Revista Contra-Relógio
// Cabeça fria //

Superar-se faz bem!

Edição 218 - NOVEMBRO 2011 - GRACIELA ALLGAIER

Certas palavras são constantes no vocabulário do corredor, como motivação, energia, força, capacidade, entusiasmo etc. Porém, uma pode ser destacada: superação – a capacidade de ter êxito, de vencer, ultrapassando obstáculos, medos, inseguranças ou dores.

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No mundo das corridas, histórias de superação são sempre vividas. Pessoas persistentes que buscam formas e caminhos alternativos na intenção de alcançar seu objetivo. O resultado que encontram para a solução dos problemas que os impedem e limitam o desenvolvimento, denominamos superação.


Na antiguidade este tema já era tratado e "mais recentemente", em 1892, Friedrich Nietzsche lançou o clássico Assim falava Zaratustra, abordando o tema da superação humana. Zaratustra, um poeta do século 6 a.C., dizia que os homens em algumas circunstâncias deveriam se superar e ampliar seus limites. Nietzsche concordava com Zaratustra, mas dizia que esta capacidade de ampliar limites não era para qualquer um, mas sim uma conquista para poucos.


A maioria das pessoas é comandada por sentimentos que as amedrontam, limitando suas ações, sendo poucos os eleitos pela natureza ou pela vida para ser um übermensch (palavra alemã que significa algo como "um humano melhor"), popularizada como "super-homem". O que diria Nietzsche atualmente aos atletas que enfrentam barreiras de diversos âmbitos em busca de seus sonhos? Creio que os classificaria também como super homens ou ultra atletas.



FORÇA DA MENTE. Raphael Bonatto, 30 anos, ultramaratonista, participou de diversas provas: Brazil 135, Badwater, Comrades, 24 horas, Volta a Ilha em duplas, 100 km, Desafio das Cataratas 700 km, 27 maratonas em 27 dias nas 27 capitais brasileiras. Ele relata: Treinar para ultramaratonas é muito difícil e se você quer resultados expressivos fica ainda mais complicado. Acabamos descobrindo que as dores fazem parte do nosso dia-a-dia e que o trabalho mental é fator de extrema importância nesta modalidade, pois a vontade de desistir fica cada vez pior com o passar das horas e o aumento do cansaço.


Em Curitiba, Antonio Carlos de Oliveira, popularmente conhecido como "Gaúcho Safenado" conta sua história. Participou de sua primeira corrida em Santa Maria - RS, 1987, com 36 anos e 106 kg. Em 1992 foi submetido a duas pontes de safena, por prescrição médica, parou de correr, e com a inatividade, começou a sentir dores musculares.


Em 1996 foi diagnosticado com hérnia de disco na coluna lombar; fez outra cirurgia, mas excelente recuperação. Continuou fazendo amizades e correndo em diversas cidades do Brasil, servindo de exemplo para muitos. Ele relata: durante esse período tive outros problemas de saúde: em 2003, 2005 e 2007 fiz angioplastias, em 2009 tratamento contra hepatite C e, em julho de 2010, outra angioplastia e uma artrose nos joelhos. Em março de 2011, com 60 anos, nova angioplastia, somando ao total 12 pontes de safena e 6 stents.


Agora são 12 anos superados e 376 provas concluídas. Para Gaúcho, finalizar cada prova é ter a sensação de ser um vencedor, um jeito de se superar a cada dia: Se estou correndo, estou bem!


Fazer uma pessoa romper barreiras, alcançar o que às vezes parece ser impossível, só acontece através de um conjunto de fatores técnicos, físicos, materiais e psicológicos que, quando bem trabalhados, ampliam o limite. A superação de barreiras individuais e sociais está presente na vida, seja no trabalho, nas relações sociais ou nos esportes. Através de exemplos percebemos a capacidade humana de criar o que se deseja, não permitindo que as dificuldades tirem a ambição da autosuperação.


Leandro Oliveira, 25 anos, passou por dificuldades físicas, emocionais e econômicas. Começou a correr sem condições financeiras de participar das corridas e recorria a amigos para pagar suas inscrições. As vitórias aumentaram sua motivação e motivaram ainda mais seus treinos, a ponto de ocasionar uma fratura de stress na tíbia. Um ano parado e com o emocional debilitado ele buscou forças e se superou, completou sua reabilitação e atualmente é figura fácil nos pódios do Paraná.



A SUÍÇA EM LOS ANGELES. Em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, as mulheres participavam pela primeira vez da prova da maratona. Provavelmente poucos lembram quem ganhou (a americana Joan Benoit), porém muitos não esquecem da suíça Gabrielle Andersen que chegou cambaleando e desidratada ao estádio. Até hoje ela serve de exemplo de determinação para atletas de todo o mundo.


Tamy Cecy, 47 anos, sofreu desde menina cardiopatias congênitas, que na adolescência culminaram em uma pericardite. Meses de internações, tratamentos e o aconselhamento médico na época de viver de uma forma tranquila e com muito repouso. Mas Tamy contrariou clandestinamente as prescrições quanto às atividades fisicas. Doze anos depois conta com participações em 11 maratonas, dezenas de meia-maratonas, triatlos, revezamentos e uma participação no Desafio Nike 600 SP-RJ.


Ela supera todos os dias suas restrições, a incerteza quanto ao seu diagnóstico e um risco de isquemia. Ela diz: Prefiro arriscar a deixar a vida passar e, no final, eu permanecer como uma mera espectadora! As atividades físicas me trouxeram muita qualidade de vida. Não consigo mais conceber minha vida sem a prática esportiva. Basta que eu tenha disciplina e respeite minhas limitações!


Problemas e dificuldades todos têm. Vale querer agir diferente para chegar ao lugar onde você deseja estar. Afinal, descobrir-se capaz de ultrapassar as limitações, vencendo as dificuldades e prosseguindo em busca dos seus sonhos, esse sim é o segredo da felicidade.

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