Revista Contra-Relógio
// História //

O HEXACAMPEONATO DE MARILSON NOS 10 KM TRIBUNA FM, EM SANTOS

Edição 284 - MAIO 2017 - NELTON ARAÚJO

Sempre lembrado por suas conquistas em Nova York e na São Silvestre, esquecemos que o recém aposentado Marilson Gomes dos Santos pavimentou seu caminho rumo ao sucesso na mais rápida prova de 10 km do país.

"Marilson ganhou! Marilson ganhou, gente!", era o que escutava lá pelo km 8 da minha primeira São Silvestre, em 2010. O público se abraçava, pulava e gritava por aquele que seria o último vencedor dessa prova até os dias de hoje. E eu, que já sabia um pouco sobre Marilson, passei e enxergar que este se juntava ao panteão de ícones de uma nova geração de corredores, junto com Vanderlei Cordeiro de Lima. Encerrou sua carreira na maratona olímpica do Rio de Janeiro, em agosto de 2016, e não recebeu o galardão merecido, tanto pela imprensa quanto por nós.
A obsessão nossa e da mídia para que ele superasse o tempo de 2:06:05 de Ronaldo da Costa nos 42 km (Berlim 1998), nunca alcançado, cegou-nos de outros grandes feitos, Foi bicampeão da Maratona de Nova York (2006 e 2008) e tricampeão da Corrida de São Silvestre (2003, 2005 e 2010) e isso é, de fato, lembrado. O que poucos sabem é que Marilson foi o mais dominante atleta da maior e melhor prova de 10 km do país. E que todas suas conquistas que hoje devemos bater palmas a ele começaram após a sua primeira de seis vitórias da 10 Km Tribuna FM, em Santos.
Ano após ano, essa prova do litoral paulista tem virado sinônimo de grandiosidade. Seu percurso majoritariamente plano ao nível do mar é objeto de desejo daqueles que buscam desempenho. A participação maciça da cidade, que abraça a prova, cativa aqueles em busca de uma experiência única no cenário do pedestrianismo brasileiro atual.
A história dos 10 Km Tribuna começa de 1986, quando Marilson dos Santos era apenas uma criança de oito anos que jogava bola na cidade de Ceilândia, próxima a Brasília. Impunha-se uma necessidade de organizar uma seletiva para compor o pelotão de elite da Corrida de São Silvestre e da Corrida Internacional de Santos.
O projeto começou a tomar forma quando o Sistema A Tribuna de Comunicação comprou a ideia, incluindo o evento como parte das festividades dos cinco anos de existência da rádio Tribuna FM. Nascia a "10 Km A Tribuna", que foi realizada em 15 de junho e contou com 900 inscritos; todavia, apenas 600 largaram e 447 concluíram um percurso diferente do atual, pois saíam em direção oposta.
Entre 1989 a 1992 Marilson já se destacava, completando os 10.000 m em 39 minutos, aos 11 anos. E aos 15, mudando-se para São Caetano do Sul, para treinar nas categorias de base do SESI provas curtas de pistas, leia-se, 800, 1.500 e 3.000 m, talvez já passasse a sonhar com uma vitória na São Silvestre.

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MUDANÇAS NA TRIBUNA. Mas, justamente nesse mesmo período, a competição em Santos foi passando por sistemáticas transformações. O percurso começou a ser alterado, buscando extrair o melhor trajeto de suas ruas e avenidas planas (até 2016 foram sete mudanças substanciais) e implantando um sistema de sinalização, as famosas placas de km que temos hoje, assim como a instalação de um posto de hidratação no trajeto.
Como já escrito em edições anteriores, a chegada da Contra-Relógio causou um profundo impacto na organização da competição. Observada in loco na edição de 1994, o editor da revista Tomaz Lourenço, nascido em Santos, criticou a falta de divulgação de resultados na imprensa local, assim como a inexistência de banheiros na largada, problemas que foram paulatinamente sendo resolvidos. A competição começou a crescer, dobrando o número de inscritos de 1.800 para 3.152, inferior apenas ao da São Silvestre.
Logicamente que não há apenas uma variável que explique tal crescimento, contudo, ele pode ser interpretado como consequência de inúmeros fatores, como o bom nível técnico e organizacional do evento, assim como suas virtudes altimétricas e climáticas. Todavia, a popularização se deu sobretudo com a divulgação da mídia, principalmente no novo veículo do corredor naquele momento, a Contra-Relógio.
Não obstante a, até então, única revista de corrida do país elogiasse a competição e a avaliasse como "quase perfeita", nem tudo eram flores. A linha editorial da CR encabeçara várias campanhas pela busca de melhorias nas provas e, entre 1996 e 1997, sua principal frente de batalha era pela aferição correta das provas. E os 10 km da Tribuna não tinha tal aferição. Vejamos um exemplo claro que aponta tal falha: na edição de 1996, Ronaldo da Costa conquistou seu bicampeonato com o tempo de 28:20 e a jovem Márcia Narloch venceu com 33:49. Porém, dois dias antes, ambos competiram no Troféu Brasil e fizeram tempos bem mais altos (mesmo sendo 10 mil metros em pista) em relação à corrida santista. Algo estava errado.
Realizada a aferição no ano seguinte e tendo Vanderlei Cordeiro de Lima como o primeiro recordista dos agora 10 km oficiais, com o tempo de 28:01, a prova, que já tinha renome entre a elite brasileira, passa a ganhar status internacional, sobretudo a partir de 1998, quando a equatoriana Martha Tenório, vencedora da São Silvestre de 1997, estabeleceria o novo recorde, com 32:57 e repetiria a dose no ano seguinte.
Nesse mesmo ano, Marilson dos Santos Gomes, com seus 21 anos e definitivamente considerado uma real promessa do atletismo brasileiro, recém-egresso da categoria juvenil, começou a flertar com as provas de rua. Desde que tinha entrado na categoria juvenil (16 a 19 anos), o brasiliense já disputava algumas competições fora da pista de atletismo, sobretudo prova cross-country, sem perder o rendimento nas pistas (lugar que nunca foi abandonado por ele até sua aposentadoria).


PRIMEIRA MEIA-MARATONA. Foi segundo colocado nos 5.000 metros em 1996 com o tempo de 14:48 (dez anos depois, chegaria ao seu melhor tempo na distância, com 13:19). E a sua grande experiência nas ruas foi com a vitória, em 1997, da meia-maratona do campeonato universitário "Universíade", na cidade italiana de Catânia, onde registrou o expressivo tempo de 1:03:32. Não há resultados expressivos de Marilson nos 10 km, antes dele ir para a prova santista onde, correndo pela equipe do Vasco, foi vice-campeão, chegando a poucos segundos do uruguaio Nestor Garcia. No ano seguinte, novamente subiu ao pódio, na terceira colocação.
Um dos grandes saltos tecnológicos da Tribuna se deu na 16ª edição em 2001, quando começou a usar o "chip" que conhecemos hoje. Não era mais preciso segurar senhas de papel e se preocupar em entregar durante o percurso. Desta forma, os 10 km da corrida santista passavam a ter o equilíbrio quase perfeito entre uma grande festa para o público e a maioria dos corredores, e o rigor técnico que se requer de uma competição internacional.
Marilson também se aperfeiçoava na pista e, sobretudo, nas provas de rua. Na Meia do Rio de Janeiro em 2000, terminou a prova em 1:02:12, e, em 2002, foi vice campeão da São Silvestre, perdendo apenas para o queniano Robert Cheruiyot, tricampeão dos 15 km da prova no último dia do ano, e tetra campeão da Maratona de Boston.
Em 2003, os 10 km da Tribuna passaram a estabelecer o que hoje é uma tradição: a data fixa de ser realizada no terceiro domingo do mês de maio. E Marilson dos Santos voltava à Baixada santista em preparação aos Jogos Pan-Americanos em Santo Domingo (República Dominicana), onde disputou os 5.000 e os 10.000 m em agosto. Apesar de chegar com sobra no tempo de 28:18, o agora atleta do grupo Pão de Açúcar/BMF não estava totalmente satisfeito: seu objetivo em Santos era superar a marca de Vanderlei Cordeiro de Lima (28:01). Tinha forçado na primeira metade, mas não conseguiu manter nos últimos 5 km. Mas, de forma serena, avisava à imprensa que "a quebra do recorde é só questão de tempo".
Tornou-se uma imagem constante na imprensa naquele ano, a partir de sua primeira vitória em Santos e de suas duas medalhas em Santo Domingo (2º nos 10.000m e 3º nos 5.000 m) e especialmente com a realização do seu sonho infantil, ao ganhar sua primeira São Silvestre. Em 2004 deixou a vitória escapar para o queniano Benson Cherono, mas, aos 27 anos, tinha como foco disputar a sua primeira maratona. E tinha feito uma excelente estreia com 2:08:48, sendo sexto colocado na Maratona de Chicago (em outubro daquele ano).
Em 2005, a 10 Km Tribuna FM já fazia jus ao seu slogan de "melhor prova do Brasil" na distância: no anterior tinha implementado, enfim, o tapete de largada, eliminando a pilha humana que se formava na largada, buscando sair o mais rápido possível. Além disso, chegava a 11.500 inscritos. Marilson dos Santos entrou na lista de participantes depois de ter abandonado a Maratona de Lake Biwa no Japão. Junto com seu técnico e fiel escudeiro, Adauto Domingues, reduziu o volume e se preparou especificamente para a prova santista.


BI NA TRIBUNA E NA SÃO SILVESTRE. Mesmo com calor acima dos 30 graus, o aspirante a jogador de futebol de Ceilândia garantiu o bicampeonato, ao assumir a ponta no logo no km 2 e abrir vantagem sobre o angolano João N'Tyamba, tricampeão em 2000-2002. Ele cruzou a linha de chegada em 28:30, com 12 segundos de vantagem sobre o rival. E no final do ano foi também bicampeão da São Silvestre, superando o queniano Robert Cheruiyot.
Quase todos se lembram de Marilson dos Santos em 2006, quando ele venceu a Maratona de Nova York, surpreendendo o principal favorito da prova, o queniano Paul Tergat. No entanto, a sua preparação começou já no início do ano, com a conquista do seu tricampeonato na prova santista. Com 12 mil inscritos correndo sob forte calor, a prova ainda assim manteve alto nível técnico, com Marilson vencendo em 28:27, um minuto à frente do também brasiliense Clodoaldo Gomes dos Santos.
O grande vencedor, no entanto, foi o técnico Adauto Domingues, treinador tanto de Marilson quanto Clodoaldo. E quando questionado sobre a constância nos resultados de Marilson nos últimos anos, era ainda mais otimista: "O Marilson está num momento mágico da vida dele". Seis meses depois, Marilson mostraria ao mundo que as palavras do seu técnico não eram em vão.
Como nem todo dia é dia de pão quente, Marilson amargou a segunda colocação na prova de Santos, que já considerava sua segunda casa, perdendo para o queniano Lawrence Kiprotich. Mas o ano ainda reservava boas surpresas. Repetiu a dose no Pan Americano do Rio de Janeiro, sendo prata nos 10.000 m e bronze nos 5.000 m. Mas a principal conquista foi longe dos holofotes, na pacata cidade italiana de Udine. Lá, ele rompeu a barreira de 1 hora e, mesmo na sétima colocação, fez o tempo de 59:33 nos 21 km.
Em 2008, muitos estranharam a ausência do tricampeão da prova em Santos. O fato é que, um dia antes, ele estava em Nova York disputando os "10k Healthy Kidney", no Central Park, perdendo apenas para o queniano Patrick Makau. Era parte de sua preparação para sua primeira maratona olímpica, em Pequim, que ele não completou. Mas a tristeza pelo abandono foi logo foi superada ao vencer novamente a Maratona de Nova York do mesmo ano.


ENFIM, RECORDE EM SANTOS. Mas o bom filho a casa torna e esta estava de portas abertas para ele, com quase 16 mil corredores e milhares na plateia o assistindo. Logo, Marilson teve que montar uma prateleira nova em casa com os troféus da Tribuna, pois, além de 2003, 2005 e 2006, ele encaixou uma sequência de vitórias soberanas em 2009, 2010 e 2011. Neste último, a prova adotou a última substancial mudança estrutural, com a largada em baias e ondas.
Assim, o brasiliense conseguiu realizar o seu desejo de bater o recorde de Vanderlei Cordeiro na competição de 2011, e venceu com 27:59. Um mês antes, na Maratona de Londres, ele batia na trave e, por 29 segundos, não superou o tempo de Ronaldo da Costa, ficando com o gosto amargo de quem conseguiu o recorde pessoal, mas via, cada vez mais distante, a possibilidade de se tornar o mais rápido brasileiro em todas as provas de fundo.
Mais que ser hexacampeão na mais rápida prova de 10 km do Brasil, Marilson é o único brasileiro a ser campeão da Corrida de São Silves, em 2003, 2005 e 2010.
Só que desde 2011, suas prioridades passaram a mudar. Aos 34 anos, com uma carreira vitoriosa e consolidada e, sobretudo, agora pai de Miguel, fruto de seu relacionamento com a também atleta Juliana Gomes, ele passou a entrar em ritmo de cruzeiro. Na preparação para Maratona Olímpica de Londres em 2012, na qual conquistou a 5ª colocação, optou por não disputar a prova em Santos. E no ano seguinte abandonou, afetado por uma gripe.


APOSENTADORIA. Em 2015, por conta de ter vencido a Maratona de Hamburgo, em final de abril, habilitando-o a disputar sua terceira Olimpíada, decidiu ficar fora da Tribuna, mesmo gesto que fez em 2016, ao se preparar para a maratona olímpica no Rio. No dia 21 de agosto num percurso duro, com um sol para cada um, e umidade altíssima, Marilson dos Santos Gomes fez o último gesto ao público, sendo o segundo melhor brasileiro na prova.
A repercussão de sua aposentadoria foi inversamente proporcional a tudo que ele fez pelo atletismo nacional, pela corrida de rua no Brasil. Hoje desenvolve um papel que é bem condizente com a sua personalidade introspectiva e discreta: tornou-se gestor das categorias de base do Clube de Atletismo BM&FBovespa.
Em uma terra onde trocamos nossos ícones como trocamos de roupa, devemos sempre relembrar daquele que foi o "Rei da Tribuna", o principal nome brasileiro quando nos remetemos a São Silvestre, e o último maratonista brasileiro a correr abaixo de 2h10 em quase vinte anos pós Ronaldo da Costa. E reconhecer que foi naquelas ruas de Santos que Marilson dos Santos pavimentou seu sucesso.
É um campeão, muito menos por conta de suas vitórias, mas por sua integridade, profissionalismo, raça e talento. Que possamos, ao final desse texto, celebrar o brasiliense de Ceilândia, tal como aquela multidão anônima na São Silvestre em 2010, que gritava a plenos pulmões a nós corredores: "Marilson ganhou! Marilson ganhou!"


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