Revista Contra-Relógio
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Roseli Machado de campeã da São Silvestre à construtora

Edição 212 - MAIO 2011 - VICENT SOBRINHO

A cidade de Santana do Itararé, PR, de 6 mil habitantes tem como cidadã ilustre Roseli Aparecida Machado, que em 1996 venceu a São Silvestre e numa entrevista logo após a vitória comentou: “A campeã mundial poderia estar aqui hoje, que eu ganharia de qualquer jeito!” Várias lesões e um erro médico a tiraram das corridas, virou treinadora e mais recentemente construtora de casas.


Muitos pensam que Roseli Machado é paranaense, mas ela nasceu em Coronel Macedo/SP e revelou seu amor pela cidade de Santana do Itararé. "Ela é parte do meu coração; foi lá que eu cresci e vivi". O talento para a corrida surgiu na escola de 2º grau em 1985, quando Roseli tinha 17 anos e foi descoberta pelo professor de educação física.

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No início participava de provas entre 5 e 15 km. "Essas corridas de rua eram animadoras e aconteciam principalmente em Londrina, onde eu adorava competir!" Em 1989 Roseli interrompeu sua carreira por causa de uma lesão no joelho; após duas cirurgias e três anos depois retornou às corridas. "Deus me deu o talento e voltei a treinar, querendo sempre chegar na frente".


Antes de vencer a São Silvestre, em 1996, duas provas internacionais estão entre as mais importantes que Roseli gosta de recordar. A primeira é a Boilermaker Road Race, em julho de 1995. "Essa prova de 15 km é até hoje uma das mais famosas corridas de estrada dos EUA; acontece em Utica/Nova York. Lá venci com o tempo de 49:42, tão forte que desde 1995 nenhum latino-americano, homem ou mulher, voltou a ganhar!" A outra é a 10 milhas no Central Park, em 20 abril de 1994. "Ganhei com 53:32 e fiz a melhor marca brasileira para a distância".


No ano seguinte, Roseli Machado realiza o sonho de todo corredor brasileiro, estar numa Olimpíada, em Atlanta 1996. Corre a semifinal dos 5.000 metros, para 15:41.63 e até hoje ela considera essa como a sua maior derrota nas corridas. "Eu estava numa bateria que tinha os melhores tempos, mas, muito confiante, liderei a prova, fiz o papel de coelha e paguei caro; ainda tentei reagir, mas uma atleta espanhola deu uma forte pisada no meu calcanhar e tudo desabou, acabou pra mim". Roseli diz não esquecer jamais, justamente por ser uma prova olímpica, e ressalta: "Sinto por ter sido tão ingênua e imatura correndo na frente, com clima muito quente, que atrapalhava. Eu era muito bem treinada para competir, mas às vezes queria até passar por cima do clima. Duas vezes aconteceu isso comigo em toda minha carreira, em Manaus e Atlanta". Durante a entrevista Roseli deixou claro que não gostava só de vencer; queria também quebrar seus próprios recordes. "Nunca tive dificuldade para me concentrar, sabia o que queria. E tinha certeza dos resultados".


Em 1996, após ser a 22ª na final dos 5000 metros da Olimpíada de Atlanta, Roseli vira a mesa e no último dia do mesmo ano vence a São Silvestre se superando e mesmo mancando nos últimos 2 km definiu que ganharia a prova atirando os óculos para longe. "Foi um momento de superação, gostoso de lembrar, de pura realização!"


Mas logo após sua vitória na São Silvestre sua vida mudou. "Tive uma nova lesão, lutei muito para me recuperar e dessa vez não deu; a recuperação da primeira cirurgia no joelho foi tranqüila, o que não aconteceu com do quadril, nos ísquios, porque houve erro médico e até hoje sinto dores. Lutei para superar essa fase, mas já sentia que não daria mais para treinar como estava acostumada".



DE VOLTA AOS TREINOS, COMO TÉCNICA. Então ela toma uma decisão: "Precisei buscar outras formas de sobrevivência, me tornei técnica de atletismo, procurei outros caminhos, não mais como atleta". Roseli é muito grata aos seus técnicos e cita Antonio Carlos Gomes, Pedrão, Miguel Pereira e o saudoso Asdrúbal Batista. Roseli em especial destaca os dois últimos com quem treinou: "Tanto o Marcão quanto o Carlos Alberto Cavalheiro são meus amigos, competentes, sempre acreditaram no meu potencial e aprendi tudo que sou com eles e tenho o maior respeito e carinho eterno por todos".


Roseli comenta sobre a diferença de se treinar na rua e em pista: "Na pista é onde se aprende a correr e a pensar como se controla o ritmo. Para os atletas que iniciam ou treinam em pista fica muito mais fácil correr provas de rua, enquanto o contrário é mais complicado".


Ela ressalta que os treinamentos realizados em pista são indispensáveis. "Treinar é acumular dados, e se esses forem colhidos numa pista vejo como a melhor forma de avaliar um corredor; esse é o meu estilo de treinar corrida!" Formada em Educação Física, Roseli se efetivou como técnica de atletismo em 2002 e treinou muitos atletas.


Em relação às próximas Olimpíadas, em Londres e no Rio, Roseli diz não ver evolução no atletismo brasileiro. "Enquanto não houver políticas públicas com incentivo aos atletas na base, infelizmente vai continuar isso que temos acompanhado".


E ela dá suas sugestões para uma mudança: "Aumentar o número de praticantes na escola, dar condições para as crianças e incentivá-las com ajuda financeira. Hoje no futebol se vê garotos ganhando 80 mil ao ano, e mais luvas. Creio que as federações e a confederação de atletismo precisam urgentemente criar um grande projeto, no qual os municípios e o estado se responsabilizem em executá-los".


Mesmo residindo em Curitiba há muitos anos, Roseli retorna com freqüência a Itararé para visitar a mãe. Ela já foi convidada para ocupar algum cargo político na cidade, mas está postergando qualquer decisão nesse sentido. "Atualmente estou envolvida demais com minhas construções. Já dei minha contribuição como atleta e até como treinadora e no que trabalho hoje me completa bastante e me deixa feliz".


Perguntada sobre se voltaria a correr novamente, disfarçou: "É difícil, ainda sinto dores na cirurgia mal sucedida, mas mesmo assim, sempre quando posso, dou uma corridinha de leve".



ELA ME ENSINOU AS PASSADAS PARA VENCER



A ultramaratonista Zilma Rodrigues, 26 anos, de Curitiba, é publicitária. De passagem por São Paulo, para estudar e estagiar numa agência de marketing, contou-nos sua experiência com a técnica Roseli Machado e sobre a sua paixão pela corrida.


"Fiz minha primeira prova de 10 km em São José dos Pinhais, em setembro de 2003, gostei e logo na outra semana, mesmo acima do peso, já estava em outra prova maior. Em menos de um mês estava treinando para uma meia, mas acabei fazendo uma maratona, a de Curitiba, em meados de novembro". Ela completou em 4h44 e escutou de seu treinador da época que com aquele peso jamais correria abaixo de 4 horas. "Até ele me falar aquilo confesso que não tinha tanto compromisso com a corrida. Mas mexeu com meus brios, treinei firme para mostrar a ele que podia e fiz 3h57" em Curitiba 2004.


Animada com o resultado Zilma cria novos horizontes e começa a treinar para os difíceis 50 km de Urubici em 2007, prova que para ela serviria como preparação para um objetivo ainda maior, o desafio dos 90 km da primeira Comrades na Africa do Sul, em 2008. "Eu sabia que precisaria levar mais a sério, e foi em 2007 que cheguei até a treinadora Roseli Machado, indicada pelo meu patrocinador."


No primeiro encontro Zilma faz um pedido a Roseli: queria concluir a maratona de Curitiba sub 3h30. "Roseli estava sempre de olhar atento, ficava em pé na beira da pista marcando voltas, corrigindo minha postura; treinei muito, perdi peso, melhorei minha técnica de corrida. A primeira coisa que ouvi quando comecei a treinar com a Roseli é que eu não agüentaria a primeira semana... mas me superei".


E chegou o grande teste: a Maratona de Curitiba em 2007. "Larguei muito confiante, até chegar aos 30 km, quando percebi que não conseguiria correr para 3h30 e então apenas completei, bastante frustrada. Na terça-feira a Roseli me chamou na beira da pista e disse: Agora cabeça erguida porque temos que treinar para os 50 km. Aí fui para Rio Grande, em fevereiro de 2008, e fiquei em 7º lugar geral com o tempo de 4h26. Nesse mesmo ano estreei na Comrades com 9h56 (8h59 em 2009) e na Maratona de Curitiba consegui finalmente completar em 3h26, o que foi inesquecível".

6 Respostas para “Roseli Machado de campeã da São Silvestre à construtora”

  1. É verdade, treinar com a Ro é difícil mesmo, ela pega pesado, mas a gente supera, mas ela sabe oq está fazendo, e no final a gente agradece…Bjs à ela!!!!!

  2. Roseli Machado, esta mulher jamais saira da minha cabeça, excelente treinadora, competente que nenhum treinador chegou a nivel dela, se não me engano com 43 anos de idade fazia 35minuto no 10km, baixei o meus 10km para 32:30 foi com o treinamento dela, totalmente disciplinada, varios treinadores me treinou não conseguiu o que ela fez, se pudesse encontrar ela pediria ela a me treinar novamente, parei por 4 anos, problema de pubalgia, medico da minha cidade não sabia o que era, foram anos de dores, até que conheci o medico de curitiba dr flavio mattuella, resolveu meus problemas agora eu voltei a correr, na minha categoria sempre sou campeão voltei a correr forte novamente,Roseli o meu celular é este 42 48064738, ou no meu e-mail a9d4@hotmail.com, vc lembra dele é o marquinhos do correios entre em contato comigo, obrigado bjos.

  3. Sim…a Roseli é uma mulher batalhadora, simples, muito determinada e persistente, por isso venceu competições tão importantes!
    Enfim, esta grande atleta que soube representar tão magnanimamente nosso País aqui e frente ao mundo, assim, deixou seu legado que deve servir de incentivo à garotada que tá iniciando nesta carreira do atletismo, que é árdua e pouco apoiada até o presente.
    Roseli perdemos o contato mas aí está meu e-mail (simoes.cleusa@hotmail.com) C.J.
    Grande abraço e sucesso a vc!

  4. Gostaria do contato da Roseli Machado ela foi minha treinadora em Angatuba. Aguardo retorno. abç

  5. De vez em quando vejo a Roseli treinando seus alunos aqui no Parque Barigui. É uma honra para os curitibanos.

  6. […] o que mais saiu sobre a Ultra Zilma na Contra […]

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