Revista Contra-Relógio
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OS 20 ANOS DA MEIA-MARATONA DO RIO

Edição 287 - AGOSTO 2017 - NELTON ARAÚJO

Durante as 20 edições da “mãe” das principais meias-maratonas, a força da TV transformou-a na maior do país, mostrando-nos grandes histórias. Mas será que essa ajuda pode ainda mantê-la no topo?

Quente, tarde, mas charmosa. A Meia-Maratona Internacional do Rio de Janeiro é a competição, depois da São Silvestre, da qual os atletas mais reclamam nos dias de hoje. Quem nunca ouviu um amigo corredor, ou você mesmo, tecer impropérios acerca da "Prova da Globo"? Apesar disso, a Meia do Rio, que, no dia 20 deste mês irá completar duas décadas de existência, tem uma importância significativa no crescimento e popularização das corridas de 21 km. Convido o leitor a passear pelas histórias daquela que nasceu e continua sendo a maior competição do gênero no país.
Após o boom dos maratonistas no país, nos anos 1980, o início da década seguinte assistiu a uma estabilização no crescimento de seu público, que agora não sentia mais necessidade de correr os 42 km para ser chamado de "corredor". Sobretudo no Rio de Janeiro, local da principal maratona dos anos 1980, a JB/Bradesco, que chegou a ter mais de 5 mil participantes e, junto com a Corrida de São Silvestre, era o principal agente do aumento exponencial de pedestrianismo brasileiro na época.
Assim, em 1997, se não podemos afirmar que o número de corredores diminuiu, dá para constatar que estavam dispersos em provas de distâncias menores, que se amplificavam ano após ano. Contudo, em 1995, duas iniciativas mostravam o retorno do interesse pelos longos percursos nas capitais paulista e carioca. A primeira foi a criação da Maratona Internacional de São Paulo e a segunda o retorno do apoio do Jornal do Brasil à Maratona do Rio, que, então, agonizava. Ambas começaram a atrair mais interesse do público, principalmente, pela sua força midiática: enquanto a prova paulista tinha transmissão da Rede Globo, a carioca tinha ampla divulgação no Jornal do Brasil, único periódico que rivalizava com o jornal O Globo.
Percebendo que havia um nicho de mercado a ser explorado e que disputar a mesma distância que seu rival apoiava não era uma opção, o Grupo Globo começou a olhar para a competição mais frágil na Cidade Maravilhosa: as meias-maratonas. Eram poucas e apenas duas tinham certo porte: a da Aeronáutica e a do Trabalhador. Entretanto, ambas não chegavam a 2 mil participantes.

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PRIMEIRA EDIÇÃO. Desta forma, no início de 1997, o programa dominical "Esporte Espetacular" anunciava seu projeto para incentivar a corrida de rua no país: a Meia-Maratona Internacional do Rio de Janeiro - abreviada como "Meia do Rio", a ser realizada no dia 14 de setembro. A competição foi organizada pela Sports Media e era bem atrativa aos atletas de ponta: além de 4 carros 0 km e de 70 mil reais em premiações, a prova iniciaria a tradição de ser a qualificatória ao Mundial de Meia-Maratona.
Assim, os cinco melhores brasileiros na prova estariam qualificados a participar da competição mundial, que aconteceria na cidade eslovaca de Koisce, em outubro. Já os amadores poderiam ser inscrever nas agências dos Correios e dos Classificados Globo, além do SESC de Copacabana - também local da retirada do kit, pelo valor de R$ 15. Nos primeiros anos, as inscrições estiveram abertas até a véspera.
Logo, a competição atraiu o pelotão de elite do atletismo brasileiro da época, como Elisvaldo Rodrigues, Delmir dos Santos, Luis Antonio dos Santos e Ronaldo da Costa, que um mês antes tiveram uma participação aquém do esperado no Mundial de Atletismo, em Atenas. A repercussão na TV, com a prova sendo transmitida na íntegra pelo Esporte Espetacular, e o bom percurso, que saía da Praia de São Conrado, contornava a Orla, ia até o Monumento aos Pracinhas e, voltando, chegava à altura da Churrascaria "Porcão Rio", era praticamente plano e rápido.


MUITO CALOR. O trajeto se manteve o mesmo por todo o esse tempo. O maior problema da Meia é que esta faltou combinar com São Pedro, pois a prova foi marcada pelo forte calor e alta umidade. A competição estava agendada para começar às 9h30 da manhã, mas por conta da sua "dona", os corredores só poderiam começar a sua prova quando a direção do Esporte Espetacular autorizasse. Resultado: a corrida atrasou, e a temperatura chegaria a 35 graus, fazendo com que dos 5.500 inscritos (de todos os estados), concluíssem 3.270 corredores, sendo que cerca 300 amadores foram parar nos postos médicos durante o percurso, desistindo da prova.
Ainda assim, a Meia do Rio já nascia como a maior não só do país, mas da América Latina (posto que é agora da Meia de Buenos Aires). O calor também castigou os favoritos, sendo a prova vencida no masculino pelo azarão, o mineiro Tomix da Costa, com o tempo de 1:04:04. No feminino, vitória da italiana Ornela Ferraro, inaugurando outro elemento muito comum ao longo dos 20 anos de prova: a prevalência de vitória dos estrangeiros sobre os brasileiros, sobretudo quenianos. O placar é o mesmo tanto no masculino quanto no feminino, sendo 14 vitórias estrangeiras, contra 6 brasileiras.
A competição, que já começava a ser realizada habitualmente no final de agosto em 1998 (quando houve a primeira vitória de um queniano, John Gwako), no ano seguinte, realizou uma prova de 12 km, que abriu o Circuito Nacional de Corridas de Rua daquele ano. Esta prova, que começaria junto com a meia e terminaria no Leme, também seria responsável pela divulgação inchada de inscritos, que seriam mais de 9 mil participantes, mas apenas 5 mil concluintes. A prova de 12 km também teria vida efêmera, deixando de existir já no ano seguinte.
Na edição de 1999 a vitória foi de Luiz Antonio dos Santos, bicampeão da Maratona de Chicago, que ao chegar, aproveitou o microfone da Globo para fazer uma série de reclamações e, naturalmente, saiu do ar. A prova teve a participação de pessoas ilustres, como o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta (que anunciou que completaria a prova abaixo de 1h45, subestimando o calor senegalês do Rio, e terminou em 2h). Mas o franco favorito era o então detentor do recorde mundial da maratona, Ronaldo da Costa, que afirmava em todas as entrevistas que não tinha ninguém que tirasse a sua vitória.
A certeza era tanta que deu origem a uma história curiosa: a Meia foi realizada no dia 22 de agosto, um dia após o aniversário de fundação do Clube de Regatas Vasco da Gama, time de coração de Ronaldinho da Costa. A confiança do clube era tanta que levou a diretoria a pagar multa ao patrocinador do atleta pela quebra de contrato: ao invés de usar a camisa azul do Bingo Arpoador, vestiu a do time cruzmaltino, o que seria uma excelente publicidade da força da agremiação aniversariante. Mas não deu muito certo: no 18º km, com dores estomacais, Ronaldinho abandonou (outros afirmam que ele, ao perceber que não venceria, preferiu abandonar).


DOMÍNIO QUENIANO. Já em 2000, os participantes que, primeira vez, poderiam fazer a inscrição via internet, ao concluir a prova, souberam que os quenianos fizeram a primeira dobradinha na competição, tendo Margareth Okayo e John Gwako conquistado seus bicampeonatos e batendo os recordes da prova, com 1:01:48 e 1:11:22. Embora os brasileiros estivessem no pódio, mostravam que uma nova geração estava chegando. Enquanto o vencedor da categoria de 16 a 19 anos foi um mineiro chamado Franck Caldeira, o jovem brasilense Marilson Gomes estreava na prova com o tempo 1:02:12 e passava a ter o melhor tempo de um brasileiro até hoje. O atleta então do Vasco/Funilense subiu ao pódio sorridente para receber seu troféu de vice-campeão.
No feminino, por muito pouco, a goiana Selma Reis não superou Margareth Okayo, aumentando a expectativa de quando uma brasileira iria ganhar pela primeira vez a Meia do Rio. A mesma Selma Reis voltou no ano seguinte e tirou o país da fila de espera, vencendo com o tempo de 1:15:02.


MARIZETE REZENDE. A segunda vitória brasileira na competição feminina poderia ter acontecido dois anos depois, em 2003, quando outra goiana, Marizete Rezende, que tinha vencido a Corrida de São Silvestre no ano anterior, não se importou com o calor e evitou o bicampeonato da então queniana Anne Jelagata com uma fenomenal perfomance. A nova organizadora, Yescom, que tinha entrado em 2002, vibrava com o alto nível da prova, que teve também o queniano Philip Rugut conquistando o bicampeonato, com um final inusitado: na chegada, Rugut foi surpreendido pela nudez do brasileiro Michel Dummar. Ator desempregado, ele correu poucos metros à frente do queniano até ser preso. No entanto, a pitoresca chegada perdeu a graça quando saiu o exame antidoping de Marizete, acusando a presença de EPO (Eritropoetina), e a atleta teve seu título caçado e foi suspensa do esporte por dois anos.
Antes de se tornar bicampeã da Maratona de Chicago e tri da de Boston e ter perdido tudo isso ao também ser pega no doping de EPO, a queniana Rita Jeptoo esteve no Rio de Janeiro em 2004 e venceu a competição, que, por conta da Olimpíada de Atenas, foi realizada no dia 5 de setembro, exatamente uma semana após a epopeia que envolveu o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima. Na edição que garantiu o tricampeonato de John Gwako, Rita Jeptoo só garantiu a vitória nos últimos metros, depois de um sprint sobre a também queniana Rose Jupchumba e com a jovem promessa do atletismo brasileiro, a paulista Adriana Aparecida da Silva.


CONCORRÊNCIA. A Meia Internacional do Rio veria, a partir de 2006, o surgimento da sua atual maior rival: a Maratona do Rio, que em 2001 e 2002 viu-se sem forças para ser realizada, mas foi reativada em 2003 com nome de Maratona da Cidade do Rio de Janeiro. Porém, somente em 2006 a prova adicionou uma prova de 21 km à competição, que acontecia dois meses antes da Meia do Rio. Isso não parecia abalar a prova da Globo, que divulgava ter mais de 14 mil inscritos, o que bem é pouco provável.
E nesse ano, a 10ª edição da competição foi, sem dúvida, especial para os brasileiros. No feminino, a chegada da prova foi dramática. Depois de travar uma luta intensa com Marizete Rezende e Sirlene do Pinho (a segunda brasileira campeã da Meia, conquistada no ano anterior), a mineira Lucélia de Oliveira Peres conseguiu se destacar do pelotão principal e abrir boa vantagem. O esforço da fuga custou caro no final: visivelmente fatigada, a mineira diminuiu drasticamente o ritmo e, a 300 metros da chegada, foi ultrapassada por Marizete. Lucélia chegou em terceiro, caindo desmaiada logo depois. Era a redenção da Marizete, que acabava de voltar às competições depois de ser suspensa por doping dois anos antes.


FRANCK CALDEIRA. Neste momento, o jejum de vitórias brasileiras estava do lado masculino. Nesse ano, o jejum foi quebrado por aquele menino que, em 2000, tinha sido campeão da categoria 16 a 19 anos: Franck Caldeira. O mineiro, já com 23 anos, dominou a prova de ponta a ponta, vencendo com tempo de 1:03:26. A competição continuava sendo tradicionalmente a seletiva para o Mundial de Meia Maratona. Mas o atleta da cidade mineira de Sete Lagoas, da equipe Pé de Vento, declinou da vaga para tentar o índice para a maratona dos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro, no ano seguinte. "Estou deixando muita coisa para trás em função do evento. Este é o meu grande objetivo".
O ano ainda reservaria para ele não apenas a vaga, mas também a vitória, em casa, na Volta da Pampulha e na São Silvestre. Em 2007, um mês antes do aniversário de 10 anos de Meia do Rio, Franck foi campeão da maratona pan-americana. Por isso mesmo, foi à 11ª edição da Meia do Rio sem estar 100%. "Não consegui treinar para a prova e nem posso criar expectativas", dizia ele na véspera. Contudo, numa prova espetacular, arrancando nos últimos quilômetros, tornou-se o único bicampeão brasileiro da competição, fazendo um tempo 19 segundos mais rápido que em 2006.


MEIA DO MUNDIAL. Em 2008, foi a primeira vez que a prova aconteceu em outubro, saindo do seu calendário tradicional. Mas o motivo era nobre: nesse ano ela seria o palco do Mundial de Meia-Maratona da IAAF, reunindo atletas de 40 países. De forma bem didática, nesse ano existiam os atletas que estavam inscritos apenas para o Mundial, aqueles que estavam inscritos para o evento da IAAF e para a Meia do Rio e ainda os somente na prova carioca. A corrida reuniu o recorde de 15 mil inscritos, segundo a organização. Já para os atletas do Mundial, a organização estava impecável, salvo uma única falha: ao não mudar seu tradicional percurso, a Meia tornava-se inelegível para a homologação de recordes mundiais junto a IAAF, pelo fato de possuir uma distância maior que 10,5 km, em linha reta, entre largada e chegada.
Mesmo com as condições ideais para uma possível quebra de recorde, estando num dia atípico, com o clima ameno, a ideia de não ter o recorde mundial homologado fez com que o eritreu Zersenay Tadese e a holandesa de origem queniana Lornah Kiplagat não forçassem o ritmo e, mesmo assim, ganhassem a competição, com os tempos de 59:56 e 1:08:37. A competição no Rio ainda teve como vice-campeão o jovem queniano Patrick Makau, que em 2011 quebraria o recorde mundial da maratona, em Berlim, com 2:03:38.


MARILSON DOS SANTOS. Participando ao mesmo tempo das duas competições, Marilson dos Santos Gomes venceu, pela primeira vez, a Meia do Rio com o tempo de 1:03:14, ficando em oitavo colocado no Mundial, mas bem aquém do seu melhor tempo na prova carioca e do seu recorde pessoal (59:33), conquistado um ano antes, no Mundial da distancia, na cidade italiana de Udine. Entretanto, para o seu técnico Adauto Domingues, a conquista foi fundamental para retomar a motivação após não ter completado a maratona na Olimpíada de Pequim, dois meses antes. Com a confiança de volta, menos de um mês após, ele se consagrou bicampeão da Maratona de Nova York.
A partir de 2010, a corrida sofreu uma baixa, deixando de ser a prova qualificatória do Mundial de Meia-Maratona (a decisão agora era feita por um ranqueamento feito pela CBAt). Mas, nem por isso grandes nomes do atletismo mundial deixaram de participar. Como em 2011, na 15º edição, cujo padrinho da prova era, nada mais, nada menos, que o queniano Paul Tergat, e o grande nome na competição era o também queniano Mark Korir, que antes de ser campeão da Maratona de Paris em 2015 e Frankfurt em 2016, quebrou o recorde da meia com 1:01:33, 15 segundos da marca que já perdurava 11 anos.
Ele foi agraciado por uma das raras edições em que a prova combinou com São Pedro e os participantes correram com clima de 17 graus e umidade de 69%. Na prova feminina, também o recorde foi quebrado. A queniana Eunice Kirwa, que se tornaria a primeira tricampeã da prova (2009, 2010 e 2011), superou o recorde de Margareth Okayo em 14 segundos, com o tempo de 1:10:29.


MAIS DE 10 MIL CONLUINTES. Embora se propagasse mais de 19 mil competidores, o número de concluintes foi de 10.817. Controvérsias no número de participantes a parte, um dado bem interessante fornece um perfil da prova e o impacto dela: 60% dos participantes eram de fora do Rio de Janeiro e tal contingente, praticamente lotando boa parte da rede hoteleira da Zona Sul, provocava um impacto econômico em torno de R$ 14 milhões.
Em 2012, a queniana Paskalia Chepkorir, vencedora da Corrida de São Silvestre em 2009 e que, em maio desse ano tinha estabelecido o atual recorde da famosa prova 10 km Tribuna de Santos (com o tempo de 30:57) ,não se importou com o forte calor e baixou o recorde da prova em mais de três minutos, com 1:17:17.
Entretanto, o grande nome do atletismo a aparecer na história da Meia do Rio veio em 2013, quando foi anunciada a participação do queniano Geoffrey Mutai, até então o homem mais rápido do mundo em maratonas, embora sem ter o recorde de 2:03:02 na maratona de Boston em 2011 sido homologado pela IAAF (em função do percurso em descida, entre outras restrições).
Sua presença em terras brasileiras era parte da sua "turnê" pela América do Sul, promovida pela sua patrocinadora, Adidas, que também apoiava a Meia do Rio. Mutai teve a rara sorte de não encarar o habitual calor que já é tradição na Meia do Rio e, num dia com chuva e frio, correu sem esforço por boa parte do percurso até ser avisado que, naquele ritmo, iria bater o recorde do percurso, mas talvez não seu objetivo de completar abaixo de 1 hora. Acelerou os últimos três quilômetros e completou em 59:57, apenas um segundo mais lento que o tempo do Tadese, no Mundial de 2008, naquele percurso. Na prova feminina, a queniana Nancy Kipron iniciaria a sequência de ser a segunda tricampeã da competição.
Ainda em 2013, a organização incluiria uma prova de 5 km, que, ao contrário da de 12 km em 1999, seria realizada nos últimos 5 km do percurso. A inclusão desse tipo de prova na região não era nova. Desde sua nova fase, em 2003, a Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, trouxe a ideia, bem comum no exterior, de criar provas secundárias e de menor distância para incentivar familiares e amigos a participar, de certa maneira, da competição, ao invés de só ficar esperando pelos que estão na prova principal. O evento contou com 12.244 concluintes, já somados os 1.697 concluintes dos 5 km.


MENOS CORREDORES. A partir de 2014, o que mais salta aos olhos não é nem tanto os seus vencedores, mas perceber que começa um declínio do número de concluintes na competição. Foram anunciados para a 18ª edição o número mágico de 20 mil inscritos, nas distâncias de 21 e 5 km. Desses, eram esperados 17 mil no percurso principal. Mas apenas 13.155 cruzaram o pórtico de chegada, no Aterro do Flamengo e pouco mais de 2 mil concluíram a prova menor, o que significa que muitos nem largaram ou, mais provavelmente, os números estavam superestimados, já que em uma prova de 21 km as desistências dificilmente superam 10% dos inscritos. Em 2015, a prova teve 11.192 concluintes, e em 2016, nova redução, para 10.264.
Na 20ª edição, em 2016, a prova foi pela segunda vez agendada para outubro, por conta dos Jogos Olímpicos na cidade. O horário de largada foi antecipado para as 8h35, acreditando-se que, por se estar no horário de verão, o clima estaria mais ameno. Ledo engano e a prova passou dos 30 graus logo na largada. Mesmo assim, o Brasil conseguiu uma dobradinha no pódio, o que não acontecia desde 2008, com Giovani dos Santos e Joziane Cardoso.
Curiosamente, o tempo do vencedor da vigésima edição, 1:04:47, a despeito da temperatura elevada - mas não o recorde de calor da prova, foi o pior tempo da história da Meia do Rio. Para se ter uma comparação, em 1997, Tomix da Costa largou quase às dez da manhã, correu boa parte da prova com 35 graus e completou 43 segundos mais rápido que Giovani dos Santos, atualmente nosso mais constante fundista. E não apenas a elite teve tempos bem altos: apenas 20% dos homens completaram os 21 km em até 2 horas, enquanto entre as mulheres, tal porcentagem ficou em 5,5%.


DESATUALIZAÇÃO. O que aconteceu com a prova para vermos tal queda de números e aumento nos tempos? Em resumo, ela envelheceu e não se adaptou aos novos tempos, ainda acreditando na força da TV. Um dos motivos é a insistência em largar a prova ainda muito tarde num período que mesmo sendo inverno no Brasil, no Rio já é verão. E a Globo, no final da primeira década dos anos 2000, deixou de transmitir a prova ao vivo e na íntegra, mostrando a largada e depois entrecortando alguns flashes da prova na programação do Esporte Espetacular, ou mesmo apenas um resumo da prova.
Outro motivo de insatisfação é a não implantação de qualquer tipo de largada por baias ou ondas. Mesmo o corredor mais rápido, se não chegar muito cedo ao curral e não se posicionar nas primeiras fileiras, tal como na São Silvestre, irá enfrentar um congestionamento logo nos primeiros km da prova, na estreita e íngreme Avenida Niemeyer e com subida.
Ao longo desses 20 anos, deve-se dar o devido valor à Meia do Rio, cujo sucesso contribuiu para a criação de outras provas de 21 km pelo Brasil. A partir de 2011, com o surgimento do circuito Golden 4 Asics, o modelo de uma boa meia passou a ser com largada feita por baias e em horário mais cedo. Nesse sentido, os 21 km dentro da Maratona do Rio, cuja largada também não tem baias, mas o seu início acontece antes de 7h, é um, entre vários fatores, que têm feito tal competição crescer exponencialmente, a ponto de estar a apenas a 692 concluintes de se igualar à Meia Internacional do Rio.
Provas icônicas, como a Volta da Pampulha e a São Silvestre, pelo seu caráter único e festivo, ainda são aceitas pelos participantes em largar sem baias e em horários interessantes apenas para a transmissão televisiva. Mesmo assim, essa aceitação não é feita sem críticas. Já a Meia do Rio, mesmo estando no panteão histórico das provas dessa distância do país, hoje é uma das mais de cem meias em todo Brasil. Para não ser atropelada por algumas delas, e conseguir chegar a mais uma década de existência, terá que se atualizar, para continuar igualmente charmosa e atraente.

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