Revista Contra-Relógio
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UMA CORRIDA BEM MALUCA: A MARATONA OLÍMPICA DE 1904

Edição 269 - FEVEREIRO 2016 - NELTON ARAÚJO

A Maratona em St. Louis (EUA) teve tudo para ficar na história como a mais desastrosa: atleta pegando carona, outro tomando veneno de rato e conhaque durante a prova, um tirando soneca depois de comer maçã podre e até quem correu a mais para fugir de cães raivosos.


Nos últimos tempos, não tem sido raro a descoberta de atletas que cortaram caminho ou burlaram o regulamento para conseguir vencer alguma prova, conseguir um "Boston Qualifying" ou simplesmente inflar seu ego nas redes sociais. Ledo engano aos mais saudosistas de que tal estado de coisa é uma novidade. Basta voltarmos no tempo e relembrar a Maratona Olímpica de 1904, na cidade americana de St. Louis. Provavelmente a mais bizarra que tivemos.
Depois do sucesso que foram os primeiros Jogos Olímpicos da modernidade, em Atenas em 1896, os dois seguintes não tiveram o mesmo êxito. Na tentativa de fazer um evento mais global, que envolvesse para além do esporte, a Olimpíada de Paris, em 1900, foi atrelada a uma grande Feira Cultural. Ao tentar abraçar o mundo com as pernas, perdeu-se em qualidade nos eventos esportivos. Lá, as instalações eram pobres - não havia nenhuma pista plana para os velocistas, por exemplo. Além disso, a maratona teve curso estranho e complicado, e o vencedor, um parisiense, foi acusado de tomar atalhos, embora nunca comprovado.
Em 1904, a cidade escolhida para sediar a Olimpíada tinha sido Chicago, mas como a tal feira aconteceria na cidade de Saint Louis, a pressão sobre o Comitê Olímpico para que se transferisse e se unisse à feira foi tão intensa que o Barão de Coubertin, principal membro da época no COI, teve que ceder, sob ameaça de sabotarem seu evento esportivo. Seria o primeiro evento dessa natureza a acontecer fora do continente europeu, o que também trouxe problemas.
Em uma época de amadorismo, sem patrocinadores e boa parte dos atletas tendo que trabalhar e treinar, um evento em outro continente era demasiadamente longo e caro. Poucas delegações apareceram, com número escasso de atletas que, se não tivessem, por acaso, levados todos os documentos necessários, eram considerados como imigrantes e inscritos como parte da delegação americana. Não é de surpreender que a equipe americana tenho ganho 238 medalhas - mais 223 do que os segundos colocados, os alemães.
Embora houvesse momentos de triunfo surpreendente e genuíno (como o ginasta alemão George Eyser, mas que competiu pelos EUA e que ganhou seis medalhas, incluindo três de ouro, apesar de sua perna de pau!), os jogos foram em grande parte ofuscados pela feira, que ofereceu a sua própria lista de eventos desportivos, incluindo os controversos Dias Antropológicos, onde homens de aldeias africanas, asiáticas e da Oceania, competiram em uma série de atividades degradantes.

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POUCOS MARATONISTAS. Contudo, a maratona, que foi inventada nos jogos de 1896 para honrar a herança clássica da Grécia e ressaltar a ligação entre o antigo e o moderno, permanecia na agenda oficial. Foram inscritos 40 atletas, embora só largassem 32 no dia 30 de agosto de 1904. Entre os que se apresentaram para a largada, havia uma minoria de reconhecidos maratonistas que tinham conquistado ou ficado bem colocados na Maratona de Boston, a principal fora do circuito olímpico, ou tinham participado em maratonas olímpicas anteriores.
No entanto, a maioria dos atletas na linha de largada era composta por corredores de meia-distância e inúmeros tipos excêntricos. Entre eles, dez gregos que nunca tinha corrido uma maratona e que se inscreveram no dia anterior à prova, dois homens da tribo Tsuana da África do Sul, que estavam em St. Louis como parte de exposição da feira "cultural" e chegaram na linha de partida com os pés descalços, e o cubano Félix Carvajal, carteiro, que conseguiu levantar dinheiro para ir para os Estados Unidos.
Mas Carvajal, em uma das paradas da viagem, perdeu todo seu dinheiro em jogo de dados e teve que caminhar e pedir carona para chegar a St. Louis, pouco antes da largada, sem ter feito uma refeição durante dois dias. Iria largar com a única roupa que tinha, uma camisa branca de mangas compridas, calças escuras, longas, uma boina e um par de sapatos de rua. Todavia, um companheiro olímpico teve pena, encontrou uma tesoura e cortou as calças de Carvajal no joelho.
Estava armado o circo para aquela que se tornaria a verdadeira "Corrida Maluca".
40 E NÃO 42 KM. Em 30 de agosto, precisamente às 15h03, foi dado o tiro de partida, e os homens saíram enfrentando calor de 32 graus à sombra e umidade chegando a 90%. O percurso, tal como nos primórdios da maratona, era de 40 quilômetros, começando e voltando ao Estádio Olímpico. O percurso era tão duro que comentaristas diriam que o percurso de Atenas e Paris eram "avenidas" em comparação com o de St. Louis.
Havia sete colinas, variando de 30 a 100 metros, algumas com longas e brutais subidas. Em muitos lugares, o chão estava rachado e com pedras, e os atletas tiveram constantemente de se esquivar de tráfego, trilhos e os trens da estrada de ferro, bondes e pessoas passeando com seus cachorros. A hidratação, aconteceria apenas em dois lugares, na altura do km 10 e do 20.
A restrição da hidratação foi proposital, orquestrada por James Sullivan, o principal organizador dos jogos e diretor da prova, objetivando minimizar a ingestão de líquidos para testar os limites e efeitos da desidratação proposital. Assim, fora desses postos, só era possível água através dos carros da equipe técnica ou de médicos que seguiam ao lado dos corredores. E esse foi, junto com o calor, o maior problema da prova. Em um percurso majoritariamente de terra, o arranque dos carros levantava grandes volumes de poeira, que faria mal a todos os corredores, pois ao inalar tanta poeira, desidratavam, ficavam enjoados, ou mesmo desmaiavam.
As primeiras colinas não foram um aparente problema, contudo, a elevação da temperatura e a poeira constante começavam a fazer efeito nos atletas. John Lordon, um dos favoritos, inalou tanta poeira que sofreu um ataque de vômito e desistiu. Pior para o californiano William Garcia, que quase se tornou a primeira vítima fatal de uma maratona olímpica. Foi encontrado desmaiado ao lado da estrada e hospitalizado com uma hemorragia; a poeira cobriu seu esôfago e rasgou o seu estômago. Se ele tivesse ficado sozinho uma hora a mais ele poderia ter sangrado até a morte. Len Tau, um dos participantes sul-africanos, teve um problema a mais: foi perseguido por mais de uma milha fora do percurso por cães bravos.


PÊSSEGOS E MAÇÃS. Já o cubano Carvajal trotava em seus sapatos pesados, talvez sendo o melhor preparado fisicamente entre os que continuavam na prova. No entanto, ele parava toda hora para conversar com os espectadores em seu precário inglês. Em certa hora, a fome de dois dias veio forte, e ele parou em um carro; viu que seus ocupantes estavam comendo pêssegos e pediu um. Ao negarem, ele simplesmente pegou dois e comeu-os enquanto corria. Não satisfeito, pouco mais à frente, ele parou em um pomar e comeu algumas maçãs, mas que estavam podres. Sofrendo de dores no estômago, simplesmente encostou perto de uma árvore, deitou-se e tirou uma soneca. Sam Mellor, que dividia a liderança, também experimentou cólicas severas. Ele desacelerou para uma caminhada e finalmente parou, desistindo.
A principal confusão da prova começou na altura do km 15, quando Fred Lorz também desistira da prova, severamente desidratado e com muitas cãibras. Sem querer esperar pelo carro da organização, decidiu pegar uma carona em um dos automóveis que acompanham, e foi acenando para os espectadores e colegas corredores enquanto passava.
A corrida caiu no colo do inglês Thomas Hicks, que apesar de ser um dos favoritos, não era o mais talentoso. Contudo, todos os grandes nomes já tinham desistido ou estavam milhas atrás dele. Assim, era só manter, mesmo que a todo custo, que ele venceria. E sua equipe, composta de dois homens que o acompanhariam de carro a partir do km 16 sabiam exatamente o sentido de "a todo custo", dentro daquilo que eles consideravam como sabedoria fisiológica e nutricional da época.


VENENO E CONHAQUE. Em certo momento, Hicks pediu-lhes para tomar uma bebida, mas eles se recusaram; em vez disso, lhe deram uma esponja para molhar sua boca com água destilada quente! Perto do km 28, vendo que o inglês já estava no seu limite, seus assessores lhe deram uma mistura de 1 mg de de sulfato de estricnina e clara de ovo (já que o gosto da estricnina é bastante amargo). Isso nada mais foi que o primeiro registro do uso de drogas nas olimpíadas modernas.
Sulfato de estricnina, o famoso veneno de rato, em pequenas doses, era comumente usado como estimulante, e na época não havia regras sobre substâncias dopantes (algo que só veio a ter certo controle a partir dos anos de 1960). E como se isso não fosse o suficiente, a equipe de Hicks também carregava uma garrafa de conhaque francês, mas esperaram um pouco até que pudessem avaliar a condição do corredor.


DE CARONA PARA A VITÓRIA. Enquanto isso, o carro que levava Fred Lorz de volta ao Estádio superaqueceu e parou de funcionar. Ainda faltavam cerca de 8 quilômetros para a chegada, e Lorz, que tinha fama de fazer "pegadinhas" e estava recuperado das cãibras, resolveu chegar ao Estádio correndo, depois de uma boa carona. Um dos assessores de Hicks viu e ordenou-lhe para que ele se retirasse, mas Lorz continuou correndo, até que chegou ao Estádio e resolveu entrar; deu a volta completa na pista e achou que seria engraçado romper a faixa de chegada, e fazer os mais de 10 mil espectadores que ali estavam entrar em delírio, gritando "Um americano ganhou!".
Foi ovacionado, e deixou o que ele considerava uma "piada" continuar. Chegando ao ponto da filha do presidente americano Theodore Roosevelt, Alice, entregar a premiação, colocando uma coroa de flores e a medalha de ouro. Quando pessoas que tinham visto Lorz entrar no carro relataram o caso para organização, esta imediatamente indagou o impostor, que confirmou toda a história, e sorrindo, afirmou que nunca teve intenção de aceitar a honra: era tudo uma brincadeira.
A revolta do público foi tamanha que se ouviu vaias em um volume maior que as palmas dadas anteriormente, e a indignação tomou tal forma que a Amateur Athletic Union o expulsou pelo resto da vida de participar em eventos esportivos, pena revista meses depois, sobretudo pela fama de "brincalhão" de Fred Lorz.
Enquanto isso, Hicks estava em pé somente pela força da estricnina em seu sangue, desanimado por ter visto Lorz à sua frente. Seu grande objetivo de vida era vencer uma maratona e, pelo visto, ele não conseguiria de novo, então não havia motivos para continuar seu calvário. Mas logo os carros vieram dando a notícia da desclassificação de Lorz , e Hicks se animou e forçou as pernas em um trote.
A equipe técnica dera-lhe outra dose de 1 mg de sulfato de estricnina e de claras, desta vez com um pouco de conhaque para aumentar o poder do estimulante. Eles buscaram água quente e jogavam sobre seu corpo e cabeça. Aparentemente deu certo, porque ele pareceu reviver e apressou o passo para algo ainda assim mais lento que um trote. Só que logo depois, por causa de todo estimulante, ele entrou em processo de colapso.
Começou a ter alucinações, acreditando que a linha de chegada ainda estava bem distante. Na última milha, implorou algo para comer e pediu para se deitar, pedidos obviamente negados. Ao invés disso, ele recebeu mais conhaque e engoliu mais clara de ovo, mas sem o sulfato de estricnina dessa vez.


LEVADO À CHEGADA. Nesse momento, o percurso possuía duas colinas antes de entrar no Estádio Olímpico. Mais de mil pessoas estavam por ali, o incentivando a subir, caminhando na subida e deixando o corpo descer automaticamente. Foi seu esforço final, pois chegando ao Estádio, já se rastejava. Para ter certeza da vitória e acabar com o sofrimento do inglês, os dois membros de sua equipe levaram-no sobre a linha, segurando Hicks no ar, e ele foi declarado vencedor, com a marca de 3:28:53 - o tempo de conclusão mais longo da história maratona olímpica.
Para termos ideia de quanto ele estava à frente, o segundo colocado, o francês Arthur Cory chegou seis minutos depois, seguido pelo americano A.L. Newton. O quarto colocado foi o excêntrico cubano Felix Carvajal: a soneca lhe fez bem e ele chegou com muita disposição. Na história não existe o "se", mas se não fossem as paradas para conversar, os roubos de pêssego e a soneca por conta da maçã podre, talvez a história do carteiro cubano fosse outra.
No final dessa "corrida maluca", apenas 14 corredores concluíram, incluindo os três gregos que não tinham corrido nenhuma maratona e o sul-africano, aquele mesmo que foi perseguido por cães e correu uma milha a mais para fugir deles, e que terminou em nono.
Foram necessários quatro médicos e uma hora para Hicks se sentir bem o suficiente para se levantar. Ele tinha perdido cinco quilos durante a corrida, tamanha era a desidratação, e sua sorte, segundo os médicos foi a de não ter tomado outra dose de sulfato de estricnina, que talvez teria o levado a óbito.


AMEAÇA À MARATONA. Houve tentativas de protestos sobre as ajudas químicas a Hicks, e até de ajuda ilegal, por ter sido carregado ao final (o que nas Olimpíada de 1908 desclassificaria o campeão), mas James Sullivan, diretor da prova, indeferiu todos. Contudo, a prova foi tão desastrosa que muito se discutiu nos jornais e dentro Comitê Olímpico sobre a permanência da maratona nas próximas edições.
Hicks, enfim, recebeu a coroa e a medalha, mas o que ficou marcado foi uma únicas declarações lúcidas que conseguiu fazer naquele momento: "Nunca na minha vida eu vou correr outra prova dessa". Mas sabemos como é a memória de maratonista: no ano seguinte já estava enfileirado para correr mais uma edição em Boston, dessa vez vencida por nada mais, nada menos, que o perdoado Fred Lorz. Sem piadas, sem trapaça, sem carro, ele era, assim mesmo, capaz de ser um campeão de verdade.

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