Revista Contra-Relógio
// Como funciona //

Não seja escravo dos equipamentos

Edição 251 - AGOSTO 2014 - PAULO PRUDENTE

Corredores não devem negligenciar suas sensações e valer-se unicamente de GPS e frequencímetro

Cada vez mais a tecnologia ajuda o homem em todos os segmentos da sociedade. Nos esportes não é diferente. Mas não faz tanto tempo que os corredores treinavam e competiam valendo-se apenas dos estímulos e das sensações do próprio corpo. Não era comum - se voltarmos um pouco mais no tempo, eles sequer existiam - o uso de aparelhos como os de hoje, que ditam ritmo, marcam o tempo, frequência cardíaca e gasto de calorias.
Agora eles são usados à exaustão e até se criou uma certa dependência deles, sendo parte importante do treinamento e da avaliação do rendimento dos atletas. Mas será que ainda é possível e aconselhável que corredores, sejam eles de alto rendimento ou amadores, consigam uma performance competitiva orientando-se apenas pelas sensações do próprio corpo? Para o treinador Ricardo D'Ângelo, que há anos lida com o alto rendimento, não só é possível, como recomendável. E isso pode ser adquirido com a prática.
"O atleta deve se conhecer a ponto de saber em que ritmo está correndo e que sensação de esforço está imprimindo no treinamento e na competição. Alguns, naturalmente, são mais sensíveis à percepção de ritmo, esforço e cansaço, mas essa sensibilidade pode ser adquirida através de exercícios específicos incluídos na rotina de treino do esportista."
D'Ângelo explica que conhecer o próprio corpo é uma vantagem quando a competição é, antes de tudo, contra seus próprios limites, como é caso da corrida. Saber dosar o ritmo de treinamento e competição leva o atleta a alcançar níveis de esforços elevados. Com o uso de um frequencímetro, por exemplo, isso pode não ocorrer. Outro ponto importante é o controle das cargas aplicadas na preparação, as quais podem ser reguladas diariamente, para cima ou para baixo, após a resposta da percepção subjetiva de esforço e cansaço dos atletas.
Nas maratonas mais importantes do mundo, os integrantes do pelotão da frente geralmente correm com os pulsos limpos. Claro que por vezes há marcadores de ritmo ou um relógio digital no carro que vai à frente, mas perceber como o corpo está durante a disputa é vital para um bom resultado. Há quem diga que a ajuda tecnológica pode até desviar esta atenção.
"Na verdade, é muito fácil para estes competidores saber como está na prova e em que ritmo se encontra ou deve imprimir. A maioria dos corredores de elite conhece ritmos máximos e submáximos de diferentes distâncias. Isso é adquirido no treinamento e na própria competição. E assim como trabalhamos a percepção subjetiva do atleta, o mesmo acontece com os treinadores, que também aprendem a desenvolver sua percepção sensitiva através de mecanismos de observação nas sessões diárias dos seus alunos, bem como por meio das respostas apresentadas para cada tipo de estímulo proposto", completa D´Ângelo, que já orientou Vanderlei Cordeiro de Lima.

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USO ADEQUADO. O médico Cláudio Gil, com pós-doutorado em medicina esportiva e do exercício, é um dos profissionais da área mais respeitados no mundo e defende o uso da tecnologia. Para Gil, o que os corredores não devem fazer é deixar que ela faça com que eles percam o poder de decisão, que quase sempre é baseado nas sensações do corpo e nas variáveis encontradas nos treinos e nas provas.
"Quando bem utilizada, a tecnologia só costuma ajudar. Fazendo uma analogia simples, é voar ou dirigir com apoio de instrumentos, mas de olho aberto para eventuais ajustes e correções baseadas no bom senso e em outras variáveis inesperadas. Se somente usar equipamentos, podem-se cometer erros, que em algumas circunstâncias são relevantes e prejudicam o resultado final", explica o médico, lembrando que se o corredor conhecer as limitações dos equipamentos e usá-los de modo adequado - assumindo que as faixas propostas de frequência cardíaca e ritmo estão corretas - serão vários os benefícios.
"Treinar em terrenos, horários e condições climáticas variados aumenta a capacidade de tomada de decisão durante nas diversas situações. Quanto mais experiências e vivências, melhor para a tomada de decisões em tudo na vida, inclusive nas provas de longa duração. Mas ter a tecnologia de suporte ajuda, embora não signifique obrigatoriedade ou dependência", completa Cláudio Gil.


AUTOCONHECIMENTO. Profissional de Educação Física e ex-atleta de alto rendimento, André Gracindo defende a tese de que o fator mais importante para o sucesso de qualquer competidor, sobretudo em provas de longa distância, é o autoconhecimento e a percepção subjetiva de esforço. Para ele a tecnologia é um mero colaborador. "Estes marcadores não têm, definitivamente, o poder de gerar ou prejudicar performance, mas podem ser fortes aliados quando utilizados com propriedade e inteligência, desde a preparação até a competição-alvo. Eles fornecem suporte para a tomada de decisão do atleta, mas o que vale é o estado fisiológico no momento do exercício e não os dados apresentados nos equipamentos."
Gracindo, que usa a corrida como ferramenta para promoção de qualidade de vida em grandes empresas, alerta para o risco de o corredor confiar nos dados apresentados mais do que na percepção de esforço. "Os dados podem ser um forte referencial para tomada de decisão e evolução gradativa das cargas e intensidades baseadas em dados objetivos gerados pelos equipamentos. Mas sejam quais forem, serão sempre auxílio às resoluções. Eles não podem e não poderão entregar resultado ao atleta, já que não podem interpretar sintomas ou sensações relacionadas ao seu estado fisiológico."
Parece não haver dúvidas de que tecnologia, precisa e confiável, sempre será um interessante fator de apoio à evolução física e psicológica do esportista. Mas os especialistas alertam que o perigo está em confiar a evolução do desempenho à tecnologia, que muitas vezes apenas serve para suprir inseguranças e outros aspectos psicológicos dos atletas. Quanto a isso André Gracindo é taxativo: "O equipamento não tem o poder, definitivamente, para influenciar o desempenho do corredor. A decisão de treinar apoiado pela tecnologia é individual e sujeita a fatores como condição econômica, grau de instrução e perfil psicológico. O aparato tecnológico com certeza não será um fator único e determinante para evolução atlética de ninguém."

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