Revista Contra-Relógio
// Contra-Corrente //

Seja seletivo ao se inscrever em provas

Edição 284 - MAIO 2017 - TOMAZ LOURENÇO

No começo da CR fizemos campanhas para que os corredores boicotassem as provas sabidamente ruins, como forma de forçá-las a melhorar. Agora que elas são predominantemente bem organizadas, está na hora de não se inscrever nas que cobram taxas exorbitantes.

A revista recebe e-mails (como o publicado nesta edição) e telefonemas de leitores reclamando dos preços das inscrições e nossa resposta costuma ser que o melhor caminho é simplesmente não participar, fazendo valer a lei da oferta e procura. Ou seja, enquanto organizadores estabelecerem valores altos e terem as vagas preenchidas, vão continuar na mesma linha, e estão certos, do mesmo modo daqueles que promovem um show caro, mas têm os ingressos esgotados.
Algumas pessoas ainda têm uma ideia equivocada sobre as corridas de rua. Acreditam que elas existam para estimular e oferecer condições para a prática da atividade física, quando na verdade elas são (com raras exceções) muito mais um evento esportivo-social, montado em resposta a uma demanda surgida na sociedade, que se propõe a pagar por esse serviço.
Lógico que não se pode criticar uma empresa que se empenha para criar um evento de entretenimento saudável, mas que fique claro ter essa iniciativa o objetivo primordial de retorno financeiro, como outro empreendimento qualquer esportivo, cultural, de lazer etc.
Assim, os organizadores têm que se esforçar para conseguir um balanço favorável entre despesas e receitas, visando a obtenção de uma taxa de lucro que justifique o evento. Nesse sentido, fator fundamental para que essa conta seja um sucesso é a quantidade de participantes, porque há uma diluição de custos fixos.

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LUCRO CERTO. O que se sabe é que, atualmente, em função do agigantamento das provas, as taxas cobradas costumam cobrir 200% dos custos dos eventos, isto é, metade da inscrição vai para as despesas e o restante é lucro. Quando se fala de uma prova com menos de mil participantes, a rentabilidade para a organizadora é pequena, mas em uma com 10 ou mesmo 20 mil inscritos a lucratividade chega a milhares de reais.
Isto sem contar os patrocínios, que nem todas conseguem, é verdade, mas por outro lado são cada vez mais raras as que gastam um centavo com a premiação, economia que não existia há alguns anos. Por tudo isso, proliferam organizadores, que não estariam surgindo a todo momento, se as provas não estivessem dando uma excelente lucratividade. Inclusive gente de fora (argentinos, notadamente) estão por aqui, até porque conseguem cobrar valores bem mais altos do que no seus países de origem.
Por outro lado, corridas de rua têm efetivamente uma série de custos "invisíveis", decorrentes de acontecerem em cidades, na forma de taxas e impostos do governo e de entidades. Já as provas ditas de montanha contam com a enorme vantagem de praticamente zerarem essas despesas, ficando na base do "quase tudo que entra é lucro". Até o abastecimento no percurso, que representa um custo razoável na área urbana, não costuma acontecer nesses eventos, ficando por conta do participante, que, aliás, tem que torcer para não sofrer algum mal estar, já que atendimento médico é outra coisa dificílima de encontrar nas de trilhas (mais uma economia...).
Ao contrário de anos anteriores, em que conseguir fechar as contas de uma corrida de rua não era nada fácil (com a premiação em dinheiro praticamente obrigatória e inscrições quase sempre gratuitas), e muitas eram as falhas decorrentes dessa realidade, agora as provas têm a obrigação de serem perfeitas, pois recursos não faltam.


SIMPLES CONSUMIDORES. Uma mudança importante que aconteceu recentemente é que os corredores passaram a ser tratados como simples consumidores de uma prestação de serviço, que é a organização de provas. A própria comunicação entre as duas partes ganhou um reforço nesse sentido, destacando-se que o "investimento" (ou seja, a inscrição) dará direito a determinado kit.
Pouco se fala geralmente sobre a prova em si, como é o percurso, sobre o abastecimento, banheiros e atendimento médico, ficando mais focado no venerado kit, na medalha e outras bobagens. Aqui, mais uma vez, parece que os organizadores dão aos atuais corredores-consumidores o que eles querem e, assim, garantem número maior de participantes e, portanto, um bom lucro.
Um detalhe curioso, que reforça essa ênfase no retorno que se tem ao se inscrever, ou seja, no que se vai "ganhar" ao pagar a taxa, é a busca de se estender ao máximo os vários itens do kit, chegando a alguns absurdos. Um organizador especifica que a inscrição dá direito a "participar da prova" (não é piada!), a "receber o chip" (idem!), a "ter seu tempo final registrado" e por aí vai. Como se fossem favores, como não se tivesse pagando exatamente para isso.


REVIRAVOLTA. Apesar dessa situação, parece que nem todo mundo está gostando de pagar 100 reais ou mais para entrar numa corridinha de 10 km, daí talvez o crescimento dos "pipocas". E em função dessa ainda pequena reviravolta, organizadores passaram o oferecer a opção de kits econômicos (alguns apenas com o número de peito!), decisão que está se mostrando um verdadeiro "tiro no pé", porque a maioria está mais preocupada com o que vai ganhar e não com a prova em si, e muito menos ainda com sua performance.
Aliás, esta postura hoje predominante de participar "apenas para completar", especialmente nas provas de menor quilometragem, nos revezamentos e nas de montanha, é o que explica o crescimento do interesse pela corrida no Brasil, e que os organizadores estão sabendo aproveitar. A questão é saber até quando essa moda vai continuar em ascensão.
Enfim, aos que acham que as inscrições estão com preços exorbitantes (e estão mesmo!), o caminho é fazer um belo treino no domingo, sozinho ou com os amigos, escolhendo de vez em quando uma prova que ofereça algo a mais do que um kit recheado (e que você paga por isso...), para avaliar como está seu condicionamento.

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