Revista Contra-Relógio
// Brasileiros lá fora //

Na Cidade do Cabo, 56 km com vista para dois mares

Edição 285 - JUNHO 2017 - NELTON ARAÚJO

Se você já tem algumas maratonas acumuladas, a Two Oceans é uma excelente opção para quem pretende um desafio diferente e estrear nas ultramaratonas.

A prova, criada em 1970 como o principal longão para os habitantes da Cidade do Cabo que iriam participar da Comrades, hoje se mantém como uma das principais competições da África do Sul e prima pela qualidade das principais maratonas pelo mundo. Seu nome é em função do percurso ter ao lado, em alguns momentos, os oceanos Índico e Atlântico.
Apesar das passagens aéreas para a Cidade do Cabo serem, em geral, um pouco "salgadas", não é raro você encontrar uma boa promoção ao longo do ano. Tirando isso, os custos de alimentação e hospedagem na capital legislativa do país, onde o Parlamento Nacional e muitos escritórios do governo estão localizados, são bem atrativos, comparando-se aos custos dos países da América Latina.
A expo, no novo e principal centro de convenções da cidade, o Cape Town International Convention Centre, tinha dimensões de feiras das Majors, com estande das principais marcas. Durante os três dias da feira, entre 12 a 14 de abril, foi rápida e eficiente a retirada do kit aos mais dos 11 mil inscritos na ultramaratona, 16 mil na meia (e o evento ainda possui mais três provas, em dias diferentes - uma de 5 km, outra infantil e até uma de trilha, que acontecem na sexta-feira).
Com o kit, recheado, você recebe um chip que serve para todas as provas que estiver inscrito, não precisando devolver. No entanto, se fosse descoberto alguma irregularidade, o acusado poderia ser banido de todas as futuras competições. Interessante é que os inscritos nos 56 km recebiam a camisa no kit, enquanto os de 21 km se quisessem deveriam comprar por 300 rands (algo em torno de 70 reais). Embora os preços da feira não fossem tão convidativos, é uma expo que vale a pena ir mais de uma vez.

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LARGADA CONFUSA. De acordo com o brasileiro Rodrigo Marques, radicado no país e três vezes concluinte da Comrades e da Two Oceans, as provas na África do Sul, costumam ter a largada sempre muito cedo, antes mesmo de o dia raiar. Assim, tradicionalmente no Sábado de Aleluia, às 6h20, foi dada a largada da meia-maratona; 20 minutos depois, começou a de 56 km. E se a organização tinha sido primorosa desde a inscrição até a expo, falhou na largada; apesar de dividida por baias, pré-determinadas pelo seu tempo de conclusão de provas anteriores, não era nada difícil entrar onde quisesse. Por isso mesmo, os primeiros dois quilômetros são bem "muvucados", sendo difícil desenvolver o ritmo programado. Somente no km 10 é que você sente realmente que não está mais fazendo um fartlek.
Com exceção desse problema de largada, a prova é simplesmente perfeita, ainda mais em um dia ensolarado, mas com temperatura amena (que chegou aos 23º C somente pelo meio dia). Os corredores se confraternizam durante o percurso, puxam uma breve conversa (sobretudo se descobrem que você é brasileiro) e depois avançam ou ficam para trás. O número de peito, que deveria ser colocado na parte da frente e nas costas, mostrava quantas meias ou ultras cada um já tinha realizado na Two Oceans.
Talvez por isso, um grupo de jovens ingleses nos abordou e ao saber que era nossa primeira experiência, abriu um largo sorriso e emendou "bem-vindos ao mundo das ultramaratona; vocês irão adorar". Havia grupos de marcadores de ritmo, para finalizar abaixo das 5, 6 e 7 horas. Uma multidão se aglomerava ao redor dos "coelhos" e acatavam todas as estratégias que ele falava. Inclusive de entoar melodicamente a palavra "easy" (calma) no início da prova, para que ninguém se afobasse e acelerasse o que é, realmente, bem tentador.
A hidratação, a princípio a cada 2,5 km, passa a ser a cada quilômetro depois do km 30, onde, alternadamente, eram distribuídos saquinhos de água, dois tipos de bebidas isotônicas e até copinhos de Coca-Cola. Os staffs se confundiam com populares, que também ajudavam entregando os saquinhos, distribuindo sal, frutas, ou apoiando. Realmente a cidade se envolve completamente ao evento, e não importa se você está em bairros predominantes brancos ou de negros e indianos (infelizmente a desigualdade racial ainda é uma realidade num país que teve um dos maiores ícones contra o apartheid - Nelson Mandela).


QUASE PLANA ATÉ O KM 25. Muitos comentam sobre a dificuldade altimétrica da Two Oceans, mas que é praticamente plana até o km 25 km e só depois começam para valer inúmeras subidas e descidas. Por essa razão, vários participantes alternam corrida com caminhada a partir do km 28. Contudo, para os bens treinados, as únicas subidas dignas de tal estratégia estão do km 33 para o 35, na famosa e belíssima Chapman's Peak Drive, assim como logo após a passagem da marca da maratona até o km 47, na sinuosa e íngreme Constantia Nek, onde se sobe 256 metros.
Mas com o apoio do público, logo você se encontra no km 50, onde predominam descidas, e a empolgação de estar muito próximo ao campus da Universidade da Cidade do Cabo motiva até os mais quebrados. Nunca tinha ficado mais de 3 horas correndo e, para minha surpresa, completamos (eu e minha amiga Juliana Gomes) em 5h51, sem sofrer, em momento algum, a pressão de sermos alcançados pelos ônibus, que recolhem aqueles que mesmo tendo passado pelos postos de controle nos km 28 e 42 (até 3h20 e 5h10, respectivamente), caem muito de ritmo depois.
Já entre os competidores de elite, os campeões estiveram presentes na Maratona Olímpica do Rio de Janeiro. Na corrida feminina, a bielorrussa Maryna Damantsevich abriu uma vantagem convincente pela marca de meia-maratona e só manteve o ritmo para completar em 3h37, dez minutos à frente da segunda colocada. O curioso é que esse desempenho fenomenal deu-se por uma confusão: no início, em função da elite largar com os amadores, a atleta tropeçou e caiu algumas vezes e, segundo ela, "pensava que estava em segundo lugar, mas não conseguia encontrar a mulher na minha frente; então eu corri mais rápido para alcançá-la". Já no masculino, o sul-africano Lungile Gongqa também venceu confortavelmente, completando em 3h09 e transformando-se no primeiro nativo da cidade a ganhar a Two Oceans, desde 1973.
É uma prova que entra na lista das "imperdíveis". E para quem quiser lá estar em 2018, as inscrições abrem já neste mês ou no próximo. Confira mais em http://www.twooceansmarathon.org.za.


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