Revista Contra-Relógio
// Cabeça fria //

Não desista! Ou sim?

Edição 223 - ABRIL 2012 - GRACIELA ALLGAIER

Iniciada uma prova, o corredor só tem em mente prosseguir e finalizar. Mas quando pressões externas e internas do organismo o forçam a parar, o que fazer? Desistir em uma prova é para os fracos? Os corredores de longas distâncias estão preparados para um abandono ou devem seguir mesmo em sofrimento?

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Escolhida a prova e estando com a cabeça focada, o corredor direciona seu olhar para a seguinte questão: vou finalizar em quanto tempo? Nos treinos as metas já foram estabelecidas e o ritmo definido. Teoricamente seu corpo está programado para atravessar o percurso programado sem maiores complicações, bastando apenas seguir o plano traçado, se abastecer corretamente pelo percurso e curtir a prova até a chegada.


Um corredor normalmente não inicia uma competição com a expectativa de vir a "quebrar" e ter que desistir, mas e se isso acontecer? Atletas profissionais não raramente passam por essa situação, mas as razões para o abandono tem a ver muito mais com a não possibilidade de uma boa colocação, notadamente pódio e consequentemente premiação em dinheiro, decidindo pela parada, para se poupar para a corrida da semana seguinte ou uma mais importante pela frente. E o corredor comum? Sabe quando parar?


Orlando Danielewicz, de Curitiba, acredita que nenhum resultado justifica passar dos limites e acabar com uma lesão. Ele diz que prefere abandonar ou diminuir o ritmo durante uma prova, para poder continuar a correr amanhã.


Cada corredor está sujeito a uma infinidade de estímulos que vem do nosso próprio corpo, da vida psíquica e do mundo externo. Variações fisiológicas, emoções, pensamentos, alterações das condições climáticas, relações interpessoais estão, a todo momento, exigindo que mecanismos de ajustes mantenham nosso corpo em equilíbrio e focado.


Grande parte dos estímulos é recebida de forma natural pelo organismo, durante os treinos, e o corredor inicia um processo de acomodação dentro de suas menores dificuldades e encontra sua forma de evoluir, adaptando-se aos esforços, conforme sua intensidade, ritmo e contratempos.


No entanto, alguns estímulos têm graus mais elevados de potência, funcionando como gatilhos, que disparados podem atrapalhar toda evolução dentro de uma prova. Alterações físicas como fome, sede, dores ou frio. Psíquicas como ansiedades, medo de lesões ou apenas más lembranças. Esses estímulos podem ou não vir a se transformar em pressões e realmente comprometer uma corrida.



RESPEITE OS ALERTAS. Quanto maior a intensidade e freqüencia dos estímulos, maior a probabilidade de aparecimento de pressões e o risco de desistir torna-se iminente. Enquanto treinamos conhecemos nosso corpo, e certas dores e desconfortos são presentes e conhecidos; sabendo disso, não serão estas as dores que farão o corredor abandonar. Porém as que aumentam gradativamente ou um mal-estar súbito durante uma competição são alertas que devem ser respeitados.


Parar numa corrida torna-se uma alternativa quando se é surpreendido por pressões súbitas que não estavam nos planos, que tiram a possibilidade de controle. Todo atleta conhece o risco que assume quando decide finalizar uma corrida, mesmo em estado de sofrimento. O corredor Guilherme Baron, também da capital paraense, acredita que é importante resistir, suportar a dor, porém se o risco de lesões existe, o desistir torna-se inadiável.


Quanto mais crônica a dor e sem expectativa de solução, maior o comprometimento psicológico e implicação no bom funcionamento do equilíbrio corporal. O estresse causado por pressões psíquicas pode ser leve e até passar despercebido, porém tem uma influência considerável e deve ser observado durante um treino, avaliando-se se geram risco para o atleta.


A curitibana Isabel Correa nunca teve uma lesão em 5 anos de corrida, e relata: "Jamais desisti durante uma prova, porém diminui o ritmo durante várias e não considero abandonar uma derrota. Prefiro sacrificar uma corrida a ficar meses em recuperação".


"Nunca desista!", repetem muitos corredores, lembrando a frase do ciclista muitas vezes campeão do Tour de France e agora maratonista Lance Amstrong: "A dor é passageira, desistir é para sempre". De fato, nas coisas que só se consegue a muito custo, a constância, insistência e tenacidade são ingredientes indispensáveis. Porém saber esperar, recolher as velas do barco quando necessário, pode trazer benefícios que superam as eventuais frustrações pela não conclusão da prova.


O equilíbrio entre o parar e o insistir depende fortemente da maturidade da pessoa e de sua capacidade de avaliar uma situação a longo prazo. Parar em uma corrida muitas vezes é o caminho mais curto para novas conquistas. Procurar essa capacidade de conhecer seu limite e tomar decisões certas, disso sim não podemos desistir.

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