Revista Contra-Relógio
// Como funciona //

AFINAL, QUE MEIA (DE COMPRESSÃO) É ESSA?

Edição 174 - MARÇO 2008 - MÁRCIO DEDERICH

Meia elástica sempre foi coisa de mulher grávida. Ou então de gente que trabalhava em pé durante muito tempo. De uns anos para cá, usadas como auxílio ergogênico para aumentar o desempenho esportivo de atletas, elas passaram a ser vistas também nos campos de futebol, nas quadras de basquete, em triatletas, ciclistas e até em campos de golfe. Entre corredores a “garota-propaganda” é Paula Radcliffe, a melhor maratonista do mundo.


Atual recordista mundial de maratona (2:15:25, Londres 2003), Paula começou a usá-las na temporada 2000. Da cor da pele e do tipo três quartos (vão até abaixo do joelho), as meias esportivas de compressão passaram a fazer parte do visual da campeã. Segundo seu próprio depoimento, ao usar as meias durante a fase de testes, ela percebeu uma grande diferença após as corridas mais exaustivas, tanto nas pistas como nas ruas. Suas panturrilhas ficavam menos propensas ao enrijecimento e a recuperação era mais rápida. "As meias de compressão ajudam meu sistema linfático a drenar o ácido lático do sangue e das pernas", disse em entrevista à CNN/Sports Illustrated, em agosto de 2001.
Quatro anos depois, comentando para a BBC o uso das meias por Paula, o cientista esportivo Nick Morgan, do Centro de Performance Humana e Lesões Esportivas de Lilleshall, Inglaterra, afirmaria que graças a elas a produção de ácido lático já não era mais um problema para os maratonistas, e que sua contribuição para a recuperação pós-prova da atleta era notável. Na mesma oportunidade o treinador Fred Wooding (então com 40 anos de experiência) afirmou que as meias de compressão eram um recurso particularmente importante para Paula nas provas de longa duração.
Será a verdade de Paula Radcliffe válida para os demais corredores mundo afora? Serão as meias de compressão benéficas a todo e qualquer corredor? Trarão elas resultados positivos em todos os tipos de prova? O assunto é polêmico e bastante controverso. Confira a seguir.

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Fisiologia das corridas
Antes de começar a falar a respeito das meias de compressão, é interessante refrescar um pouco a memória com relação ao trabalho de um ponto do corpo humano diretamente envolvido na corrida: a panturrilha.
O coração é o responsável primário pelo bombeamento do sangue, que logo a seguir será distribuído por todo o corpo pelo sistema arterial. Cabe ao sistema venoso, cuja principal estrutura são as veias, captar e trazer o sangue de volta ao coração. Depois de oxigenado nos pulmões, um novo ciclo irá se repetir. As veias, por sua vez, possuem válvulas direcionais. São essas válvulas que orientam o fluxo sangüíneo para cima, já que pela ação da gravidade a tendência normal do sangue seria acumular-se em baixo.
A cada passada, ao se contrair e relaxar, os músculos da panturrilha atuam pressionando as veias, ajudando a forçar a subida do sangue de volta ao coração. Na prática e em termos simples, operando em conjunto com outras partes do corpo, a panturrilha funciona como uma espécie de bomba secundária de recalque do sangue venoso. É isso.


A ação das meias de compressão
Como peça do vestuário, a função primordial das meias é proteger. Mas meias de compressão não se satisfazem com tarefa tão banal. Vão além. Fazem algo mais. "Ao mesmo tempo em que comprimem, elas atuam massageando os músculos. A combinação dessas duas ações com outras faz com que a bomba venosa muscular da panturrilha opere de forma mais eficiente. Assim, além de estimular a volta do sangue ao coração, as meias de compressão trabalham aumentando efetivamente o volume desse retorno", afirma o médico Marcondes Figueiredo.
Doutor pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular - SBACV, Marcondes já teve oportunidade de analisar em laboratório os resultados produzidos pelo uso das meias de compressão. "A compressão exercida por elas é graduada, sendo maior na região pé-tornozelo e diminuindo à medida que se aproxima do joelho (no caso de meia tipo três quartos) ou da coxa (tipo sete oitavos). Usando a pletismografia, tive oportunidade de demonstrar que a meia de fato potencializa a bomba da panturrilha, mas que seu efeito cessa após ter sido retirada. O estudo foi feito em pacientes com patologia venosa, não em pessoas saudáveis", ressalta Marcondes.
No entanto, apesar de reconhecer os grandes benefícios das meias de compressão, quando se trata de vê-las calçadas em pernas atléticas, Dr. Marcondes põe o pé atrás: "Qualquer que seja a prova, o uso de meias terapêuticas não tem indicação para corredores que não apresentem patologia. Velocista ou fundista, entendo que usa quem precisa usar. E isso com boa indicação médica".
Coordenadora da disciplina de Angiologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, a professora Marília Duarte Brandão Panico forma na mesma equipe. Para ela o retorno venoso em pessoas saudáveis, que não possuam alterações nas veias, ocorre de forma natural, não havendo respaldo fisiopatológico que comprove melhoras no desempenho esportivo com a utilização de qualquer tipo de compressão elástica. "O uso indiscriminado poderá inclusive atrapalhar. A meia que não estiver adequada ao atleta irá causar lesões de pele secundárias ao atrito. Quanto maior for o tempo de atrito, maiores serão os danos", afirma.


O uso por pessoas saudáveis
Embora existam aplicações com algodão, na sua maioria as meias de compressão são produzidas a partir de fibras sintéticas de poliamida e elastano. Instalada em Jundiaí, próximo à capital paulista, a multinacional suíça Sigvaris produz meias cujas classes variam de acordo com as faixas de compressão. Na classe I a variação vai de 15 a 20 mmHg (milímetros de coluna de mercúrio), chegando na última classe a valores entre 40 e 50 mmHg, isto somente no modelo com tornozeleira. Para efeito comparativo vale lembrar que a pressão arterial sangüínea humana normal é ao redor de 120 x 80 mmHg.
Confeccionados em série e de forma padronizada, os modelos três quartos podem ser encontrados no mercado nos tamanhos P, M, G e GG, disponíveis nos comprimentos curto, normal e longo. Embora varie de produto para produto, seguidas todas as recomendações de uso e conservação, as meias medicinais tem sua compressão garantida por quatro ou seis meses. De acordo com a Sigvaris, atualmente ainda não é possível produzir uma meia de compressão "sob medida" (aplicação individualizada) a preço acessível. Mesmo não dispondo de estudos que comprovem a melhora hemodinâmica em usuários sadios, a Sigvaris entende que para tais indivíduos o uso será vantajoso principalmente em relação ao aumento da fração de ejeção.
Presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, Regional Rio de Janeiro - SBACV-RJ, Ivanésio Merlo pensa de forma semelhante, não vendo desvantagens quanto ao uso por pessoa sã, desde que sob orientação médica, devendo a prescrição levar em consideração, de forma individualizada e específica, tanto as regiões-alvo e o grau de compressão como a circunferência e o comprimento das pernas. "Assim como não se deve indicar um mesmo modelo de tênis para todos os corredores, não se pode recomendar meias de compressão genéricas", compara ele.
No entendimento do Dr. Ivanésio, os benefícios serão possivelmente maiores no caso do uso por fundistas profissionais, cujas provas muitas vezes são definidas nos pequenos detalhes. Como as meias de compressão atuam principalmente em parte do sistema venoso periférico, e sendo esse sistema responsável por apenas 5% de todo o retorno venoso, estaria aí uma diferença. "Seja como for, essas considerações carecem de um estudo científico mais apurado", salienta Ivanésio.


Meias de compressão para uso esportivo
O esporte é, em si, benéfico para o retorno venoso. Mas isso só acontece sob certas condições, que raramente são encontradas na prática rotineira. Por exemplo, o tipo de esporte, sua duração, o nível de condicionamento físico do atleta, a falta de treinamento e a insuficiência de repouso podem interferir na situação venosa a ponto de provocar tanto lesões como queda de rendimento.
Durante a contração muscular forte e rítmica, o sistema venoso profundo se beneficia da compressão que sofre por parte da musculatura, o mesmo não acontecendo com as veias superficiais, que carecem de tal apoio. "Como a pele é um elemento pouco resistente, atuando como um anteparo, as meias cumprem perfeitamente essa função, protegendo e impedindo a dilatação das veias quando há o aumento substancial do volume sangüíneo durante a prática desse tipo de atividade física", esclarece a Dra. Cleusa Belczak.
Co-autora do "Tratado de Flebologia e Linfologia", membro do Grupo Internacional de la Compresión e Doutoranda em Cirurgia Geral pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Cleusa Belczak não acredita que o desempenho de atletas saudáveis possa exatamente melhorar com o uso de meias de compressão, mas afirma que essa seria uma medida a favor da preservação do capital venoso periférico do indivíduo. "Sabe-se que o esporte competitivo é fator de risco para o desenvolvimento de hipertensão venosa crônica no sistema superficial dos membros inferiores, daí surgindo as chamadas "Varizes dos Esportistas'. O uso das meias de compressão reduz esse risco", diz a médica.
Embora velocistas corram provas de curta duração, e fundistas passem horas correndo, Dra. Cleusa afirma que mesmo saudáveis e sem indicação terapêutica para o uso de meias de compressão, nenhum dos dois tipos de atleta terá prejuízo caso decida usá-las. "A contensão elástica certamente diminui a sensação de cansaço e de peso nas panturrilhas, e isso só pode favorecer o desempenho, principalmente dos fundistas. As meias de compressão aceleram de fato o retorno venoso. Este fenômeno deve, por sua vez, promover uma diminuição do esforço cardíaco, que conseguirá então mandar sangue arterial para a periferia com um menor número de batimentos. O problema está em medir, em quantificar, em dar números confiáveis a tudo isso que em nosso entendimento dedutivo parece ser absolutamente verdadeiro", conclui.


Os números, onde estão os números?
Nascido em Viena, na Áustria, em 1938 e tendo mais de 360 trabalhos publicados, Dr. Hugo Partsch é considerado atualmente a maior autoridade mundial em Flebologia e Linfologia, ramo da medicina que estuda as enfermidades que acometem as veias e os linfáticos. Perguntado se o uso de meias de compressão por atletas poderia de fato aumentar o VO2 máximo e reduzir o ritmo cardíaco, Dr. Hugo disse à CR em 31 de janeiro o seguinte: "Infelizmente não posso responder. Não tenho conhecimento sobre dados que confirmem o que dizem os fabricantes. Isso não significa que não acredite que a compressão tenha valor para o esporte. Mas acreditar não basta. Precisamos encorajar os fabricantes a fazer pesquisas e não simplesmente distribuir opiniões".
Citado no Estudo Piloto Oxysox, James M. Pivarnik foi um dos precursores nos estudos envolvendo o uso esportivo das meias de compressão. Em julho de 95, trabalhando no Laboratório de Pesquisas em Energia Humana da Universidade de Michigan e pesquisando alunos sadios, teria demonstrado que as meias Oxysox (marca comercial) aumentavam o VO2 máximo entre 2 e 2,5%. Entramos em contacto com o Dr. Pivarnik e fizemos a ele as mesmas três perguntas dirigidas ao Dr. Hugo. Em 1º de fevereiro ele nos respondeu nos seguintes termos: "Não tenho trabalhado com esse tipo de meia há muitos anos, e só o fiz nas etapas iniciais. Assim sendo, não sou provavelmente a melhor pessoa a ser perguntada a respeito. Desculpe". Para um precursor, foi pouco. Foi mal.
Michael P. Caine também pesquisou as meias de compressão. Fez isso trabalhando com o Grupo de Pesquisa de Tecnologias Esportivas da Universidade Loughborough, Inglaterra. Na ocasião teria demonstrado, entre outras vantagens, que o uso das meias possibilitava correr mais rápido com freqüência cardíaca mais baixa. Também falamos com ele. Em 7 de fevereiro as respostas vieram em frases curtas: "Não tenho conhecimento de nenhuma pesquisa mostrando aumento de VO2 Max. Meias médicas de compressão graduada aumentam o retorno venoso, reduzindo a freqüência cardíaca desde que o débito cardíaco se mantenha inalterado. A meu ver os maiores benefícios são a limpeza metabólica dos músculos fatigados e a redução dos danos mecânicos devido às vibrações, ambos levando à redução das dores musculares". Nada de números.
Enquanto os números não aparecem e as teorias carecem de confirmação, se no começo desta matéria você ainda tinha esperanças de que a maravilhosa meia poderia transformá-lo num campeão tipo Paula Radcliffe, agora que a leitura chegou ao final e a meia verdade apareceu, talvez esteja na hora de parar de sonhar e começar a levar os treinos mais a sério. Fazendo isso seus resultados certamente serão mais garantidos. Seja como for, não esqueça: caso pretenda experimentar as meias, converse antes com seu médico.


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