Revista Contra-Relógio
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Para entender o esporte paraolímpico

Edição 228 - SETEMBRO 2012 - FERNANDO BELTRAMI

Neste mês de setembro acontecem os Jogos Paraolímpicos de Londres, com a participação de muitos brasileiros, com grandes chances de medalha.

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Os Jogos Paraolímpicos sempre trazem consigo inúmeros debates entre aqueles que defendem o evento e os que acreditam que apenas as olimpíadas "normais" deveriam existir, ou seja, que vença o mais capaz e ponto final. Um exemplo muito citado é o do jogador de basquete que é muito baixo para poder competir no alto nível, e então pela lógica dos Jogos Paraolímpicos deveria haver também uma categoria de basquete para baixinhos.


Os Jogos Paraolímpicos, no entanto, não se propõem a ser somente uma retratação a qualquer injustiça anatômica que a natureza nos tenha causado. A missão do Comitê Paraolímpico Internacional é permitir que atletas paraolímpicos atinjam a excelência esportiva e inspirem o mundo. Não se trata apenas de dar uma chance para alguém em seu esporte favorito, trata-se de resgatar indivíduos para a sociedade, mostrar seus valores e conquistas.


Discussões filosóficas à parte, os Jogos Paraolímpicos crescem a cada edição, seja no número de participantes, na cobertura feita pela mídia internacional ou no nível de performance dos atletas. Para dar uma ideia do crescimento do certae, em 1960, primeira edição dos Jogos, dez países foram representados por 31 atletas no atletismo. Em Pequim foram 1.028 atletas de 111 países.


Contudo, a grande quantidade de categorias, diferentes esportes e regras, ainda causa estranheza em muitos dos espectadores. Atualmente, os Jogos Paraolímpicos de Verão (existem também os de inverno), como agora em Londres, são compostos por 23 modalidades esportivas, dentre elas esportes tradicionais como tiro, atletismo e levantamento de peso; esportes adaptados como o golbol e vôlei sentado; e esportes em cadeiras de rodas, como basquete, rúgbi, esgrima e dança. O atletismo é dividido em provas de pista e de campo, e todas as provas de pista dos jogos tradicionais estão presentes nas paraolimpíadas, com exceção da prova de 3.000 m com obstáculos.



AS MUITAS CATEGORIAS. Como simplesmente fazer um evento à parte para atletas com algum tipo deficiência não é o bastante para eliminar as grandes diferenças em nível de performance, foram criadas categorias de acordo com o tipo de deficiência apresentada pelo atleta, que são posteriormente subdivididas de acordo com a sua severidade. Durante as competições, atletas de diferentes subcategorias podem competir ao mesmo tempo, porém não estão disputando a mesma medalha.


O comitê paraolímpico divide os atletas em seis categorias: amputados, com perda total ou parcial de pelo menos um membro; paralisia cerebral, para atletas com lesões cerebrais que afetem funções como controle muscular e coordenação; dificuldades intelectuais; cadeirantes; atletas com deficiências visuais e finalmente "les autres" (os outros, em francês), categoria que engloba todos os casos que não se encaixam nas categorias anteriores. No atletismo, as diferentes categorias iniciam com a letra T (para as provas de pista, do inglês track) ou F (para as provas de campo, do inglês field). As letras são seguidas de números, que indicam a severidade da deficiência, sendo que um número menor indica um grau maior de deficiência. O quadro ao lado apresenta as diferentes categorias no atletismo.


Para que se possa incluir um atleta dentro de uma determinada categoria, existe um rigoroso processo da classificação. Como as diferentes categorias foram criadas justamente para garantir que os atletas possam competir contra outros de igual nível de habilidade, é preciso assegurar-se que aqueles que estão na mesma categoria tenham um nível similar de desvantagem em função da sua deficiência. Para isso, foram criados inúmeros testes para se determinar a capacidade motora e intelectual dos atletas, de acordo com a sua categoria. Estes testes variam desde avaliações médicas para se julgar a extensão de determinada lesão (como as visuais, por exemplo), até testes práticos cognitivos e motores, por meio dos quais os atletas são avaliados pela sua capacidade de realizar uma determinada tarefa. Atletas com dificuldades intelectuais, por exemplo, costumam ser incapazes de manter um ritmo constante ao correr. Corredores cadeirantes podem possuir diferentes graus de incapacitação dos membros superiores e do tronco, e sua capacidade de locomoção é avaliada durante um teste em esteira.


O sistema, claro, possui falhas, e os Jogos Paraolímpicos muitas vezes são marcados por escândalos de atletas que tentam entrar ilegalmente em categorias mais fracas, a fim de enfrentar menos competição. Nos Jogos de Sidney, por exemplo, descobriu-se que dez dos doze jogadores espanhóis de basquete em cadeira de rodas não possuíam qualquer dificuldade intelectual! O fato fez com que diversas competições para deficientes intelectuais fossem suspensas, até que se chegasse a métodos mais eficientes de controle dos atletas. A grande dificuldade é que nestes testes motores e cognitivos os atletas precisam desempenhar tarefas dentro do melhor de sua habilidade para que possam ser adequadamente avaliados; no entanto, eles sabem que, se não forem tão bem no teste, possuem uma chance maior de sucesso nos jogos, o que alguns veem como uma oportunidade.


Para combater esta prática ilícita, hoje em dia cada delegação possui pelo menos um "classificador" habilitado pelo comitê paraolímpico internacional, cuja função não é controlar os seus atletas, mas sim garantir que eles estejam enfrentando uma oposição justa. Estes classificadores acompanham os adversários até mesmo em treinos (muitas vezes fazendo esforço para não serem notados), a fim de conferir se os atletas de outras delegações possuem mesmo o grau de deficiência apresentado durante os testes oficiais de classificação. Caso um classificador julgue que um atleta está competindo em uma categoria abaixo da sua, ele entra com pedido junto ao comitê paraolímpico para investigação do caso, e há diversos relatos em que as reclamações foram ouvidas e julgadas procedentes.



TAMBÉM DOPING. Infelizmente, as práticas ilegais nos Jogos Paraolímpicos vão muito além do sistema de classificação. Apesar de não ser tão comum, casos de doping pelo uso de substâncias proibidas também são vistos nas paraolimpíadas, e o controle atualmente feito pela WADA (agência mundial antidoping) não é menos sério do que o realizado para os jogos olímpicos tradicionais. Os Paraolímpicos, no entanto, também apresentam uma outra variação de manobra ilegal, esta um pouco mais inusitada: o chamado pressure boost, utilizado por alguns atletas com lesões na coluna vertebral, especialmente na altura da vértebra T6 ou superior.


O boost é uma maneira artificial de elevar a pressão sanguínea arterial, o que pode resultar em melhor desempenho em alguns atletas e é considerado doping pelo comitê paraolímpico. Para isso, o atleta precisa criar uma situação chamada de disreflexia autônoma, onde o sistema nervoso autônomo é superestimulado. Essa superestimulação pode ser conseguida de maneira voluntária, por exemplo, quebrando algum osso do corpo ou comprimindo os testículos, sentando em cima deles ou utilizando vestimentas de compressão extremamente apertadas. Em função da lesão na coluna vertebral, os atletas não sentem dor alguma fazendo isso, mas a prática pode ter sérias consequências para a saúde, e por esta razão é considerada ilegal. Contudo, em uma pesquisa feita com atletas das paraolimpíadas de Beijing, em 2008, 16,7% dos entrevistados admitiram empregar a manobra durante competições, acreditando que ela é benéfica para provas de meio fundo e fundo no atletismo.



PERFORMANCE SEMELHANTE. Atletas paraolímpicos possuem um nível de performance que muitas vezes se equipara aos dos seus pares olímpicos. Apesar de toda a mídia em torno de Oscar Pistorius, o Blade Runner sul-africano que corre os 400 m utilizando próteses, a primeira paraolímpica a participar dos jogos tradicionais foi uma neozelandesa do tiro com arco, em 1984. Além disso, a nadadora de maratonas aquáticas Natalie du Toit, também sul-africana, participou dos Jogos Olímpicos de Beijing, terminando a maratona aquática na 16ª colocação.


Mas, além de casos pontuais, uma simples análise dos recordes paraolímpicos mostra o grau de treinamento destes atletas. Nos 100 m rasos masculinos, os recordes mundiais das diferentes categorias oscilam entre 10.72 entre os amputados e 12.29 entre aqueles com debilidades motoras mais severas, que ainda são capazes de correr sem a cadeira de rodas. Nas provas de fundo a situação não é diferente: o recorde feminino nos 5.000 m categoria deficientes visuais severos (T11) é de 20:05, e para a categoria moderada (T12) é de 17:52. Entre os homens, o recorde na categoria T12 para os 5.000 m são impressionantes 14:24.


Quando se pensa no grau de performance destes atletas, e em quanto eles chegam perto dos olímpicos, é preciso lembrar que existe uma quantidade muito menor de paraolímpicos no mundo, logo já seria natural que o nível máximo de performance entre eles fosse menor, independente de qualquer deficiência. O brasileiro Lucas Prado, por exemplo, é o homem mais rápido do mundo entre os deficientes visuais graves (T11), com a marca de 11.03. Possivelmente se pegássemos aleatoriamente (considerando que deficiências visuais também tenham uma prevalência aleatória) uma mesma quantidade de jovens com a visão perfeita e os treinássemos nos 100 m rasos, não chegaríamos em um resultado muito melhor.


O Brasil, aliás, está se tornando uma referência quando se fala em esporte paraolímpico. O crescimento do país nos últimos 20 anos foi notável: passamos de 32º em Barcelona 1992 para a 9ª colocação em Beijing 2008, com nada menos de 16 medalhas de ouro, um resultado que tem se mostrado consistentemente superior ao da nossa delegação olímpica. Para atingir estas marcas, muitos paraolímpicos treinam em tempo integral, possuem patrocinadores e fazem do esporte a sua carreira profissional. Que venha Londres, e mais medalhas para a nossa delegação.

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