Revista Contra-Relógio
// Motivação //

O antes e o depois na Maratona de Porto Alegre

Edição 274 - JULHO 2016 - FERNANDA PARADIZO

Como 8 corredores definiram o que achavam que aconteceria em sua prova e a avaliação posterior

Estabelecer uma estratégia para uma maratona nem sempre é uma coisa simples. Fatores como temperatura no dia, altimetria do percurso, além de comportamento em treinamentos, resultados em provas de distâncias menores e até mesmo em outras maratonas podem ser um excelente parâmetro para encontrar a melhor forma de encarar os 42 km, mas nem sempre a coisa acontece como o esperado, no dia D.
Para saber como os corredores se comportam em relação à estratégia de prova, ouvimos 8 corredores de diversos níveis técnicos, que enfrentaram no dia 12 de junho a Maratona de Porto Alegre, para contar suas experiências. Em um primeiro momento, pegamos o relato de cada um, na véspera, sobre o que pretendiam para o dia seguinte. Após a prova, conversamos novamente com estes corredores, que nos contaram a realidade que se mostrou no grande dia e se conseguiram seguir a estratégia estabelecida. Confira aqui.

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Soraya Pimenta Palhares
49 anos, Belo Horizonte
Corre há 3 anos e fez seus primeiros 42 km em Porto Alegre


Estratégia: "Pretendo começar mais devagar, sentindo meu corpo, pelo menos até o km 6 ou 8. Depois, vou tentar recuperar um pouquinho até entrar no ritmo que pretendo fazer, que é de mais ou menos 5:42/km, e tentar ir nesse pace até o final. Acredito que possa fechar entre 3h59 e 4h05. Não quero me pressionar para um sub 4h, mas existe a possibilidade. Há duas semanas fiz a Meia do Rio em 1h52, num ritmo e estratégia assim, um pouco mais devagar no início. Para mim funciona melhor. Demoro um pouco para aquecer, então começo sempre conservadora. Nunca quebrei. É minha característica. Sou cuidadosa.


Realidade: "Fazer a primeira maratona foi incrível e inesquecível. Ao longo da prova observei o percurso, a paisagem, os atletas, mas sempre focada na minha estratégia. Um detalhe importante é que tive ao meu lado uma colega de equipe, que estava correndo no mesmo ritmo, e isso foi bem legal e motivador. Como havia programado, comecei mais devagar, no ritmo de 5:50/km. Mantive assim até aproximadamente o km 8, quando fui 'apertando o passo', recuperando aos poucos, até entrar no pace planejado, de 5:42. Em alguns momentos sentia que estava correndo mais forte e diminuía. Passei a maior parte da prova sentindo-me muito bem. No km 28, meu GPS 'apagou', mas como eu estava com uma colega ao meu lado, consegui manter o ritmo. Por volta do km 32, o meu treinador, Marcelo Camargo, e outros amigos que estavam junto ao público aplaudiram e gritaram palavras de incentivo, foi superemocionante. Por volta do km 36, na subida de um viaduto, minhas pernas ficaram muito pesadas e não consegui manter o mesmo ritmo. Tive que diminuir a velocidade e nesse momento me afastei da minha colega. Fui até a linha de chegada como consegui. Como estava sem o relógio, só fiquei sabendo o meu tempo quando saiu o resultado oficial: 4h05. Fiquei super feliz, pois, apesar da dificuldade encontrada do km 36 em diante, consegui atingir a meta proposta. Certamente outras maratonas virão."


Manoel Honorato Cavalcante Pedrosa
42 anos, natural de Recife, mas mora em Santana do Parnaíba
Corre há 5 anos e completou em Porto Alegre a terceira maratona. Seu melhor tempo é de 3h10, em Santiago do Chile 2015.


Estratégia: "Pretendo tentar minha primeira sub 3h. Geralmente não consigo manter o mesmo pace durante todo o percurso. Sei que vou cair no km 32 ou 35 km para a frente. Isso acontece naturalmente. Foi assim nas duas maratonas que fiz e é assim nos meus treinos. Sabendo que vou cair um pouco no último terço de prova, minha estratégia é sair até o km 5 num ritmo de 4:18/km, aquecendo um pouco e depois tentar manter o ritmo de 4:15,até o km 12, quando então tentarei baixar para 4:12 e seguir nesse ritmo até aguentar, com passagem na meia para 1h27. Sei que vou cair naturalmente no final, para um ritmo de 4:20 ou 4:25. Não estou com folga para fazer sub 3h, mas sim no limite. Mas sei que, se não conseguir, estarei ali bem próximo, entre 3h01 e 3h02, que já será meu recorde pessoal. Vou correr de olho no GPS. Talvez eu ainda não tenha a maturidade na corrida para me basear na sensação de esforço. Fora isso, acredito que o clima de Porto Alegre vai ajudar, mas claro que poderia estar um pouco mais quente."


Realidade: "A manhã da maratona foi igual ou um pouco mais fria que os dias anteriores. Faltando 20 minutos para o início da prova, fiz meu aquecimento, um trote leve de aproximadamente 1 km e 5 tiros de 15 segundos. Devidamente aquecido, fui para a largada e já não consegui largar muito à frente do pelotão. Com cerca de 1 km me desvencilhei da minha capa de chuva, que era o meu cobertor improvisado, passando a me sentir verdadeiramente na prova e muito confiante em bater minha meta de ser um maratonista sub 3h. Fiz os primeiros 5 km em ritmo um pouco mais forte (4:09) do que o planejado para testar como eu me comportaria com aquela temperatura. Como estava correndo leve, decidi manter o pace para deixar uma folga para o final. Passei a meia no tempo previsto (1h27), e percebi que tudo estava sob controle. Para aumentar ainda mais a minha motivação, ainda tive um cumprimento e uma batida de mão do Vanderlei Cordeiro de Lima, que estava no final da meia-maratona saudando os corredores. Fui mantendo esse ritmo até o km 32, com o tempo acumulado de 2h13 e o pace médio de 4:10. Tinha alguns segundos de folga e estava 'sobrando', com muito disposição e motivação. Mas no km 33, veio a primeira puxada na panturrilha esquerda, uma contração involuntária, prestes a dar uma cãibra. Mais alguns metros senti a mesma contração, agora na panturrilha direita. A partir de então, as contrações passaram a ser frequentes. No km 35, vendo que não daria para cumprir o planejamento para a maratona sub 3h, decidi reduzir o ritmo para conseguir terminar a prova. Resultado final: 3h02. Este relato mais uma vez reforça a velha máxima das corridas: cada maratona é diferente. Eu nunca, em nenhuma distância, tinha tido cãibras. Aconteceu na mais aguardada, onde eu estava bem preparado. Talvez o frio tenha sido o vilão, os 5 segundos por km de folga que fiz nos primeiros 32 km, uma caminhada a mais que dei no passeio do sábado, uma sessão de musculação que não tenha feito. Nunca vou saber. Agora estou 'mordido' e vou partir para ser um maratonista sub 3h em outra prova.


Rose Macul
51 anos, Valinhos
Corre há 15 anos e estreou nos 42 km na capital gaúcha


Estratégia: "Fiz uma playlist especial para chegar até os 30 km ouvindo muita música. Depois disso, será muito foco, porque sei que vou me cansar mais. Há uma sequência de músicas bem bacanas e animadas, que selecionei com base nos meus treinos, com direito a Madonna, Queen e Maroon 5. A música Sugar, de Maroon 5, será repetida 12 vezes na minha playlist até o km 30. Depois disso, coloquei uma coisa mais zen, instrumental, para que eu realmente não pense em nada a não ser na prova e nos treinos que me levaram a estar ali. Minha estratégia de ritmo será progressiva, visando terminar os 42 km entre 4h05 e 4h15. Por ser uma prova plana, imagino que eu consiga fazer esse ritmo progressivo, começando tranquila e terminando forte."


Realidade: "Confesso que a temperatura me surpreendeu. Estava frio nos dias anteriores, mas eu nunca havia treinado com uma temperatura tão baixa. Demorei uns 11 km para começar a correr direito, num ritmo confortável, mas ainda lutando para esquentar minhas mãos. Tive uma alteração nos meus batimentos cardíacos e uma dor no peito no km 19. Estava indo bem, tinha encaixado meu ritmo, mas decidi parar um pouco, respirar e dar continuidade em pace mais moderado. As músicas cumpriram o objetivo. Mesmo moderado, segui nesse momento sem pensar na prova e no cansaço. Tive cãibras do km 26 até o final. Estava muito frio e minhas mãos doíam. No km 32, as músicas instrumentais começaram a tocar e a partir daí foquei única e exclusivamente na prova. Pensava em cada treino e cada dificuldade que passei até estar ali. Meu tempo não foi conforme esperado. Fechei em 4h32. Aquela parada no momento da dor foi crucial. Mas desistir seria demais. Acho que para uma primeira maratona fui muito bem. E, para minha conquista pessoal, fui vencedora. Eu me superei."


Andrea Brugnoli Vidal
27 anos, Valinhos
Corre há mais de 15 anos e esta foi sua sexta maratona. Tem como melhor resultado 3h58, em Punta del Este 2010.


Estratégia: "Quero tentar baixar das 4h, mas também sei que, como estou com algumas amigas e alunas na prova, sou educadora física, acho importante ajudar e motivar as pessoas a conquistarem seus objetivos. Corro com GPS e sou meio neurótica com pace. Não consigo começar a prova muito abaixo de 6 minutos por km. Pretendo fazer um ritmo progressivo. Vou começar com 6 e pouquinho e tentar chegar nos 5:40 até o final. Imagino passar a meia abaixo de 2h05 e depois tentar forçar o ritmo. Coloquei no meu iPod umas músicas agitadas. Gosto de correr com música e pensar nos problemas durante a corrida. São 42 km para pensar na vida. Minha playlist já esta montando, com base no que estou gostando no momento. Serão músicas agitadas do começo ao fim, tipo reggaeton, pop-rock, como U2, e assim por diante. Nada muito paradinho."


Realidade: "Estava muito frio e odeio frio para qualquer coisa. Esse foi o primeiro desafio da prova. Outra coisa que aconteceu foi que abri mão de correr abaixo das 4h para acompanhar minhas alunas. Aí comecei tentando ditar um ritmo entre 6:15 e 6:10 até o km 18. Elas começaram a reduzir o ritmo para 6:40, uma parte pelo cansaço e outra pela ansiedade. Uma delas estava lesionada e ficamos juntas até o km 32, quando decidi puxar um pouco para 5:50. Eu corria mais forte e aí parava para esperá-las durante boa parte da prova. Fechei os 42 km com 4h24. Não consegui melhorar meu tempo, mas já estou pensando em outra maratona para agora sim tentar uma sub 4h."


Fabio Penna
47 anos, Jundiaí
Corre há 6 anos e Porto Alegre foi sua terceira maratona. SMelhor tempo em Boston 2014, com 2h54.


Estratégia: "Pretendo começar num ritmo e tentar manter até onde der. Não consigo aumentar no final, ou começar mais rápido e cair depois. Sempre corri estabilizado, no mesmo pace do começo ao fim. Faço isso também nos treinos longos, embora em ritmo menos intenso que o de maratona, com cerca de 15 segundos a mais. Vou correr no relógio, no ritmo de 4:15, para fechar em 2h59. É a minha experiência de maratona. Pretendo passar a marca da meia-maratona em 1h29.


Realidade: "Nunca tive a experiência de correr com frio de 5 graus. Encaixei logo de início o ritmo de 4:10, sendo que minha meta era correr a 4:15, para fechar a prova em sub 3h. Passei a meia para 1h26 e fiquei com uma gordura de 3 minutos. Depois do km 34, não consegui mais manter o pace. Fechei a maratona em 3h01, dois minutos acima da meta planejada, mas feliz com o resultado."


Pedro Bianchetti
27 anos, Belo Horizonte
Corre há 13 anos e fez sua estreia em Porto Alegre


Estratégia: "Meus longos foram feitos sempre entre 6:24 e 6:36 por km. Vou tentar fazer esse ritmo nos primeiros 10 km e depois manter os 6:24 até os 35 km. Vou fazer uma reavaliação para os 7 km finais, mas a ideia é tentar manter esse ritmo. Não forçar além da minha percepção e que a prova seja ritmada. Estou confiante que isso vai dar certo. Meu tempo de previsão é de 4h30. Pretendo passar cada 10 km entre 1h05 e 1h06 e a meia nas 2h15. Se eu estiver muito bem, o que acho pouco provável, posso tentar um split negativo, ou seja, fazer a segunda parte mais rápida que a primeira. Eu sigo o GPS. Se o corpo pede para ir um pouco mais rápido, eu não obedeço e mantenho minha estratégia. Mas, se ele pede para ir um pouco mais lento, eu seguro o ritmo e diminuo a velocidade."


Realidade: "Deu tudo certo na maratona. A estratégia funcionou muito bem. Foi até um pouco melhor do que esperava. Comecei a prova bem firme no planejado, fazendo os 5 km iniciais a 6:24. Mas, estava me sentindo muito bem com o frio e resolvi aumentar a velocidade, passando a fazer 6:18 e fui levando nesse ritmo, sendo que na parte final cheguei a correr a 6:00/km. Acabei tirando um pouquinho daqueles primeiros quilômetros que tinha feito a 6:24 e fechei a prova em 4h24. Um fato interessante é que minha segunda metade foi mais rápida que a primeira e meu último quarto de prova foi o mais rápido de todos."


Janaína Luciana Sauer Nunes
42 anos, Lajeado
Corre desde 2011 e PoA foi sua primeira maratona


Estratégia: "Pretendo manter mais ou menos um ritmo constante. Como é minha estreia, não vou num ritmo muito forte. Penso em começar em 5:40 o km e terminar correndo a 5:50 ou 6:00. Ou seja, manter um pace constante e cair naturalmente, levando em conta que estarei mais cansada no terço final. Acredito que consiga manter os 5:40 até mais ou menos o km 25 e estou prevendo uma passagem de meia-maratona para cerca de 2h. No final, a previsão dever dar algo entre 4h06 e 4h10.


Realidade: Considero que minha meta deu certo. Terminei a prova em 4h03, com um pace médio de 5:44, dentro da previsão feita pelo meu técnico, Claiton Lenz, e a qual eu achava difícil de ser colocada em prática. Já no início da prova mudei minha estratégia, pois pensava em manter um ritmo constante. No entanto, como me conheço, sabia que, se tentasse desde o início um ritmo constante, ficaria muito mais lenta no final e o tempo total, automaticamente, seria pior. Assim, optei em iniciar num ritmo um pouco mais forte, mas que me sentisse tranquila, visando compensar a inevitável queda de ritmo depois. Foi o que ocorreu, a partir do km 33, quando o ritmo caiu, e já não havia forças nas pernas para melhorá-lo. A prova se mostrou bem organizada e a temperatura certamente contribuiu para que os corredores conseguissem bons resultados. Fiquei muito satisfeita com meu desempenho, ainda mais considerando ser uma estreia na distância."


Daniela Santarosa
39 anos, Porto Alegre
Corre há 20 anos, tem mais de 25 maratonas e essa foi sua 8ª participação em Porto Alegre. Já venceu a Maratona del Este, no Uruguai, e tem como melhor tempo 3h06.


Estratégia: "Quero manter a homogeneidade de ritmo e tentar correr num pace abaixo de 4:30 e finalizar sub 3h10 a maratona. Se fizer isso, vou cumprir com meus objetivos, considerando minha preparação. Estou prevendo uma passagem de meia entre 1h30 e 1h31. Sei que o ritmo vai cair um pouco no final. Sempre dou uma pequena quebrada no km 32. É uma característica minha. Nunca fiz split negativo na vida, mas também não treino para isso."


Realidade: "Posso falar que o meu objetivo foi concluído com sucesso. Consegui fechar abaixo de 3h10, com quase 2 minutos de folga. Ou seja, cheguei com 3h08 e por 2 segundos não fisguei o 5º lugar geral da prova. Uma pena, mas acontece. Acho que falhei talvez na questão de homogeneidade, mas isso aconteceu muito em função de uma lesão antiga (metatarsoalgia), que começa a doer depois do km 20. Comecei a cair de ritmo depois dos 25 km. Fechei a prova na superação total. Fiquei feliz em função dos poucos treinos que consegui fazer e de uma rotina muito atribulada nos últimos meses. Chegar entre as 10 primeiras numa maratona é algo que me deixa muito feliz. Saí um pouco forte porque percebi que as mulheres que estavam à frente dispararam. Essa disputa pode ter quebrado um pouco minha estratégia e talvez eu tenha pago o preço porque vi que, se não acompanhasse ali, eu ia começar a desmotivar e ficar para e não quis correr este risco. Mas o tempo final acabou sendo bom e deu tudo certo."


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