Revista Contra-Relógio
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O que vem por aí em modelos minimalistas

Edição 234 - MARÇO 2013 - SÉRGIO ROCHA

A corrida descalça ainda é praticada por uma minoria, mas apesar disso já começa a influenciar a indústria, que lança tênis leves e com pouco amortecimento.


Basta ver alguém correndo descalço e já se levantam as questões: "Não dói?", "E os joelhos?", "E se o cara é obeso?". Mas deixando de lado toda a polêmica que esse assunto possa gerar, há algo que indubitavelmente a corrida descalça fez com o mercado - a necessidade de se criar modelos inspirados na funcionalidade natural dos pés: os tênis minimalistas.
Conceitualmente, um tênis minimalista é aquele que interfere o mínimo no movimento dos pés, ou seja, faz com que você corra como se estivesse descalço, ou quase. Historicamente, há o marco do surgimento do Nike Free, que talvez tenha sido o primeiro tênis pensado no funcionamento natural dos pés (leia o boxe), mas quem determinou mesmo a definição do termo foi o Vibram Five Fingers, a tal luva para os pés. Não há nada mais minimalista do que isso.
São dois momentos no crescimento do interesse pela Corrida Natural (que é como se denomina a técnica de se correr descalço - pousando com o médio pé, e não com o calcanhar): o primeiro é o surgimento do Vibram Five Fingers e segundo é o lançamento do livro "Nascidos para Correr", do jornalista e corredor Christopher McDougall.
Muitas pessoas passaram a se interessar em correr sem tênis ou com os VFF após a leitura do livro, como este que vos escreve, por exemplo. Essa crescente demanda fez com que a indústria, a princípio cética em relação a esse movimento, passasse a produzir tênis para esse ainda pequeno nicho de mercado.
A Nike voltou a apostar no Nike Free e relançou o modelo 3.0 (o mais "baixo" da série), a New Balance fez a linha Minimus, a Saucony desenvolveu uma chamada de "Natural Series", a Reebok lançou a Realflex, a Mizuno a linha EVO, a Newton fez um modelo sem "drop" e a Asics, mesmo mais conservadora, surgiu com a linha 33. Tudo isso sem contar os diversos modelos e marcas que investem nesse segmento e que dificilmente virão para o Brasil, como Brooks, Merrell, Vivo Barefoot, Sokwa e Zem.

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6 CARACTERÍSTICAS. É necessário estar atento ao que é realmente um tênis minimalista. Como já definimos anteriormente, minimalista é aquele tênis que interfere o mínimo possível no movimento natural dos pés. Então, para que isso aconteça ele deve ter as seguintes características:


1) Forma larga
2) Pouco ou nenhum amortecimento
3) Extrema flexibilidade
4) Drop zero (sem diferença entre a altura do calcanhar e o resto do solado)
5) Leveza
6) Ausência de suporte medial ou no arco do pé


Algumas marcas denominam seus tênis como minimalistas quando eles têm algumas dessas características, o que acaba confundindo o corredor. O "rótulo" que vai se desenhando e sendo mais aceito hoje em dia é que minimalistas seriam aqueles que têm a maioria das características citadas acima (ex.: Nike Free), ultraminimalistas (ex.: Saucony Hattori). Já tênis "reduzidos" são aqueles que apresentam algumas características dos minimalistas (ex.: Asics Blur). O último Guia do Tênis da CR mostrou outra consequência do aumento do interesse pelo minimalismo - a redução do peso dos calçados. No guia de outubro, pela primeira vez, não havia sequer um modelo que pesasse acima de 300 gramas, fato comum em um passado não muito distante.
Entre as novidades que entrarão no mercado brasileiro este ano podemos citar a linha minimalista da Mizuno, chamada de EVO, que tem dois modelos. Ambos estarão no Guia da CR do mês que vem: o Cursoris e o Levitas. A Saucony, que foi um pouco além das outras marcas ao reduzir o drop em toda sua linha de tênis, vai lançar um modelo intermediário chamado Virrata, que fica entre o Hattori (minimalista) e o tênis mais bem sucedido da marca, o Kinvara. A Puma deve apresentar a linha FAAS 100 (os zero drop da série) no segundo semestre, além do Mobium Elite (veja boxe).



TÊNIS MINIMALISTA GERA MENOS IMPACTO?
As últimas pesquisas indicam que a Corrida Natural seria menos lesiva por trocar o impacto gerado pelo calcanhar (que acaba sendo absorvido pela tíbia e articulações) pelo médio pé, pois quem dissiparia a energia gerada pela pisada seriam os músculos dos pés e das panturrilhas. Não há ainda grande número de trabalhos publicados nesse sentido, mas vários estão em fase de conclusão.
Aqueles corredores que se lesionam raramente devem usar o ditado do futebol, que diz que "em time que está ganhando não se mexe". Mas para aqueles que se machucam com facilidade ou que estejam curiosos, lembrem-se de não terem pressa. Qualquer estímulo diferente ao que nosso corpo está acostumado leva certo tempo para ser compreendido e absorvido - isso quer dizer que ir com muita sede ao pote pode ser uma receita para um desastre. Se você comprou um tênis minimalista, dê tempo para compreender o que é correr com pouco ou sem nenhum amortecimento e chegue às suas conclusões.


Puma lança conceito de corrida adaptiva
Em evento em Nova York, ao qual a CR foi a única publicação brasileira especializada em corridas de rua a ser convidada, a marca alemã lançou nova série de tênis com conceito baseado na contração e expansão dos pés. A bola da vez, ao menos para a Puma, é a corrida adaptiva. Esse foi o conceito apresentado para a imprensa internacional no dia 6 de fevereiro.
O começo do desenvolvimento do Mobium Elite, primeiro fruto desse novo conceito, foi em 2010. Podemos traçar um paralelo com o livro "Nascidos para Correr", citado na matéria, já que ouvimos as frases "corrida natural", "movimento natural dos pés", "como se estivesse descalço", "redução do movimento de pronação".
Os designers da Puma disseram ter se inspirado no puma - isso mesmo, o felino da marca - para observar os movimentos de expansão e contração das patas durante a pisada, e perceberam que o mesmo acontece com os nossos pés - se expandem e se contraem o tempo todo, seja correndo, andando ou fazendo outros movimentos.
O "laço" chamado de Mobium visa exatamente auxiliar nesses movimentos, enquanto o solado foi desenhado para ser extremamente flexível e expansível. O que o laço Mobium faz é "trazer" o tênis de volta ao formato original, uma ideia bastante interessante.
É claro que é impossível falar em corrida adaptiva, em "movimento natural dos pés" e "próximo ao descalço" sem pensarmos nos tênis minimalistas. Realmente o Mobium tem alguns desses elementos, como a forma larga e a flexibilidade, por exemplo. No entanto, a espessura de EVA e o drop o "desqualificam". O calcanhar do tênis tem 18 mm de altura, enquanto a parte do antepé tem 9 mm, o que resulta em um drop de 9 mm - algo distante do padrão seguido pela indústria, que seria de no máximo 6 mm.
Ao questionar um dos designers sobre o drop, recebemos a seguinte resposta: "Queríamos manter o conforto. De qualquer forma, 9 mm de drop é pouco se pensarmos que há um certo tempo o mínimo era 13 mm". Na CR, entendemos que conforto é algo extremamente relativo e o drop não tem relação com conforto e sim a quantidade de amortecimento, e isso também depende da experiência pessoal do corredor.
A CR testou o Mobium Elite por dois dias consecutivos no Central Park e o drop não incomodou. Mas para aqueles que querem sentir respostas rápidas, não encontrarão nele. É difícil dizer se a banda Mobium faz algumas diferenças ao correr e parece que ela funciona melhor quando estamos em ritmo mais rápido. Já o cabedal é extremamente confortável e agradará aos corredores.
• Sérgio Rocha foi a Nova York, a convite da Puma Internacional.

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