Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

Mini de Nova York: marco para as corridas femininas

Edição 258 - MARÇO 2015 - NELTON ARAÚJO

Provas puramente femininas não são fenômeno recente. A primeira surgiu em 1972 em Nova York e tinha como objetivo não somente divulgar um novo produto de beleza, mas consolidar a revolução das mulheres, que chegava a seu ápice.

Uma das principais novidades ao cenário brasileiro de corridas em 2014 foi o surgimento da W21K Asics, a primeira meia maratona feminina da América Latina. Apesar de seu sucesso tanto comercial quanto de crítica, e que teve assegurada a confirmação da segunda edição no Outubro Rosa deste ano, o evento ressuscitou uma velha discussão sobre a necessidade de se organizar corridas exclusivas para mulheres. Segregação? Machismo? Feminismo? Nicho de mercado? Forma de incentivar o público alvo a buscar novos desafios?
Enfim, são perguntas que não pretendemos dar uma resposta final e acabada nas próximas linhas, mas o debate de idéias nos permite lembrar o quão longe as mulheres têm ido no nosso esporte.
Nos Estados Unidos, a meia-maratona é um fenômeno dominado pela clientela feminina, com a média atual de 61% de participantes nesses eventos. Já o número de mulheres concluintes em maratona passou de 10% em 1980 para 43% em 2013. O total de chegadas femininas no mercado de corridas norte-americano saltou de 1.199 mil em 1990 para 10.844 mil, contra um avanço de 3.597 mil para 8.180 entre os homens.
No Brasil, segundo as análises dos pesquisadores Nelson Evêncio e Danilo Santos sobre as 50 maiores provas brasileiras em 2014, os números indicam um crescimento gradual das mulheres nas corridas, mas que continuam predominantemente masculinas, já que apenas 27,8% das participantes de meias maratonas são mulheres, 19% nas maratonas e 35% nas provas de 10 km.
Os números acima apontam para uma participação feminina ainda pequena no mercado brasileiro, por falta de estímulos. No Brasil, as iniciativas foram poucas, com destaque para o famoso "Circuito Avon de Corridas" nos anos 80 do século passado. Décadas depois, outras provas, como o "Circuito Vênus" e a "WRun" pegaram esse gancho e levaram muitas mulheres a tentar fazer seus primeiros 5 e 10 km na rua. E mais recentemente tem acontecido iniciativa da rede McDonald´s.
O ponto a ser ressaltado é que o movimento norte-americano, seguido pelo europeu, teve um pontapé inicial. E esse estímulo foi a criação da primeira corrida de rua exclusivamente para mulheres: a Mini Maratona de Nova York. Mais do que apenas descrever o surgimento dessa prova-marco, a nossa meta a partir de agora é mostrar o ambiente histórico e como a combinação de tais elementos fizeram surgir uma legião de mulheres-corredoras.

Publicidade


MESMOS DIREITOS. Olhando isoladamente a "Mini Maratona de NY", uma prova de 10 km que surgiu em 1972 e que cresce ininterruptamente até os dias de hoje, podemos avaliar que foi uma corrida precursora, inédita e que inaugurou um novo nicho para o mercado de running. Ela foi tudo isso, mas foi além: é um marco das mudanças geracionais que vinham surgindo pós Segunda Guerra Mundial.
Cada geração tem um clima social e político único, que molda o desenvolvimento tanto do indivíduo como da sociedade. Sendo assim, a criação de um evento de longa distância para as mulheres representa o marco das lutas que desde finais dos anos 1950 as mulheres travavam para ter os mesmos direitos desportivos que os homens. Como é senso comum, foi uma época em que grande parte dos médicos e especialistas no esporte não recomendava a corrida de longa distância para as mulheres, estigmatizadas como "sexo frágil".
Algumas tentativas de criação de provas para mulheres eram esboçadas já no início da década de 1960 pelo Road Runners Club of América (Clube de Corredores de Rua da América). Com sede em Nova York, possuía em seu quadro pessoas que posteriormente criariam a New York Road Runners e lançariam a Mini e a Maratona de Nova York, como Ted Corbitt e o legendário Fred Lebow.
Foram criadas, assim, algumas provas de cross country para mulheres, mas que não passavam de 2 milhas a 2 milhas e meia (entre 3,2 km a 4 km ). Isso para evitar rusgas com a União Atlética Amadora (AAU), que ditava as regras das competições amadoras e que, em seu regulamento, proibia: 1) A participação feminina em maratonas; 2) Homens e mulheres correndo ao mesmo tempo em alguma prova.
Gradualmente essas regras começaram a ser rompidas, ou subversivamente como a participação de K.V. Switzer na Maratona de Boston de 1967, que gerou inúmera publicidade positiva perante a mídia. Da mesma forma, os próprios programas da RRCA fomentavam a participação recreacional do maior número de pessoas, o que incluiria homens, mulheres e crianças.
Assim, sob a idéia de "Run-For-Your-Life" (Corra para sua vida, ou seja, o esporte direcionado para a saúde e o bem-estar), mulheres e meninas foram incentivadas a correrem provas de 2 a 3 milhas pelos parques de Nova York. Em 1965, mesmo com a oposição severa da AAU, a RRCA realizou seu primeiro Campeonato Nacional de Cross Country feminino. Em 1970, a entidade criou a primeira maratona feminina, em Nova Jersey, também sobre protestos da União Amadora. A prova contou com seis participantes e, como regra, era uma prova fechada: apenas corredoras do RRCA poderiam participar.


MARATONISTA MODELO. Em 1967, Katherine Switzer conseguiu enganar a organização da Maratona de Boston e ter sua inscrição homologada. Foram emblemáticas as fotos do diretor da prova tentando tirá-la da competição, sem sucesso. Embora não tenha sido a primeira a correr uma maratona de forma subversiva, Switzer teve o importante papel de chamar atenção para o problema das restrições às mulheres maratonistas, em um dos mais prestigiados eventos internacionais. E isso não apenas chamou a atenção da mídia, mas, sobretudo, para o movimento feminista que crescia a passos largos nos anos 1960.
A onda do feminismo foi baseada na liberdade de escolha que a recém-criada pílula anticoncepcional lhe dava. Donas do seu próprio corpo e livres para fazerem suas escolhas, o movimento feminista conscientizava as mulheres da necessidade de seu bem-estar físico. E ser maratonista passou a ser um modelo para essa nova geração.
Os cinco anos depois da famosa história de Switzer na Maratona de Boston foram de pressão para igualdade entre os sexos. Em 1970, a primeira Maratona de Nova York, que teve 127 inscritos, estava aberta para as mulheres, contudo a única inscrita adoeceu. Em abril de 1972, a Maratona de Boston aceitaria que as mulheres fossem admitidas oficialmente para a prova, desde que qualificadas para tal. E que teve a participação agora oficial de Switzer e vitória da americana Nina Kuscsik, figuras importantíssimas para a criação da primeira Mini Maratona de NY.
O ano de 1972 ainda seria o de uma revolução das mulheres no desporto, em todas as esferas. Em setembro, nas Olimpíadas de Munique, embora sejam muito mais lembrados os ataques terroristas que culminaram com a morte de atletas israelenses, há de se destacar a criação da corrida mais longa para as mulheres, a de 1.500 metros. E em outubro, seis mulheres entraram na Maratona de Nova York.
Mas, sobretudo, foi na arena política que as teorias contra a participação feminina em provas de longa distância foram abaixo, já que em junho desse ano, lei federal estabelecia que "nenhuma pessoa nos Estados Unidos deve, com base no sexo, ser impedida da participação em eventos...".


MARKETING. É nesse contexto político, esportivo, social e cultural, que uma empresa de cosméticos, a S.C. Johnson, aproximou-se de Fred Lebow, o recém empossado presidente da New York Road Runners e sugeriu a criação de uma maratona exclusivamente feminina em Nova York, como estratégia de divulgação do seu novo produto, um gel-depilador para mulheres. Lebow, com todo seu tino comercial, viu ali uma excelente oportunidade.
A idéia de uma prova feminina era mais revolucionária do que se poderia supor. Seria a primeira vez que haveria uma prova "aberta" a todas as mulheres. Ou seja, romperia com o padrão imposto pela AAU de provas controladas, de percurso de não mais do que 3 milhas e restritas apenas a participantes da federação que organizava. Agora ela estaria aberta a todas as mulheres que quisessem se inscrever.
A realização da Mini Maratona de Nova York, se bem feita, poderia abrir as portas para um novo mundo ou poderia relegar as provas femininas ao obscurantismo de antes de 1960. Para isso, Fred Lebow se aliou a duas figuras emblemáticas e de peso na sua organização: Switzer e Kuscsik, que eram referências no mundo das corridas. Switzer por sua dedicação em advogar as corridas para as mulheres, enfrentando organizadores e incentivando mulheres de todo o mundo. Mais tarde ela seria a diretora e fundadora do mundialmente famoso "Circuito de corridas de Mulheres Avon", que teve edições também no Brasil, e que foi a principal plataforma de lobby para a inclusão da maratona feminina nos Jogos Olímpicos.
Nina liderava e inspirava pelo exemplo, através de uma longeva e vitoriosa carreira que inclui 12 maratonas de Boston, na qual venceu em 1972, mesmo ano que venceria a de Nova York, evento na qual ela participou ativamente no protesto contra a regra de sair 10 minutos antes que os homens. Clamando por igualdade, as 12 inscritas, lideradas por Kuscsik, sentaram e esperaram pela largada masculina para então começar a correr, mesmo que isso resultasse em um acréscimo ao tempo final delas.


NO CENTRAL PARK. Lebow, Switzer e Kuscsik então apresentaram à empresa patrocinadora uma nova idéia para o evento que queriam patrocinar, para divulgar um creme de depilação rosa feito exclusivamente para o público feminino, que se chamava "Crazylegs" (pernas loucas). Ao invés de uma maratona dentro do Central Park, uma distância ainda muito intimidadora para o incipiente público feminino, sugeriram que fosse feito uma prova de 6 milhas (9,6 km) nos arredores do Central Park e terminando no mesmo ponto da maratona. A distância seria ideal para que as mulheres se interessassem em participar, mesmo com pouco tempo para se preparar.
Pela sua semelhança de percurso, e também atrair atenção pelo peso que a Maratona de Nova York ganhava ano após ano, Fred Lebow sugeriu que a prova fosse chamada de "Crazylegs Mini Maratona de Nova York". O que poderia parecer depreciativo, na verdade foi uma sacada genial, segundo Switzer. Em entrevista, ela disse que a palavra "Mini" se referia à minissaia, grande coqueluche da moda. Logo chamaria atenção das mulheres facilmente.
Com o aval da patrocinadora e com a data marcada, segundo sábado do mês de junho (data, que desde então, nunca se alterou), era hora de recrutar as mulheres para participarem. Rodaram toda a cidade colocando pôsteres, panfletando em faculdades e escolas. Lebow foi além: persuadiu várias coelhinhas da "Playboy" a participar do evento e foi a boates ver se alguma dançarina se interessava. Ao final, tirando as Coelhinhas da "Playboy", que só correram alguns metros, 78 mulheres, incluindo a filha de 8 anos de Nina, apareceram naquele quente e úmido sábado de junho, um número muito expressivo para aquela época. Todas usavam uma camisa branca que tinha o logotipo e nome do patrocinador do creme de depilação acima do seu número de peito, que já vinha estampado.


CORREDORAS SÉRIAS. A mídia, que via o evento com olhar muito mais de curiosidade do que como uma competição, estava presente no Central Park, e ao ver as cofundadoras Switzer e Kuscsik também preparadas para correr, pediram para que caminhassem para mostrar suas saias e, obviamente, as pernas, para fotos publicitárias. A negativa delas veio com uma frase emblemática: "Não! Somos corredoras sérias!", que refletia o grande objetivo daquele momento: mais do que um negócio, o evento tinha o objetivo de fomentar novas corredoras. Mas novas "corredoras sérias", que viam na disciplina do treinamento um espaço para desenvolver sua liberdade, sua vontade e seu bem-estar, em iguais condições às dos homens.
A prova em si teve problemas estruturais, como a falta de postos de hidratação, o que fez algumas mulheres saírem da rota e irem a alguns bares para comprar água ou mesmo refrigerante. A vitória foi da californiana de 17 anos Jackie Dixon, que completou a prova em 37:01 e cuja viagem para Nova York foi paga pelo diário San Francisco Examiner como prêmio de uma corrida local. As co-fundadoras não fizeram feio também: Nina Kuscsik terminou em terceiro lugar, com 39:02, e Switzer foi a sexta colocada com 42:31.


SEIS RECORDES MUNDIAIS. Ao longo de seus 40 anos, a atual "Oakley Mini Maratona de Nova York 10k" já foi palco para a atuação de algumas das maiores corredoras na história, incluindo Ingrid Kristiansen, Tegla Loroupe, Paula Radcliffe e Grete Waitz. Esta ficara tão inspirada com a prova que fundou em 1984 em sua terra natal, Noruega, a "Grete Waitz Lopet", uma prova de 5 km que foi realizada até 2004 e chegou à expressiva marca de 48.461 mulheres participantes. Apesar de um percurso muito técnico e realizada em época do ano não tão propícia a bons tempos, a Mini Maratona de Nova York já foi palco de seis recordes mundiais nos 10 km.
A Mini, para seus fundadores, visou o público feminino, e não como uma forma de segregar, mas de incentivar mulheres a dar seus primeiros passos e que futuramente não se intimidassem com distâncias maiores, tal qual uma maratona. Switzer, em entrevista em 2012, quando a prova completou 40 anos, lembra que com a Mini "finalmente fomos capazes de apoiar a capacidade da mulher para participar de corridas".
Nina, na mesma edição comemorativa de 40 anos, dizia que ninguém achava que fosse possível reunir tantas mulheres para essa atividade. Em poucos anos, tudo isso mudou. E é fato: desde 1972, o número de participantes cresceu exponencialmente, chegando a quase 6 mil mulheres nas últimas edições.
Ao mesmo tempo, os números de participantes não apenas nas maratonas, mas como praticantes em geral da modalidade, foi se ampliando. Das 78 mulheres que iniciaram a prova em Nova York, hoje já podemos dizer que elas ocupam uma fatia generosa do número de corredores. A corrida não é mais um esporte exclusivamente masculino, mas ainda há muito que se investir em atrair novas participantes, que por vezes evitam a atividade por ter como contra-exemplo o biótipo das principais corredoras da atualidade, oposto ao modelo de beleza regente nos dias atuais. Uma visão estreita, que renega o lado lúdico, social e libertador que a corrida pode trazer.
O sucesso das corridas femininas no Brasil e no mundo ainda hoje mostra que é um modelo que continua contribuindo na fomentação de novas corredoras ao possibilitar uma experiência única com a corrida, que não se restringe a tempos ou ritmos.
Dessa forma, 43 anos atrás, a Mini Maratona de Nova York, foi mais do que um evento de marketing: caracterizou-se como um dos principais elementos para acionar o gatilho de uma revolução sócio-cultural, que ia além da corrida em si, alterando o tecido social das vidas das mulheres.

Deixe o seu comentário


Publicidade

















11 3031.8664
Rua Hermes Fontes, 67
São Paulo - SP





© 1993 - 2014
Todos os direitos reservados