Revista Contra-Relógio
// Fisiologia //

Os tipos de pisada na corrida

Edição 266 - NOVEMBRO 2015 - FERNANDO BELTRAMI

Afinal de contas, faz diferença correr na ponta dos pés ou com o calcanhar?

Mesmo a corrida sendo uma atividade natural para o aparelho locomotor, existem diversas "formas" de se correr, e há anos corredores e cientistas se perguntam qual seria a melhor mecânica para a passada. Questões como a inclinação do tronco e a relação entre o comprimento e a frequência de passadas em uma dada velocidade, entre outros, podem ser avaliados tanto em relação a seus efeitos na performance como sobre a incidência de lesões. De nada adianta, por exemplo, modificar o estilo de corrida de um corredor para melhorar sua eficiência energética se o custo disso for deixá-lo mais suscetível a fraturas por estresse repetido.
Entre os diversos aspectos mecânicos da corrida, o padrão de pisada recentemente ganhou os holofotes da mídia e da ciência com a popularização da corrida descalça e dos calçados minimalistas. Quando se corre descalço há uma tendência fazer o contato do pé com o solo utilizando o terço dianteiro do pé. Porém, quando o pé está protegido por um calçado com amortecimento, o contato inicial com o solo é feito primeiramente com o calcanhar. O argumento levantando é o de que o uso de calçados amortecidos "estragou" o movimento natural que a estrutura músculo-esquelética aprimorou ao longo da evolução humana, aumentando a predisposição a lesões e até mesmo aumentando o custo energético da corrida.
Com a popularização da corrida descalça, abriu-se um novo horizonte para a indústria calçadista e também para educadores físicos: calçados minimalistas, que simulam a corrida descalça, ou então com amortecimento mínimo e heel drop (a diferença entre a altura do solado no calcanhar e na frente do calçado) zero, passaram a integrar o portfólio das grandes marcas esportivas, prometendo melhorar a técnica de corrida, com todos os benefícios que isso traz.
Do lado do treinamento surgiram inclusive "clínicas" de corrida natural, e protocolos de treino para que corredores se adaptem, gradativamente, ao estilo descalço de corrida. Por trás de tudo isso, seja em função do calçado (ou ausência dele) ou de mudança de técnica, está a questão fundamental de como realizar o contato do pé com o solo, se com o calcanhar, com a ponta do pé ou no meio, com o pé "chapado".
Dado o enorme interesse, diversos estudos surgiram nos últimos anos, investigando o tema tanto do ponto de vista da performance, como da prevenção de lesões.

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PISADAS E PERFORMANCE. Uma meta-análise (tipo de estudo que agrega os resultados de diversas pequenas investigações), publicada em março deste ano, analisou o efeito de diferentes tipos de calçados na economia de movimento, constatando um pequeno efeito benéfico a favor dos calçados minimalistas em termos de economia de movimento, portanto melhor rendimento na corrida. Os autores, no entanto, advertem que ainda é cedo para que tais resultados possam ser tomados como conclusivos.
Um exemplo típico de resultados positivos é o de uma pesquisa em que corredores participaram de um programa de 4 semanas de adaptação a calçados minimalistas: enquanto a economia de movimento foi a mesma entre as condições de calçado tradicional ou minimalista antes da intervenção, após o período de adaptação houve uma melhora significativa na economia de corrida com o calçado minimalista, o que não foi observado nos testes com calçados tradicionais. Ao mesmo tempo, o período de adaptação aumentou a proporção de passadas realizadas em ponta de pé com os calçados minimalistas.
É importante, ressaltar, mais uma vez, que da mesma forma como o estudo mencionado acima encontrou resultados positivos com uma mudança na técnica de corrida, diversas outras investigações não constataram quaisquer diferenças em economia de movimento entre corredores com diferentes tipos de pisada.


PISADAS E LESÕES. A maioria dos estudos relacionando diferentes tipos de passada com lesões ainda é associativo, ou seja, simplesmente observam dois fenômenos paralelos, sem que necessariamente um cause o outro. Uma pesquisa irlandesa, por exemplo, revelou que, quando mulheres foram testadas correndo descalças, diversos parâmetros normalmente associados a lesões apresentaram melhoras, sugerindo uma possível ligação entre as mudanças na técnica e um menor risco de lesões.
Apesar da fragilidade dos resultados relacionando o padrão de pisada com a ocorrência de lesões, existem diferenças concretas entre os diferentes estilos de corrida. Por exemplo, o contato inicial com o calcanhar gera forças de reação ao solo maiores do que com a pisada com o terço dianteiro do pé. Além disso, esta forma de pisar aparentemente diminui um pouco o comprimento de passada, o que indiretamente contribui para que o impacto gerado a cada passada seja um pouco menor, independentemente da absorção que ocorre pelas estruturas do pé.


CONCLUSÕES. A despeito de toda a discussão, os benefícios propostos pelos defensores do padrão de pisada com a parte dianteira dos pés são bastante difíceis de provar, o que sugere que, mesmo que eles existam, são provavelmente pequenos.
Por outro lado, nenhum ou quase nenhum estudo sugere que a passada com o terço dianteiro do pé seja pior do que com o calcanhar, abrindo margem para que cada corredor explore suas possibilidades. Caso esta seja a decisão, é importante que o processo seja gradual.
O que se sabe é que, mais do que a forma de pisada, aumentos bruscos nos volumes de treino acarretam lesões por estresse repetido e, por essa razão, devem ser efetivamente evitados. E em relação à performance também está provado que o mais importante continua sendo simplesmente treinar corretamente.

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