Revista Contra-Relógio
// Retrospectiva //

Em 12 edições, os 24 anos da revista

Edição 289 - OUTUBRO 2017 - TOMAZ LOURENÇO

Iniciamos neste mês as comemorações pelo 25º ano da Contra-Relógio, publicando até setembro de 2018 uma síntese de dois anos da revista, a cada edição.

Antes de abordarmos as primeiras matérias que saíram na CR, entre outubro de 1993 e setembro de 1995, é fundamental posicionar o surgimento da revista no ambiente de corrida daquela época. Não só eram pouquíssimas as provas, como quase todas absolutamente desorganizadas, como se pode ver nesta pequena descrição: nada de banheiros (a não ser que houvesse um ginásio ou algo parecido por perto); largadas quase sempre atrasadas; trânsito não ou pouco controlado; sem água no percurso; idem para atendimento médico, inclusive no final; chegadas tumultuadas com filas antes (isso mesmo!) do pórtico. Por outro lado, premiações em dinheiro no geral eram comuns e até nas faixas etárias. Em relação aos participantes, predominavam os de baixa renda.
Como fica claro, os corredores eram pouco respeitados e absolutamente desvalorizados, não havendo uma publicação sequer sobre o esporte. Então, este jornalista e corredor tomou a iniciativa de lançar uma revista em papel couchê, a cores, exclusivamente para assinantes. Foi feita uma divulgação, por folheto, para milhares de endereços recebidos de alguns dos poucos organizadores da época, que se conscientizaram sobre a importância da iniciativa, e o resultado foi que antes da primeira edição sair, em outubro de 1993, a CR já tinha algumas centenas de assinantes.
Poucos acreditavam que a CR vingaria, em função do pequeno público de então, composto por pessoas simples, e pelo igualmente limitado número de provas, bastante rústicas. Ficou na lembrança a frase de um corredor empresário, que ao saber do iminente lançamento da Contra-Relógio, foi categórico: "Duvido que dê certo!". Mas também muitos deram uma força, mesmo alertando para as dificuldades que teria pela frente.

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OBJETIVOS. Conforme o editorial da primeira edição, intitulado "Vamos largar juntos!", a revista surgia para informar, conscientizar, ajudar a melhor organizar as provas e valorizar seus participantes. Ou seja, assumimos mesmo que iríamos defender os interesses dos corredores e dar às corridas de rua outro status. Para divulgar a revista, o editor e esposa iam todos os fins de semana em corridas, montavam sua mesa para fazer assinaturas e vender a publicação avulsa, prática que se manteve durante vários anos.
O principal colaborador desde o início e por muito tempo foi o baiano Ayrton Ferreira, responsável por planilhas de treinamento que fizeram enorme sucesso, especialmente porque a maioria dos corredores não tinha qualquer orientação; poucos eram os treinadores e praticamente nada de equipes existiam. Também merece destaque a ajuda do fotógrafo Tião Moreira, não apenas fornecendo material para ilustrar as matérias, como passando informações e contatos, enfim o outro "braço direito" do editor.
Os interessados em assinar mandavam cheque pelos Correios e para estimulá-los a CR concedia, a cada um, número para o sorteio de um pacote para a Maratona de Nova York, acertado com a Chamonix Turismo, em troca de anúncios na revista.
Já na segunda edição publicávamos um guia de tênis, com dezenas de modelos de 11 marcas, e recebíamos a primeira contribuição do endocrinologista Marino Cattalini. Na revista de dezembro, as informações para a São Silvestre e uma cobertura especial da Maratona de Nova York. Começa nesse mês a seção "Notícias da CBAt", reforçando a comunicação da CR sobre os eventos de pista e campo.
Na de janeiro, capa para Ronaldo da Costa, 7º colocado na São Silvestre, prova que já passa a ser dominada por quenianos e etíopes, em chegada tumultuada por falha da organização. Carmem de Oliveira, nossa principal fundista, termina em segundo lugar. Dentro de sua linha editorial de prestigiar os corredores, a revista publica a listagem completa (371 mulheres e 4.915 homens). Nessa edição, o primeiro anúncio pra valer, da Nutri Sport, na contracapa.


RANKING. Em fevereiro 94, uma grande novidade: a publicação de um ranking de maratonistas, elaborado pelo assinante André Vazquez, com base nos resultados das 4 provas com percurso aferido de 1993, ou seja, Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Blumenau. A listagem era por tempo (sem classificação por faixa etária), compreendendo 164 mulheres (lideradas por Arlete Adão, com 2:43:57) e 811 homens (entre eles este editor, com 3:07:39) até 3h35; no mês seguinte saíram os demais, assim como em abril, totalizando 2.205. Detalhe: o último com o tempo de 5h10; ou seja, os maratonistas da época eram muito bem preparados.
Em todas as edições, sempre a cobertura de nossas principais provas e também algumas do exterior, com a publicação dos pódios geral e por idade. Em março, outra inovação marcante: a avaliação de provas (com polegares para cima e para baixo), que incomodava muitos organizadores. Aqui o objetivo não era a crítica em si, mas alertar para as falhas e indicar soluções, assim como aplaudir os acertos.
Também, desde o começo, uma seção com calendário das corridas do mês e dos seguintes, lembrando que a CR era a única fonte de informação da época, indicando o telefone dos eventos para os interessados se inscreverem. A internet ainda demoraria alguns anos para se popularizar.
Destaque em maio 94 para a inserção do anúncio da 2ª Maratona Pão de Açúcar de Revezamento, que nasceu, portanto, junto com a revista, e que se tornaria um dos maiores sucessos entre as corridas brasileiras, e por isso mesmo muito copiada. A CR seguia com a postura de publicar resultados completos das maratonas oficiais. Na edição de outubro 94, a primeira publicidade de uma marca de tênis: Asics. Anúncios de corridas são predominantes.
Em janeiro 95, Ayrton Ferreira começa sua série "Memória", sobre as corrida de rua, abordando 25 anos: 1970/94. Na edição de fevereiro, a cobertura especial da São Silvestre, com a vitória de Ronaldo da Costa, após 9 anos sem um brasileiro no lugar mais alto do pódio. O Ranking de Maratonistas é publicado pela segunda vez, agora com divisão por faixas etárias, mas sem tempos-limite para ingresso.


POSTURA OUSADA. A revista ajuda na organização da Maratona de Ribeirão Pires, em março, com 525 concluintes masculinos, mas apenas 21 mulheres, o que era comum naqueles anos. No editorial, uma postura ousada, defendendo que as provas passassem a cobrar inscrição (poucas faziam isso), para que houvesse maior responsabilidade dos organizadores, que seguiam na linha "nada cobro, portanto, não tenho obrigações".
Nesse sentido, a CR continuava sua luta pela melhora das corridas, fazendo críticas por vezes duras, quando as falhas eram muito grosseiras. Neste campo, destaque absoluto para a Corpore, na capital paulista, que realizava provas excelentes e era efetivamente uma referência. Não é demais citar que mesmo a São Silvestre pouco oferecia aos participantes, sendo caótica a entrega dos números, nada de banheiros na largada etc. Os resultados da SS 94 foram publicados na íntegra, em encarte, tendo 491 nomes no feminino e 6.172 no masculino. Era nossa forma de prestigiar os corredores, que passavam a ter uma lembrança de suas performances.
A revista também procurava apresentar as novidades técnicas no mundo da corrida, como foi o caso da notícia, em julho, sobre o uso de chip pela primeira vez na Maratona de Roterdã 95. E na edição de setembro saía o anúncio da Maratona de São Paulo, promovida pela prefeitura no dia 8 de outubro. A cobertura dela e os próximos dois anos da CR você verá na edição de novembro.


Principais colaboradores do período
Ayrton Ferreira - treinamento e história
Tião Moreira - fotografia e suporte
Marino Cattalini - nutrição e saúde
Rubens Rodrigues - ortopedia e lesões
Julio Lima Verde - organização de prova
Luiz Carlos Moraes - preparação física
Derrick Marcus - marcha atlética e notícias do exterior
Patrícia Bertolucci - nutrição
Henrique Viana - treinamento e medicina esportiva


Campeões das corridas mais importantes no período
Corrida de São Silvestre 93: melhores BR - Ronaldo da Costa (7º) e Carmem de Oliveira (2ª)
Maratona de Brasília 94: Luiz Carlos da Silva (2:22:07); Solange Cordeiro (2:56:20)
Maratona de Porto Alegre 94: Luiz Carlos da Silva (2:12:29); Cleuza Maria Irineu (2:43:31)
Corrida da Usina Ester (14 km) 94: Adalberto Garcia (40:48); Roseli Machado (47:51)
Maratona de Blumenau 94: Valmir Carvalho (2:17:51); Nercy Freitas da Costa (2:45:28)
Maratona de Buenos Aires 94: Clair Wathier (2:14:02); Euseli Assis Batista (2:47:57)
Meia da Independência (SP) 94: Delmir dos Santos (1:04:46); Rizoneide Wanderley (1:15:58)
Corrida de São Silvestre 94: Ronaldo da Costa (44:11); Silvana Pereira (melhor BR - 6ª)
Maratona de Brasília 95: Luiz Carlos da Silva (2h22); Auxiliadora Venâncio (2h57)
Maratona de Porto Alegre 95: João Batista Pacau (2:17:35); Arlete Adão (2:43:33)
Maratona do Mundial de Atletismo (Suécia) 95: Luiz Antonio dos Santos (3º com 2:12:49)
Maratona de Blumenau 95: Diamantino dos Santos (2:15:18); Geny Mascarello (2:48:32)
10 Km Tribuna FM de Santos 95: Ronaldo da Costa (27:56) e Roseli Machado (32:12)



A razão do nome


Quando pensei em lançar a revista, naturalmente que o nome logo foi uma preocupação. Não queria ficar no óbvio, como "Corrida", "Linha de Chegada", "Corra!" etc, e muito menos colocar um nome em inglês. Então, vendo um foto de largada de uma prova da Corpore no Parque do Ibirapuera, reparei que quase todos que estavam à frente tinham uma mão em cima do relógio cronômetro, para acioná-lo assim que fosse dado o sinal.
Ou seja, estavam ali para brigar contra o relógio, não importando muito os outros participantes, a não ser para os corredores de elite. E naquela época a maioria corria muito seriamente, sendo raros os que entravam no evento "apenas para completar", como acontece agora. Este exemplo mostra bem a realidade dos anos 90: em uma prova de 10 km, após 1 hora, a organização já começava os preparativos para desmonte de pórtico de chegada, já que eram pouquíssimos os que completavam acima desse tempo, exatamente o contrário de atualmente.
De qualquer forma, muita gente creditou o nome Contra-Relógio ao meu passado de ciclista, em função de uma prova com esse nome no ciclismo, mas não teve nada a ver mesmo.

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