Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

Maratona de Londres: idealizada em um pub

Edição 259 - ABRIL 2015 - NELTON ARAÚJO

Em 1978, dois ex-atletas olímpicos e então jornalistas viram o entusiasmo de amigos sobre uma tal Maratona de Nova York e decidiram descobrir o que ela tinha de tão especial. Voltaram de lá com um único desejo: fazer na capital inglesa algo tão intenso e emocionante quanto. Criariam uma das principais provas do mundo e um exemplo vivo de que competições esportivas podem e devem servir aos mais necessitados.


Final de 1978, dia de confraternização entre corredores do Ranelagh Harriers Running Club, no pub The Dysart Arms, em Londres, e o tema era um só: a monstruosidade da Maratona de Nova York. Alguns ali tinham acabado de vir totalmente enebriados do clima da competição na "Big Apple", exaltando a atmosfera vibrante, onde milhares de espectadores não permitiam que qualquer corredor desistisse.
Ao lado desse grupo, dois ex-medalistas Olímpicos nos anos 1950 e que eram agora jornalistas esportivos olhavam aquele entusiasmo com um pouco de ceticismo. Chris Brasher, medalhista de ouro nos 3.000 m com barreiras em Melbourne em 1956, e John Disley, bronze na mesma prova quatro anos antes, em Helsinque, acompanhavam como jornalistas do jornal Observer algumas corridas pela Inglaterra, como a longeva Maratona Politécnica de Londres, e estavam surpresos com a diferença quanto ao público: ao invés de milhares nas ruas, as provas britânicas tinham, em geral, a presença de um punhado de espectadores, entre homens e vacas, e pouco mais de vinte participantes. Entre um gole e outro naquele pub londrino, decidiram pagar para ver: correriam a maratona de NY em 1979. Apesar de ex-atletas, estavam fora de suas melhores formas físicas, e fazer uma maratona não seria nada fácil.
Foram, completaram os 42 km e nunca mais seriam os mesmos. Aquela maratona feita para as massas era maravilhosa, sobretudo porque reunia tudo de mais perfeito que uma prova pode oferecer. Pontos turísticos mundialmente famosos, a camaradagem entre os competidores e, sim, seus amigos do Ranelagh Harriers Running Club estavam corretos: a massa de espectadores por todos os pontos da prova impulsionava tanto quanto emocionava até o mais frio dos homens.
Chris Brasher, severamente tocado, mal pisava de volta a Londres e escrevia um artigo no The Observer com o pomposo título de "A maior corrida da raça humana". Descrevia cada movimento da prova, o companheirismo entre os 11.532 homens e mulheres de 40 países, que apresentava como uma grande família feliz, que trabalhava junto, ria e alcançava o impossível.
O artigo poderia terminar por aí, incentivando os corredores ingleses a irem a Nova York desfrutar do "maior evento popular" que existia até então. Mas Brasher deu um passo além: desafiou os londrinos a criarem um evento semelhante. Provocou os leitores à reflexão, afinal eles tinham um percurso magnífico, pontos turísticos tao belos quanto Nova York, mas perguntava-se se Londres poderia encenar um festival igual. Será que eles tinham "coração e hospitalidade para receber o mundo?".

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SONHO EM REALIDADE. Após a publicação do artigo e de sua repercussão, o editor-geral do The Observer, Donald Trelford, acreditando nas palavras do ex-medalhista olímpico, ofereceu um almoço no início de 1980 e colocou na mesma mesa, Brasher, Disley, e pessoas relevantes para a formulação da prova: o Conselho da Grande Londres (GLC), autoridades policiais, a Associação de Atletas Amadores e mesmo a Junta de Turismo de Londres.
Uma maratona na cidade londrina não era necessariamente uma novidade. Em 1908, nas Olimpíadas, a maratona teve pela primeira vez a distância de 42,195 km, pela história já conhecida, do desejo do Rei Eduardo VII de que a competição começasse nos jardins do Palácio de Verão e, assim, a família real pudesse acompanhar a largada. Um ano depois foi criada a Maratona Politécnica, intimamente conhecida como Poly, que foi palco de oito recordes mundiais na sua longeva vida, entre 1909 a 1996.
Mas entre uma garfada ali, um argumento persuasivo acolá, foi decidido que a ideia de criar uma maratona era não somente boa como valeria a pena persegui-la tendo como inspiração a NYCM. Havia apenas dois únicos entraves.
O primeiro era a dificuldade de se criar um percurso de 42 quilômetros, passando pelos principais pontos turísticos e sem criar um caos no trânsito de Londres. Um problema muito parecido com que Nova York teve quando quis mudar seu percurso de quatro voltas dentro do Central Park para uma prova "de fora para dentro", ou seja, passando pelos cinco distritos que compõem a cidade. Problema resolvido num par de semanas, quando Disley apresentou um percurso confeccionado para usar o Rio Tâmisa como um corrimão para o tráfego, enquanto somente duas pontes seriam fechadas. E uma delas, a Tower Bridge, já ficava fechada aos domingos mesmo. O percurso teve aprovação da polícia e muitos elogios pela Junta de Turismo, já que o percurso passava por varios símbolos emblemáticos de Londres.
Já o segundo entrave não era tão fácil de resolver. O Conselho da Grande Londres, uma espécie de prefeitura da cidade, impôs uma condição a Disley e Brasher, de que nenhum centavo da CGL seria dado para a criação ou manutenção do evento. Um orçamento por baixo para a Maratona de Londres apontava a quantia significativa de 75 mil libras além do que seria recebido pelas inscrições. Mesmo colocando suas casas sob hipoteca, Disley e Brasher não tinham garantias se conseguiriam esse valor. Por sorte, a Gillette desistiu de patrocinar sua copa de Cricket em 1981, e um dos seus conselheiros indicou que eles investissem na prova londrina. O negócio foi fechado por três anos no valor de exatos 75 mil libras (equivalente a 350 mil reais) por ano.
Apoio da mídia, do público, das autoridades, percurso definido e dinheiro para bancar tudo. Isso não era suficiente para a dupla protagonista da Maratona de Londres. Na esperança de espelhar cenas que tinham vivenciado em Nova York e colocar o Reino Unido no mapa como um país capaz de organizar grandes eventos, eles criaram um estatuto de utilidade pública, onde concebiam seis objetivos para a Maratona de Londres: 1) Melhorar o padrão global do corredor de maratona britânico, fornecendo um curso rápido e forte concorrência internacional; 2) Mostrar que a humanidade, em certas ocasiões, pode ser unida; 3) Levantar dinheiro para recreação e lazer em Londres; 4) Ajudar a impulsionar o turismo na capital inglesa; 5) Provar que "a Grã-Bretanha é a melhor", quando se trata de organizar grandes eventos; 6) Se divertir e proporcionar um pouco de alegria e senso de realização em um mundo conturbado.


PRIMEIRA EM 1981. Assim, em 29 de março de 1981, cinco meses depois daquele almoço promovido pelo editor do The Observer, 6.255 participantes completavam a primeira Maratona de Londres tal qual conhecemos. E desde o seu início, já era marcada por um rigoroso processo de seleção. Foram mais de 20 mil pedidos de inscrição para se selecionar pouco mais de um terço de participantes, 7.747 no total. Sem contratempos, a prova foi excepcional.
A despeito de todo frio e chuva, comuns na capital do reino britânico, milhares de espectadores nas ruas, e de telespectadores que assistiam a maratona pela BBC tornaram o ar menos gélido e foram ao delírio ao ver a linda e incomum chegada do americano Dick Beardsley e do norueguês Inge Simonsen cruzando a faixa de mãos dadas, empatados na primeira colocação com o tempo de 2:11:48. Viram também a britânica Joyce Smith, mãe de dois filhos e com 43 anos, não somente vencer a prova feminina como quebrar o recorde britânico com o tempo de 2:29:57.
O estrondoso sucesso da competição levou os organizadores a receberem não 20 mil pedidos de inscrição na edição seguinte, mas nada mais, nada menos, que 90 mil, de corredores ao redor do mundo. Ainda muito seletiva, a prova mais que dobrou de tamanho, chegando a 18.059 participantes em 1982. Para efeitos de comparação, nesse mesmo ano, a Maratona de Nova York, a que inspirou os idealizadores de Londres, teve 14.011 concluintes. Ao menos em números, o desejo de Chris Brasher e John Disley já tinha superado a "maior prova da raça humana".


MUDANÇAS NO PERCURSO. Assim como as outras grandes maratonas, Londres sofreu ao longo desses 34 anos poucas e pontuais mudanças em seu percurso. Basicamente plano e rápido, começa no bairro de Blackheath em um considerável declive e a partir daí passa pelos principais cartões postais de Londres, como ao lado do veleiro Cutty Sark, símbolo de uma época, a Tower Bridge, construída sobre o famoso rio Tâmisa, o The Docks, o Porto de Londres, fora aqueles que dispensam apresentações, como o Big Ben e o Palácio de Buckingham.
As mais marcantes mudanças estão na chegada da competição. A primeira Maratona de Londres terminou na região de Constitution Hill, entre o Green Park e Palácio de Buckingham. De 1982 até 1993, a corrida acabava na ponte de Westminster com as Casas do Parlamento como plano de fundo. Mas, em 1994, trabalhos de reparação da ponte fizeram a linha de chegada ser transferida para The Mall, uma importante avenida de Londres, que se estende até o Palácio de Buckingham, onde tem sido desde então.


TUDO POR UMA BOA CAUSA. Se a Maratona de Londres, mesmo hoje consolidada e no rol das grandes e mais desejadas competições do mundo, ainda é eclipsada em carisma e público por Nova York e Boston, o mesmo não pode ser dito quanto a sua importância na angariação de fundos. E, nesse ponto, é indiscutível que não há corrida no mundo que se aproxima da londrina. Segundo a organização, até 2014, o evento levantou mais de 53 milhões de libras para caridade. Talvez seja essa uma das características mais marcantes da maratona inglesa.
A Maratona de Londres é recordista mundial no Guinness como o maior evento de arrecadação de fundos no mundo. Nas últimas duas décadas anos, a organização não apenas pede doações, como incentiva, criando um sistema que disponibiliza mais de 15 mil inscrições garantidas para os que conseguem arrecadar para 750 instituições de caridade. Outras 550 entidades participam a cada cinco anos. Em outras palavras, um terço das vagas é disponibilizado somente para as instituições de caridade, tornando o processo de sorteio das outras extremamente difícil, até para quem é da região.
Tudo começou em 1984, quando os organizadores da maratona escolheram uma organização de caridade e solicitaram à Fundação de Ajuda ao Esporte a captação de recursos em troca de alguns lugares na competição. E os escolhidos para arrecadar fundos chegam até as últimas consequências em prol disso. Em 2012, a inglesa Claire Squires, de 30 anos, resolveu correr Londres para arrecadar fundos para samaritanos, abrindo, inclusive uma página na Internet. Não se tem certeza sobre o motivo da sua morte (alguns alegam que foi o uso indevido de suplementos pré-treino), mas o fato é que, bem próximo do final da prova, ela teve um colapso e morreu. E sua morte gerou uma comoção que culminou em um aumento de doações de 500 mil para mais de um milhão de libras.
Esse sistema de incentivo para caridade é ainda incipiente nas corridas brasileiras, talvez por isso leve a estranheza. Mas já existem grupos que, inspirados no sistema da Maratona de Londres, promovem corridas ou treinos com o intuito de angariar fundos aos mais necessitados, como o projeto "Corra por uma causa", no Rio de Janeiro.
Contudo, as vagas por caridade não foram à primeira inovação no sentido de diminuir as desigualdades entre os corredores. A primeira maratona de cadeira de rodas foi realizada em 1983 e o evento foi visto como a primeira tentativa de redução do estigma que envolve atletas com deficiência.


PALCO DE EXPECTATIVAS. Hoje, a Maratona de Londres é o principal evento esportivo britânico, palco de um recorde mundial masculino, em 2002, pelo marroquino naturalizado americano Khalid Khannouchi, e de três recordes mundiais femininos, não coincidentemente por três dos maiores nomes da história da maratona pelas mulheres: as norueguesas Grete Waitz, em 1983, e Ingrid Kristiansen, em 1985, e a inglesa Paula Radcliffe em 2003.
Embora a prova de Londres não atraia admiração e desejo por parte de muitos, especialmente pela dificuldade nas inscrições, ela é sempre muito esperada pelo público e, sobretudo, analistas esportivos, pela qualidade dos atletas de elite participantes.
No dia 26 deste mês, ela contará com a presença de simplesmente os três homens mais rápidos da história da maratona: os quenianos Dennis Kimetto, detentor do tempo de 2:02:57, Emmanuel Mutai, com 2:03:13 e ex-recordista mundial e do percurso londrino, Wilson Kipsang, com 2:03:23. Junte-se a eles a grande promessa dos próximos anos na maratona, o etíope Kenenisa Bekele e temos o que a organização já chama de "Quarteto Fantástico".
Não podemos esquecer também das mulheres. No mesmo palco onde Paula Radciffe bateu o recorde mundial até hoje intacto e irá pendurar seus tênis, Edna Kiplagat, Mary Keitany, Florence Kiplagat e Priscah Jeptoo, a única a não ter um sub 2h20, irão tentar diminuir a distância daqueles icônicos 2:15:25, alcançados por Radcliffe a longíquos treze anos atrás.
E imaginar que tudo isso começou com um desejo de duas pessoas, entre músicas ensurdecedoras e algumas canecas de cerveja, dentro de um bar em Londres...

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