Revista Contra-Relógio
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João da Mata: Correr é um ato de amizade!

Edição 203 - AGOSTO 2010 - VICENT SOBRINHO

O campeão da São Silvestre de 1983 revela que foi por acaso que a corrida surgiu em sua vida. Ele fala dos amigos que fez no esporte, da prova mais emocionante de sua vida, de como conviveu com a fama e sobre o patrocínio que o impediu de ir a uma olimpíada, entre outras histórias desse policial corredor de extrema gentileza e simpatia mineiras.

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João da Mata de Ataíde nasceu em 1954 em Diamantina e começou a correr quase que obrigado, aos 18 anos, ainda recruta do 3º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais. "Um dia, ao chegar ao quartel, me deparei com vários militares com uniforme de educação física se aquecendo em frente ao portão de entrada. Assim que cheguei recebi rigorosa ordem de um oficial para trocar de uniforme rapidamente e juntar-me aos demais. Assim fiz e foi quando fiquei sabendo que se tratava de uma corrida eliminatória visando formar uma equipe de corredores para representar o Batalhão em uma competição que seria realizada em Belo Horizonte. Para minha surpresa venci a prova e também a competição na capital, disputando com os melhores corredores da Polícia Militar daquela época. Após esse feito passei a fazer parte da equipe de atletismo da PMMG.


Contra-Relógio: Como eram os métodos de treinamento na época? Muito diferentes dos de hoje?


João da Mata: Naquela época os treinamentos consistiam basicamente em percorrer longas distâncias, pois acreditava-se na aquisição da performance treinando altas quilometragens; cheguei ao cúmulo de correr 300 km por semana quando me preparava para maratonas. Falava-se muito pouco sobre o método intervalado e aplicava-se menos ainda, situação bem diferente da atual, na qual se privilegia a qualidade e não a quantidade do treinamento.


Qual era sua prova (quilometragem) preferida?


A minha distância preferida eram os 5.000 metros na pista; nessa competição fui inúmeras vezes campeão estadual, brasileiro e vice-campeão sul-americano.


Fale da semana anterior à São Silvestre 1983. Havia muita expectativa sobre sua possível vitória? Quais corredores estrangeiros e brasileiros eram os mais cotados?


Na semana que antecedeu à corrida, treinei normalmente, inclusive realizei um treinamento chamado "apronto", constituído de tiros, três dias antes da competição. Havia uma expectativa muito grande de minha parte e do meu treinador Waldomiro Monteiro, em subir ao pódio da São Silvestre, o que já seria um resultado altamente positivo. Essa possibilidade era em decorrência dos resultados que eu havia conseguido naquele ano, em diversas competições no Brasil e no exterior, como na Maratona de Nova York, onde completei em 2h15, meu recorde na distância. Por outro lado havia importantes corredores nacionais e internacionais na disputa, dentre eles o grande campeão José João da Silva, que acabou não competindo naquele ano por problema físico, Edson Bergara, Elói Schedler, Diamantino dos Santos, Benedito Porto e vários outros. Já entre os estrangeiros os mais cotados eram Victor Mora e Domingos Tibaduíza, ambos colombianos e ex-campeões da São Silvestre, Zacaria Barier, Juma Yakanga, Luiz Horta e vários outros.


Na época a subida era pela rua da Consolação. Correr à noite era diferente?


Um dos pontos que marcava aquela competição era exatamente o horário de sua realização, pois a largada acontecia um pouco antes da virada do ano, de modo que a chegada coincidia com a comemoração. O percurso era menor, cerca de 12,7 km, e no sentido inverso ao que é realizado hoje, ou seja, descia-se a Brigadeiro Luiz Antônio e subia-se a Consolação. Parece-me que naquela época havia um clima mais romântico durante a competição.


Então sua competição mais emocionante foi aquela São Silvestre?


Na verdade considero a Meia da Independência em São Paulo. Foi uma disputa do inicio ao fim, entre eu e o José João. Subimos a Brigadeiro Luiz Antonio, vindo do Ibirapuera, e entramos na Paulista lado a lado, só definindo na chegada, com diferença de 3 segundos. No ano seguinte, 1984, a vitória também foi dura, desta vez sobre Benedito Porto.


A vitória e a fama pós São Silvestre ajudaram na carreira militar?


Embora eu tenha cumprido as mesmas exigências que eram feitas a todos na carreira militar, não posso negar que a vitória na São Silvestre me ajudou, não só internamente, mas em várias outras situações.


Quais as principais provas fora do Brasil que você competiu?


Participei de várias no exterior, dentre elas posso destacar 5 vezes a Maratona de Nova York (de 1982 a 1986), campeonatos sul-americanos em La Paz, 1981, e Santa Fé, em 1983, Maratona de Hiroshima em 1984, Campeonato Mundial de Cross Country em Bruxelas, em 1992, Maratona de Munique, em 1994, e várias outras, sobretudo na América do Sul, embora não tenha vencido nessas competições, sempre obtive excelentes colocações.


Que comparação faria entre as corridas de rua nos anos 70 e 80 e nos dias de hoje? O que ficou melhor ou pior?


Há uma diferença muito grande entre as corridas de rua daquela época e as atuais, a começar pela estrutura das organizações, que então praticamente não existia; reuniam-se os corredores, dava-se a largada e o competidor que se "virava", inclusive com o trânsito. Não havia apoio ao corredor durante a competição, ao ponto de ser necessário "brigar" para conseguir água no percurso da corrida. Outro ponto que mudou totalmente foi em relação à premiação em dinheiro; naquela época era proibido pagar prêmio em dinheiro aos atletas chamados "amadores"; competia-se por amor ao esporte e por troféu e medalha, por isso os troféus eram mais valiosos. Essas mudanças foram muito positivas.


Quantos técnicos de atletismo teve? Tinham diferentes estilos de treinamentos?


Durante a minha trajetória atlética eu tive a honra, a felicidade e a sorte de usufruir dos conhecimentos e da convivência de quatro treinadores, aos quais credito os meus resultados, que apesar de não serem tão expressivos, foram muito além da minha própria expectativa. Geraldo da Luz, o primeiro, destacava-se pelo seu carisma, pela sua bondade e simplicidade; adotava o método da acolhida a todos, pois para ele o importante era participar. Valdomiro Monteiro, o técnico profeta, fazia um trabalho voltado para o alto nível, era seletivo e adepto da qualidade em detrimento da quantidade, previa com bastante precisão o resultado a ser alcançado em cada competição, e com ele consegui meus melhores feitos, inclusive a vitória na São Silvestre. Roberto Márcio Vieira, exigente, procurava aprimorar a técnica de corrida visando melhores marcas. Adriano Maron Leitão, o último técnico com quem treinei, privilegiava a tática de corrida para obter resultado; com esse método consegui vencer competidores mais jovens e com melhor condição física do que eu.


Quantas maratonas você correu e qual sua opinião sobre a massificação dessa distância tão extenuante?


Eu não disputei muitas maratonas, mas acredito que não passam de 15; confesso que não era a minha prova favorita, exatamente pelo grau de exigência. Por outro lado é um desafio que a maioria dos corredores de rua gosta de encarar, mas para isso é necessário se preparar adequadamente. A questão da massificação é preocupante, pois induz as pessoas a participarem como se fosse uma competição normal, quando na realidade não é.


Em 1984 estava prevista sua ida às Olimpíadas de Los Angeles, uma vez que você era o vice-campeão sul-americano nos 5.000 e 10.000 metros? É verdade que não foi convocado em função da polêmica sobre o patrocínio em sua camiseta?


Após a vitória na São Silvestre eu tive alguma dificuldade, devido a compromissos outros que surgiram e que acabaram interferindo na minha rotina de treinamento. Com relação às Olimpíadas de Los Angeles cheguei a fazer uma preparação específica visando conseguir os índices exigidos, mas devido a alguns fatores alheios à minha vontade não foi possível, entre eles a questão do patrocínio na camiseta com a qual competi a São Silvestre. No entendimento dos dirigentes daquela época, eu havia sido considerado profissional, o que me impossibilitaria de ir às Olimpíadas. Mas quero deixar registrado que não me senti frustrado ou magoado pelo fato. O patrocínio na camiseta era de uma indústria canadense que desenvolvia os tênis Power na fábrica em Pouso Alegre, MG. Eles custeavam todas minhas viagens; o patrocínio girava em torno de mil dólares, o que era uma ótima remuneração para a época.


Você continua treinando? Tem participado de algumas corridas? Qual foi a última prova que correu?


Corro em média 5 vezes por semana, com o objetivo de manter a saúde, mas de vez em quando participo de alguma competição. A última foi a Corrida do Trabalhador em Brasília, no dia 1º de maio deste ano.


Hoje delegado da Polícia Federal em Montes Claros, como é seu trabalho? Orienta seus colegas na prática de corridas?


O meu trabalho é fascinante, devido aos desafios que surgem a cada dia e não há rotina. Sempre que me procuram oriento os colegas e todos que gostam de correr.


Qual seu conselho para quem inicia a corrida de rua? Visto que hoje há mais provas em dinheiro, você acha muito diferente de sua época?


É necessário fazer distinção entre os objetivos do iniciante; se o objetivo é simplesmente participar, buscando-se uma melhor qualidade de vida via prática esportiva, ótimo. Creio que o perigo é quando se inicia na corrida visando fazer resultado e ganhar dinheiro. O ideal é que todo iniciante busque primeiro o bem-estar, para depois pensar em marcas e prêmios.



DURANTE A MISSA, DA MATA DESCOBRIU QUE ESTAVA FAMOSO


João da Mata conta que só percebeu que realmente estava saboreando a fama por ter vencido uma São Silvestre, em 1983, quando no dia seguinte aconteceu algo que o surpreendeu: "Após a vitória jantamos e comemoramos a virada de ano. Acordei às seis horas e fui à missa no Largo do Arouche. Estava assistindo a missa nos bancos do fundo quando de repente o padre parou a cerimônia e me chamou à frente. Nossa... foi um alvoroço; o público pedindo autógrafo e aplaudindo ao mesmo tempo. A missa continuou só após eu sair."



A OPINIÃO DE JOÃO DA MATA SOBRE SEUS ADVERSÁRIOS-AMIGOS


José João da Silva: Grande precursor das vitórias brasileiras na corrida de São Silvestre (foi campeão em 1980 e 1985), mostrou para o Brasil e para o mundo que o brasileiro podia sim vencer essa competição, mesmo contando com a participação dos melhores corredores mundiais da época;


Ferreirinha: Campeão de várias competições, sem dúvida um dos destaques de nossa época;


Kleevansóstens Cícero Albuquerque: Competir com ele era interessante, pois chegava de surpresa. Ele venceu várias provas importantes, inclusive no exterior;


Edson Bergara: Exemplo de humildade e lealdade, com quem tive a honra de disputar inúmeras competições;


Elói Schedler: O melhor corredor e recordista brasileiro da maratona naquela época; também se destacava pela elegância na sua maneira de correr;


Diamantino dos Santos: Um dos maratonista mais combativos da nossa época, o que fez dele um grande vencedor de maratonas nacionais e internacionais;


Moacir Marconi: "Coquinho", como é carinhosamente chamado, marcou época pela sua simplicidade e companheirismo durante as competições;


Benedito Porto: Grande fundista com quem tive a honra de competir na mesma equipe, patrocinados pela empresa fabricante de tênis "Power";


José Baltar: Um dos melhores corredores de média distância do Rio de Janeiro e que se destacava também pela elegância de suas passadas durante a corrida;


João Alves de Souza: Conhecido pelo apelido de "Passarinho", igualmente marcou nossa época pelos grandes feitos conseguidos em maratonas e tantas outras competições.

13 Respostas para “João da Mata: Correr é um ato de amizade!”

  1. Parabens voce incentivou varios corredores nesta epoca, inclusive eu.
    e como tinha gente boa naquela epoca, tive o prazer de participar de varias provas entre 80 e 86 onde competi junta destas feras acima.

  2. boa noite. um grande prazer ler esta matéria… sou sobrinho do Porto, acompanhei sua trajetória, sua luta, e acompanho atualmente sua frustração… tenho saudades desse tempo, em que ele tinha toda essa garra…tenho buscado material sobre ele e os atletas da época, quero montar um trabalho sobre isso…. quem puder me ajudar, agradeço muito!! abraços

  3. Competi em varias provas com o benedito porto, inclusive tivemos podiun. estou procurando material.

  4. […] é escrever sobre os nossos campeões da São Silvestre – de 1983 – o policial mineiro João da Mata quando disse que correr é um ato de amizade, e do eterno Bi-campeão da São Silvestre 1980 e […]

  5. Muito bacona esta reportagem com este nosso eterno atleta..sem duvida sempre sera meu idolo..Pessoa de rara simpatia..JORGE LUIZ.Sao Joao Del Rei-MG

  6. João, sempre é muito salutar ler qualquer coisa que te envolva, isto porque, serve de aprendizado além de nos estimular a sermos humanos e bacana como você. Que Deus te ilumine amigo, e saiba, a sua trajetória ainda tem muito a nos mostar.

    Att.
    João Carlos Boaventura.

  7. Comecei no Atletismo em 1974, tive a honra de competir na pista com o treinador do João da Mata, Maron, tive a honra de ter o Maron como treinador, e tive a honra de correr com o João da Mata em inúmeras corridas, Gentil, Humilde, Honesto, Amigo, fizemos história na história dos calçados para corridas: Corri com o João no Rio de Janeiro calçado de conga, venci o campeonato Mineiro de cross de Kichute e o João de conga, depois all color, depois o Power, sapatilha de couro quando éramos do atlético Mineiro. e No sul de Minas temporada de altitude, o primeiro a correr de medo de bichos da mata, como onça, capivara e outros era o João da Mata, Obrigado João pelo legado, exemplo de vida, superação, determinação, hoje realizado profissionalamente, e se correr, deixa todos nós para trás até hoje. Parabéns a Revista Contra Relógio pela belíssima iniciativa em homenagear e nos presentear com este Flashback dos nossos grandes atletas de todos os tempos.

  8. tive a honra de correr atras do joao da mata,1983 11km e1984 21km em sao joao del rei(m.g);eterno,presente,e como uma magia,passar pelas ruas onde joao pisou. obrigado por ter nos proporcionado esta honra.

  9. Sou sobrinha do João da Mata, achei muito bacana essa matéria.Um homem incrível.

  10. […] assistir o final da prova. Não me recordo de todas as chegadas mas lembro muito da vitória do João da Mata em […]

  11. meus parabens,legal e muito bom relembrar os grandes amigos das pistas.faltou relembrar,o jose da silva grande corredor da epoca,um abraço.

  12. É conterranio aquela são silvestre eu assisti de pé em cima do braço do sofá, meu filho tinha quatro meses e meolhava assustado tremendo os braçinhos,e eu então desidi que não iria mais assistir corrida ia correr também, hoje com + de 130 maratonas completadas e alguns recordes de ultradistancia eu sei como foi duro ganhar aquela são silvestre.Parabens p voce pelo exemplo de atleta que é!..

  13. admiro muito joão da mata e josé joão da silva ,não me conformo em não ter videos dos dois atletas nas vitórias na corrida de são silvestre anos 1980/83/85 ,no youtube,que tal ter ainda estes videos?

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