Revista Contra-Relógio
// Brasileiros lá fora //

Sol brilha em Boston

Edição 272 - MAIO 2016 - ANDRÉ SAVAZONI

O clima esteve perfeito para os espectadores que acompanharam a edição 120 da maratona norte-americana, mas nem tanto para o desempenho dos corredores amadores e da elite.

A mescla entre baixa umidade do ar, calor atípico para a época do ano (20°C na largada) e vento no terço final atrapalharam um pouco os participantes da 120ª Maratona de Boston, no dia 18 de abril. Como tradicionalmente ocorre, o público é enorme ao longo dos 42 km, mas, com um belo dia de sol para quem passou meses enfrentando o frio do Inverno, com céu azul, nada melhor do que ir para as ruas apoiar os participantes. Foi exatamente o que fizeram os moradores da região, além de turistas de diversas partes dos Estados Unidos e do exterior.
O nível técnico acabou ficando abaixo do esperado, com tempos altos dos ganhadores na elite e também dos amadores. De acordo com os números da Boston Athletic Association, organizadora da maratona, foi a segunda menor taxa da década de requalificação para Boston, ou seja, de obtenção do índice para o ano seguinte. Só perdeu para a edição de 2012, quando os termômetros marcaram 28°C na largada, chegando a 34°C ao longo das horas seguintes.
Mas nada disso impediu que os participantes vivessem experiências únicas na centenária e desejada maratona, organizada de forma ininterrupta desde 1897. "Adorei. Foi a maior prova que já participei. Chama atenção a organização e o povo nas ruas, porém, o maior choque de realidade que tive foi o envolvimento dos voluntários durante todo o percurso. Todos fazendo a sua parte, trabalhando, cumprindo com as funções, mas nem por isso deixando de vibrar junto com os corredores que passavam, em uma energia muito boa", disse o assinante Mário Ernesto Chaves, de Caixas do Sul.
Quem também destacou a organização foi o assinante Ricardo Oleinski, de Porto Alegre. "Impecável, principalmente no quesito logística: a coisa certa, no lugar certo, na hora determinada. Além da segurança e da atenção com simpatia aos participantes. Realmente, a cidade abraça a prova, fazendo com que você se sinta muito valorizado. O percurso está longe de ser fácil, porém a maneira com que as pessoas incentivam os corredores ao longo do caminho ameniza a trajetória. Um ponto não muito favorável para mim é o isotônico e a água em copos abertos (uma característica de provas no exterior). Não possuo habilidade para correr a 4:30/km e conseguir tomar água em copo aberto!"

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TODOS OS BRASILEIROS COMPLETAM. Os 155 brasileiros inscritos em Boston neste ano comprovam o crescimento do interesse pela prova por aqui - o Brasil teve a nona "delegação" entre os representantes de mais de 80 países. Desses, 132 apareceram e largaram no dia 18 de abril, e todos completaram. No sábado, no Boston Common (parque localizado na área central da cidade), houve um encontro e um trote de 8 km na beira do Rio Charles entre os brasileiros. Até o maratonista Solonei Rocha da Silva participou. No total, foram 30.741 inscritos na 120ª edição. Largaram 27.487 corredores, com um número de concluintes de 26.639. Destaque ainda para a enorme participação feminina: 14.471 homens e 12.168 mulheres. Os norte-americanos foram 21.024.
Valéria Mello Cattaruzzi, de São Bernardo, estreou em Boston. "Logo no primeiro quilômetro percebi que não conseguiria fazer tempo, se não tentasse escapar daquele mar de pessoas. Cheguei ao ritmo pretendido somente no km 5, mas então decidi que deveria mesmo curtir a prova ao invés de só me preocupar com o resultado. Batia nas mãozinhas de todas as crianças e fui me emocionando com cada uma que encontrava. Quando percebi, estava no km 16 e curtindo muito cada segundo! Quando passei pelo ponto da meia-maratona, até pensei em tentar ser mais rápida, mas aí já tinha perdido totalmente o ritmo. Novamente entrei no clima e fui observando as pessoas, toda a vibração, muito emocionada. Foi tão difícil chegar nessa maratona e cada segundo tornou-se especial. Maratonas têm esse poder, de nos mudar de dentro para fora."
Já a fisioterapeuta Vânia Gasbarro Nascimento, de São Paulo, viveu dois opostos em Boston. No ano passado, muita chuva e frio. Péssimo para a espera na Vila dos Atletas e para o apoio do público, porém, perfeito para correr uma prova de 42 km. Nesta edição, o oposto. "Posso dizer que agora foi uma experiência brilhante em todos os sentidos. Que sol Boston nos proporcionou... Mas essas adversidades nos fazem corredores mais fortes e estrategistas. Posso dizer que a edição 120 me trouxe mais coragem para a vida. Foi muito diferente do sofrimento gélido de 2015, mas com a mesma energia e capacidade de adaptação. No ano passado, rezei por uma manta térmica e agora só esperava o próximo pote de gelo para me refrescar. Até um picolé ganhei no percurso. Foi muito sofrida, mas cada quilômetro fechado deixou a sensação de mérito pela conquista."
O gaúcho Evandro Lirio participou de uma prova grande como Boston pela primeira vez. "O padrão de informações recebidas e o monitoramento até a data da corrida foram elogiáveis. Comunicações em todo o tempo por e-mail e site, bem como o envio de material direto para o Brasil pelos Correios. Chegando em Boston e presenciando a estrutura do evento, fiquei ainda mais admirado. A Expo é algo incomparável, pois tem tudo o que se imagina de materiais e equipamentos para corrida. Impecável o funcionamento da logística no dia da prova. O corredor é o centro das atenções, com transporte, alimentação, conforto e organização em todo o tempo. Larga-se no meio de milhares de pessoas sem nenhum atropelo e podendo desempenhar o seu ritmo da melhor forma possível. Só tenho elogios para toda essa estrutura e fica o gostinho especial de ter lutado bravamente em uma prova bem difícil tecnicamente para correr", destaca Lirio.


A PIOR MAJOR - Guilherme Gaia, do Paraná, tem uma opinião diferente da maioria dos corredores. "A Maratona de Boston significou a realização de dois sonhos para mim: participar da prova mais disputada e cobiçada do mundo, e completar a minha sexta e última da World Marathon Majors: Berlim, Boston, Londres, Chicago, Nova York e Tóquio. A prova foi dificílima, com uma altimetria desafiadora por natureza. Então, o clima resolveu piorar um pouco o cenário, com os 20 graus já na largada", diz Gaia, reforçando que a opinião dele difere da fama da prova.
"O maior desafio, sem dúvida, é a altimetria. Porém, quem vai para Boston já sabe muito bem disso. Você corre os 10-15 quilômetros iniciais em ruas apertadas e muita gente competindo pelo espaço. Os copos de papel são um desastre. Outras Majors também são com copinhos, portanto, esse desabafo é geral. Um fator muito positivo é o público superanimado, que te incentiva por tempo integral. Um diferencial de Boston. A tradição de ser uma prova secular e a busca pelo índice trazem uma mística única! Porém, alinhando todos os fatores - dificuldade da prova, ruas extremamente apertadas, abastecimento fraco, uma feira bem aquém das outras Majors - considerei Boston a pior das seis Majors. Dá orgulho somente pelo fato de terminar, mas eu não voltaria."
Os amigos Alexandre Diniz e José Eduardo Motta Garcia discordam da visão de Gaia. "Prova sensacional. A melhor das 17 maratonas que já corri. Organização perfeita, percurso com o público motivando sempre. Vim pensando que seria grandiosa, mas só conhecendo para sentir mesmo. As crianças estendendo a mão para cumprimentar os corredores pelos 42 km. Você nunca está sozinho, sempre rodeado de pessoas, no meio de uma galera, em qualquer onda, todos com ritmos parecidos. Algo único", afirma Diniz, que estreou em Boston nesta edição 120.
José Eduardo voltou para Boston pela segunda vez seguida. "O clima foi realmente o fator preponderante que levou a maioria dos corredores a fazer um tempo mais alto. Calor acima do esperado. Antes da metade da prova já dava para saber que não seria possível manter o ritmo planejado. Mesmo assim, vivi uma grande experiência. O público esteve muito mais ‘quente' do que no ano passado devido ao belo dia de sol. Apenas para correr que não foi um dia perfeito! A espera na Vila dos Atletas, a animação, a festa, tudo fica muito melhor com o clima favorável. Apenas para performance que não."


ELITE TAMBÉM SOFREU. O clima igualmente influenciou a elite. Tanto no masculino quanto no feminino os tempos foram os mais altos dos últimos anos, inclusive na comparação com os resultados da edição de 2012, quando o calor esteve ainda mais forte. A dobradinha foi etíope, com vitórias de Atsede Baysa (2:29:19) e de Lemi Berhany (2:12:45). Os brasileiros que largaram na elite também fizeram tempos acima dos esperados. Já classificado para a maratona olímpica no Rio, Solonei Rocha da Silva terminou na 16ª colocação com 2:24:54, enquanto César Martins, que competia no Master, foi 50º colocado e terceiro na categoria, com 2:34:02.
Entre as mulheres, a prova de Boston foi simbólica neste ano. Comemorando o 50º aniversário da corrida pioneira, a vitória de Atsede foi um tributo à combinação de persistência e coragem que levou Bobbi Gibb a se tornar a primeira mulher a cruzar a linha de chegada em 1966. No km 35, a etíope estava 37 segundos atrás do primeiro pelotão, que tinha três competidoras. Mesmo assim, em uma recuperação incrível, foi acelerando para, então, perto já do km 40, assumir a liderança para a vitória. Atsede, que comemorou 29 anos no dia 16 de abril, seguiu os passos de Teyba Erkesso (2010), Dire Tune (2008) e Fatuma Roba (1997-1999) para se tornar a quarta maratonista da Etiópia a vencer em Boston.
Ao contrário de Gibb em 1966, ela não precisou correr escondida (pois as mulheres não eram permitidas) nem sair atrás de arbustos para a largada. Além disso, ganhou os mesmos US$ 150 mil dados ao vencedor do masculino. "Eu estava indo no meu próprio ritmo e confiante em alcançá-las o tempo todo", disse Atsede, que tem no currículo vitórias em Chicago (2010 e 2012) e Paris (2009 e 2010).
No masculino, o grande favorito era o etíope Lelisa Desisa, que defendia o título. Todos sabiam disso. Até o compatriota Lemi Berhany. "Eu estava com medo do Desisa. Fiquei esperando para ver o que ele iria fazer. Vim para ganhar a corrida, não para correr rápido", afirmou o primeiro colocado. No dia lindo de sol que trouxe milhares de espectadores ao longo do trajeto, as multidões que alinharam nas cidadezinhas do percurso Wellesley e Newton viram o controle de Hayle sempre ao lado de Desisa. O equilíbrio foi até o km 40. Então, Hayle foi abrindo dois, depois dez e chegou a 20 metros na frente. Não havia como reagir. "A Maratona de Boston é diferente de qualquer outra do mundo", afirmou Desisa. Essa definição vale tanto para a elite quanto para os amadores.
Mais informações e resultados completos em www.baa.org.



Qualificação para 2017
A frase de Iberê de Castro Dias, de São Paulo, um dos 132 brasileiros a completar Boston neste ano (a terceira vez dele), exemplifica bem a mística da maratona e do sobe e desce do percurso. "A prova mais legal do mundo. Se você tem índice, não perca a chance. Se não tem, vá atrás dele. Vale cada fibra muscular estropiada".
Por sinal, a janela de obtenção de índice está aberta. Começou em 19 de setembro do ano passado e vai até meados de setembro deste ano (o calendário de inscrições ainda não foi divulgado oficialmente). Vale qualquer maratona oficial, ou seja, precisa ter a chancela na confederação de atletismo do país.
Aqui no Brasil, nos próximos meses, há três possibilidades de obtenção dos tempos por faixas etárias e que podem ser conferidos em www.baa.org. As maratonas do Rio de Janeiro (29 de maio), Porto Alegre (12 de junho), em que o editor da CR Tomaz Lourenço será um dos que vai tentar a qualificação, e São Paulo City Marathon (31 de julho) - as duas últimas com inscrições disponíveis até o fechamento desta edição.



Quinta vez
Andre Savazoni fez sua quinta maratona seguida em Boston este ano, completando em 3:03:34. Sua paixão pela prova acabou contagiando a esposa Mari, que se qualificou com folga e lá estreou nesta histórica 120ª edição, com o tempo de 3:37:38.


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