Revista Contra-Relógio
// Motivação //

Emoção na ponta dos tênis

Edição 279 - DEZEMBRO 2016 - ANDRÉ SAVAZONI

A estreia na corrida, uma ultramaratona ‘por acaso’, desafio pessoal em Nova York, a primeira maratona e o mundo das Majors. Leitores contam momentos inesquecíveis.

O que motiva você a correr? Quais lembranças os treinos e as provas lhe trazem? Que momento ficou eternizado? Esta nova seção da CR traz relatos de corredores sobre o que foi para eles a melhor prova da vida. Quer participar nos próximos meses? Basta entrar em contado pelo e-mail acima.

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Os três 3 em 2008
"Ainda criança, assisti pela TV à transmissão da Maratona de Nova York e disse a mim mesmo: ‘Um dia farei essa prova!'. Comecei a correr de verdade na década de 1990, quando não havia esses mimos de hoje. Parei em 1997, devido à faculdade e uma lesão, e voltei em 2000. Treinava sozinho até esse momento. Em 2001, minha namorada me apresentou ao treinador Dio dos Santos e trabalhamos juntos por 8 anos.
Nesse período, todo começo de ano ele me perguntava qual seria o objetivo seguinte. Em 2007, disse a ele que gostaria de fazer Nova York em 2008. Porém, não queria fazer somente a maratona... queria algo mais ‘audacioso'. O objetivo eram ‘os três 3'. Correr a Maratona com 30 anos, ficar entre os 3 melhores brasileiros na prova e conquistar o famigerado sub 3h.
Montamos todo um planejamento de lapidação em 2007. Assim, em 2008, fomos para cima. Mas eu não estava sozinho. Encarei a empreitada com dois amigos corredores, Frede e Alemão. Frede já havia participado por duas vezes de Nova York, enquanto Alemão estaria debutando como eu. Lembro bem das coordenadas do chefe (forma carinhosa de chamar o meu agora ex-treinador): ‘Não ande demais em NY. Turismo se faz depois da prova'. Fiz tudo o que ele me pediu... Só que ao contrário. Andei muito por Manhattan...
Chegou o dia da prova... Acordamos às 4h30 para o roteiro Metrô-Ferry Boat-Staten Island. Chegando lá, toda uma revista de segurança era feita em nossos pertences. Não sabia o que sentia nesse momento. Era um misto de nervosismo e de emoção ao mesmo tempo. Fazia frio de verdade para nós, brasileiros, 4°C.
Nova York-2008 foi o primeiro ano em que a prova passou a ser dividida em três ondas de largada. A cada meia hora, era dada uma largada com 3 percursos diferentes até o km 8. Eu largaria na primeira onda, na baia C. Pelo que me lembro, minha partida seria às 9h30 e cheguei na baia pouco antes. Aí começaram os problemas.
Quando me encaminhei para a minha baia, ela já estava vazia porque os corredores seguiram para a largada. Assim, os voluntários não me autorizaram a prosseguir, dizendo que eu teria de largar na segunda onda. Tentei argumentar, mas em vão. Lá fiquei. Às 9h30, escuto o tiro de canhão e ao fundo a música de Frank Sinatra (a largada ocorre tradicionalmente ao som de New York, New York)... e eu pensando... ‘Acabei com a minha maratona'.
Chegou finalmente a hora da segunda onda se encaminhar, lentamente, para a largada. Fui trotando rapidamente, justamente para ficar na frente de todos. Só que aí, um voluntário observou o meu número de peito e disse: ‘Você está atrasado".
Lembro de ter passado os 5 km em 20:39, os 10 km em 40:17 e a meia em 1h23. Até aí não sabia se conseguiria o objetivo de ser sub 3h, porque correr e fazer contas, ao mesmo tempo, não é para mim. Só consegui fazer a conta nos 30 km, quando passei sub 2h. Foi quando pensei: ‘Vai dar'. Cheguei ao km 40 em 2h40, já comemorando e chorando ao mesmo tempo. No final, acabei diminuindo o ritmo, mas consegui o segundo ‘3'. Eu era (sou) um sub 3h com 2:50:32. Só faltava o terceiro ‘3'. Este último só veio à noite, quando meus pais me ligaram enquanto eu assistia ao jogo do New York Knicks no Madison Square Garden (para quem não sabe, os vencedores da Maratona são apresentados no ginásio durante a partida de basquete da NBA) e eles me disseram: ‘Você foi o segundo brasileiro!'
Anderson Zacharias, de São Paulo


A estreia em uma Major
"Tenho 42 anos e participo de maratonas há dez. Após já ter concluído mais de 30 maratonas e duas ultras de 50 km, este ano pela primeira vez me inscrevi para uma das integrantes da World Marathon Majors, sendo a escolhida a Maratona de Berlim, realizada no último dia 25 de setembro.
Planejei, juntamente com minha namorada, nosso roteiro de férias, que incluiria, após os 42 km, um passeio pela região da Bavária e, no fim de semana seguinte, a cidade de Colônia, tendo me inscrito também para a maratona local, no dia 2 de outubro. Assim, além de estrear em uma "Major", faria também, pela primeira vez, duas maratonas em dois domingos seguidos.
A prova-alvo seria evidentemente a Maratona de Berlim. Apesar de estar acostumado a fazer várias por ano e não ter o costume de um treinamento específico para uma determinada corrida, desta vez procurei me preparar um pouco mais. E, no dia saiu tudo melhor do que o esperado!
Berlim me surpreendeu pela excelente organização, pela animação do público, pelo percurso extremamente favorável, todo plano, e pela enorme quantidade de corredores bem rápidos e de vários países. Geralmente, antes do início de uma maratona, traço o plano A e, durante, se vejo que não vai dar certo, passo para o B e, se precisar, para o C, e para o D... Mas desta vez, mesmo com a temperatura um pouquinho acima do ideal, saiu melhor do que o plano A! Consegui meu novo recorde em maratona, fechando a prova em 2h55. E pela primeira vez negativando, ou seja, fazendo a segunda metade um minuto mais rápido que a primeira.
E no domingo seguinte, fiz a de Colônia, fechando em 3h02. Foi a minha 37ª maratona e a 6ª deste ano (além da ultra de 50 km em Rio Grande)."
Alberto Bogliolo Sirihal, de Belo Horizonte


De repente, ultramaratonista
"A Wings for Life (Asas pela Vida em tradução livre) é um filantrópico circuito mundial de corridas com a arrecadação das inscrições destinada à campanha contra o câncer de medula espinhal. É realizada em 34 países simultaneamente (exceto Dubai). Este ano, foram 134 mil inscritos ao redor do mundo. No Chile, para onde fui, em torno de 2 mil corredores. Não é uma prova muito difundida no Brasil, apesar de termos também a nossa etapa (Brasília). Talvez por não distribuir prêmios nem ter kits luxuosos. Nem ao menos medalha de participação! Apenas um diploma que pode ser impresso após a prova.
Entretanto, é uma das mais bem organizadas que já participei, com entrega de kits sem filas, largada no horário certo, pontos de hidratação com isotônico e água a cada 5 km, marcação a cada quilômetro e uma infinidade de voluntários isolando as ruas por um trajeto que pode ultrapassar os 80 km (o campeão do nível mundial fez 88 km neste ano).
Inicialmente, eu havia me preparado para correr a Maratona de Santiago no dia 3 de abril, mas vacilei e perdi o prazo de inscrição. Mudei a passagem e passei a procurar uma prova na data escolhida. Encontrei a Wings For Life. Lembrando que, após meia hora de largada, sai um carro atrás dos atletas, e, à medida que estes vão sendo alcançados, a prova para eles se encerra ali. Atrás do Carro Perseguidor (Catcher Car), vem um ônibus recolhendo os atletas e levando-os ao local de largada. O carro larga a 14 km/h (pace de 4:17/km) e vai aumentando essa velocidade a cada uma hora até que o último atleta seja alcançado, ou seja, nesse momento se encerra a corrida.
Antes da viagem, meu treinador (Hércules Ferreira) me recomendara que eu fosse apenas até o km 40, porém, que não poupasse. Era pra imprimir o ritmo de prova até onde desse. Largada às 8h com a cidade ainda escura, 13°C e sem vento, em um percurso plano e com leves declives. Perfeito para ‘largar a bota'. E foi o que eu fiz. Rodei a 4:06 até o km 40, passando por diversos vilarejos no entorno de Santiago, inclusive na frente de vinícolas que depois visitamos na segunda-feira.
Ao chegar ao km previsto para encerrar meu treino de luxo, descobri que era o sétimo geral da prova, o que me incentivou a continuar, só que em um ritmo mais tranquilo. Ultrapassei dois atletas no km 42, onde passei em 2h54 (meu melhor tempo em maratonas era 3h10) e fui adiante até ser pego pelas câibras (km 44), pela campeã feminina (km 48), por mais dois atletas (km 50) e pelo Catcher Car nos 50.570 metros.
Retornei sorrindo pelo resultado à linha de largada onde minha esposa, Rebeca, me aguardava muito feliz da vida por ter corrido seus primeiros 13 quilômetros sem jamais ter passado dos 6 km. E foi assim que, despretensiosamente, me tornei ultramaratonista, fechando os 50.570 metros em 3:33:30, sendo o 7º colocado no Chile e o 140º no mundo entre os homens."
Alexsandro Lima, de Salvador


A primeira maratona
"Sou maratonista, aqueles loucos que correm 42 km pelo mundo e pensam que realizam um grande feito. Mas nem sempre foi assim. Fui asmático até os 7 anos e sedentário até os 39 anos de idade, quando entrei em uma academia e iniciei as atividades físicas.
Comecei a correr em 2007 e minha primeira prova foi de 5 km naquele ano. Daí para frente não parei mais. Passei a fazer provas de 10 km e meias-maratonas. Participei de quase 15 meias (Rio, São Paulo, Florianópolis, Natal, Fortaleza...). Hoje tenho mais de cem medalhas.
Então, senti que estava apto a realizar a ‘Mãe de Todas as Provas', a tão temida maratona e seus 42,195 km.
Tive como preparador físico, o professor José dos Santos Figueiredo, do corpo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foram seis meses de preparação e, então, em 7 de outubro de 2012 estava eu em Chicago, nos Estados Unidos, com um grupo de atletas aqui de Natal para realizar o grande sonho: ser maratonista!
Naquele dia fazia 5 graus de temperatura. E, como um cenário de sonhos, conclui a minha primeira maratona. Ao receber a medalha, naquele instante deslumbrante, chorei de tanta felicidade. Não acreditei que poderia realizar aquele feito. Mas, com muito esforço, dedicação e disciplina, consegui. Foi uma verdadeira consagração. Nunca esquecerei aquele momento.
Mais não parei por aí. Em 2013 conclui as maratonas de Santiago, Rio de Janeiro e Berlim. Em 2014, retornei para Santiago e fiz novamente os 42 km.
Em 2015, repeti Chicago e revivi as fortes lembranças da primeira maratona, foi um retorno deslumbrante. No segundo semestre, ainda corri em Buenos Aires, ou seja, já conclui sete maratonas, mas a primeira segue na mente.
O esporte mudou completamente a minha vida. De sedentário e introspectivo, me transformei em outra pessoa, mais ágil, versátil, produtiva, desafiadora, desenvolta e saudável.
No instagram @walterwaltter (dois "t" no final) publico constantemente incentivos àqueles que desejam sair do sedentarismo e procurar qualidade de vida."
Walter Hipérides Santos de Lima, de Natal

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