Revista Contra-Relógio
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Por que você corre?

Edição 270 - MARÇO 2016 - ANDRÉ SAVAZONI

Em uma prova, todos estão para lá para completar, mas cada um com sua motivação.

O que leva as pessoas às corridas? Para quem já corre há algum tempo, o pensamento em relação ao esporte é o mesmo do início? Com o aumento dos corredores no Brasil, em treinos ou provas, o esporte ficou ainda mais democrático e com inúmeras tribos. Dá para perceber os que correm para emagrecer, pela qualidade de vida, pela diversão, pelas amizades, pelo prazer, pelo desempenho, para completar os primeiros 5 km, uma meia-maratona, chegar aos 42 km... os motivos são os mais variados possíveis.
Assim, conversamos com corredores de diversos cantos do país e fizemos a mesma pergunta: "Por que você corre? Quais os seus objetivos?" Algumas respostas são parecidas, mas com os depoimentos temos a noção de como o esporte é abrangente, motivador e prazeroso.

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Mudança de vida
"Depois que comecei a correr, ganhei qualidade de vida, disposição, novos amigos, vitalidade, motivação e disciplina. A corrida tornou-se um estilo de vida e a cada novo treino tenho vontade de sempre melhorar e buscar novos objetivos."
Rodrigo Vichi, de Campinas


Para ser feliz
"Sabe aquela história que tem tudo pra dar errado e no fim acaba dando certo? Então, o meu relacionamento com a corrida foi mais ou menos assim...
Aos 30 anos de idade eu era totalmente sedentária, envolvida em uma rotina frenética e enlouquecida de diretora de criação em uma agência de publicidade, à noite professora de faculdade e nas horas vagas mãe de 3 filhos, esposa etc. Sempre fui magra, então nunca me preocupei em fazer exercício para manter a forma. Quando alguém tocava nesse assunto a resposta já vinha pronta: "não preciso e não tenho tempo pra fazer mais nada", e ponto final.
Foi então que comecei a perceber a Lei da Gravidade fazendo efeito na frente do espelho, e resolvi ir para a academia às 6h, pois era o único horário que eu tinha livre. No começo aquilo era uma tortura... acordar às 5h30 era algo inimaginável para mim. Aos poucos meu corpo começou a se adaptar ao horário, então nos dias que eu não ia para a academia, arriscava fazer uma caminhada ao redor do quarteirão, mas correr nem pensar!
Eis que um dia minha cunhada, me ligou dizendo que tinha me inscrito em uma prova. O domingo chegou com 10 km pela frente, e eu quase morri! Trajeto cheio de subidas. Meu marido, na época namorado, ficou na metade do percurso para me entregar isotônico e, quando o vi pensei, ‘vou ficar por aqui mesmo'. Fiquei tão envergonhada de desistir que continuei. É claro que fui uma das últimas a chegar, não me lembro ao certo, mas acho que fiz os 10 km em 1h40. Prometi que nunca mais me metia nessas ‘furadas', mas na próxima corrida lá estava eu de novo, arrastada pela ‘cunhadaloucadascorridas'.
Assim, as corridas foram ficando mais frequentes, e quando eu estava tomando gosto pela coisa, surgiu um vilão na minha vida: o joelho maldito. Ele chegou querendo destruir meu caso de amor com as pistas. Pausa nos treinos, fortalecimento na academia e o danado foi me deixando em paz aos poucos. Decidi fazer a Meia do Rio em 2013 e, como minha cunhada engravidou, decidi ir sozinha mesmo. Treinava sozinha, sem assessoria, seguindo planilhas de internet e de revistas especializadas. Fiz longões aos fins de semana até chegar aos 20 km e deu tudo certo! O Rio de Janeiro amanheceu lindo, com um sol de 30 graus derretendo o asfalto e secando minhas lágrimas de emoção. Quando avistei meu ‘namorido' na chegada, desabei... Foram só lágrimas de felicidade. Concluí os 21 km em 2h14.
De lá para cá fiquei ‘impossível', viciei pela adrenalina e entrei para uma assessoria esportiva. Comecei a estabelecer metas. Mas o bandido do joelho voltou a contra-atacar dois meses antes da Meia do Rio de 2014. Fiquei 40 dias sem correr, fortalecendo com bike e academia, e consegui concluir em 2h09. Decidi incluir o Pilates e nunca mais tive problemas com joelho, panturrilha e outros males. Meus próximos desafios: Meia de Santiago em abril, Meia de Porto Alegre em junho e Maratona de Buenos Aire em outubro. Sim, vou encarar os 42 km e já estou com frio na barriga só de pensar!
Célia Alves, de Cuiabá


Pela "alma coletiva" da corrida
"Nunca fui esportista, era a última a ser escolhida nas aulas de educação física. Comecei a correr para emagrecer, achava difícil e não conseguia fazer 100 metros. A corrida é um esporte individual, mas tem ‘alma coletiva'. Quem já participou de provas de rua ou grupos de assessoria de corrida sabe da importância do incentivo vindo de (ou dado a) algum amigo corredor, de anos a fio ou de minutos, feito ali mesmo na pista...
Foi então que me apaixonei por esse esporte maravilhoso! Hoje eu corro porque me faz feliz. Me ajuda a superar meus próprios limites, a ter disciplina e acreditar que com vontade e treino podemos qualquer coisa! Basta querer e se dedicar de corpo e alma."
Juliana Scapim, de Campinas


Disciplina e foco
"Sempre me perguntam por que eu corro e a resposta nunca é simples. Não ganho absolutamente nada com a corrida e ao mesmo tempo ganho tudo. Todo investimento em tênis, GPS, acessórios, grupo de corrida, inscrições em provas etc tem retorno garantido em amizades sinceras, muita diversão, saúde e especialmente aprendizado.
A corrida me ensinou a ser humilde, a evitar comparações com os outros, a perseverar, a ter paciência, a acreditar mais e a respeitar os limites da dor. Com a corrida aprendi que 10 mais 10 não são 20, mas que com determinação, disciplina e foco a gente consegue superar metas que pareciam inatingíveis. E quando uma meta é alcançada, logo surge outra, tão ou mais grandiosa que a anterior, para nos desafiar uma vez mais.
O mundos dos quilômetros nos conduz a almejar sempre mais: mais distância, melhores tempos, maiores desafios. Acho que é isso, então; a corrida é como a vida e durante ela precisamos do nosso melhor para seguir em frente".
Jerusa Burmann Viecili, de Porto Alegre


Os motivos vão mudando
"Sou professor de Educação Física e sempre estive envolvido em diferentes atividades, mas considero que comecei a correr no dia 30 de novembro de 2013. Essa é a data da minha primeira prova. Nesses mais de dois anos, já corri por diversos motivos: emagrecimento foi o primeiro; depois procurei manter meu peso e melhorar a qualidade de vida; bater minhas melhores marcas foi o próximo; alcançar as maiores distâncias foi minha meta em 2015 em que fiz 4 meias, 2 maratonas e uma ultra de 12 horas em que percorri 80 km.
Especificamente este ano, meu objetivo é performance, tanto nas corridas no asfalto quanto nas de trilha. Quero subir no pódio para que meu filho (Miguel, de 6 anos) e minha filha (Alice, de 4) me vejam como um vencedor, mesmo que seja por faixa etária em corridas regionais, pois acredito que isso será positivo para a construção da personalidade e do caráter deles."
Victor Hugo Pereira Franco, de Campos dos Goytacazes


Sem limites
"Quando comecei a correr, em meados de 2009, era para emagrecer, haja vista que estava com mais de 100 quilos. Com a ajuda da corrida, eliminei todo o peso que precisava e com isso ganhei mais qualidade de vida.
Passei então a correr somente pelo prazer que o esporte me proporcionava e logo comecei a disputar provas de rua. Corri as mais variadas distâncias, desde os 5 km até as ultramaratonas. Fiz vários amigos no processo e conheci diversos lugares pelo Brasil, pois fiz a junção de duas coisas que amo: correr e viajar.
Mas chegou a um ponto em que eu refiz essa pergunta. Por que corro? Já tinha atingido meu objetivo inicial da perda de peso e me sentia bem com a corrida, com as amizades que havia feito e lugares que tinha conhecido; mas era pouco, eu queria mais, queria testar os meus limites e superá-los, levar meu corpo ao máximo.
Queria baixar os meus tempos, quebrar recordes pessoais em todas as provas que disputasse... Para atingir tais objetivos procurei a ajuda de um treinador (Marcelo Camargo) e, sob sua orientação, descobri a resposta para a minha pergunta.
Hoje, eu corro contra o relógio, pelo prazer inenarrável que isso me proporciona, pela disciplina que a corrida me dá, pelos amigos que fiz. Além disso, a corrida me proporcionou algo de suma importância: descobrir que não existem limites e barreiras que não possamos superar."
Thiago Prates, de Belo Horizonte


Em qualquer horário e local
"Há praticamente 9 anos, não me imaginava correndo e participando de provas. Me dedicava como amador à natação e às maratonas aquáticas. Com o nascimento do meu primeiro filho, tive de mudar a rotina de atividade física e treinos.
Decidi, então, começar a correr, pois poderia praticar em qualquer horário e local disponível. Assim como na natação, a corrida me levou a desafios e superação pessoal, fazendo novas amizades e conhecendo novos lugares, associando corrida e lazer."
Glenn Ribeiro, de Campinas


Do 1 km aos 21 km
"O fato que gerou a decisão de correr e a motivação de continuar foram as minhas filhas. Nunca me considerei uma pessoa sedentária, já que não era obesa e sempre pratiquei alguma atividade física; no mínimo, musculação, caminhada na esteira, natação. Um belo dia virei mãe. Ainda não corria nada, apenas fazia academia.
Outro belo dia virei mãe de duas. Então veio a ideia e o convite de uma amiga, para participar de uma corrida kids de 1 km, no estilo pais & filhos. Você corre junto com a criança, cada um com uma das pontas de uma fita elástica de um metro amarrada no pulso.
Lá fui eu até confiante, afinal, o que é um mísero quilômetro? Devo ter conseguido acompanhar minha filha, de 6 anos na época, por alguns poucos metros. Aquilo foi um choque de realidade para mim. Meu condicionamento físico era realmente ruim. A partir de então, caprichei mais na esteira, usava aplicativos no celular e muita trilha sonora para me motivar.
Algum tempo depois aceitei novamente o convite dessa amiga para participar de uma prova feminina de 4 km... A experiência foi maravilhosa e me apaixonei pela corrida.
Logo procurei uma assessoria esportiva, tinha medo de correr sozinha na rua e até no parque. Depois de pesquisar na minha cidade onde tinham profissionais capacitados, encontrei um lugar em que me aceitaram como sou, sem me impor nada, mas me ajudando a me conhecer e a encontrar novos objetivos e, principalmente, ampliar meus limites.
Lembro que meu objetivo inicial era completar 10 km. Ao finalizar o segundo ano de treinos, corri a minha primeira meia-maratona. Este ano vou fazer mais uma, no Rio de Janeiro, pois gosto dessas provas grandes, do fato de serem um evento na cidade.
Pretendo fazer também outras provas fora do asfalto, pois foi ‘correndo no mato' que realmente encontrei alegria em correr e não apenas na linha de chegada. Contemplar a natureza e sentir-se parte dela é uma experiência fantástica. "
Juliana de Lucca Crudo Philippi, de Cuiabá


Superação e felicidade
"Eu corro porque descobri nesse esporte que posso ter um aliado de vida e saúde. Porque um dia a depressão, e com ela o aumento de peso, me atingiram e a forma que encontrei de superar isso foi na corrida, onde fiz amigos e vi que posso me superar a cada treino. Na corrida, consegui disciplina e aprendi a me alimentar com qualidade. Por causa da corrida, sou uma pessoa feliz e renovada. Cada dia é uma nova conquista que me motiva a não parar mais."
Adriana Mattoso Prieto Rocha, de Campinas


Pelo meu filho e pela saúde
"Eu e meu filho éramos viciados em uma alimentação rica em gordura e açúcar. Consumíamos pizzas, sanduíches, salgados, doces e diversos outros alimentos do gênero. Éramos totalmente sem controle e nem se falava em atividade física em nossa casa.
Atualmente, temos outro vício, a corrida, e toda a família tem uma alimentação saudável e pratica exercícios físicos regularmente. Agora em maio completarei três anos do meu início nas corridas e 25 quilos a menos. Me inscrevi no Desafio Olympikus-CR 42 km para estrear na maratona. E vai ser na do Rio. E estaremos, eu e meu filho, na Volta da Lagoa deste ano!
Rogério Pinheiro Pereira, de Belo Horizonte



Pela briga contra o relógio


O nome da revista, Contra-Relógio, é a minha motivação na corrida. Claro que, no início, quando parei com futebol e outros esportes, a ideia era qualidade de vida, saúde... como a maioria. No dia em que fiquei sabendo que teríamos um segundo filho, um menino, o Pedro, decidi que o esporte seria apenas a corrida, pois poderia encaixá-la nos horários em que dispunha, sem precisar de alguém ao lado nem regras específicas.
Mas, depois de algum tempo, isso mudou. Me apaixonei pelas maratonas (já são 20) e não tenho, ainda, aquela sensação de correr pelo correr, de curtir os amigos, do lado social, do prazer, que são excelentes e realmente o "carro-chefe" das corridas hoje em dia. Não brigo com ninguém, ou melhor, brigo sim, comigo. Me desafio diariamente. Quero baixar os meus tempos nos 42 km, ainda mais no ano em que faço 42 anos. Se tenho de sair apenas para correr, fico em casa ou vou fazer outra coisa. Preciso da motivação dos intervalados, dos ritmos, dos longos, de brigar por segundos, de cronometrar cada passagem de 200 m na pista de atletismo, de sofrer, de terminar ensopado os treinos. Um dia isso será diferente? Claro! Porém, esse momento ainda não chegou.
Quero seguir em busca do meu limite. Essa briga contra o relógio é o que me faz correr, é o que me dá prazer. Considero sensacional o aumento diário das pessoas correndo. A cada dia tem mais gente vindo para o esporte pela qualidade de vida, pelo emagrecimento, pelas amizades, pelas mudanças no corpo e na mente, mas a minha tribo é outra, uma que está com menos integrantes do que no passado, mas que faz parte dessa bela democracia das corridas! (André Savazoni)

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