Revista Contra-Relógio
// Polêmica //

Maratona de Boston com e sem índice

Edição 287 - AGOSTO 2017 - FERNANDA PARADIZO

Será que a centenária prova vai perder o seu charme de ser um evento seletivo, agora que muitos lá correm, mesmo não qualificados, para conseguir a medalha especial das Majors?

Quando o assunto é Maratona de Boston, "índice" é a primeira coisa que vem à cabeça de qualquer corredor. Afinal, a maratona mais cobiçada do mundo é também a mais seletiva. A primeira edição da prova aconteceu em 1897, mas os organizadores só começaram a impor tempo classificatório para garantir uma inscrição em 1970, devido ao crescimento progressivo da corrida de rua nos Estados Unidos e aumento do interesse pela legendária prova.
Em 1969, ela havia atingido 1.342 inscritos e a organização considerou que o percurso não comportava mais do que mil participantes para manter a qualidade e boa estrutura do evento. Foi então estabelecido um corte de 4h em 1970. Mesmo assim, a prova ultrapassou os mil participantes e nova limitação teve que ser adotada: só se inscrivia quem tinha feito até 3h30 em uma prova oficial. Foram várias alterações ao longo do tempo. O atual sistema de qualificação por faixa etária (ver tabela) só foi estabelecido em 1990 e a última atualização de tempos é de 2013.
A lendária Boston sempre esteve na mira dos corredores apaixonados por maratona e daqueles que desejavam ficar entre os melhores, mas ganhou interesse especial depois que foi criado o circuito das World Marathon Majors, que incluiu Boston, Londres, Berlim, Chicago, Nova York e mais recentemente Tóquio. Embora no início fosse um circuito pensado exclusivamente para a premiação da elite, os amadores do mundo inteiro logo abraçaram a ideia de completar as seis.
E quando a Six Medal foi implantada em 2016, o desejo aumentou. Boston, que antes era algo inatingível para alguns, caiu ainda mais no gosto dos maratonistas, abrindo caminhos alternativos para métodos diferenciados de inscrição, que não privilegiam apenas os "mais rápidos". Embora já existissem há um bom tempo as chamadas inscrições "sem índices", que podem ser comercializadas por agências internacionais oficias ou adquiridas pelo sistema de caridade, elas começaram a ser mais requisitas por aqueles que querem carimbar no seu passaporte as seis Majors. Por outro lado, a vontade de obter o índice, e conseguir a vaga por "mérito", é e sempre será um desejo forte entre os corredores, mas será que aqueles que procuram um lugar em Boston dentro das regras não se sentem de alguma forma desmerecidos?

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PRECONCEITO. A médica goiana Mara Roberta Neves sentiu isso na pele. E o preconceito inicial não partiu de outros corredores, mas dela mesma. No início, ela não se achava merecedora de uma vaga. "Visitei uma amiga em Boston bem na época da maratona, um ano após o atentado. Senti aquela energia e, por um instante, quis estar ali", lembra ela, que corre há três anos e possui tempos bem acima dos índices exigidos para a faixa etária. "Nossa mente pode ser nossa maior força ou nosso maior sabotador. Naquele momento eu poderia escolher esquecer aquela sensação e me manter na ideia de que Boston não era para mim. Afinal, só corredores mais rápidos estão ali."
Mesmo assim Mara não mediu esforços para garantir sua inscrição. "Para alcançar algo, temos que abrir um leque de possibilidades para descobrirmos em qual nos encaixamos", conta ela, que acabou recorrendo às poucas vagas destinadas às agências. No final de 2014, mandou email para a Kamel Turismo e entrou numa lista de espera. A possibilidade da vaga veio apenas em 2016, quando conseguiu a concorrida inscrição para 2017. Nesse meio-tempo, a corredora já tinha concluído quatro das Majors, faltando apenas Boston e Londres.
"No ano passado havia consultado várias agências para correr em Londres por caridade, mas estava lotado. Então, no final de janeiro, fui informada sobre uma nova vaga, por desistência de voluntário", lembra Mara, que não pensou duas vezes. Arrecadou o valor, pagando do bolso a maior parte. "Acho que, se realmente você quer, trabalhe todas as opções. Fiz tudo dentro das regras. Larguei lá atrás e não atrapalhei ninguém", comenta a corredora, lembrando que correr Londres por caridade foi uma experiência incrível. "Conhecer a causa pela qual você corre é de arrepiar. Boston também oferece essa opção e cada um segue pelo caminho que lhe cabe."


SIX MEDAL EM TÓQUIO. Quem compartilha da mesma opinião de Mara é o corredor paulista Genecy Toti Jr, que foi um dos primeiros brasileiros a completar todas as Majors e receber a Six Medal, em 2016, participando inclusive da cerimônia de entrega para os primeiros contemplados em Tóquio. "Comecei a correr no final de 2010. Minha primeira maratona veio em 2011, em Nova York. Aí soube das cinco Majors e fiz Berlim em 2012, Chicago em 2013, Boston em 2014 e Londres em 2015. Quando soube da Six Medal, faltava Tóquio para concluir", conta Genecy, que acredita que há sim preconceito em relação aos que correm sem índice, mas não se importou com isso. "Eu queria fazer todas. Larguei na última onda e terminei a prova em 4h31", conta ele.
O advogado Narciso Carvalho de Azevedo também não se importou em tentar uma vaga de "não-qualificado" diretamente com agência. Corredor desde 1987, ele já concluiu 23 maratonas e vive no Rio de Janeiro desde os 5 anos, mas nasceu em Guimarães, Portugal. Ainda que tenha 3h16 como melhor tempo nos 42 km, uma marca que o colocaria facilmente dentro do índice de categorias abaixo de sua faixa etária hoje ou pelo menos começar a almejar uma vaga entre os qualificados, o maratonista só se interessou em correr Boston mais recentemente, para cumprir as seis Majors.
"Entre 1989 e 1994, meus tempos variavam entre 3h16 e 3h25, mas naquela época era impensável correr em Boston ou em qualquer outro lugar fora do Rio de Janeiro, principalmente pela falta de recursos financeiros." A oportunidade veio apenas em 2015 e Narciso faz questão de ressaltar que não sentiu nenhuma distinção entre quem corre com e sem índice, a não ser largar na baia compatível com o tempo de performance. "Sinceramente não percebi nenhuma diferença. Fui à feira, encontrei e conversei com brasileiros nas duas situações e não notei nada que seja digno de registro", diz ele, que gostou tanto da prova que quer repetir a experiência.


TRÊS ANOS TENTANDO. Ainda que não veja nada de errado em quem busque uma vaga dentro das regras e pelo caminho que seja possível para cada um, o educador físico paulista Roberto Kaisserlian diz que não correria Boston sem índice e acredita que carimbar o passaporte para a prova tem um gostinho especial. "É um percurso muito difícil. O nível de preparação física para conseguir a qualificação tem que ser grande e faz com que a prova seja restritiva e ao mesmo tempo especial", conta Roberto, que atualmente mora em Miami e lembra que se dedicou três anos para conquistar a vaga.
O corredor confessa que achava ser um sonho um tanto quanto distante, por conta do investimento que deve ser feito, com treinamento adequado, alimentação balanceada, fisioterapia, exames, testes físicos, material esportivo etc. "Sou treinador de corrida, mas fui procurar um com mais experiência na área para me orientar. Tentei Berlim e Chicago, e nada feito." O índice foi obtido no ano passado em Porto Alegre, quando correu a maratona em 3h07, resultado que o qualificou para Boston este ano, onde conseguiu seu recorde pessoal (3:00:40) e já garantiu a vaga para 2018.


SENSAÇÃO OLÍMPICA. O biólogo paulista Eduardo Hamasato conseguiu a inscrição recentemente e também afirma que não correria Boston sem índice. "Sou um corredor competitivo e que gosta de desafios. Se ainda não tivesse conseguido a marca estaria focado em outras provas até ter sucesso", conta, reforçando que a busca pela qualificação requer anos de corrida e muita disciplina.
Quando começou a correr, em 2009, achava que era um objetivo muito distante, mas aos poucos passou a acreditar na possibilidade. Na primeira maratona, em 2012, fez 3h35. Depois de algumas tentativas, a que chegou mais perto foi em 2015, quando correu Chicago para 3h08 e ficou a 12 segundos do corte da sua faixa etária. Em Berlim 2016 fechou em 2h58, conseguindo o tempo com muita folga para a prova de 2018. "A sensação de se qualificar comparo a um atleta profissional conseguir uma vaga para disputar as Olimpíadas", diz Eduardo.
Apesar de lutar para conseguir a vaga, o biólogo vê como algo natural buscá-la de outra forma. "As ações de doações ocorrem em todas as Majors. E optando por determinada entidade você ainda está ajudando uma causa. Também vejo as agências como uma alternativa para correr a Maratona de Londres, por exemplo, em que as inscrições são muito difíceis de se conseguir por sorteio. E o índice em maratonas só vale para quem mora na Inglaterra."


GRATIFICANTE. O engenheiro paulista Rogério Levy de Queiroz acabou de conseguir também em Porto Alegre a vaga para Boston, mas considera válidos os outros caminhos para estar em Boston. "Vejo com naturalidade e igualmente respeito uma pessoa que consiga uma inscrição (seja por agência, caridade ou índice). O fato de estar apto a correr os 42 km por si só já é uma grande conquista e algo a ser celebrado", considera Rogério, que começou a correr em 2009 e só em 2014 fez sua primeira maratona.
Mas Rogério concorda que não existe nada mais gratificante do que ter um incentivo a mais para buscar seus objetivos. "Para mim, como atleta amador, foi como alcançar um índice olímpico, uma classificação para uma Copa do Mundo de Futebol." E por isso mesmo Rogério não mediu esforços para conseguir a vaga. Buscou o suporte de uma assessoria esportiva em 2014 e a vontade de buscar desafios maiores cresceu. Correu a SP City Marathon em 2016, quando completou em 3h20, e daí começou a considerar a possibilidade de alcançar o índice, que era de 3h15. Em Porto Alegre deste ano, marcou 3h09 e praticamente carimbou seu passaporte para 2018.
A analista de sistemas carioca Juliana Gomes ainda não conseguiu estar entre as melhores da faixa etária de Boston, mas é um sonho que ela quer manter vivo. "Corro há quase 8 anos e já fiz 7 maratonas nos últimos 4 anos e uma ultra (Two Oceans). Meu melhor tempo é 3h58. O índice para minha faixa etária este ano vai para 3h40", conta a corredora, que sente que seu objetivo ainda está um pouco distante, mas nem por isso vai abandoná-lo.
"Tenho um projeto de ir melhorando conforme o índice for ficando mais fácil para minha faixa etária, até o dia em que os resultados se cruzarem. Sei que existem pessoas que compram vagas, pagam para ter uma vaga de forma ilícita. Eu mesma já recebi ofertas para ter o índice. Mas não quero 'ter' um Boston Qualify. Quero 'ser' uma Boston Qualify", completa Juliana.


COMPRA DE VAGA! Seja por índice, caridade ou agência, uma coisa a maioria dos corredores concorda: "que todo o processo de inscrição seja feito dentro das regras e de forma correta". Isso porque tem aumentado o número de fraudadores em Boston e em outras provas que beneficiam os atletas de performance, como Nova York. São pessoas que conseguem os índices de forma obscura e como têm sido muitos, o assunto está sendo encarado tão seriamente pelos organizadores de Boston que os falsificadores estão sendo pouco a pouco descobertos, punidos e banidos para sempre das corridas.
E não precisamos ir muito longe para descobrir esse "jeitinho" de conseguir uma vaga. Assim como Juliana já recebeu ofertas para que alguém consiga a vaga para ela, é sabido que aqui no Brasil há muitos corredores dispostos a correr com dois chips no pé para obter uma vaga para um amigo ou um comprador. Por essa razão, os organizadores de Boston estão se mobilizando cada vez mais para ir à caça dos impostores, comparando tempos, checando resultados em duplicidade e verificando fotos dos que alegam ter o índice.

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