Revista Contra-Relógio
// Na Montanha //

Equipamentos e atitude para evitar surpresas desagradáveis

Edição 238 - JULHO 2013 - ANDRÉ SAVAZONI

Luvas, meias, calças e bermudas de compressão, manguito, boné, óculos e tênis de trilha ajudam na proteção contra tombos, galhos, espinhos, pedras e animais nas provas de montanha. Mas atenção também não pode faltar.


Cientificamente, não há comprovação de melhoria na performance com o uso de meias ou bermudas de compressão durante as corridas. Já as calças de lycra são recomendadas apenas para situações de baixa temperatura, assim como luvas e gorros, especialmente se há vento gelado, o que incomoda demais nas extremidades, como orelhas e pontas dos dedos da mão. Tudo isso vale para as provas de rua, porque nas corridas em montanha esses equipamentos, além de óculos e bonés, acabam sendo de ótima ajuda para proteção.
Ao percorrer trilhas fechadas, com galhos, raízes, tanto as calças quanto as meias de compressão ajudam a evitar arranhões e cortes. O mesmo vale para as luvas, pois você tem sempre de usar as mãos para transpor obstáculos naturais, sendo fácil agarrar-se a um espinho, a um pedaço de madeira com ponta; já os óculos evitam que pontas de galhos batam nos olhos. "Sou um novato nesse mundo, mas realmente comecei a usar a meia e a calça para proteger a pernas dos galhos, mais do que propriamente pela compressão", diz Rodrigo Montoro, de Florianópolis.
Montoro adota ainda outros métodos de segurança. "Também sempre saio com camelbak e muito gel, aviso sobre a trilha em que estarei treinando e um tempo-limite para fazer contato. Assim, minha mulher fica meio que me monitorando mesmo que de longe, pois muitas vezes vou sozinho treinar em trilhas. Daí, falo: ‘Devo demorar 1h30. Se não aparecer em três horas, pode ir atrás'", afirma. "Luvas estou começando a usar também, porque às vezes você se apoia em algo, onde pode ter algum bicho (aranha, escorpião ou cobra, por exemplo), além de espinhos, pedras pontiagudas... Dá uma boa amenizada, porque em trilha é muito fácil cair."

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QUEDA NO CHILE. Ana Ono, de São Paulo, sabe bem que as quedas fazem parte das corridas em montanha. Assim, toda proteção é bem-vinda. "Me estatelei no chão durante o Mountain Do Deserto do Atacama, no Chile, faltando 8 km para a chegada; mas o problema não é o machucado em si, mas o ferimento no ego", brinca. "No meu caso, acho que foi o cansaço. Manter a postura da corrida mesmo cansada é fundamental e minha corrida estava meio ‘arrastada'. Depois, corrigi isso. Quando o cansaço pega, já percebi que tenho de me policiar muito."
A corredora adota alguns equipamentos básicos. "Acima de 10 km em corridas na terra vou sempre com mochila de hidratação; hoje me sinto confortável de usar e não fico na dependência da organização para este item, pois já estive em corridas que, quando cheguei ao posto de hidratação, a água tinha acabado. Levo sempre gel, porque odeio passar fome, e sempre sinto muita fome", conta. "Também não pode faltar viseira. Para mim um item importante, pois como costumo transpirar muito na cabeça, o suor chega a incomodar, principalmente porque usamos muito protetor solar. Neste tipo de corrida, quero me preocupar só com a trilha. Quando sei que será em mata fechada, uso calça sempre. E manguito algumas vezes, assim como luvas. Este último item é importante, pois na última corrida senti falta quando tive que segurar em galho, árvore, raiz, chão... e daí vai a preocupação de não machucar a mão... e você não se concentra no que deve: a trilha."
Ana ainda destaca a importância dos tênis para terreno misto. "Isso depende do percurso. Na última prova de que participei, usei o calçado para montanha e foi ótimo, pois nos 4 km finais precisei muito de tração, e o tênis de corrida normal não nos dá esse tipo de aderência em terreno com terra, lama, musgo."


EXPERIENTE. Quem também defende a utilização desses equipamentos é Edicarlos Rodrigues, de Guarulhos, corredor experiente em montanhas. "É necessário sim usar alguns equipamentos, tais como luvas, camiseta de manga longa, óculos e shorts de lycra ou até mesmo as calças. As luvas servem também para que você possa frear a descida em alguns momentos do percurso fechado, porque sem elas é impossível segurar em árvores ou plantas", afirma. "Os shorts de lycra podem ser utilizados em algumas provas com vegetação alta ou baixa e mesmo no frio ou calor. Os óculos dão proteção em trechos de vegetação alta. Quando você entra em trilhas com corredores na sua frente, acaba não vendo a vegetação e é normal galhos baterem no rosto, como já aconteceu comigo."
Mesmo com todos esses cuidados e a experiência em montanhas, Edicarlos tem histórias para contar de quedas e machucados. "Quando estiver em estrada com um ritmo forte e o staff indicar alguma direção, reduza a velocidade e certifique-se de que dá para descer ou entrar com segurança no trecho pela frente. Aconteceu comigo no K21 Arraial do Cabo de 2012. Estava entre os dez primeiros e um staff informou que era para entrar à direita. Foi o que fiz, mas quando vi, era uma descida tão íngreme que não consegui parar. Veio a queda, mas felizmente sofri somente escoriações e consegui terminar."


CORRIDA OU AVENTURA? O treinador Diego Lopez, da TriLopez, de São Paulo, diz que os corredores devem analisar antes os percursos das provas, para saber quais equipamentos serão necessários. Ele divide as provas por trilhas em dois tipos: "Corrida em montanha na linha da corrida" (onde você praticamente só corre em trilhas maiores) e "Corrida em montanha na linha da aventura" (trilhas fechadas, os "single tracks", lama, mata e trechos travados pela altimetria, piso e largura).
"Utilizando provas como exemplo, algumas etapas do Circuito de Corridas de Montanha, como Mairiporã e São Roque, onde você corre o tempo todo, eu praticamente fui com o mesmo material do asfalto, inclusive o tênis. Só vesti a meia de compressão, uma bermuda até um pouco acima do joelho e manguitos como proteção para as pernas e braços ao entrar em mata fechada e também pela temperatura, porque sou ‘friorento'", explica Lopez.
"Agora, quando a prova tem o espírito mais aventureiro e uma distância maior, como o Desafio das Serras e o Cruce de Los Andes, sticks, camelbak e tênis focando uma maior estabilidade articular são recomendados. A ideia é você usar um equipamento com o qual consiga boa mobilidade para tomar água, tirar ou colocar algum equipamento, ingerir algum suplemento ou alimento, não ficar incomodando em partes como axila, virilha, costa, cervical, cintura e pé e sentir-se ‘encaixado' com ele, como se fizesse parte do seu corpo", receita Lopez. "Se no asfalto, o material da competição deve ser testado durante os treinos, em provas de montanha muito mais."



Concentração é fundamental


Mais do que nas provas no asfalto, as corridas em montanha exigem muito da parte mental. Você precisa estar concentrado o tempo todo. Os riscos de queda existem da largada à chegada. Como desgastam muito fisicamente, com o passar dos quilômetros e o maior cansaço, a atenção deixa de ser a mesma, e aí é que mora o perigo.
Em corridas de montanha, você tem de estar olhando para frente, mas, ao mesmo tempo, ficar atento ao chão, para ver onde está pisando. Galhos, cipós, buracos, pedras soltas... tudo pode levar a uma queda e acabar com a brincadeira. O uso das mãos é essencial. Não só a postura da corrida, mas para agarrar mesmo. Muitas vezes, a única forma de frear é segurando um galho, um tronco, um mato! Nesse aspecto, o uso das meias de compressão, bermuda ou calças, luvas, óculos, bonés e tênis para trilhas são determinantes. Principalmente se for percorrer trechos com lama ou molhados.


DOIS TOMBOS. Já levei dois belos tombos em provas de montanha, ambos no ano passado. O primeiro, na etapa de Paranapiacaba da Copa Paulista. Tinha chovido muito na semana anterior e o percurso era todo de barro. Com todo cuidado, passei a pior parte, de subidas e descidas. Quando cheguei ao trecho final, faltando 4 km apenas, percorridos em estradas largas, de terra, relaxei. Foi meu erro! Caí e desloquei o dedão, que teve de ser "colocado no lugar" no pronto-socorro. Felizmente, não houve qualquer fratura ou lesão mais séria nos ligamentos. Mas para um jornalista, que passa o dia digitando no computador, foi um belo problema. E caí porque não tive a mesma concentração dos outros 8 km bem mais difíceis.
A outra queda foi no K21 Ilha do Mel, em Curitiba. Novamente faltando poucos quilômetros, em um trecho de costão à beira-mar, pouco antes de começar a correr na praia, escorreguei e caí. A meia de compressão tinha abaixado e houve um rasgo na perna. Bati a cabeça na pedra, porém o boné ajudou a minimizar o impacto. Se a meia estivesse levantada, teria cortado bem menos - foram três meses para cicatrizar totalmente.
Então, vale a dica: uso de equipamentos é muito importante, porém concentração também é fundamental nas corridas em montanha. Não esqueça!

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