Revista Contra-Relógio
// Na Montanha //

Para corredores bons de bolso

Edição 240 - SETEMBRO 2013 - ANDRÉ SAVAZONI

Aumento do valor das inscrições e do número de provas, aliado aos custos de viagem e alimentação, acabam criando uma seleção social nas provas de montanha.

O Brasil vive um crescimento do número de corridas em montanha nesta temporada. Novos organizadores, ampliação das etapas de circuitos como a Copa Paulista e a série K21, atingindo uma maior gama de corredores de diversas regiões do país. Porém, as inscrições também subiram muito de valor o que, aliado aos custos da viagem para os locais de provas (hotel, avião, ônibus ou carro, traslados e alimentação), acaba criando uma elitização nas corridas, pois não são eventos baratos. Longe disso. Ainda mais porque, devido às características desse tipo de prova, o maior atrativo é estar em contato com a natureza, em lugares mais afastados (tanto no interior quanto no litoral) e levar a família e/ou amigos juntos.
Uma etapa da Copa Paulista das Corridas de Montanha tem inscrições entre R$ 120 e R$ 200 dependendo da data em que for feita; na K42 Bombinhas, em Santa Catarina (leia cobertura nesta edição), os valores do primeiro lote foram de R$ 290 no solo e de R$ 230 por atleta nas duplas. No Mountain Do Canela, no Rio Grande do Sul, que será realizado no dia 15 de setembro, os preços estiveram entre R$ 125 e R$ 155. Na etapa do K21 Pedra Azul, no dia 16 de novembro, no Espírito Santo, os lotes vão entre R$ 150 e R$ 200 no individual e de R$ 240 a R$ 280 em duplas. E, a não ser que você seja da região das provas, são viagens para passar no mínimo dois dias para curtir o local. Uma prova de montanha alia competição com turismo, o carro-chefe, e, assim, muitas vezes, a inscrição acaba sendo o gasto "menor", mas que pesa no orçamento. E não é apenas por aqui que os preços estão altos. Na K42 de Villa Angostura, na Argentina, as inscrições para os brasileiros ficam na casa dos R$ 600!!!
Os organizadores explicam que muitos fatores levam a um preço mais elevado em relação aos cobrados em corridas de rua. A começar pela falta de bons patrocinadores e de outras exigências, como inúmeras viagens ao local escolhido para o evento. Há diretores técnicos que vão mais de 20 vezes à cidade escolhida e explicam que isso encarece o custo, além de outras preocupações e gastos ambientais, como a emissão de folders do parque que irá receber a corrida e taxas obrigatórias ou doações para órgãos ambientais, por estarem entrando em parques ou áreas de preservação, por exemplo.

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JUSTIFICATIVAS. Citam ainda a questão do seguro necessário e também do esquema médico, com o aluguel de uma ambulância variando entre R$ 1.500 e R$ 2.000 e a presença também de socorristas durante o percurso para um resgate rápido. Um organizador explicou que uma prova de circuito nacional em montanha tem um custo total de R$ 300 mil (mas sem especificar como chegou nesse número...) e que a inscrição não paga 50% desse valor, sendo necessário buscar outras alternativas de patrocínios, pois não há grandes empresas investindo maciçamente no mercado das corridas em montanha.
Para equilibrar o custo-benefício, procuram agregar "valores" ao atleta, como um kit mais "recheado", negociação com hotéis para dar desconto aos participantes e outros atrativos, mas nem sempre isso traz um resultado positivo, até pelas cidades ainda não terem percebido o quanto podem gerar com esse envolvimento. Por outro lado, várias provas de montanha distribuem uma camisa apenas razoável e praticamente mais nada no kit, porém, as inscrições seguem subindo ano a ano.
Há hoje também uma tendência de muitos organizadores não entregarem mais água ou isotônico em copo, a reduzirem os pontos de hidratação, o que também é uma decisão polêmica, como já mostramos aqui na seção "Na Montanha" da Contra-Relógio. A tendência, segundo os organizadores ouvidos pela reportagem, é de uma seleção das provas dentro dos próximos dois anos, o que pode gerar o crescimento em algumas e a queda em outras. Será uma "acomodação" do mercado.
"Minha primeira corrida foi uma prova de montanha, do Mountain Do em 2009. Disputo várias modalidades, mas o trail running é a minha preferida. Percebo, porém, neste período, que os valores das inscrições subiram desproporcionalmente. Uma prova que custava R$ 110 em 2011 passou para R$ 300 em 2013. Outra foi de R$ 130 para R$ 360 no mesmo período. Corridas menores também subiram dessa forma", afirma Eduardo Pedro Moreira, de Florianópolis.


ELITIZAÇÃO. Moreira lamenta essa elitização social das corridas em montanha. "A corrida hoje deixou de ser um esporte barato. É evidente a sede por ganhos econômicos nessas provas, visto que elas possuem um aparato de equipamentos menor do que uma corrida de rua. Nessas provas, definitivamente, não se aplica a ‘lei da oferta e da procura', ou seja, como a procura é grande e a oferta também, teoricamente os preços deveriam cair, e não o contrário. Uma pena. Dessa forma, a função primordial do esporte fica limitada a poucos. Esporte acima de tudo é instrumento de transformação social, de melhoria de qualidade de vida e não vem sendo trabalhado dessa forma. Lamentável."
De acordo com Alan Marques, da Speed Assessoria, do Rio de Janeiro, treinador, corredor e um dos organizadores do K21 Arraial do Cabo, há realmente esse custo maior das provas, o que atrai corredores de maior poder aquisitivo, mas você pode "quebrar" essa situação de elitização montando um calendário elaborado. "Ao invés de correr um monte de provas no Aterro do Flamengo durante o ano, você pode selecionar seis ou sete. Assim, consegue guardar um dinheiro para viajar dentro e fora do Brasil, além de ter um ganho técnico, evoluindo, baixando marcas pessoais. Esse é o papel da parceria entre aluno e treinador. Por exemplo, estamos levando 21 atletas para o Cruce de Los Andes no ano que vem", explica Alan.
"Para organizar uma prova com segurança, precisamos de três a quatro ambulâncias, com UTI móvel, socorristas especializados, mais gente no staff... Além disso, em relação a esses custos para os organizadores de corridas em montanha, quanto maior o envolvimento da cidade, melhor para todos. Em termos de números, no ano passado, com 1 mil inscritos, o K21 Arraial do Cabo gerou um impacto de R$ 1 milhão no município, envolvendo hotéis, restaurantes, o comércio em geral, os passeios de barco... Este ano, com 1,6 mil participantes, foi de R$ 4,6 milhões", completa Alan.
Corredor e treinador tanto na rua como nas montanhas, Fernando Gois, de Florianópolis, afirma que os preços estão saindo da realidade para a maioria dos corredores. "Inscrições a partir de R$ 200 no primeiro lote e chegando a R$ 500 em alguns casos para uma prova de apenas um dia, onde quase não precisa parar o trânsito, onde cada um praticamente leva toda a sua hidratação e alimentação... Qual a justificativa para preços tão altos? Com certeza, as provas em montanha não estão sendo feitas mais nem para os corredores de média renda. Está ficando cada vez mais elitizada."


MENOS PARTICIPAÇÃO. Góis percebe que seus alunos estão reduzindo o número de eventos na montanha e fazendo uma seleção das provas, não só pela parte técnica, mas também pela financeira. "Escolhendo uma ou outra e renegando outras. Não sei até quando o número de participantes não começará a cair nessas provas devido ao alto custo das inscrições e logística de transporte/translado", completa o treinador.
Fábio Augusto Corazza, de São Paulo, é outro apaixonado pelas provas com contato direto com a natureza. Por estar sempre nos eventos, também discute com amigos essa ampliação dos custos. "Realmente, as corridas em montanha no Brasil são bem elitizadas. Diria que se tornou um ‘esporte-turismo', onde poucos conseguem manter estes tipos de gastos com inscrições e viagens. O povão fica excluído financeiramente de manter uma frequência de participações. E patrocínio é algo para poucos no Brasil."
Técnico e corredor em Balneário Camboriú, Rodrigo Rosini leva sempre um grupo grande de atletas para provas em trilhas. "Acredito que algumas já estão no limite do valor. Não dá mais para subir o preço", ressalta. Ele vê os alunos divididos atualmente. "Alguns gostam tanto que não ligam em pagar, mas muitos deixam de ir. Outros optam por uma a três provas mais tradicionais, que são mais caras, e participam de outras para completar o ano." Rosini faz também uma diferenciação entre os eventos. "No caso da K42 Bombinhas, o valor realmente é alto, porém a prova tem outros atrativos que justificam o preço, como um kit bom, duas camisas (uma da prova e outra para os concluintes), a corrida em si, a organização, a festa no sábado à noite, etc."
Luis Fernando de Oliveira, de Jaraguá do Sul, considera não ter uma opinião muito popular sobre o assunto. "De basicamente entender os preços mais altos como necessários. Principalmente em uma prova como a K42 Bombinhas e outras que têm uma estrutura grande. O preço da inscrição acaba refletindo isso. Não me importo em pagar mais se tenho segurança e boa logística durante a prova. Agora, do couro sai a correia. Não tenho paciência com gente que não respeita o contrato com o corredor e não entrega o prometido. Já risquei alguns promotores de eventos do meu caderninho", afirma. É o mercado fazendo a seleção, algo que deve ser ainda mais forte no próximo ano.



NA PONTA DO LÁPIS


Os gastos médios de um casal para uma viagem de três dias, de sexta a domingo, para uma prova em montanha:


INSCRIÇÃO: R$ 200 (o dobro se os dois correrem)
HOTEL: R$ 400 (duas diárias)
ALIMENTAÇÃO: R$ 280 (jantar na sexta, almoço e jantar no sábado, e almoço no domingo, com R$ 70 por refeição)
VIAGEM: Depende do local e do meio de transporte, carro ou avião. Indo de avião, há ainda o custo do traslado, aluguel de carro, táxi ou ônibus até o hotel.
RESUMO: Fazendo uma conta baixa, um casal que corra e consiga viajar de carro, vai gastar por volta de R$ 1.300 em uma prova. Se for de avião, o valor sobe mais e estará diretamente influenciado pela distância a ser percorrida.

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