouco, se comparada com o aumento do comprimento de passada. Por exemplo, um corredor eleva sua cadência em 10-20% entre 8 km e 20 km/h, enquanto seu comprimento de passada mais do que dobra para a mesma mudança de velocidade. Nos sprints, o comprimento de passada atinge um limite, e os ganhos de velocidade se dão quase exclusivamente por ganhos na frequência.
Dentro desta variação mais mundana - e de maior interesse para o leitor da CR - diversos estudos já demonstraram que corredores naturalmente escolhem a frequência que para o seu corpo apresenta menor custo metabólico, e que o gasto energético aumenta significativamente quando se tenta correr com passadas maiores ou menores.
Além disso, o histórico de treinos de um corredor, em que o volume de treino em cada velocidade aumenta conforme o condicionamento lhe permite, influencia o desenvolvimento desta cadência ideal, e até hoje não existem evidências completas de que intervir neste processo seja benéfico.
Em suma, do ponto de vista de performance, trocar a cadência de corrida não parece vantajoso.


CADÊNCIA E LESÕES. Aumentar a cadência, em uma dada velocidade, por definição irá diminuir o comprimento da passada. Com isso, a oscilação vertical do corredor diminui (o centro de gravidade do corpo sobe e desce durante a corrida, e essa variação pode ser alterada, entre outras coisas, pela passada) e também as forças de impacto com o solo. Acredita-se que ao reduzir as forças de impacto, a corrida com cadência mais elevada seria positiva para a prevenção de lesões, tornando-se um "alvo terapêutico" de diferentes escolas de corrida.
Inicialmente existia um pouco de dúvida sobre se alguns poucos exercícios seriam suficientes para alterar um gesto motor que é repetido milhares de vezes por treino. Desfazendo estes questionamentos, diversos estudos já demonstraram que é sim possível alterar a cadência natural de corredores, após algumas semanas de treinamento, e inclusive esta alteração não traz perdas na eficiência de movimento.
O elevado consumo energético, constatado em estudos, parece ser compensado após um período de mudança, em que o sistema muscular possivelmente se adapta às novas demandas. Apesar destas notícias positivas, ainda faltam estudos longitudinais conclusivos, que demonstrem que estas alterações se mantêm ao longo prazo e, principalmente, que elas têm um efeito real sobre a incidência de lesões.
Com base nas evidências disponíveis, mudar a cadência de corrida simplesmente por experimento não pode ser recomendado, mas corredores que estejam sofrendo com lesões reincidentes podem considerar uma mudança na cadência de corrida como alternativa de terapia.


CADÊNCIA E FADIGA. Outro ponto bastante mencionado por corredores hoje em dia é o fato de a cadência cair ao longo do tempo, mesmo que a velocidade seja mantida. Sabendo que a cadência natural é a ideal, muitos se perguntam se é possível e/ou necessário tentar reverter este processo.
Neste ponto, cabe mencionar em mais detalhes um trabalho feito alguns anos atrás por pesquisadores dos Estados Unidos e Noruega. Nele, um grupo de corredores foi avaliado durante um teste em esteira de 1 hora, em que a velocidade permaneceu constante e próxima do máximo tolerável por cada atleta. Os resultados do estudo podem ser vistos no gráfico.
O resultado inicial foi o esperado: com o passar do tempo, a cadência de corrida diminuiu (linha laranja), enquanto o custo metabólico da corrida (o consumo de oxigênio, ou VO2, em azul) aumentou. Em princípio, este resultado parece indicar que o desvio da cadência inicial teve um efeito deletério sobre a economia de corrida, forçando os corredores a gastar mais energia para uma mesma velocidade. É o que muitos sentem, e o motivo pelo qual acham que deveriam mudar sua cadência.
No entanto, o estudo testou a cadência ideal para cada corredor, tanto no início quanto no final da corrida de 1h. Nestes testes, corre-se por alguns minutos em sua cadência natural e também em 4 e 8% acima ou abaixo dela, para determinar qual a mais eficiente. Estes testes mostraram que os corredores estavam, de fato, na cadência mais econômica nas duas situações (gráficos menores dentro do principal).
Ou seja, com o passar do tempo e aumento da fadiga, a cadência ideal (mais eficiente) também se altera, o os corredores intuitivamente acompanharam este processo. Essa diminuição da cadência ideal possivelmente está ligada a mudanças na rigidez dos músculos e tendões, e o grau de ativação muscular, que determinam a eficiência das alavancas corporais.
Para o corredor, no entanto, importa perceber que tentar alterar sua cadência durante uma prova, pelo simples fato de ela estar caindo, é um erro, e possivelmente terá consequências negativas sobre o desempenho.



Calçados minimalistas e corrida descalça
Um dos argumentos a favor dos calçados minimalistas é - ou era - que desta forma o corredor retornaria a um comprimento de passada mais natural (e menor), por consequência aumentando a cadência de corrida, o que seria bom para prevenir lesões. Estudos recentes, no entanto, apontam que a corrida com calçados minimalistas não apresenta a mecânica da corrida descalça; como poderia se esperar, ela fica em um meio-termo entre as duas.
Além disso, enquanto algumas alterações mecânicas causadas pela corrida descalça são em tese positivas, pois reduzem a carga nos tornozelos e joelhos, estudos longitudinais até agora não demonstraram queda na incidência de lesões, seja com a corrida descalça ou calçados minimalistas. Pelo contrário, alguns trabalhos apontam para lesões de estresse nos pés, possivelmente frutos de transições muito rápidas entre os estilos.

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