Revista Contra-Relógio
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Hermano Hening, um corredor afinado

Edição 163 - ABRIL 2007 - MARCIO DEDERICH

Em todo grande acontecimento da história mundial existem os protagonistas e as testemunhas. Na categoria testemunha os jornalistas costumam ser imbatíveis. Movidos pela busca da informação, não medem esforços nem economizam direções: simplesmente comparecem. Por vezes, sacrificam-se. Presentes aos fatos, esforçam-se em manter o compromisso interior com a verdade. Não é de hoje que Hermano Antonio Henning faz parte desse time.


12 de outubro de 1945. A noroeste de São Paulo, Guararapes era um amontoado de casaao redor da estação ferroviária quando Hermano nasceu. Filho do único imigrante alemão da região, teve o nome Hermann trocado para Hermano por recomendação do dono do cartório. A contragosto o pai concordou que naqueles tempos de pós-guerra, com os alemães malvistos por toda parte, ter que carregar nome tão germânico em homenagem ao avô seria criar problemas para a criança para o resto da vida.

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Do algodão ao álcool, passando pelo capim colonião, enquanto Guararapes mudava de vocação Hermano procurava seguir firme na sua. Sonho de menino, a largada para o jornalismo veio cedo e meio enviesada. Começou no rádio, mais precisamente fazendo propaganda política ao microfone da "Princesinha do Ar", a ZYZ-6, Rádio Difusora local. Eleito o candidato, passou a locutor.


Só foi pisar pela primeira vez na sala de redação de um jornal no início dos anos 60. Frustrou-se. A do Tribuna da Variante, semanário dominical guararapense de oito páginas, não era como as que vira no cinema. Mais parecia uma oficina mecânica, uma borracharia de beira de estrada. Começou como jornaleiro. De bicicleta. Entregava os exemplares que carregava na cesta presa no guidão...


Até Hermano chegar à redação de Veja foram dez anos. Entre uma coisa e outra, o casamento, o primeiro filho, o curso de direito, o trabalho como advogado no Sindicato dos Metalúrgicos, a participação na fundação do jornal Guaru-News e as matérias como correspondente do jornal O Estado de São Paulo, em Guarulhos, SP.


Contratado por uma rádio alemã, Hermano iniciou sua trajetória como jornalista internacional em 76, época em que também começou a fazer reportagens para a Rede Globo de Televisão. Além de Olimpíadas e Copas do Mundo, no rol de suas coberturas internacionais estão a primeira expedição brasileira à Antártica, o conflito Irã-Iraque, a Guerra Civil de Angola, a queda do Xá Reza Pahlevi, as Guerras do Golfo Pérsico e das Malvinas, a invasão americana no Haiti, a morte dos papas Paulo 6º e João Paulo 1º, a morte do Presidente Tito na Iugoslávia.


Depois de passagens pelo Sistema Brasileiro de Televisão, SBT (em 89, foi âncora do Telejornal Internacional, primeiro jornal da televisão brasileira apresentado via satélite) e pela Globo (foi correspondente em Londres (79) e em Nova Iorque (92-95), Hermano atualmente é redator-chefe e apresentador do telejornal SBT Manhã.


Fora do ar, quando a pauta passa de jornalismo para corrida, ao invés de testemunha Hermano vira protagonista. Não sabia? Pois é, Hermano Henning também faz parte desse outro time. É corredor de longa data. Confira.


Tinha tudo para ser em Guararapes. Algumas voltas pela estação, o trem das onze ou das quatro passando... Foi lá que começou a correr?


Quem dera. Não comecei tão cedo assim. Aliás, até que corri bastante por lá, mas foram aquelas corridas infantis, de brincadeira. Não dá pra considerar. As sérias só foram começar bem mais tarde, em 84 ou 85, não lembro direito. Quem me iniciou foi um assistente de câmera. Fazíamos uma reportagem no Nordeste sobre os problemas da seca. Numa parada em João Pessoa ele me convidou para correr na praia. Na época eu fumava muito.


Como você continua correndo até hoje, supõe-se que o resultado dessa primeira experiência tenha sido animador.


Engano. Não foi nada disso. Para ser sincero, foi terrível. Um horror. Acho que consegui trotar uns 600 metros, na calçada junto ao Hotel Tambaú. Fiquei muito zonzo, com ânsias de vômito e fisicamente estressado. Não fosse pela dica do Jotair Assad, diretor do Globo Repórter que também estava na equipe, talvez tivesse desistido das corridas para sempre, ali mesmo, naquele momento.


Qual foi o segredo, que dica foi essa?


Uma dica simples, mas que funcionou. Ele me disse para ficar sem fumar naquele dia e voltar a correr no dia seguinte. Garantiu-me que sentiria diferença. Fiz e realmente senti. Foi pouca, mas deu pra notar a melhora. Resolvi então também não fumar no outro dia e tentar correr de novo. Assim fui fazendo. Hoje posso dizer que funcionou nos dois sentidos: deixei de fumar e engrenei pra valer nas corridas.


Engrenou tão bem que virou maratonista...


Pois é. Corri minha primeira maratona no Rio, em 87. Simplesmente inesquecível. Terminei o percurso chorando como uma criança. Para quem havia começado a correr há tão pouco tempo e nunca havia pensado antes em fazer uma prova dessas, estrear nos 42 quilômetros com 4h25 foi maravilhoso. Três anos mais tarde, em Washington, nos Estados Unidos, baixei meu tempo na distância para 4h18 na Marine Corps Marathon, outra boa prova.


Como correspondente internacional, você ficou sete anos nos Estados Unidos. Corre-se muito por lá. Deu para aproveitar?


Deu. Quando fui transferido para Nova York, uma das primeiras coisas que fiz foi me filiar ao Clube de Corredores da cidade. Toda semana tínhamos prova no Central Park. Não perdia uma. Se não estivesse viajando com certeza estava correndo. Fiz a Meia Maratona do Queens em menos de duas horas. Cheguei a correr os dez quilômetros da Roosevelt Island em 48 minutos e alguns quebrados. E olha que a essa altura eu já estava cinqüentão.


Habituado às nossas, sentiu diferença quando começou a participar das provas americanas?


Sim. Muita diferença. As corridas lá sempre foram mais organizadas. A maratona de Nova York deixa a gente maravilhado. Ao longo do trajeto, as pessoas aplaudem, incentivam. É comum receber barras de chocolate, cereal, suco de laranja, banana, essas coisas. Depois da ponte sobre o East River, a entrada de Manhattan deixa qualquer um emocionado. Mas acho que aqui estamos no caminho certo. É fácil notar que as nossas provas estão cada vez mais bem organizadas. Em breve não deveremos nada a ninguém.


Você continua treinando e correndo de forma bastante regular, inclusive fechou a última São Silvestre com 1h29. Pretende continuar correndo apenas para manter a boa forma ou tem algum objetivo especial?


Acho as provas de dez quilômetros disputas ideais pra manter a forma. No meu caso quero voltar a correr maratona. A última aconteceu há mais de dez anos, em Nova York. Como a primeira foi no Rio, em 87, gostaria de repeti-la este ano. Vinte anos depois da estréia tem tudo para ser bem diferente. Além desse desafio particular, há outras três provas das quais não abro mão: a Volta da Pampulha, a Corrida do Gonzaguinha, em São Paulo e, claro, a São Silvestre, a mais envolvente de todas.


Então é fã da São Silvestre?


Sou. Sempre a considerei uma prova difícil, que exige estratégia. Já me dei mal algumas vezes na subida da Brigadeiro porque, achando que estava fácil, não me comportei bem no início. Em outras ocasiões fiz um tempo horrível porque me poupei demais no começo e acabou sobrando gás no fim. Nesta última, debaixo da chuva forte e correndo com meus dois filhos, fui bem.


Além desses altos e baixos, todo corredor de rua tem sempre uma história curiosa para contar. Lembra de alguma?


Ora se lembro. A minha aconteceu em Suzuka, no Japão. Tinha sido deslocado de Nova York para lá, para cobrir o grande prêmio de Fórmula 1. Me meti a correr pela cidade e simplesmente acabei perdido. Sou mesmo muito ruim em senso de direção. Foi o caos. Não conseguia pedir ajuda porque ninguém me entendia. O tempo foi passando e fui ficando nervoso... Até que alguém teve a idéia de chamar a polícia. Constrangido, voltei pro hotel dentro de uma rádio-patrulha. Uma chegada e tanto.


Além da paixão pelas corridas você também adora música. Dá para combinar as duas coisas?


Uma vez isso aconteceu de forma magistral. De passagem por São Paulo - na época não morava aqui - resolvi dar uma corrida no Ibirapuera e fui surpreendido com um concerto ao ar livre. Era a orquestra de Glenn Miller em excursão pelo Brasil. Sou um fã ardoroso das big-bands e aquilo me marcou profundamente. Acho que vai ser difícil acontecer de novo. De qualquer forma, unir apresentações de orquestras, bandas ou mesmo grupos musicais com as corridas parece uma boa idéia.


Já temos provas assim. Esse modelo de corrida já chegou por aqui.


Mais uma boa razão para eu continuar correndo. Como falei no começo, nossas provas estão cada vez melhores. Assim vai ser fácil voltar às maratonas...


Então, com ou sem música, nos vemos na largada da Maratona do Rio?


Na largada só não, na chegada também. Se tiver música vou demorar mais.

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