Revista Contra-Relógio
// Contra-Corrente //

Muitas maratonas para poucos maratonistas

Edição 288 - SETEMBRO 2017 - TOMAZ LOURENÇO

Pela força do nome, surgem eventos em que a prova de 42 km é apenas um chamativo para a participação em distâncias menores, onde se inscreve a maioria dos corredores, garantindo bom retorno financeiro.

A cena é um pouco melancólica. Corredores esparsos nos quilômetros finais, muitos se arrastando para completar a longa distância e encontrar, na chegada, um monte de gente alegre com medalha no peito, confraternizando após "participar da maratona", mas tendo feito 21, 10 ou mesmo apenas 5 km. E depois continuarão com essa sensação de "atleta", ao passearem com a camiseta do evento, em que por vezes aparecem em destaque os tais 42 km.
Esta é a realidade brasileira, em que nenhuma das atuais maratonas é "pura", ou seja, oferece apenas a alternativa dos oficiais 42.195 metros, como se vê nas grandes corridas lá de fora, como Nova York, Berlim, Paris, Chicago e até Buenos Aires. E a situação se reforça com o surgimento de mais duas intituladas maratonas, mas que na prática serão eventos que terão a distância respectiva, mas que estão focadas em atrair o grosso dos participantes para as corridas menores.
Estamos falando da 1ª Maratona Cidade de Salvador, dia 22 de outubro, com opções de 5, 10, 21 e 42 km, promovida pela prefeitura da capital baiana. A outra surgirá no ano que vem, a 1ª Maratona Cidade de Florianópolis, dia 3 de junho, portanto na mesma data do Rio de Janeiro. Ela é organizada pela Norte Marketing e, assim como a prova carioca, terá 7, 21 e 42 km.
Dessa forma, a capital catarinense passará a ter duas maratonas oficiais (a outra ocorreu dia 27 do mês passado, pela ATSports), como já acontece com São Paulo (da Yescom e da Iguana), totalizando então 11 provas na distância aferida; além das 5 citadas, mais as de Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Uberlândia, Goiânia, Curitiba e Recife. É muita maratona para os poucos maratonistas brasileiros, que poderiam começar a exigir tratamento especial para participar desses eventos, que apelam para o lendário nome surgido na Grécia.
No ano passado, tivemos 18.755 concluintes nas 9 provas oficiais do país, mas como muitos fazem mais de uma maratona, o número real não deve ter chegado a 17 mil, que devem ser acrescidos de outros 3 mil que correm apenas maratonas no exterior. Assim, os teóricos 20 mil maratonistas brasileiros serão disputados por 11 provas em 2018 (se não surgirem outras...). Apenas em junho teremos 3 maratonas (Rio, Floripa, Porto Alegre) e talvez Salvador, que já avisou que trará sua segunda edição para meados do ano.
Tudo isso sem contar outras provas que se denominam maratonas, mas que não passam de revezamentos. Também temos algumas que oferecem a opção dos 42 km solo, sendo a distância apenas aproximada, não medida por técnico credenciado sequer da federação estadual de atletismo, daí não serem consideradas para o Ranking Brasileiro de Maratonistas. É o caso, por exemplo, da realizada em Campinas (16/07), da de Votorantim (03/09) e em Sorocaba (19/11).

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VALORIZAÇÃO DOS MARATONISTAS. Talvez fosse o caso de se criar um movimento nas redes sociais para o advento da primeira maratona "pura" no Brasil, em que os corredores que decidem enfrentar os 42 km fossem devidamente enaltecidos e não apenas usados para justificar o nome do evento. Vale rememorar que nos anos 1980 o Rio sediava uma maratona de verdade, em distância única, que chegou a ter mais de 6 mil participantes.
O Ranking Brasileiro de Maratonistas foi criado em 1994 pela CR, exatamente com o objetivo de valorizar os que treinam para a longa distância, assim como para prestigiar as maratonas nacionais oficiais. Mas como estas são na verdade multicorridas, muita gente não se anima a treinar para os 42 km, o que, em um país quase todo tropical, representa uma distância efetivamente bastante dura de ser vencida.
E mesmo os que optam por encarar o desafio acabam por não fazer uma boa preparação, e o resultado é um maior sofrimento no dia, agravado pelo sentimento de abandono ao chegar e encontrar um final de festa. Não se pode esquecer que a maioria completa em mais de 4 horas os 42 km, sendo os números das nossas maiores provas na distância um testemunho claro dessa realidade. Este ano, 32% no Rio e 30% em São Paulo fizeram em mais de 5 horas. Em comparação, foram apenas 12% em Porto Alegre, confirmando essa prova como a que oferece melhores condições para resultados rápidos.
E dos que terminaram esses dois eventos, somente 23 e 21%, respectivamente, conseguiram ingressar no Ranking da CR (46% na capital gaúcha), cujos tempos-limite por faixa etária são 30 minutos acima dos exigidos para Boston, portanto, não tão rigorosos. Na média, 1/3 dos corredores em nossas maratonas entra para essa listagem seletiva, que é publicada sempre na edição de janeiro. No Ranking 2016, exatos 4.996 conseguiram se classificar, com direito ao Diploma de Maratonista, que especifica o tempo alcançado, em que local e a posição entre os melhores do país na categoria de idade.


SUGESTÕES DA REVISTA. Apesar do crescimento do número de corridas no Brasil e de participantes, que devem chegar perto de 800 mil, temos um dos mais baixos percentuais de maratonistas (no caso, apenas 2,5%). Para reverter essa situação, a CR sugere: 1) que a largada seja bem cedo, madrugada mesmo; 2) que os percursos sejam os mais planos possíveis; 3) que o abastecimento seja caprichado, notadamente na segunda metade; 4) que os corredores dos 42 km sejam devidamente reconhecidos por seu esforço, com medalhas diferenciadas, assim como outros mimos na chegada.
E uma quinta sugestão bem interessante seria que os organizadores promovessem um longão, 3 semanas antes da maratona, que poderia ser em circuito de 5 km, oferecendo abastecimento em dois pontos do percurso. As pessoas correriam o que quisessem, mas seriam estimuladas a dar pelo menos 6 voltas. Mais gente participaria dos 42 km melhor condicionada e, principalmente, faria a prova correndo o tempo todo e sem tanto sofrimento, com uma sensação de vitória e superação ao final. Não é demais enfatizar que a maior parte dos participantes das maratonas é da própria cidade e das próximas, daí que esse treinão informal teria enorme adesão e poderia, obviamente, ser capitalizado pela organização.
Enfim, as empresas que estão à frente das maratonas brasileiras não podem esquecer que, além da concorrência interna crescente, sofrem ainda com o grande interesse dos corredores do país pelas lá de fora, como se constata nos números expressivos de nossos participantes em Buenos Aires, Berlim, Disney, Nova York e Santiago, para ficar apenas nas 5 maiores.


Próximas maratonas oficiais brasileiras
24/09 - Foz do Iguaçu - 11,5 e 42 km (solo e revezamento) - www.sescpr.com.br/maratona
01/10 - Recife - 5, 10, 21 e 42 km - www.maratonamauriciodenassau.com.br
22/10 - Salvador - 5, 10, 21, 40 (revezamento) e 42 km - www.maratonasalvador.com.br
19/11 - Curitiba - 5, 10 e 42 km (solo e revezamento) - www.maratonadecuritiba.com
08/04 - São Paulo - 4, 8, 24 e 42 km - www.maratonadesaopaulo.com.br
22/04 - Uberlândia - 5, 21 e 42 km - www.apuanaesportes.com.br
03/06 - Rio de Janeiro - 6, 21 e 42 km - www.maratonadorio.com.br
03/06 - Florianópolis - 7, 21 e 42 km - www.42kdefloripa.com
10/06 - Porto Alegre - 21 e 42 km - www.esportif.com.br/evento/maratona18
29/07 - São Paulo - 21 e 42 km - www.spcitymarathon.com.br

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