Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

SPIRIDON LOUIS: NASCE A MARATONA MODERNA!

Edição 245 - FEVEREIRO 2014 - NELTON ARAÚJO

A maratona era para ser apenas a cereja do bolo da primeira Olimpíada da Era Moderna, idealizada pelo Barão de Coubertin. Mas o grego Spiridon Louis acabou se tornando a principal atração do evento. Veja por quê.

O ano é 1895. Um jovem cavalariço caminha¬va pelos canteiros das obras do estádio olím¬pico, ao lado de seu co-mandante. Este general lhe contava, com brilho no olhar, que o estádio re¬ceberia o vencedor de uma corrida di¬ferente, inovadora, uma competição de resistência de 40 km, na qual pes¬soas de vários países viriam exclusi¬vamente para participar. Animado, o jovem exclamara: "Eu gostaria de estar entre eles. Sou bom corredor, general", recebendo como resposta a incredulidade do militar. Mesmo assim insistiu e, um ano depois, foi correr e ganhar a única prova de que participaria em toda a vida.
Esta seria só mais uma fábula mo¬tivacional que lemos todos os dias, se o jovem em questão não fosse nada mais, nada menos, do que o grego Spi¬ridon Louis, o vencedor a Maratona Olímpica de Atenas, em 1896. Esta foi a primeira Olimpíada da Era Mo¬derna, e teve os primeiros 40 km his¬toricamente registrados. Foi a partir dela que se instaurou toda uma aura de encanto pela distância, que rapida¬mente se espalhou pelo mundo, e isso se deu, sobretudo, pela saga de Spiri¬don durante a prova.
Mas a competição e a Olimpíada não seriam possíveis sem as ideias de dois homens: Michel Breal e o famoso Barão de Coubertin. Nossa viagem no tempo, neste mês, nos leva para dois séculos atrás, para nos fazer entender o surgimento dessa modalidade que, até hoje, é coberta de mística e fascínio.

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A GRANDE INICIATIVA. Populari¬zado por muitas décadas como o responsável pela "redescoberta" dos Jogos Olímpicos e pela ideia de fundar a maratona, o francês Pierre Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin, não pode levar toda a fama. Seu papel foi decisivo, mas o contexto histórico e as pessoas que o cercavam também tiveram igual importância. Em finais do século 19, o mundo ocidental passava por mudanças estruturais nos campos econômico, político e intelectual, com o florescimento e a consolida¬ção de "novas" ciências independen¬tes, como a Psicologia, a Economia, a História e a Arqueologia.
Esta última, em especial, estava particularmente interessada na cul¬tura greco-romana, principalmente depois de encontrarem vestígios sobre o Estádio de Olímpia, local dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, fomentan¬do todo um aprofundamento nos estu¬dos acerca dos tais Jogos, bem como um interesse em reeditá-los naquele momento. Não que fosse exatamente uma "novidade": desde o século 17, alguns eventos esportivos tinham o título de "Jogos Olímpicos", em pelo menos trezes locais diferentes. Po¬rém, com caráter essencialmente lo¬cal, sem periodicidade e sem interes¬se em se tornar algo que englobasse outros países.
É dentro desse ambiente histórico que encontramos o Barão de Couber¬tin. O francês, mesmo formado em Di¬reito, estava mais interessado em co¬nhecer novas formas de desenvolver o esporte e entender como este desem¬penhava um papel decisivo na vida de muitos jovens ao redor do mundo. Em uma de suas viagens, conheceu uma versão inglesa da Olimpíada, o que lhe inspirou a ter a ideia de retomar os Jogos Olímpicos, mas agora para todo o mundo.
Para ele, tal reintrodução signi¬ficava a harmonia entre corpo e mente, indo além de um mero culto ao físico. Quando levou essa per¬cepção a público, no Congresso dos Esportes em 1894, em Paris, muitos consideraram a ideia impossível, a princípio. Contudo, o barão tinha o ambiente de internacionalização da época, o interesse da imprensa, bons contatos e, não menos impor¬tante, sua teimosia a seu favor.


A PROVA DE 40 KM. Uma vez apro¬vada a reedição dos Jogos Olímpi¬cos, em Atenas 1896, começaram os debates para sua formatação. E foi nesse ambiente que surgiu a ideia de homenagear a Grécia, promovendo uma corrida em memória a Fidípe¬des. Essa intenção não veio de Cou¬bertin, mas de outro francês, Michel Breal, acadêmico, que sugeriu uma prova que relembrasse os passos de Fidípedes: saindo da cidade de Ma¬ratona até a colina Pnyx, tradicional ponto de encontro da antiga Atenas.
Não havia certeza da distância que ele teria percorrido, sendo fixa¬da em 40 km. Mesmo não havendo certeza sobre a veracidade do mito (como esta seção publicou em agosto último), o fato é que a iniciativa "co¬lou" e foi recebida com paixão pelos gregos, que viam o retorno da tradi¬ção dos tempos de glória da antigui¬dade clássica. Mal sabiam que, na verdade, eles estavam criando uma tradição, posto que a Maratona, como evento esportivo, não tem raí¬zes históricas antes de 1896. Os gre¬gos também olhavam para a ideia de Breal como uma possibilidade de se afirmarem no mundo esportivo, já que, nas pistas, o mundo estava na mão de ingleses e americanos.
E agora vamos voltar ao nosso per¬sonagem, o jovem Spiridon Louis. Cumprindo serviço militar, ele es¬cutava as histórias e as expectati¬vas do seu encantado oficial sobre a maratona, acreditando na vitória de um grego. Desde o anúncio dessa cor¬rida, em 1895, muitos jovens, sobre¬tudo garotos gregos pobres, estavam preparando-se para corrê-la. Houve até quem exagerou no entusiasmo e na inexperiência: alguns relatos da época indicam que três jovens mor¬reram em decorrência de treinar de¬mais. Talvez por ver, na vitória, uma forma de ascensão econômica e social, alimentada por notícias de doações de gregos ricos da época para o campeão.
Assim, é compreensível a dúvida e até o descaso do general sobre a capacidade de Spiridon em correr a prova. Com 23 anos, morava perto de Atenas, no Vilarejo de Amar¬roussion, e quando não estava a ser¬viço como cavalariço, era um peque¬no agricultor, que entregava água em Atenas, trotando 15 km ao lado de sua carroça. Não era, à primeira vista, a pessoa mais indicada para a grande competição.


SELETIVAS GREGAS. O jovem aldeão contava com a mesma qualidade de Coubertin: a teimosia. Mas não isso não bastava; antes era necessário passar pelas seletivas, os famosos "trials". Então, outra surpresa his¬tórica: embora a Maratona Olímpi¬ca de Atenas seja comumente con¬siderada como a primeira oficial da história, aconteceram pelo menos duas outras antes dela, ambas de 40 km, para selecionar os 13 gregos que iriam para a Olimpíada.
A primeira seletiva ocorreu em 10 de março de 1896 e contou com a pre¬sença de 12 homens, na qual o grego Karilahos Vasilakos, um andarilho experiente, venceu com o tempo de 3h18. Na última seletiva, bem maior, com 38 corredores, correu no dia 5 de abril, apenas cinco dias antes da lar¬gada da prova oficial! Nessa disputa, o vencedor fez o tempo de 3h11. E não foi Spiridon, que chegou em quinto lu¬gar, o suficiente para entrar no grupo para a Olimpíada.
Selecionados, os 13 representantes do país anfitrião se juntaram a outros cinco competidores de outras nações. Um alemão, que desistiu da prova; o australiano Edwin Flack, vence¬dor dos 800 e 1.500m nesses Jogos; o norte-americano Arthur Blake, prata nos 1.500m; e o francês Albin Lermu¬siaux, bronze também nos 1.500m. Além desses velocistas, havia o hún¬garo Gyulia Kellner, o único, além dos gregos, que tinha corrido uma compe¬tição de 40 km antes.
Foram transportadas para a cida¬de de Maratona na véspera da pro¬va e, depois de dada as boas-vindas, os 17 inscritos pediram que lhe trouxessem vinho. Muito vinho. Os relatos indicam que eles comeram, riram, cantaram e se banquetearam até tarde da noite, bem diferente do nosso atual "jantar de massas". No dia seguinte, tomaram um café da manhã reforçado, que incluía leite e duas cervejas, às 11h.


FOI DADA A LARGADA. Às 14h do dia 10 de abril de 1896, esse grupo saiu de Maratona em direção a Atenas. Obviamente que a seria dominada de início pelos velocistas, que logo dis¬pararam na frente. Acompanhados de ciclistas e soldados com a missão
de desobstruir a estrada repleta de gente curiosa em ver esses excêntri¬cos corredores, que iriam para uma jornada de três horas sob sol a pino nas estradas duras de terra, entre Maratona e o Estádio Olímpico.
A população estava nas ruas, ofere¬cendo comida e bebida, e aplaudin¬do, sem distinção de nacionalidade. Atrás, o bloco secundário, onde esta¬va Spiridon Louis, e na retaguarda de todos, uma carruagem repleta de médicos em alerta. Cada atleta era acompanhado, seja em bicicletas ou em carruagem, por seus assistentes, que ficavam responsáveis pela hidra¬tação, alimentação e, em alguns ca¬sos, até por fazer massagens e o que mais fosse preciso para que seu corre¬dor não esmorecesse.
Aparentemente, os velocistas que se aventuraram na desconhecida distân¬cia pareciam não ter sentido os efeitos de terem disputado a final olímpica dos 1.500m três dias antes e domina¬ram amplamente a prova até o km 32. No km 24, no Vilarejo de Harvati, por exemplo, há a indicação de que o lí¬der, o francês Lermusiaux, estava a 1 minuto do australiano Flack e a 4 do americano Blake, que abandonaria logo depois. Entre os gregos, Spiridon e o vencedor do primeiro "trial", Vasi¬lakos, vinham bem próximo deles.


O PRIMEIRO "MURO". Tudo indica¬va uma vitória fácil do francês, se não fosse o episódio que podemos consi¬derar o primeiro "muro" da história das maratonas: após um trecho sinu¬oso, entre as montanhas, o francês simplesmente perdeu completamen¬te as forças, caiu e desistiu da prova no km 32. O australiano também já começava a sentir os efeitos do can¬saço e, mesmo na liderança, diminu¬íra severamente o ritmo. Spiridon Louis cumpria o que prometera ao seu padrasto: no km 21, ao receber uma caneca de vinho (este era consi¬derado um ótimo repositor de ener¬gia em uma época pré-suplementos), soubera da distância que estava dos seus concorrentes e afirmara "Eu vou alcançá-los!". Dito e feito.
Ombro a ombro com o australiano, Louis levava os espectadores ao delí¬rio, que gritavam "Vida longa à Hé¬lade" (como os gregos chamam seu território). No km 33, o ultrapassou, mantendo uma distância de não mais do que 20 passos. Não demorou mui¬to para que o australiano também sucumbisse, no km 37, desmaiando perto de sua carruagem de apoio. Spi¬ridon agora estava na liderança, iso¬lado. Mas uma trapalhada de um ofi¬cial quase põe tudo a perder: no afã de lhe dar mais energia, ele deu conha¬que ao invés da água solicitada pelo grego. Louis cuspiu imediatamente, esbravejou, mas continuou firme na primeira colocação, rumo a Atenas e ao Estádio Olímpico.


A EUFORIA, NO ESTÁDIO. Os 71.800 espectadores majoritariamente gre¬gos, que esgotaram a capacidade do estádio, esperavam ansiosos a che¬gada do vencedor. Para eles, aquela prova era a última chance de salvar a honra do país e dos fundadores dos Jogos Olímpicos, uma vez que, naque¬le evento, tinham ganho apenas uma medalha de ouro em uma competição de ginástica, de menor expressão.
Para conter a ansiedade e entreter o público, a organização programara uma competição de salto com vara no mesmo período e contratara ciclistas que vinham periodicamente dar in¬formações sobre a competição que se desenrolava. E foi um desses mensa¬geiros que, vendo o francês caindo e o australiano tomando a ponta nos úl¬timos 10 km, saiu precipitadamente em disparada ao estádio e anunciou que o vencedor seria o australiano. Suspiros desapontados, lamentos e um silêncio sepulcral tomaram conta do lugar.
Foi quando um tiro de canhão anun¬ciou a entrada do líder em Atenas. O marinheiro responsável em levantar as bandeiras do mastro no estádio, ao ver o ateniense de número 17 em passos firmes na liderança, apressou¬-se em levantar a grega. Uma tempes¬tade de entusiasmo e euforia tomou contou dos presentes, que gritavam "Elleen! Elleen!" (O grego! O grego!).
Sob forte calor, às 16h56, adentra¬va no Estádio Olímpico um Spiridon Louis em estado deplorável: seu traje branco e azul claro estava encharcado de suor, coberto de poeira, os sapatos quase completamente desgastados, e sua exaustão estampada no rosto, roxo e manchado de sangue. Cente¬nas de pombas brancas foram soltas; a massa, eletrificada de felicidade, fazia de tudo para estar próxima do seu novo herói: mulheres acenavam lenços, algumas lançavam suas joias, homens tentavam alcançar Louis, e ofereciam comida e dinheiro como re¬compensa. Os próprios rei e príncipe gregos esqueceram as formalidades protocolares, desceram e correram ao lado de Louis, embargados de emoção.


VITÓRIA EM 2:58:50. Enquanto isso, Spiridon só queria saber onde era a linha de chegada, que cruzou com o tempo de 2:58:50. Cruzou e logo em seguida caiu. A chegada dos gregos Vasilakos, com 3:06:03 e de Belokas, 17 segundos depois, completara a eu¬foria do público, mesmo que depois, Belokas fosse desclassificado por uma denúncia de ter pego uma carona no meio do caminho. Dos 17 que larga¬ram, apenas 9 completaram, sendo 8 deles gregos. O único estrangeiro foi o húngaro Kellner, na terceira coloca¬ção. Todos os velocistas que se aven¬turaram nos 40 km abandonaram e se encontravam no posto médico.
A queda por exaustão de Louis de Amarroussion, longe de dramatici¬dade, personificava o mito, naquele momento: ele era o Fidípedes moder¬no. Nem nos melhores sonhos do rei, de Coubertin, de Breal e do próprio Spiridon, o projeto da maratona daria tão certo. Pierre de Coubertin, quase 40 anos depois, ainda afirmava que a corrida do aldeão de Amourosion "foi uma das performances mais extraor¬dinárias de que eu possa me lembrar".
O impacto dessa corrida fugiu aos planos iniciais de Breal, que era ape¬nas fazer uma única maratona, não se incorporando aos próximos Jogos Olímpicos. Mas a cobertura internacional
da imprensa levou a que outras provas do mesmo gênero começassem a aparecer em outros países, indepen-dentemente das Olimpíadas, mesmo que carecessem de lastro histórico.


PROLIFERAÇÃO DE MARATONAS. Ela passou a significar para muitos um ato possível de superação do homem, criando um encantamento e uma de¬manda de certas parcelas da socieda¬de. Isso pôde ser visto alguns meses depois daquele 10 de abril de 1896, quando já se tem notícias da criação de provas similares para além da Grécia: na França, Estados Unidos, Noruega, Hungria e Dinamarca.
Além desses países, até a virada do século, Alemanha, Itália e Sué¬cia já organizavam suas maratonas particulares. A delegação norte¬-americana em Atenas possuía muitos membros de Boston, e um ano depois acontecia a primeira edi-ção da hoje histórica Maratona de Boston. Coincidência? Além disso, a modalidade fora incorporada ao programa oficial das Olimpíadas.
Enquanto isso, Spiridon fora eleva¬do à categoria de herói nacional. Pro¬curado pelo rei, lhe foi oferecido o que ele quisesse. Não há consenso sobre o que o aldeão de Amarroussion tenha escolhido. Muitas histórias foram criadas, nenhuma comprovada, des¬de a clemência a um suposto irmão preso, até um pedido humilde de uma carroça melhor e um cavalo mais vi¬goroso para transportar água.
O fato é que, para desespero de seus concorrentes corredores, que busca¬vam a ascensão socioeconômica atra¬vés desta competição, Louis continua¬ria na mesma condição social até sua morte e não houve mais notícias de outras competições de que tenha par¬ticipado. E mesmo só correndo duas maratonas, sendo apenas uma oficial, e no espaço de cinco dias, ele conquis¬tou mais do que muitos maratonistas ao longo dos séculos 20 e 21
da imprensa levou a que outras provas do mesmo gênero começassem a aparecer em outros países, indepen-dentemente das Olimpíadas, mesmo que carecessem de lastro histórico.


PROLIFERAÇÃO DE MARATONAS. Ela passou a significar para muitos um ato possível de superação do homem, criando um encantamento e uma de¬manda de certas parcelas da socieda¬de. Isso pôde ser visto alguns meses depois daquele 10 de abril de 1896, quando já se tem notícias da criação de provas similares para além da Grécia: na França, Estados Unidos, Noruega, Hungria e Dinamarca.
Além desses países, até a virada do século, Alemanha, Itália e Sué¬cia já organizavam suas maratonas particulares. A delegação norte¬-americana em Atenas possuía muitos membros de Boston, e um ano depois acontecia a primeira edi-ção da hoje histórica Maratona de Boston. Coincidência? Além disso, a modalidade fora incorporada ao programa oficial das Olimpíadas.
Enquanto isso, Spiridon fora eleva¬do à categoria de herói nacional. Pro¬curado pelo rei, lhe foi oferecido o que ele quisesse. Não há consenso sobre o que o aldeão de Amarroussion tenha escolhido. Muitas histórias foram criadas, nenhuma comprovada, des¬de a clemência a um suposto irmão preso, até um pedido humilde de uma carroça melhor e um cavalo mais vi¬goroso para transportar água.
O fato é que, para desespero de seus concorrentes corredores, que busca¬vam a ascensão socioeconômica atra¬vés desta competição, Louis continua¬ria na mesma condição social até sua morte e não houve mais notícias de outras competições de que tenha par¬ticipado. E mesmo só correndo duas maratonas, sendo apenas uma oficial, e no espaço de cinco dias, ele conquis¬tou mais do que muitos maratonistas ao longo dos séculos 20 e 21.

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