Revista Contra-Relógio
// Como funciona //

Seu coração durante a corrida

Edição 216 - SETEMBRO 2011 - FERNANDO BELTRAMI

Entender como funciona nosso órgão mais importante faz com que se valorize os exames preventivos e que devem ser periódicos por quem pratica qualquer esporte. Na corrida, dizem pesquisas recentes, quanto mais intensa e longa for, maior o benefício para o coração.

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Correr faz bem para você, para a sua saúde, para o ego e até mesmo para a sua vida social. Essa frase e suas variantes estão na ponta da língua de todo corredor, ou troque o "correr" por outro esporte e estamos falando de qualquer pessoa que pratique alguma atividade física. A frase, felizmente, é verdadeira. No entanto, o exercício também traz riscos à saúde, não somente do ponto de vista de lesões musculares e articulares, mas complicações muito mais graves, como as cardíacas. Muitos dos males cardíacos e circulatórios são chamados de "silenciosos" porque não apresentam qualquer sintoma, a menos que se realizem exames específicos para se procurar por eles. Por forçar o organismo a trabalhar em alta intensidade, o exercício pode vir a potencializar o aparecimento de alguns desses males, como são os casos de morte súbita que eventualmente ocorrem durante eventos esportivos.


Mesmo sendo raras, a ocorrência de complicações cardíacas e circulatórias durante o exercício é uma realidade, e corredores e esportistas devem (ou deveriam) possuir um mínimo de conhecimento sobre o que acontece com este órgão durante o exercício, além de saber que os batimentos servem de guia para a intensidade de corrida. Talvez entender um pouco mais sobre o coração seja o que falta para convencer algumas pessoas a adotar um estilo de vida mais saudável e fazer exames médicos rotineiramente.



ESTRUTURA BÁSICA DO CORAÇÃO. O coração humano (nem todos os animais possuem a mesma estrutura) possui quatro câmaras, como se fosse dividido por uma linha horizontal um pouco acima da metade e uma linha vertical. As duas câmaras de cima são chamadas átrios, e as de baixo são os ventrículos. No átrio direito chega o sangue "sujo" (com pouco oxigênio) vindo das veias do corpo. O sangue passa do átrio direito para o ventrículo direito, e de lá para os pulmões. Nos pulmões o sangue é enriquecido com oxigênio e volta para o coração, para o átrio esquerdo. Esse processo aliás é conhecido como pequena circulação. Dali o sangue vai para o ventrículo esquerdo, que é o que possui a maior capacidade de todos os quatro. Do ventrículo esquerdo o sangue segue direto para a artéria aorta, que é a avenida principal de distribuição de sangue, e dela saem todas as outras artérias.


A função elementar do coração é transportar todos os materiais contidos no sangue, o que não é pouca coisa. O aumento e diminuição da frequência cardíaca ocorrem para que se mantenha a pressão arterial. Isto porque determinadas regiões que estejam precisando de sangue, seja por necessidade de oxigênio ou de eliminar sub-produtos tóxicos, irão dilatar suas artérias para receber mais sangue. Com essa dilatação, a pressão nos vasos cai, e uma resposta reflexa é ativada para aumentar nossa frequência cardíaca. Este mecanismo é essencial porque se a pressão for muito alta os vasos podem romper e se ela for muito baixa o sangue pára de circular.


Durante o repouso, o coração bate por cerca de 60-70 vezes por minuto, e a cada contração (sístole), ejeta cerca de 60-100 ml de sangue, resultando num débito cardíaco (a quantidade total de sangue bombeada por minuto) de cerca de 5 a 6 litros por minuto. Em condições de exercício esses números se multiplicam drasticamente; a frequência cardíaca chega perto dos 200 batimentos por minuto e o débito cardíaco a valores na casa dos 20-25 litros por minuto, havendo registros de atletas com débitos cardíacos de cerca de 35 litros por minuto!


Por possuir estas quatro câmaras, que se contraem separadamente (primeiro os átrios, depois os ventrículos, formando a batida "dupla" que se sente em frequências mais elevadas), e por essas contrações serem o resultado de estímulos elétricos, da mesma forma que os músculos esqueléticos, o processo de contração cardíaca deixa um traço particular, que é medido durante eletrocardiogramas, ou ECG. Estes testes utilizam eletrodos de superfície (como o seu frequencímetro) para "ler" esta atividade elétrica particular do coração. Não vamos aqui entrar em detalhes das diferentes etapas, ou ondas como são chamadas as diversas fases do ECG. O importante a saber é que é a partir da leitura destas diferentes ondas é que se identificam diversas disfunções cardíacas.



TREINAMENTO E ELETROCARDIOGRAMA. O treinamento físico pode trazer alterações num eletrocardiograma, especialmente o de repouso, que muitas vezes podem ser confundidas com disfunções cardíacas. Isso ocorre porque uma das adaptações ao treinamento é a diminuição da frequência cardíaca basal, pois o coração está mais forte e consegue bombear o mesmo volume de sangue sem bater tantas vezes quanto antes. Para se ter uma idéia, valores de frequência cardíaca basal abaixo dos 30 batimentos já foram medidos em atletas. Essa diminuição da frequência cardíaca pode levar a uma série de alterações no comportamento das tais ondas, que podem ficar um pouco menores ou mais arrastadas, por exemplo, um comportamento típico de corações doentes.


Durante testes de esforço, quando a frequência cardíaca começa a subir, estas alterações desaparecem (enquanto que ficariam ainda mais evidentes em uma situação patológica). Porém é extremamente importante salientar que isso não quer dizer que uma pessoa ativa possa desmerecer qualquer alteração em seus testes. É preciso investigar mais a fundo cada anormalidade apresentada, a fim de que se evite classificar uma pessoa como apta a se exercitar ou não, de forma inadequada.


Se por um lado algumas destas alterações desaparecem por serem ilusões criadas por um coração mais forte, outras alterações só surgem durante o esforço, como consequência real de um coração mais fraco. Como vimos, durante o exercício o coração é forçado a bombear volumes de sangue três, quatro ou até cinco vezes maiores que aqueles de repouso, e com este esforço extra as disfunções começam a aparecer.


Minha primeira experiência como pesquisador foi bastante ilustrativa nesse sentido. Estava trabalhando como auxiliar num projeto que envolvia treinos de corrida para homens destreinados por um período de 12 semanas. Durante o teste de esforço inicial, que foi feito com ECG completo, um de nossos potenciais participantes foi diagnosticado com uma grave disfunção cardíaca, e poucos dias depois, ao invés de estar correndo na pista, ele estava se operando. Este participante era (ainda é!) uma pessoa de aparência completamente saudável, e se não tivéssemos o ECG de esforço inicial ele possivelmente teria iniciado o programa de treinamento.



ESTUDOS RECENTES. O coração é talvez o órgão que mais se beneficia da prática de exercícios, mas também é o que se expõe ao maior risco. Felizmente, a balança é altamente tendenciosa para o lado dos benefícios, como apontam diversas pesquisas.


De especial interesse para corredores, duas pesquisas americanas: a primeira revelou que corredores apresentam um nível decrescente de risco cardíaco, de acordo com sua performance de 10 km. Mais importante ainda é que os resultados se mantiveram, mesmo quando ajustados para o volume de corrida reportado pelo entrevistados. Ou seja, quem corre mais rápido apresenta um menor risco, independentemente do volume semanal realizado.


Já a segunda pesquisa, que na verdade analisou o mesmo banco de dados, mostrou que quando se analisou somente o volume de corrida, cada quilômetro por dia representou 5% de diminuição no risco de doenças coronarianas, 7% de redução no risco de infarto do miocárdio e 5 e 10% de diminuição para as chances de procedimentos de revascularização e ocorrência de angina (dor aguda no peito em decorrência da falta de oxigênio no coração). Ou seja, ganha-se por correr mais e por correr mais rápido.


Existem vários outros trabalhos mostrando os efeitos benéficos do exercício - e a corrida é frequentemente utilizada nestes estudos pela abundância de praticantes - utilizando os mais diversos parâmetros. Há relações entre diminuição de risco e a quantidade de treinos de alta intensidade, quantidade total de atividade física realizada e quantidade de energia gasta e até mesmo a diminuição da frequência cardíaca de repouso, que falamos acima, representa uma proteção contra doenças cardíacas. Mesmo com essas evidências a favor de um treinamento mais intenso, o coração continua respondendo positivamente a atividades mais moderadas, como caminhada sistemática e subida de escada.



O QUE PODE DAR ERRADO. Um estudo de 2004 reportando a autópsia de cinco corredores que tiveram morte súbita enquanto corriam, apontou que todos eles morreram de infarto agudo do miocárdio. Todos os cinco apresentavam mais de 75% de obstrução das artérias coronárias (que são as artérias que levam o sangue rico em oxigênio que o coração utiliza para se contrair). Quatro deles haviam tido episódios silenciosos de infarto (quando a pessoa não percebe que infartou), e quatro também apresentavam quadro de colesterol alto. Esta obstrução das artérias coronárias é altamente relacionada com os níveis de colesterol, e de forma simplificada ocorre pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias.


Na verdade, o que fica evidente é que estes indivíduos apresentavam o mesmo quadro de alto risco que milhares de sedentários pelo mundo afora possuem; a única diferença é que eles expunham seus corpos a um nível de esforço mais elevado, e sendo estes males "silenciosos", eles possivelmente acreditavam não estar correndo risco algum.


Mesmo com este tipo de ocorrência sendo uma realidade em corridas, um outro estudo nos lembra que apesar das mortes durante o exercício geralmente chamarem muita atenção, pois existe muita mídia em cima destes acontecimentos, a prevalência destes tristes fatos é extremamente rara, na casa de 1 para 50.000, cerca de 1/100 do risco associado a - pasmem - viver, simplesmente. Apesar de as chances serem extremamente pequenas, parece bobagem não se prevenir e correr o risco de ser aquele 1 entre 50 mil.

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