Revista Contra-Relógio
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Ernani de Souza: do duatlo à vitória no El Cruce

Edição 259 - ABRIL 2015 - PAULO PRUDENTE

Mineiro começou a focar a corrida apenas no fim de 2014, não tem treinador e trabalha em um escritório de segunda a sexta.

Há até bem pouco tempo, o nome de Ernani de Souza era relacionado ao mountain-bike e ao ciclismo. Mineiro de Conselheiro Lafaiete, onde mora até hoje, Ernani chegou a participar de campeonatos mundiais de duatlo (corrida e ciclismo) e dominar os campeonatos nacionais. Mas sua maior conquista em 18 anos de carreira esportiva veio em fevereiro deste ano, quando venceu a prova solo do El Cruce de Los Andes.
"O El Cruce sempre tem boa cobertura da mídia especializada da América do Sul e com isso fui recebido como celebridade em Conselheiro Lafaiete. Meus amigos do trabalho fizeram uma comemoração na empresa, nossos grupos de corrida e ciclismo articularam um desfile pela cidade no caminhão do Corpo de Bombeiros. Por fim fui recebido pelo prefeito e na Câmara de Municipal para ser homenageado".
Tamanha exposição pegou Ernani de surpresa, já que a vitória era algo que não havia passado por sua cabeça, principalmente porque somente em 2014 o atleta passou a focar as corridas e ainda não tem muita experiência neste tipo de prova. "Embarquei para a Argentina com desejo de ficar entre os 10 primeiros. Depois da primeira etapa vi que top 5 seria uma realidade e por fim veio a vitória sofrida, mas com um gostinho especial de ter sido o primeiro brasileiro a conquistar tal façanha".
Ernani começou a praticar esportes por influência do pai, que usava a bicicleta para ir e voltar do trabalho. Em 1996, aos 20 anos, fez as primeiras trilhas de mountain-bike. No ano seguinte incluiu a corrida nos seus treinos e participou de algumas provas de duatlo. Desde então seu amor pelo esporte só aumentou. E com muito treino os resultados não demoraram a aparecer. Foram 10 anos fazendo várias modalidades em uma mesma temporada, até que em 2006 Ernani direcionou seus treinos para o duatlo e conseguiu reconhecimento nacional na modalidade. Mas agora o foco são as corridas.

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NA MONTANHA. "Percebi que precisava de novos desafios e decidi que 2014 seria meu último ano de duatlo. Vi nas corridas de montanha boas possibilidades e resolvi investir nesta modalidade. A bike ainda faz parte de minha rotina de treinos. Nunca deixarei de pedalar, pois o amor por ela e pela sensação que me proporciona é indescritível", conta o atleta, hoje com 38 anos.
Apesar de acostumado com a elite nas provas de duatlo, Ernani não é profissional do esporte. Trabalha de segunda e sexta, das 8 às 18 h, como assistente administrativo. Mas quando o assunto é treino nada é capaz de desanimá-lo. A preparação para o El Cruce começou em outubro passado. Todo o planejamento para a prova foi feito pelo próprio atleta, que não tem treinador.
"As corridas de montanha exigem um preparo diferenciado. Tenho focado um pouco mais a resistência e na medida do possível estou treinando minha maior deficiência nesta modalidade, que são os trechos técnicos. Na maioria das provas que fiz até hoje, tive quedas e consequentemente alguns machucados. Tenho que aprender a correr em trilhas. Não possuo treinador e nunca tive; eu planejo tudo, desde calendário, alimentação, suplementação e programação de treinamento", conta Ernani.
A falta de técnica de corrida - e mesmo experiências em provas de alto nível - foi compensada por um enorme lastro proporcionado por quase duas décadas de treinamento duro. Na montanha, a longa experiência como atleta de alto rendimento o ajudou a escolher a melhor estratégia de prova. "Acho que Deus me iluminou nos Andes, pois consegui render muito mais do que o esperado. Fisicamente, tenho certeza de que esses 18 anos de treinos e competições me deram uma base sólida para aguentar o desgaste dos mais de 90 km da prova. E a experiência me ajudou a decidir o momento certo de atacar e ir rumo à vitória". Ele completou em 9h32, apenas 1 minuto na frente do segundo colocado, na soma dos tempos dos 3 dias.
Encaixar os treinos - com volume e intensidades de um atleta profissional - com a vida profissional, familiar e social não foi uma tarefa fácil para Ernani. Mas também o mineiro não é daqueles que renuncia a tudo para melhorar a performance. "O que mais mudou foi o aumento do volume de corrida. Já a média de treino semanal continua a mesma, em torno de 10 horas", diz o atleta, que sonha em correr a Ultra Trail de Mont Blanc.
Por enquanto, Ernani quer evoluir e ganhar experiência. Só assim acredita que poderá se firmar como corredor e mostrar que a vitória nos Andes não foi mero acaso. "Quero mostrar para mim mesmo que não sou um atleta de apenas um resultado. Este ano terei várias outras oportunidades para provar isso".



O Cruce
Prova acontece há 14 anos, em fevereiro, na fronteira entre o Chile e a Argentina, na região da Cordilheira dos Andes. A distância é de aproximadamente 90 km, que são percorridos em 3 dias, com direito a pernoites em barracas. É um percurso duro e bonito, em que boa parte dos participantes faz quase o tempo todo caminhando.
Sempre foi disputada em duplas, com os integrantes devendo permanecer sempre juntos, da largada à chegada. Mas há 2 anos o Cruce passou a oferecer também a opção solo. A temperatura varia de 10 a 20 graus, com possibilidade de chuva e neve, o que torna as fortes subidas e descidas ainda mais difíceis.
Neste ano foram 1.500 participantes de 25 países, e as inscrições são muito disputadas, apesar de bem caras, com crescente presença de brasileiros. Mais informações www.elcrucecolumbia.com

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