Revista Contra-Relógio
// Fisioterapia //

Lesionou? Parar ou continuar correndo?

Edição 240 - SETEMBRO 2013 - YARA ACHÔA

Não adianta fingir que a dor não existe e ignorar o médico. O melhor é buscar ajuda antes que as coisas se compliquem. A boa notícia é que nem sempre é preciso deixar de praticar a atividade enquanto se trata o problema.

Tudo o que o corredor não quer ouvir é que ele tem que parar por causa de uma lesão. Daí que muitas vezes finge que não está sentindo aquela dorzinha, mesmo quando ela começa a ganhar maiores proporções, adiando ao máximo a consulta a um especialista. Mas não é fugindo do problema que ele desaparece.
"Por menor que seja a dor, sempre é bom parar para observar quando ela surge; qual seu grau de intensidade; em que tipos de treinos aparece e quanto tempo o corredor consegue suportar. Se existe dor, na maioria das vezes existe algum princípio de processo inflamatório, que pode ocorrer por um desequilíbrio muscular ou por algum trauma direto ou indireto", alerta Cristiano Salgado, maratonista e fisioterapeuta, de Belo Horizonte.
A partir do momento em que você nota a persistência da dor há vários dias, que o uso de terapias (gelo ou calor) não vem auxiliando na melhora e seus treinos estão prejudicados, é importante procurar um médico do esporte para que seja realizado um diagnóstico correto e um encaminhamento para tratamento, se necessário. "Os riscos de ignorar o problema e continuar treinando é que a lesão pode se agravar, prejudicando e prolongando o tratamento", diz Ricardo Nahas, ortopedista e médico do Centro de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital 9 de Julho, de São Paulo. Ou seja, se nada fizer, mais tempo você poderá ficar longe do esporte.
Para alívio daqueles que não podem pensar em parar de correr, em alguns casos é possível se recuperar de uma lesão sem interromper o treinamento. "Desde, é claro, que não se coloque em risco o paciente ou se agrave a lesão", avisa Nahas.
Existem casos em que o vilão é o volume de treino, em outros é a intensidade. Cabe ao profissional que atende o corredor entender sua atividade e programar o exercício de forma correta. "Diante da maioria das lesões que envolvem músculos, tendões e desequilíbrios musculares, quase sempre podemos manter o atleta em atividade. No meu trabalho, geralmente levo o corredor a uma redução de 50% do volume total de treinos na semana e aumento o intervalo entre um dia e outro de treino, liberando somente os que não irão interferir na lesão. A partir do momento que ele começa a dar um retorno positivo, vamos aos 75% de treinamento e posteriormente chegamos à normalidade, ou seja, aos 100%. A não interrupção total da atividade durante o tratamento é importante para evolução da pessoa, para sua autoestima, mas sempre levando em conta a lesão e em que estágio de dor se encontra", argumenta Salgado.
A seguir os especialistas explicam os principais problemas que podem tirar o corredor da pista, e como tratá-los e/ou administrá-los junto aos treinos.

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O QUE FAZER EM CADA CASO


Problema: condromalácia patelar (joelho de corredor)
O que é: Trata-se de dores no joelho, resultado de degeneração da cartilagem atrás da patela em contato com o fêmur.
Onde dói: O ponto é bem na frente do joelho, uma dor em pressão ou como agulhadas, geralmente sentida ao descer escadas, agachar, permanecer sentado por muito tempo.
Tratamento: Recursos analgésicos para alívio da dor e fortalecimento muscular. "É importante detectarmos onde está ocorrendo o desequilíbrio para programarmos um trabalho dinâmico e funcional em cima dessa musculatura", esclarece Salgado.


PARAR OU NÃO DE CORRER: Não completamente; mas é preciso reduzir o volume e aumentar o intervalo entre os dias de atividade, além de realizar um trabalho de força associado.


Problema: síndrome do compartimento medial da tíbia (canelite)
O que é: Inflamação no tecido que reveste o osso (periósteo), gerado por uma reação por estresse nesse compartimento, ocorrida na maioria das vezes por acúmulo de impacto ou alteração biomecânica da marcha.
Onde dói: Na canela.
Tratamento: Consiste em eletroterapia (para controle da dor), fortalecimentos, correção de padrões de movimento, análise e ajuste do tipo de pisada e periodização dos treinos.


PARAR OU NÃO DE CORRER: É necessária uma diminuição considerável do volume de treino para existir o descanso; o afastamento da atividade pode variar de 7 a 60 dias, dependendo da gravidade.


Problema: síndrome da banda iliotibial
O que é: Fruto do atrito da banda iliotibial com o côndilo femoral, que ocorre principalmente quando o sentido da corrida é único e a sobrecarga é maior nesta região do joelho.
Onde dói: O incômodo se manifesta na parte lateral do joelho, como uma pontada, muitas vezes restringindo o movimento de flexo-extensão.
Tratamento: A sugestão é eletrotermoterapia local, massagens para relaxamento da banda, alongamentos, fortalecimento específico (funcional) e gelo. "É possível fazer um trabalho paralelo de tratamento com os treinos, desde que o volume seja bem reduzido, sem correr em terrenos variados e com um intervalo de dois a três dias entre um treino e outro. O tempo de tratamento é relativo para cada paciente, mas o resultado é satisfatório", afirma Salgado.


PARAR OU NÃO DE CORRER: Se as modificações do treino fizerem desaparecer o atrito, é possível continuar sem problemas. "Caso contrário, o recomendável é parar entre 15 (no mínimo) e 60 dias", aconselha Nahas.


Problema: fascite plantar
O que é: Processo inflamatório que acomete a fáscia plantar. Dependendo do estágio da inflamação, a corrida fica bem limitada e a dor passa a ser constante no dia a dia.
Onde dói: Na planta do pé, com dor localizada e em pontada sentida principalmente na hora em que você pisa no chão ao acordar.
Tratamento: Eletroterapia local, alongamentos da fáscia e de toda cadeia posterior, fortalecimento da musculatura intrínseca do pé, correção da pisada. Muitas vezes o uso de uma palmilha biomecânica também auxilia o tratamento, assim como uma órtese noturna e gelo. "Algumas lesões, como a fascite plantar, podem desaparecer da mesma maneira como surgiram, desde que a causa também desapareça", diz Nahas.


PARAR OU NÃO DE CORRER: Depende da intensidade da dor e de sua causa; de qualquer forma, é preciso diminuir o volume de treino, aumentar o intervalo entre um dia e outro de exercícios e manter o tratamento durante todo período.


Problema: tendinite de Aquiles
O que é: Processo inflamatório do tendão de Aquiles e/ou da bainha que o reveste.
Onde dói: A região posterior do tornozelo.
Tratamento: As indicações são eletrotermoterapia local, alongamentos de cadeia posterior, fortalecimento específico e medidas anti-inflamatórias. "E, no momento certo, gelo e uma boa análise de movimento para sabermos o que precisa ser mudado para combatermos a possível causa", diz Salgado.


PARAR OU NÃO DE CORRER: Não completamente, mas é aconselhável espaçar os dias de treinos e diminuir a intensidade e o volume, ao mesmo tempo em que se faz o tratamento.


Problema: fratura por estresse
O que é: Fissuras microscópicas que ocorrem no osso, consequência de excessos que impedem a recuperação completa, após o estímulo repetido do treinamento.
Onde dói: No local onde se encontra a fratura, que pode se dar em qualquer osso do corpo. Na corrida, a fratura por estresse castiga geralmente tíbia, fíbula e metatarsos.
Tratamento: Descanso da atividade para dar tempo de ocorrer a reabsorção do tecido ósseo.


PARAR OU NÃO DE CORRER: É necessário parar de correr; o tempo de recuperação varia de um até seis ou nove meses, dependendo da gravidade. O retorno às atividades só é liberado quando exames radiológicos de controle confirmarem a consolidação óssea.

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