Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

EVOLUÇÃO E ESTAGNAÇÃO NO RECORDE FEMININO DE MARATONA

Edição 255 - DEZEMBRO 2014 - NELTON ARAÚJO

Na edição passada, vimos que em 106 anos o recorde mundial masculino caiu de 2:55:18 para 2:02:57. Já o feminino (2:15:25) está estagnado há mais de 11 anos. Por que essa diferença?

Analisar as melhores marcas femininas na maratona é um trabalho um tanto quanto complexo, pois embora a inclusão das mulheres na distância seja um fenômeno recente, que data dos anos 60 do século passado, a IAAF reconhece tempos obtidos antes de tal oficialização. É o caso do primeiro recorde aceito, da britânica Violet Piercy, que completou em 3:40:22 uma maratona em Londres, no longínquo ano de 1926. Porém, alguns analistas questionam a marca, pois afirmam que o percurso só contava com 35,5 km.
Mais de três décadas depois, esse recorde foi batido pela americana Mary Lepper, que em dezembro de 1963 se escondeu atrás de árvores perto da linha de partida da maratona de Western Hemisphere, e largou sem inscrição, fazendo o tempo de 3:37:07. Apesar de reconhecido pela IAAF, há também contestação sobre a validação desse resultado, uma vez que, mesmo o percurso sendo certificado, ele possuía cerca de 500 metros a menos que o oficial.
Seria de se esperar que, ao longo dos anos 1960, com a autorização da participação das mulheres em maratonas, haveria como consequência o aumento da demanda de maratonistas e uma sistematização em seus treinos, acarretando progressivas quebras nos recordes mundiais. Então, temos o primeiro recorde "oficial", ou seja, de uma mulher devidamente inscrita, a britânica Dale Greig, com 3:27:45 na maratona da ilha britânica de Ryde. Segundo os relatos, a história não foi bem assim. Antes da competição, Greig correria como participante não oficial, mas quando a organização enfim aceitou sua inscrição, a fez com a condição dela iniciar quatro minutos na frente dos homens, sendo escoltada por uma ambulância por todo o caminho.
Menos de dois meses depois, a neozelandesa Mildred Sampson já alcançaria 3:19:33 na cidade de Auckland, berço do então incipiente jogging. Três anos depois, na Maratona de Toronto, a canadense Maureen Wilton chegou em sexto lugar geral e superou a marca de Sampson em mais de quatro minutos, com 3:15:23. Nada mal para uma menina de apenas 13 anos, idade que Wilton possuía no dia da corrida.
A notícia do recorde mundial conseguido por uma adolescente canadense foi recebida com muito ceticismo, sobretudo na Europa, causando intensa discussão sobre a potencialidade das mulheres em provas de longa distância. Um dos maiores defensores não somente da capacidade das mulheres, mas também que elas possuíam qualidades naturais de maratonistas, era o médico alemão Ernst van Aaken. Para validar suas idéias, ele treinou, junto a toda uma equipe de preparadores físicos, médicos e cientistas, duas mulheres: Anni Pede-Erdkamp, mãe e dona de casa com 27 anos, e a fundista Monika Boers, com 19 anos.
Elas fariam uma maratona cinco meses depois da adolescente canadense. Apesar de não autorizadas pela Associação Atlética Germânica de participar de qualquer prova de longa distância, a organização da Maratona de Waldniel, cidade natal do médico alemão, tolerou que elas ingressassem de forma não oficial, largando 30 metros atrás do último homem. Ambas terminam nas primeiras colocações, com Boers realizando o percurso em 3:19:36 e Anni Pede-Erdkamp conseguindo incríveis 3:07:27.
A repercussão das performances não somente da menina canadense, como das alemãs, em consoante a toda uma grande discussão sobre a participação das mulheres em provas de longas distâncias, teve como rosto público a americana K.V. Switzer, que em abril desse mesmo ano de 1967 protagonizou uma cena ícone, quando o diretor da Maratona de Boston tentou retirá-la da prova à força, sem sucesso. Tudo isso proporcionou o início da liberação das mulheres em competições. Mas florescia o questionamento sobre até quando o dígito 3 ficaria à frente dos recordes femininos.

Publicidade


PRIMEIRA SUB 3H. Como nada na História acontece da noite para o dia e entendendo os fatos como parte de um processo, fica mais fácil compreender que, apesar de no início da década de 1970 o jogging estar se popularizando a olhos vistos e um crescente número de mulheres querendo participar de maratonas, elas ainda enfrentavam severas resistência de grupos da sociedade e de organizadores.
Para a IAAF, foi a americana Elizabeth Bonner, na segunda edição da Maratona de Nova York, em 1971, a primeira mulher a correr os 42,2 km abaixo de 3 horas, em 2:55:22, seguida de Nina Kuscsik, com 2:56:04. Mas o recorde durou pouco; em dezembro de 1971, Cheryl Bridges completaria a Maratona de Western Hemisphere com 2:49:40. Hoje ela é mais conhecida por ser mãe da importante corredora americana Shalane Flanagan.
A década de 1970 prometia ser abundante quanto aos recordes femininos, que eram pulverizados ano após ano. Já em 1975, a americana Jacqueline Hansen, na Maratona Nike/Oregon Track Club, levava o recorde para outro nível, com 2:38:19, mostrando que as mulheres eram capazes de correr acima de 16 km/h.
Christa Vahlensieck, primeira alemã a completar os 42,2 km em menos de três horas (2:59:26) na Maratona de Waldniel em 1973, quatro anos depois, na ainda novata Maratona de Berlim, cujo percurso era dentro de uma floresta nos arredores da cidade, conseguiu fechar em 2:34:47. Em 1978, ela melhorou seu recorde para 2:32:30 e no ano seguinte chegou a 2:25:41.
Apesar de aceito pela IAAF como recorde mundial, há contestações, porque os percursos não foram devidamente revalidados por medidores oficiais. E entre 1976 e 1981, todas as marcas femininas nesse período não são computadas para fins estatísticos.


GRETE WAITZ. Se em Nova York, por três vezes, Grete Waitz teve o recorde mundial contestado por conta da aferição do percurso, em 17 de abril de 1983, na Maratona de Londres, mesmo não totalmente recuperada de uma lesão no joelho, a norueguesa obtinha seu melhor tempo: 2:25:28.
Mas, exatamente 24 horas depois, a lendária Joan Benoit Samuelson, completava a Maratona de Boston em 2:22:43. Vencedora da primeira maratona olímpica feminina, em Los Angeles 1984, ela por três vezes batera o recorde mundial, mas sempre esbarrou em problemas de validação com a IAAF. Como em Boston, em 1983, pelos já conhecidos motivos que tornam essa prova inelegível para recordes mundiais.
A década de 1980 não se mostraria tão pródiga em resultados quanto a anterior, tanto na maratona masculina quanto na feminina, sobretudo em sua segunda metade. A decadência do jogging com a morte de seu maior apóstolo, o jornalista James Fixx, a discussão dos riscos para a saúde em correr uma maratona e o crescimento de provas menores, que não mais "obrigavam" as pessoas a fazer uma maratona para serem considerados "corredores", foram fatos importantes desse período. Mesmo com o início de premiações em dinheiro para a elite, pouca coisa vimos em termos de grandes marcas.
Talvez (um dado a ser apurado ainda) esse também fosse motivo para resultados acima do esperado, ou seja, com a premiação em dinheiro, poucos atletas se arriscariam a um recorde mundial, já que estavam mais interessados em vencer puramente a prova, controlando para não "quebrar".


INGRID E TEGLA. Uma grata exceção foi o recorde da também norueguesa Ingrid Kristiansen, na Maratona de Londres em 1985. Ela estava no ritmo para completar sub 2h20, mas faltando 10 km viu que na conseguiria e decidiu administrar a vitória, mas mesmo assim conseguiu 2:21:06. Marca que duraria por quase 13 anos, um grande período de hiato nos recordes femininos, ainda maior do que presenciamos atualmente.
Numa década já dominada pelos africanos, se esperava que o recorde de Kristiansen fosse batido por uma delas. A Maratona de Roterdã apresentava, em teoria, condições perfeitas para isso. E a queniana Tegla Loroupe mostrava-se como a grande sucessora da norueguesa. Mas quem assistiu apenas o início da prova, jamais apostaria no final. Encarando fortíssimos ventos, Tegla estava ao final do km 12, 40 segundos atrás do recorde. Em vez de desistir, ela acelerou, enfrentou os ventos e terminou a prova em 2:20:47, tirando a desvantagem de 40 segundos que tinha contra e melhorando a marca em 19 segundos. Um ano depois, na Maratona de Berlim, ela melhoraria seu tempo em 4 segundos.
Na maratona feminina, até mais que na masculina, atletas de outros continentes se sobressaíam e tentavam evitar o pleno domínio africano. Uma delas era a japonesa Naoko Takhasi, que finalmente conseguia quebrar a marca de 2h20, ao completar em 2:19:46 a Maratona de Berlim de 2001. Uma alegria que durou exatos sete dias, pois no dia 7 de outubro de 2001, a queniana Catherine N'Dereba, na Maratona de Chicago, obteve 2:18:47. Deve (ou deveria) ter dado parte do seu prêmio para sua compatriota Lornah Kiplagat, que vendo o início muito lento, tomou a frente e forçou o ritmo. Deu certo!


O FENÔMENO RADCLIFFE. A partir de 2002, o mundo parou para assistir o fenômeno chamado Paula Radcliffe. Um ponto fora da curva, que em sua estreia em maratonas, em Londres 2002, quase batia o recorde de N'Dereba, estreando com impressionantes 2:18:56. No mesmo ano, em Chicago, Paula com sua economia de energia, apesar da sua biomecânica dos membros superiores parecerem que ela está cochilando durante a prova, com o tronco indo para frente e para trás, alcançava 2:17:18. Não satisfeita, na prova londrina de 2003, apenas seis meses depois Chicago, ela, correndo com dois coelhos, completou em alucinantes 2:15:25, que se mantém como recorde mundial, uma média de 3:13 por km. No caminho, Paula ainda estabeleceria os recordes mundiais das 20 milhas e dos 30 km.
E desde então poucas chegaram realmente perto de Radcliffe. Nos últimos 3 anos, apenas quatro mulheres fizeram tempos próximos de 2h17, considerado o melhor em provas só com mulheres (sem ajuda de pacers masculinos). A russa Liliya Shobukhova, as quenianas Rita Jeptoo e Mary Keitany, e a etíope Tiki Gelana têm marcas na casa de 2h18, sendo que a primeira e a segunda estão suspensas por doping. Assim, a grande pergunta que fica no ar é: por que os tempos das maratonas femininas estam estagnados?


RAZÕES PARA A ESTAGNAÇÃO. Há alguns fatores a serem elencados, que podem ser esmiuçados melhor por outros especialistas que não um historiador. Contudo, saindo de cima do muro, podemos superficialmente abordar algumas idéias. Primeiro vamos dar o devido valor a Radcliffe, que além de possuir o melhor Vo2 (uma medida da sua capacidade de transporte de oxigênio) entre todas as corredoras na época, evoluiu a níveis anormais sua economia de corrida.
Além disso, os pacemakers masculinos eram amplamente difundidos, o que do ponto de vista fisiológico e, sobretudo psicológico, é uma excelente ferramenta para a quebra de recordes. Contudo, desde 2013, novas regras da IAAF proibiram esse tipo de recurso. O que também não pode ser uma desculpa, pois entre 2003 a 2013, quando a prática ainda era algo legal, nenhuma maratonista sequer fez sombra ao recorde da britânica.
A idéia de colocar mulheres como "coelhos" é tentadora, contudo, o problema está na escassez: ao contrário dos homens, as atletas capazes de fazer ritmo (visando 2h18) por 30 km, como os "coelhos" cumprem, são as mesmas que são capazes de ganhar grandes provas; logo, elas não estariam dispostas a sacrificar tal oportunidade, optando por ser coadjuvante.


MUITAS COM 2H20. E apesar de contraditório, se há poucas mulheres capazes de completar uma prova abaixo de 2h20, há um crescimento expressivo de mulheres que estão correndo entre 2h21 e 2h22. Assim, mesmo havendo um crescimento no tempo médio das top 10 de uma "Major", uma marca entre 2h19 alto e 2h20 é suficiente para ganhar a prova. E as altas premiações podem ser um fator de inibição das líderes em acelerar para buscar recordes mundiais, mesmo com interessantes bônus por resultados oferecidos por organizadores e patrocinadores. Afinal, quem quer tudo, pode nada ter nada.
Apesar de termos citado algumas atletas que já correram na casa de 2h18, há promessas por aí, como as etíopes Tirunesh Dibaba, Meseret Defar, Meselech Melkamu ou a atual recordista mundial da meia-maratona, a queniana Florence Kiplagat. Todas correm tão forte em provas menores, quanto Paula Radcliffe fazia. Mas enquanto Paula chegou a esses tempos nas distâncias menores, como 30:21 nos 10 km (que permanece recorde mundial), 2 meses antes de bater o recorde em Londres, as outras atletas ainda estão fazendo a "transição" das pistas para as ruas.
Estamos aguardando para ver os 2:15:25 serem superados, assim como esperamos que alguma brasileira, um dia, supere os resultados de Carmen de Oliveira nos anos 90, entre eles 2:27:41 em Boston 1994, marca não homologada em função do percurso dessa prova. Por essa razão, o recorde brasileiro hoje é de Adriana Aparecida, com 2:29:17 em Tóquio 2012.
Assim, o fato é que, desde dia 13 de abril de 2003, o tempo parou na maratona feminina.


15 MARCAS PARA ENTRAR PARA A HISTÓRIA
RECORDE ANO LOCAL ATLETA
3:40:22 1926 Londres Violet Piercy
3:27:45 1964 Ilha de Ryde Dale Greig
3:07:27 1967 Waldniel Anni Pede-Erdkamp
2:55:22 1971 Nova York Elizabeth Bonner
2:49:40 1971 Culver City Cheryl Bridges
2:38:19 1975 Eugene Jacqueline Hansen
2:32:29 1978 Nova York Grete Waitz
2:27:32 1979 Nova York Grete Waitz
2:25:28 1983 Londres Grete Waitz
2:22:43 1983 Boston Joan Benoit
2:21:06 1985 Londres Ingrid Kristiansen
2:20:47 1998 Roterdã Tegla Loroupe
2:19:46 2001 Berlim Naoko Takahashi
2:17:18 2002 Chicago Paula Radcliffe
2:15:25 2003 Londres Paula Radcliffe



Deixe o seu comentário


Publicidade

















11 3031.8664
Rua Hermes Fontes, 67
São Paulo - SP





© 1993 - 2014
Todos os direitos reservados