Revista Contra-Relógio
// Desafio //

Faltou pouco para 1:59:59

Edição 285 - JUNHO 2017 - ANDRÉ SAVAZONI

O projeto Breaking2 foi um grande sucesso de marketing, graças ao excelente desempenho do queniano Eliud Kipchoge, que por 26 segundos não quebrou a barreira das 2 horas nos 42 km.

O projeto Breaking2 da Nike, desenvolvido com o objetivo de fazer um corredor completar os 42.195 m em menos de 2 horas, teve o encerramento dia 6 de maio, no Autódromo de Monza, na Itália, quando o queniano Eliud Kipchoge, atual campeão olímpico da maratona, quase atingiu a meta, ao fechar a distância em incríveis 2:00:25, portanto, a apenas 26 segundos do esperado sub 2h. Em comparação de números, o atual recorde mundial é de 2:02:57, do também queniano Dennis Kimetto, e a melhor marca de Kipchoge, 2:03:05.
Os outros dois participantes do projeto Breaking2 ficaram para trás. O eritreu Zersenay Tadese, recordista mundial da meia-maratona, mas que nunca "acertou" os 42 km, completou o projeto em 2:06:51 (melhor tempo dele na distância), enquanto o etíope Lelila Desisa fechou em 2:14:10. A Nike comemorou os resultados, que teve uma ótima repercussão de marketing, mas que esportivamente ficou distante da realidade enfrentada pelos corredores em uma "maratona de verdade" (como explicaremos em detalhes ao longo desta matéria).

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OS NÚMEROS. Porém, antes da primeira análise de todo o projeto do Breaking2, o que representa correr uma maratona em menos de 2h? Falando em números, 3% mais rápido do que a melhor marca atual, ou seja, as 2:02:57, significa sete segundos a menos por milha em média ou cinco segundos por quilômetro! Todo o projeto da Nike começou com a análise individual dos corredores patrocinados pela empresa e, a partir disso, foram escolhidos os nomes de Kipchose, Tadese e Lelisa. Os treinadores também se incorporaram ao trabalho dos profissionais do Laboratório de Pesquisa Esportiva da Nike. Toda a parte teórica, incluindo os avanços da ciência, foi unida à prática. Dessa forma, a equipe contou com Brad Wilkins, fisiologista e diretor da Nike Explore Team Generation Research, e Brett Kirby, pesquisador e fisiologista líder do Laboratório Nike.
O plano semanal de preparação de Eliud Kipchoge, por exemplo, teve variedade e especificidade, se desenvolvendo progressivamente ao longo de todo o programa. Ele treinou em média duas vezes por dia, mesclando os estímulos entre corridas longas, trabalhos de velocidade em pista de atletismo e fartlek.
Enquanto isso, o foco inicial de Lelisa Desisa foi a resistência no geral, com várias corridas de base de longa distância, fáceis a moderadas. Ele adicionou depois as atividades em pista mais específicas, para desenvolver velocidade e intensidade, na medida em que o programa evoluiu. A estratégia de Zersenay Tadese pode ser considerada quase a oposta a de Lelisa: a primeira metade do treinamento do eritreu foi de velocidade pesada, para ajudá-lo a se familiarizar com o ritmo da corrida, enquanto mais tarde o objetivo principal foi o de aumentar a duração da sua velocidade com resistência para manter o pace pelos 42.195 m.


MUSCULAÇÃO E FLEXIBILIDADE. Nenhum dos três atletas fez o padrão de recuperação "normal". "Tadese é conhecido como o homem que dorme, porque quando ele não está correndo, ele está dormindo", diz Kirby. Quando Desisa não estava treinando, estava relaxando. Kipchoge passava grande parte do tempo de descanso equilibrando com a vida diária no acampamento de treino onde fica a maior parte do ano. "Além de cochilar e tomar chá com os companheiros de equipe, ele também faz tarefas básicas, como tirar água do poço ou trabalhar nos afazeres diários, como limpeza", lembra Kirby. A maioria descansou um dia por semana ou conforme o necessário pelo ritmo da preparação. Alguns receberam massagens até três vezes por semana, normalmente após as sessões de treinamento mais difíceis.
O trio não levantou pesos ou fez ioga; eles simplesmente correram. "Para correr rápido você precisa correr", reforça Wilkins. Embora tudo seja muito diferente, o programa de treinamento de cada atleta está em constante evolução para se adaptar a proficiências e ineficiências. "Geralmente, os corredores deste nível de elite não são flexíveis", diz Wilkins. Contrariamente ao que alguns podem pensar, a pesquisa sugere que menos flexibilidade tende a ter uma correlação com um melhor desempenho. "A teoria é que as pernas mais rígidas perdem menos energia", explica Wilkins. O cientista relaciona isso com uma mola rígida, que armazena e libera muito mais energia do que uma mais frouxa.


ANÁLISE DIÁRIA DOS DADOS - Desde o início do Breaking2, Wilkins e Kirby visitaram os corredores diversas vezes, fazendo avaliações detalhadas para obter informações sobre marcadores importantes, incluindo o V02 máximo, a perda de líquidos durante a corrida e a energia armazenada nos músculos, entre outros. Quando eles não estavam com os atletas, procuraram manter contato direto em sessões por telefone ou por Skype.
Durante as corridas em treinamento, os atletas usaram relógios GPS com um monitor de frequência cardíaca (com um transmissor no cinto peitoral anexo). Após cada corrida, os treinadores e os cientistas analisaram os dados em conjunto para entender e interpretar o desempenho e o progresso dos três maratonistas. Eles usaram todas essas informações para o desenvolvimento e melhora dos planos de treinamento.
Outro fator a ser destacado durante essa preparação do Breaking2 é que os três atletas fizeram a maior parte das corridas em altitude, onde vivem normalmente. O acampamento de Kipchoge está localizado no Quênia e o de Desisa na Etiópia, enquanto Tadese divide o tempo entre a Eritreia (onde mora) e a Espanha (onde vive seu treinador). "Como há menos oxigênio disponível em altitude, ao longo do tempo o número de glóbulos vermelhos pode aumentar, permitindo que o sangue transporte e entregue mais oxigênio para os músculos", explica Wilkins. "E quanto mais oxigênio seus músculos têm, melhor eles funcionam, o que pode ajudá-lo a correr mais longe e mais rápido", completa o cientista.


SUPLEMENTAÇÃO. Em termos de suplementação, sem a divulgação detalhada das fórmulas, a Nike desenvolveu uma mistura de carboidratos personalizada para cada atleta, com base nos dados reunidos ao longo do programa de treinamento, indicando quanto líquido eles perdem durante a corrida e quanto o organismo pode absorver. Isso influenciou até no tipo de carboidrato, quantidade, composição de fluidos e sabor.
Dessa forma, por meio da análise de dados sobre cada atleta e várias tentativas e erros, a equipe do Breaking2 determinou o tempo ideal dos corredores para consumir alimentos durante a corrida: a cada 2,4 km (uma volta completa na pista demarcada no Autódromo de Monza). "Assim, a cada sete minutos os atletas ingeriram a mistura específica" conta Kirby. Isso tudo é novo para os atletas, dizem os cientistas, porque anteriormente cada corredor estava consumindo menos de 60 gramas de carboidratos por hora e eles tiveram de se familiarizar com a ingestão de uma maior quantidade no ritmo da corrida.


EXPERIMENTO CIENTÍFICO. Como fica claro nessa explicação geral do processo do Breaking2, o projeto assemelha-se muito aos experimentos científicos, que podem ou não ser transferidos para a prática, o "mundo real". Todos os fatores foram muito bem analisados e, principalmente, controlados, o que incluiu a definição da pista em um autódromo (e não na rua ou estrada, onde é disputada uma maratona), com um trajeto pré-definido e levando em conta a altimetria, a inclinação das curvas, a temperatura (até a pressão do ar e o clima tiveram influência na escolha da data por meio de estudos meteorológicos), a hidratação/alimentação a cada 2,4 km, ou seja, itens que não se têm um controle dessa forma em uma corrida normal.
Especificamente no dia do Breaking2, outros fatores acabaram determinantes. O carro elétrico na frente "quebrando" o vento e ajudando no vácuo, além de passar informações a cada 200 m do ritmo e da distância percorrida, entre outros dados; a enorme presença de coelhos (foram 30 corredores no total), se revezando na ponta do pelotão a cada 4,8 km, ou seja, entrando descansados, sendo determinantes também no fator motivacional (além disso, pela explicação dos próprios comandantes do projeto, a ideia foi de que os pacers nunca ficassem cansados); o relógio marcando o tempo; o raio laser no piso determinando rigorosamente o ritmo para os pacers; a hidratação entregue na mão e no tempo predeterminado (sem a necessidade de ir até a mesa para pegar a garrafinha e sair do traçado); ausência de adversários e imperfeições no piso.


RESULTADOS E EXPECTATIVA. Uma jogada de mestre. Essa é a melhor definição para o projeto de marketing da Nike com o Breaking2, o que em nada desvaloriza o sucesso e os resultados. Apenas que, se analisarmos esportivamente, como citamos acima com dados e exemplos, não foi uma competição real e não seria homologada como recorde pela IAAF, inclusive por outros fatores, como o controle antidoping, sobre o qual nada foi informado.
Apesar disso, Eliud Kipchoge mostrou na pista de Monza que realmente está entre os maiores maratonistas da história, sendo o mais completo, competitivo, regular e mentalmente preparado. Em oito maratonas disputadas na carreira, ele tem sete vitórias (Hamburgo-2013, Roterdã-2014, Chicago-2014, Londres-2015, Berlim-2015, Londres-2016 e Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro-2016) e um segundo lugar (Berlim-2014), além de medalhas olímpicas e mundiais em distâncias mais curtas nas pistas de atletismo. O que falta realmente para ele é "apenas" bater o recorde mundial dos 42.195 m em uma prova. E agora ele está mais próximo disso.
Em termos de teste, de estudo, a expectativa é de que a Nike tenha documentado tudo de forma científica, não apenas no campo de vídeos, entrevista e o documentário que será concluído ainda neste ano, de acordo com a informação divulgada pela marca. Inúmeros projetos são testados em laboratório e, então, partem para o mundo real. Alguns com sucesso, outros não. O "tubo de ensaio" do Breaking2 foi concretizado. Funcionou e muito. A maior expectativa que fica é o que será levado do Breaking2 para as ruas? O que todo o processo de treinamento, de preparação, fará nos três corredores, principalmente em Kipchoge?


FATOR PSICOLÓGICO. Há alguns anos, em entrevista exclusiva à Contra-Relógio, o queniano Paul Tergat (medalhista olímpico, recordista na maratona e multicampeão da São Silvestre) citou a quebra de barreiras psicológicas que impulsionaram a melhora de tempos nos 42 km, começando pelo próprio sub 2h05 dele, depois o sub 2h04 do Haile Gebrselassie. Tivemos então o sub 2h03 do Dennis Kimetto (2:02:57) e a aproximação do próprio Kipchoge, do etíope Kenenisa Bekele e do queniano Wilson Kipsang. ]
Mas, até agora, ainda, o único sub 2h03 segue sendo o de Kimetto. Agora, com o 2:00:25 no Breaking2, o que significará para os outros? O "tubo de ensaio" do Breaking2 terá reflexos na realidade, além do marketing? Somente o tempo irá responder com clareza. Enquanto isso, pelo que fez em Monza, Eliud Kipchoge merece aplausos de pé!




No Mundial de Atletismo
Eliud Kipchoge não compete desde a medalha de ouro na Olimpíada do Rio de Janeiro, em agosto do ano passado. Primeiro descansou e, depois, dedicou-se integralmente ao Breaking2. Havia a expectativa quanto ao calendário dele para o segundo semestre. De acordo com a Federação de Atletismo do Quênia, em informação divulgada no dia 13 de maio, Kipchoge foi convocado para a maratona do Mundial de Atletismo de Londres, na Inglaterra, em agosto deste ano. Ele está na equipe ao lado de Wilson Kipsang (vencedor de Tóquio neste ano) e de Daniel Wanjiru (que venceu a Maratona de Londres, em abril). No feminino, Edna Kiplagat, Mary Keitany e Florence Kiplagat formam a seleção queniana no Mundial. Assim, em tese, nada de Berlim para esse sexteto.

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