Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

O PRIMEIRO BOOM DE CORRIDAS NO BRASIL – PARTE 1 - 1979-1991

Edição 264 - SETEMBRO 2015 - NELTON ARAÚJO

Acompanhando o processo mundial de massificação do jogging, o Brasil viu um crescimento vertiginoso no número de corredores e a criação de uma cultura de corrida ao longo dos anos 80, porém o processo se reverteu no final dessa década do século passado.

Anos 70. Pouquíssimos eram os corajosos que se aventuravam a correr pelas ruas do Brasil afora, sem temer as inúmeras gozações de motoristas que ofereciam carona, ou de pedestres que, espantados, gritavam "Pega ladrão!". Em 1977, 75 pessoas corriam os 12 km que separavam o Hotel Nacional ao Forte do Leme, sendo a primeira prova rústica que se tem notícia no Rio de Janeiro. Apenas cinco anos mais tarde, a revista Veja faz da corrida de rua capa de sua edição, afirmando que o Brasil possuía 3 milhões de praticantes de jogging, um estilo de vida que vinha para ficar. E a principal maratona do país, a do Rio (então chamada Maratona Bradesco/Jornal do Brasil) reunia impressionantes 5.361 concluintes em 1985.
Números espantosos, que mostram o fenômeno que a corrida se tornou no Brasil no início dos anos 80. O que chamamos de boom do jogging ocorreu no início dos anos 70 nos EUA e se propagou ao longo da década por todo o mundo, firmando as maratonas no calendário dos principais eventos das grandes cidades. E da mesma forma que os números subiram exponencialmente na primeira metade dos anos 80, vê-se uma estagnação e até uma retração ao final dessa década e nos primeiros anos da seguinte.
O ponto de partida desse crescimento pode ser observado nas diversas provas de rua de curta distância que começavam a surgir no final dos anos 70, bem como o incentivo da Corrida de São Silvestre, então exclusiva para corredores profissionais e os provenientes de seletivas, ao se abrir para a participação de amadores em 1980, começando uma fase de crescimento quantitativo: foram, oficialmente, 4.839 inscrições, quase 7 vezes mais que no ano anterior.

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1ª MARATONA NO RIO. Já no campo da maratona, apesar de algumas experiências anteriores em algumas cidades, como Belo Horizonte, o gatilho foi dado pela criação da Maratona Internacional do Rio de Janeiro, organizada pela Printer. Esta empresa fora criada no ano anterior por uma brasileira radicada nos EUA, a atleta Eleonora Mendonça, um jornalista americano que morava no Brasil, Yllen Kerr (organizador daquela primeira prova rústica no Rio em 1977) e Paulo César Teixeira, esportista e administrador de empresa. No dia 29 de julho de 1979, com saída e chegada na Escola de Educação Física do Exército, 94 corredores completavam a primeira maratona da Printer; e no ano seguinte foram mais de 300.
O jogging já não estava à margem da sociedade. Algumas provas populares, de 8 a 12 km, nas grandes capitais, reuniam até 500 corredores. Os calçadões de Copacabana, as marquises do Ibirapuera e as rotas da Lagoa da Pampulha eram invadidos por pessoas que se iniciavam na atividade física, acompanhados por aqueles que tentavam melhorar suas marcas. E se viam representados nos textos do jornalista e esportista José Inácio Werneck, que possuía uma coluna no Jornal do Brasil intitulada "Campo Neutro", onde também abria espaço para divulgar resultados de provas de ruas, informar sobre novas competições e até mesmo analisar o cenário do atletismo da época.
Bem no início de 1980, José Inácio Werneck tomou a iniciativa e conseguiu suporte técnico-financeiro para a organização de uma maratona no Rio de Janeiro, que tivesse padrão internacional, a "1ª Maratona Atlântica Boavista/ Jornal do Brasil".
Informalmente, ele combinava com os leitores, através da sua coluna, os treinões para a maratona, informando a hora, o local e a distância. A primeira edição da maratona, realizada em novembro, contou com 584 concluintes, já superando a prova da Sprinter. Na edição seguinte, com 1.785 terminando, teve duas principais atrações. A primeira foi a vitória do americano Bill Rodgers com o tempo de 2:14:13, que só seria superado doze anos depois. A segunda foi a edição de uma revista para os competidores.
Dado o enorme sucesso, Werneck percebeu que havia demanda de um público de corrida, com interesse em saber alguns temas que só sua coluna no Jornal do Brasil não daria conta. Novamente foi hábil em convencer os diretores do Jornal do Brasil a editar a primeira publicação de corrida de grande circulação no país: Viva - A Revista da Corrida, que teve seu primeiro número em abril de 1982.
Uma das principais contribuições desta revista para a análise histórica do período é que ela reunia, seja divulgando resultados ou informando a data das inscrições, provas de ruas de todas as distâncias pelo Brasil. E era visível o crescimento vertiginoso de eventos, chegando, em uma conta simples pelo calendário da publicação, a cerca de 20 a 30 por mês no país.


MEIAS DE AQUECIMENTO. A Maratona Atlântica-Boavista/Jornal do Brasil se tornava uma marca, realizando meias maratonas pelos grandes centros do Brasil a fim de qualificar para o grande evento do ano, a sua maratona, no Rio de Janeiro, geralmente entre junho e julho. Foram sete meias, que ocorreram em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Brasília, Florianópolis e Porto Alegre, entre abril e junho, com uma média de pouco mais de 600 corredores por etapa.
Outras cidades começavam também a realizar suas maratonas, como a da Cidade de São Paulo, em 1982. Contudo, esta, que buscava se equipar em popularidade como a prova carioca, não conseguiu atrair grande participação. Chegamos a ter, ao longo da década, em torno de 18 maratonas por ano no Brasil (com base na revista), tais como a da Corpore, Grande Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Montes Claros, Teresina, Uberlândia, João Pessoa e Brasília, entre outras. Mas o número de concluintes era muito baixo, entre 100 a 400 corredores.
Um dos motivos para os poucos participantes era a precária estrutura organizacional das provas. Coisas básicas hoje em dia, como aferição do percurso, hidratação ou mesmo pórtico de largada, não eram vistas em boa parte dessas provas. Porém, o principal problema era, ao inverso de hoje (com largadas congestionadas), a chegada. Como não havia chip eletrônico, eram criados "funis" no final, onde os atletas eram posicionados e ficavam sabendo sua posição ou se tinha ganho na sua categoria.
No entanto, com o aumento demográfico nas corridas, os funis se tornavam insuficientes e, não dando vazão, criavam filas de metros antes da chegada em si. Um problema não somente para as pequenas provas, mas também para a tradicional São Silvestre. Em editorial feroz, em fevereiro de 1983, Werneck, que participara da São Silvestre de 1982, conta que optou por não ter seu resultado oficial a ficar na fila que se formava bem antes do pórtico de chegada, citando que um colaborador da revista tinha corrido 61 minutos até entrar na fila e lá ter ficado por 1 hora.


EXCELENTE ORGANIZAÇÃO. Desta forma, com a popularidade da revista Viva e o prestígio do seu editor, que agora era membro da AIMS (Associação Internacional de Corridas de Rua e Maratonas), foi possível trazer para a maratona carioca algumas características das provas internacionais, como postos de água a cada 5 km, isotônicos em pontos específicos, além de percurso aferido e a presença dos melhores corredores brasileiros da época, como Edson Bergara, Eloy Schleder, João da Matta, competindo com atletas de peso internacional, como o americano Bill Rogers e Ron Tabb e o português Delfim Moreira. Não havia problema na chegada, porque com a tecnologia de computação (senha com código de barras entregue no final), todos tinham certeza de que teriam seu nome na lista de resultados, que eram publicados na revista no mês seguinte, independente da hora que chegassem. Nem todos recebiam medalhas, mas camisas "Completei a Maratona".
Em função dessa boa organização, única então no Brasil, não é de estranhar que centenas de corredores deslocavam-se para a Maratona do Rio de Janeiro, dando a ela números exorbitantes. Em 1982, 3.496 completaram a prova; no ano seguinte, o número subiu para 4.383 e para 4.710 concluintes em 1984, edição especial, uma vez que fora escolhida pela CBAt e COB como classificatória para a participação dos maratonistas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.
Em 1985 e 1986, a Maratona Bradesco/Jornal do Brasil chegava ao seu apogeu. Foram 5.361 concluintes em 1985, enquanto 5.163 corredores largaram de Niterói e completaram no Leme os 42.195 m da inédita edição de 1986. Apenas duas provas chegavam a esses números: a São Silvestre e, surpreendentemente, a Corrida Feminina Avon, de 10 km, que tinham etapas por vários estados, mas em São Paulo, especialmente, chegaram a 6.547 corredoras inscritas com idades entre 8 e mais de 50 anos na edição de 1983.


O COMEÇO DO DECLÍNIO. No entanto, a partir de 1987, a roda desse crescimento vertiginoso parou de girar, sobretudo na maratona. As tentativas de explicação não são tão diretas, e apenas podemos deduzir algumas respostas. Há o abalo provocado pela morte de um dos maiores apóstolos do running desde os anos 70, o norte-americano James Fixx, que teve um infarto em plena atividade física no início de 1985.
Criou-se uma discussão sobre os malefícios da corrida e um medo de que ela poderia fazer mais mal do que bem para saúde, a ponto de um dos principais fundadores do movimento do jogging, o médico Kenneth Cooper, publicar um livro intitulado "Correndo sem medo", onde refutava todas as idéias da corrida enquanto atividade perigosa e explicava que a morte de Fixx estava ligada a uma doença preexistente, bem como sua omissão em fazer check up anuais, e escutar seu corpo, que já dava sinais de que estava entrando em colapso semanas antes.
Ainda assim, com esse imaginário estabelecido, muitos começaram a ver a maratona como um ato extremo, exagerado. E aí surge uma segunda chave de resposta: a idéia de que não era mais preciso fazer 42 km para se sentir um corredor, bastavam corridas de menor distância.
Outra forma de entender esse momento foi a fragmentação da principal maratona do país. Por divergências internas, desde o fim precoce da revista Viva em julho de 1985, José Inácio Werneck saiu do Jornal do Brasil e levou com ele todo o know-how da organização da prova. Organizou a "Maratona da Cidade" em junho de 1987, que contou com 2.487 participantes.
Enquanto isso, a tradicional do Jornal do Brasil continuou a ser realizada em agosto. Essa divisão tirou o impacto dos números da maratona, bem como a capacidade técnica. Tal situação foi se mantendo até 1989, com declínio visível de concluintes, que nesse ano ficou abaixo de 2 mil. Além disso, se observa que aquele furor dos anos 80 também arrefeceu nas provas menores, que sumiram gradativamente e as poucas que continuavam eram bem atrasadas em termos organizacionais, inclusive a nova e posteriormente principal prova de 10 km do país, a Tribuna de Santos. Werneck saiu dos holofotes e foi para os EUA, casado com a maratonista e triatleta americana Dawn Webb.
Em 1990, vendo o declínio do interesse dos participantes, as duas maratonas que havia no Rio resolvem se unir novamente, criando a "Rio Maratona", com percurso novo, agora saindo do estacionamento do Barra Shopping e chegando na Quinta da Boa Vista. Apesar da novidade, ela não empolgou, tendo apenas 2.164 concluintes. No ano seguinte, os apenas 1.440 participantes decretavam de vez o fim do primeiro boom na corrida.
Para o jornal O Dia, à frente da Maratona da Cidade desde 1988, e para a organizadora Sports e Marketing, que controlava a maratona do Jornal do Brasil, mesmo se unindo não havia mais o impacto econômico, tampouco o social. A prova foi deixada de lado, e não houve edição em 1992 e 1993. A corrida no Brasil tinha retrocedido.
Porém, um novo boom ainda estava por vir (veja na CR de outubro).


NOTA DO EDITOR
Para melhor entender porque há 30 anos o número de concluintes na maratona carioca era o mesmo de agora, precisa se levar em conta que as corridas no Brasil naquela época eram em sua absoluta maioria desorganizadas, sem respeito pelos participantes e com péssima estrutura técnica. A exceção era a Maratona do Rio e por essa razão procurada pelos corredores brasileiros, mesmo que houvesse apenas a opção de 42 km.
Ou seja, nos anos 80, quem queria participar de uma corrida igual ao que melhor acontecia no exterior tinha que treinar para correr uma maratona, ao contrário de agora, em que pelo menos as mais importantes por aqui são bem organizadas e oferecem opções de distâncias menores, atraindo maior número de interessados.

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