Revista Contra-Relógio
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José João: nosso bicampeão da São Silvestre

Edição 207 - DEZEMBRO 2010 - VICENT SOBRINHO

Conheça momentos marcantes da vida de JJS, desde seu contato inesperado com a São Silvestre, em 1973, suas duas vitórias em 1980 e 1985, seus treinamentos e o amor pelas corridas, até os dias de hoje, como organizador de provas pelo Brasil. E sem nunca parar de correr...

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José João da Silva, rapaz de17 anos, recém chegado a São Paulo, vindo de Bezerros/PE, era estudante do Colégio Assunção na alameda Lorena, próximo ao restaurante em que trabalhava. Era o último dia do ano de 1973 e sua paixão pela corrida tinha hora marcada para começar, estava programada pelo destino e começaria quase como um susto, um acidente. João conta como foi:


"Eu trabalhava nos serviços gerais da Cantina Nova Romeu e para ganhar um trocadinho a mais fazia entregas à noite, pois recebia caixinha; lembro que era a última das entregas daquela noite, para um endereço do outro lado da avenida Paulista, e quando ia atravessá-la fui impedido por um policial, que pediu para que esperasse, já que em poucos minutos estaria passando o pelotão de frente da São Silvestre; achei uma novidade, pois eu nada sabia sobre a prova. No retorno ao restaurante, contei aos meus patrões, Radamés e Romeu Pelliciari, porque tinha demorado.


Naquela época, o único esporte que eu fazia era taekendo, numa academia do lado do colégio e passei a curtir a idéia de correr. Foi pelo incentivo de Radamés e Romeu que comecei a treinar, já no dia 3 de janeiro. Comecei sozinho, descendo e subindo a rua Pamplona e um dia sem querer fui parar no Parque do Ibirapuera. Só conhecia de nome e nem sabia que era público, achei legal e voltei lá uma ou duas vezes naquela semana. Eu estava em São Paulo há pouco tempo e morava numa pensão ao lado da cantina. Nunca via quase ninguém correndo no Ibirapuera, só as mesmas poucas pessoas com seus cachorrinhos; realmente a corrida ainda não tinha entrado na moda. O meu verdadeiro anjo foi o Radamés, que me incentivava e gostava da minha corrida, que era muita destrambelhada, porém rápida; foi ele que me estimulou e até passou a me levar para treinar após a meia noite. Às vezes saíamos às 2 da manhã de frente da Gazeta, ele de carro atrás, marcando o tempo e me dando cobertura; fazíamos todo o percurso da São Silvestre.


Em 1975 o Radamés me disse para ir procurar um clube, alguém para me treinar, mas eu não sabia como, na verdade eu não conhecia nada só gostava de correr, mas já estava me incomodando a situação de não conseguir evoluir nos tempos. Até que um dia, treinando no Ibirapuera, um corredor que já estava cansado de tanto me ver por lá comentou: "Ei você corre bem! Quem treina você?" Eu expliquei toda a história e que não tinha ninguém me orientando, por isso treinava sozinho! Ele falou que era sócio do Clube Pinheiros e sugeriu que eu desse um pulo lá. Fiquei com aquilo na cabeça e passados alguns dias peguei minha bicicleta e fui até lá; ao chegar na portaria, perguntei ao guarda (um conterrâneo...), na maior ingenuidade, se havia jeito de treinar corrida no clube e ele me indicou que falasse com o treinador Pedrão.


Só que o Pedrão, que eu nem sabia, era um dos melhores técnicos da época, especializado em velocistas e saltadores, e por isso ele me mandou procurar o Carlão. Após um teste, o Carlão gostou do resultado na pista de carvão do clube, apesar de comentar que eu corria sentado, sem estilo, meio estropiado, mas mesmo assim era rápido. Eu continuei trabalhando na pizzaria por mais dois anos, fazendo entregas, e treinando agora de verdade, fazendo tiros em rampa, educativos etc.


Após pouco tempo de treinamento eu já era o melhor entre os corredores do Pinheiros, mesmo não tendo mudado muito meu jeito de correr. Na minha primeira preliminar da São Silvestre, em 1975 (que era indispensável participar para conseguir se inscrever na prova) fui o 64º na geral e na minha estréia na SS consegui terminar entre os cem primeiros, na 89ª posição. Fiquei no Clube Pinheiro de 1975 até 1980, e agradeço por esse período que me permitiu crescer no esporte. Em função de meus resultados fui depois para o São Paulo F. C., onde fiquei de 1980 a 1987, ao encerrar minha carreira."



A VITÓRIA DE 1980! E A DERROTA EM 1984. Aos primeiros minutos de 1981, José João da Silva se consagrou por quebrar um tabu e ser o primeiro brasileiro a vencer a São Silvestre. O Brasil amargava uma fila desde 1946, quando a prova passou ser internacional, ficando 34 anos o lugar mais alto do pódio de nossa principal corrida de rua dominado por estrangeiros. O público ansiava por um campeão nacional e após seu feito o ex-entregador de pizza se tornou um ícone do atletismo brasileiro, recebendo várias homenagens.


Para José João, a São Silvestre hoje é mais confortável de se correr. "O percurso com 15 km é mais suave, enquanto naquela época, que já tinha 6 mil participantes, era muito curto. Eu elogio a mudança; se fosse 15, acho que até seria melhor para mim porque eu gostava da distância, que cumpria em 42 minutos, mas existiam poucas provas nessa medida". José João lembra que em sua 1ª vitória a elite largava junto com a massa. "Saíamos junto com a massa e praticamente não se separava a elite, já que a divisão era feita por um simples barbante, retirado alguns minutos antes da largada, quando os demais corredores se adiantavam. No momento do tiro precisava ser veloz para não ser atrapalhado e ter muito cuidado para não cair."


José recordou que a prova melhorou em 1983, quando a elite foi posicionada 50 metros na frente. "Já fez uma diferença grande, sendo possível sair forte, mas sem risco de quedas. Com 8,9 km, a prova era muito rápida, e passávamos a marca dos 3 km em pouco menos de 8 minutos. Para isso eu tinha que aquecer muito, a ponto de chegar vermelho para a largada; se não fizesse isso não suportaria o ritmo na descida da avenida Brigadeiro, já que o percurso era ao contrário de hoje." Quando o trajeto aumentou para 12.640 m ficou ainda melhor e venci pela segunda vez. Ao passar para 15 km, eu já estava apenas participando, não competia com todo afinco".



TREINOS RIGOROSOS. José João contou que seu treinamento sempre foi rigoroso. "Fazíamos um trabalho de 8 semanas, específico para a São Silvestre e tinha que ser assim pois na prova eu seria exigido ao máximo; treinava tiros à noite na subida da Consolação, para me adaptar ao horário e ao percurso, pois a SS era geralmente decidida neste ponto. A prova era tão rápida e a concentração tão forte que eu nem tomava conhecimento dos competidores, só pensava em como fazer próximo dos 23 minutos os 8,9 km". "Tudo que eu tinha na minha cabeça era corrida; eu nunca imaginava ganhar, apenas queria ter uma participação justa, pois treinava muito e estava focado principalmente para a São Silvestre. Minhas vitórias foram conseqüência de muito, mas muito mesmo treinamento, bem orientado pelo técnico Carlão. Fomos os pioneiros em certos tipos de treinamento o que resultou em 5 pódios na SS. Foram dois títulos e cinco pódios: campeão em 1980, terceiro em 1981 e em 1982, segundo em 1984 e novamente campeão em 1985".


José João divide com seu técnico Carlos Ventura - Carlão, as suas conquistas. "Foi quem me ensinou que a disciplina era fundamental para o sucesso e a evolução atlética e tínhamos muita afinidade. As cobranças eram em cima da responsabilidade em absorver a informação técnica que ele me passava. Eu sempre gostei de escutar e nunca discuti nem contestei as orientações dele, que eu considero um artesão. Ele estava desenvolvendo um atleta de alto rendimento e eu sabia que o cuidado que tinha comigo era com esse objetivo, porque sabia do meu potencial. No dia da prova ele montava uma estratégia perfeita; escolhia uma garagem bem próxima da largada, ficávamos aquecendo por uma hora, até o ingresso na elite, sempre a menos de 10 minutos da partida, já no ponto para largar. Posso dizer que a minha relação com o Carlão era a mesma que o Nuno Cobra tinha com o Ayrton Sena, uma sintonia perfeita."


José João comentou que o ponto máximo da corrida era a entrada na avenida Paulista, com os fogos da mudança de ano começando a estourar. "Era muito emocionante porque a organização programava a prova para que a chegada do campeão acontecesse logo após a meia noite; nas duas vezes que venci foi assim: largamos num ano e chegamos no outro. Então, além da disputa nos metros finais, havia ainda os fogos explodindo, anunciando o ano novo e ao mesmo tempo a aproximação do vencedor.


Perguntado se gostaria que voltasse o horário antigo, o bicampeão afirmou que não. "Não era mais possível a São Silvestre continuar daquela maneira; seria inviável crescer com os custos bancados quase que inteiramente pela Gazeta Esportiva, daí que a mudança para a tarde e a entrada da TV Globo foi muito importante".


José João também surpreendeu ao responder sobre qual São Silvestre mais lhe emocionou. "No meu íntimo, a que mais valorizo mesmo é a de 1984; fui superado no final da Consolação pelo português Carlos Lopes, campeão olímpico de maratona no mesmo ano em Los Angeles. Foi uma lição para mim, porque estava em meu melhor estágio, tinha feito a segunda melhor marca mundial nos 5000 metros, venci todas as corridas que participei, e só perdi a São Silvestre. Gostei porque essa derrota me ensinou. Ser o primeiro nos deixa acomodados; ser o segundo é restaurador, exige reflexão, e isso eu percebi bem 1984."



DE CORREDOR A ORGANIZADOR DE CORRIDAS


No final de 1996, quando soube que a prefeitura de São Paulo se preparava para realizar no dia do aniversário da cidade, em 25 de janeiro de 1997, uma corrida em sua homenagem, o bicampeão da São Silvestre fez questão de inverter as intenções. "A corrida do aniversário de São Paulo iria chamar-se José João da Silva e eu não concordei, porque sou muito grato a essa cidade, mas a comemoração de uma data tão importante deveria ter outro nome e eu sugeri Troféu Cidade de São Paulo, que acabou aceito pela prefeitura. Além disso, consegui que se prestasse homenagem ao atleta olímpico e campeão pan-americano Agberto Guimarães, cuja imagem foi estampada nas medalhas."


Ainda naquele ano José João conheceu Renato José Elias, campeão mundial de basquete pelo Sírio em 1979 e que trabalhava na Secretaria Municipal de Esportes. "Ele me convidou e abrimos uma empresa de eventos e sugeriu que seu nome fosse JJS eventos. A partir desse dia iniciamos os contatos para futuramente lançarmos a empresa, especializada na organização de corridas de rua. Hoje, a JJS conta com 12 anos de provas realizadas e se orgulha de ter a responsabilidade em organizar corridas de aniversários de muitas capitais brasileiras." Entre as várias competições feitas pela JJS, João destaca a Corrida da Independência, que acontece dia 7 de setembro no Museu do Ipiranga em SP, e a Corrida das Pontes, no Recife, que "é considerada pelo pernambucano como a São Silvestre do Nordeste", comenta.



EU TAMBÉM ESTAVA LÁ HÁ 30 ANOS por Vicent Sobrinho


Lembro-me da minha primeira São Silvestre, em 1980, como se fosse ontem à noite. Tinha apenas 15 anos e estava rodeado praticamente só por corredores adultos, quase seis mil (recorde então de participantes) para correr os 8,9 km do percurso. Larguei bem na frente, próximo aos lideres, e finalizei na 842ª colocação, ainda dando tempo de ver os grandes campeões no pódio. Já estávamos então nos primeiros minutos de janeiro de 1981, e a felicidade e a euforia pela vitória de um brasileiro foram comparadas pela mídia da época com a mesma alegria que a nação teve na conquista do tricampeonato de futebol em 1970.


Foi em 1979 que comecei a dar meus primeiros passos (em ritmo seriamente acelerado) e senti todas as dificuldades naturais de aprender a correr corretamente, a pisar direito sem bater os pés no chão. Este era meu grande problema e por isso dedicava uma parte do treino ao que chamávamos de educativos, A orientação vinha do sapateiro Orlando de Carvalho, atleta federado especialista na marcha atlética de 10 e 20 mil metros, que conquistou vários títulos e foi muito participativo em sua época pelo tradicional Clube Pirelli.


Orlando nos ensinava a correr e cobrava o estilo: tinha que ser harmonioso na respiração e elegante nas passadas. Ensinava-nos o que toda sua família, esposa e três filhos aprenderam com ele dede 1968, mas seu grande mérito estava na paciência de orientar os meninos das ruas do bairro a correr da melhor maneira. E eu tive a felicidade de começar em sua equipe "Jovens Atletas" de Itaquera e participar das minhas primeiras corridas de rua. O objetivo era um só: me preparar para um dia correr a São Silvestre.


Até hoje trago com orgulho os ensinamentos do sapateiro Orlando com quem treinei junto a outros 12 jovens por quase dois anos. Foi ele que me falou de José João da Silva e de corredores da época, de que deveria prestar atenção no estilo deles ao irmos às corridas. Nossa categoria infanto-juvenil terminava antes e Orlando praticamente nos obrigava a ficar assistindo a chegada dos campeões e fazia questão que os cumprimentássemos.


Quando da 2ª Volta do Morumbi, realizada em fevereiro de 1981, Orlando reuniu a nossa equipe para uma foto com novo campeão da SS, e eu fiz questão de sair na foto ao lado de meu ídolo, isso 30 dias após vitória na São Silvestre.


A minha vontade de sempre estar entre os melhores fez com que no final de 1981 estivesse treinando no São Paulo F.C., que era o sonho de muitos garotos da época. Mas, depois de dois anos precisei me desligar do clube, pois tinha dificuldade de conciliar trabalho, estudo e treinamento. Poucas vezes nesse período vi José João, que viajava metade do ano treinando e competindo na Europa e nos EUA.



SONHO DE MENINO REALIZADO. Nosso primeiro encontro para esta reportagem da CR foi na JJS Eventos. Coloquei na sua frente uma fotografia virada para baixo, com o autógrafo do próprio exposto no verso; ao perguntar a José João se conhecia o autógrafo, ele se surpreendeu e comentou. "Nossa! Esse autógrafo é de quando eu ainda estava treinando essa assinatura!" A rubrica datava de 22 de março de 1981. A emoção ficou maior quando eu pedi a ele que virasse a foto; lá estava José João com a minha equipe de garoto, e bem a seu lado eu, um verdadeiro fã dependurado no pescoço do campeão. Era o nosso reencontro, quase 30 anos depois.


No dia seguinte continuamos a entrevista, correndo no Parque do Ibirapuera, quando fizemos 12 km em menos de 1 hora. Depois mais um encontro em sua casa, em que pude conhecer sua sala de troféus.


Esta convivência com meu ídolo de infância reforçou ainda mais minha paixão pela corrida, principalmente por constatar que ele continua sendo humilde, atitude que é a verdadeira marca de nobreza de um vencedor!

2 Respostas para “José João: nosso bicampeão da são silvestre”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Vicent Sobrinho, Samuel Viana. Samuel Viana said: Revista Contra-Relógio – José João: nosso bicampeão da São Silvestre – No Foco http://t.co/5HAyq7s […]

  2. […] é um ato de amizade, e do eterno Bi-campeão da São Silvestre 1980 e 1985, o entregador de pizzas José João da Silva. Assim como as brilhantes atletas Roseli Machado e Maria Auxiliadora, a primeira mesmo mancando com […]

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