Revista Contra-Relógio
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Eleonora: pioneira polivalente

Edição 185 - FEVEREIRO 2009 - MARCIO CARRILHO

Morando nos Estados Unidos há mais de 20 anos, ela é uma ilustre desconhecida para a grande massa de corredores brasileiros que hoje lotam as provas de rua de norte a sul do país. No entanto, aqueles que correm desde os anos 1970 ou 1980, certamente sabem de quem se trata esta simpática carioca de Copacabana e a importância que ela teve no movimento das corridas de rua no Brasil.


Estamos falando de ninguém menos do que Eleonora Mendonça, 59 anos, decana e espécie de madrinha das corridas do Brasil, uma pioneira absoluta, tanto como corredora quanto como organizadora, editora e representante da categoria. Entre outros feitos, Eleonora foi a primeira brasileira a correr uma maratona olímpica, organizou o primeiro circuito de corridas de rua do país, além da primeira maratona brasileira. Detentora do recorde brasileiro feminino na maratona por oito anos, que bateu quatro vezes, também ficou entre as top 10 das maratonas de Nova York e Boston. De férias no Rio de Janeiro, sua cidade do coração, ela bateu um papo exclusivo com a Contra Relógio, num agradável fim de tarde de verão às margens plácidas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

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OLIMPÍADAS, O ÁPICE. Representante do Brasil na primeira maratona olímpica feminina da história, realizada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 5 de agosto de 1984, além de correr a prova (que completou em 2:52:19) Eleonora teve atuação fundamental para a própria realização da prova, como presidente do International Runners Committee (IRC), entidade criada em 1978 e que pressionou o Comitê Olímpico Internacional (COI) para que a realizasse. "As Olimpíadas foram o momento culminante da minha carreira atlética, não só pela parte esportiva, mas também pela parte política. Como o desenvolvimento das corridas de rua entre as mulheres, começou a haver uma pressão mundial muito forte para que o COI realizasse a maratona feminina nos Jogos, além das provas de 5.000 m e 10.000 m", recorda.


O COMEÇO. Eleonora sempre gostou de esportes, tendo praticado tênis, natação e vôlei durante a adolescência. "Meus pais não praticavam esportes, mas sempre me incentivaram. A partir dos 12 anos comecei a jogar tênis, tomei gosto, viajei muito, participei de campeonato brasileiro, fui campeã carioca. Isso durou até a faculdade, quando fui fazer educação física, na Universidade do Brasil (nome da antiga UFRJ), na Urca. Depois recebi uma bolsa para fazer mestrado nos Estados Unidos, em Nova York, e passei dois anos lá. Antes disso, quando estava fazendo educação física, machuquei um joelho numa aula de ginástica, o que me fez abandonar o tênis. Então busquei um outro esporte, mas, com 20, 21 anos, as opções para começar a competir não são muitas. Pensei na natação, mas nesta idade a maioria dos nadadores já estava se aposentando. Foi nos Estados Unidos, durante o mestrado, em 1971, 1972, que começou o grande movimento de corridas de rua por lá, especialmente quando o Frank Shorter ganhou a maratona nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Junto com os americanos, eu também me entusiasmei e comecei a dar minhas corridinhas".


DE VOLTA. Quando retornou ao Brasil, Eleonora foi chamada por um técnico do Fluminense para participar de provas de atletismo. "O Frederico, técnico, me via correr todos os dias em volta do campo do Fluminense e me convidou para treinar com ele. Eu disse que corria por diversão, mas ele insistiu e disse que no ano seguinte, em 1973, haveria o Campeonato Sul-Americano, no Chile, onde pela primeira vez iriam realizar a prova de 1.500 m. Eu tinha programado uma viagem de Kombi, dirigindo do Rio aos Estados Unidos, e disse que por isso não poderia participar. Fiz a viagem e, quando voltei, ele me disse que o campeonato não tinha acontecido, por causa do golpe de estado no Chile. Então treinei novamente, fomos a São Paulo para a eliminatória, que ganhei com um tempo pouco abaixo de 5 min. Depois fomos pro Sul-Americano, onde baixei mais ainda o meu tempo. Aí, tomei gosto, os anos foram passando, aumentei a distância das provas e comecei a competir nos 3.000 m".


NOVAMENTE NOS EUA. Formada também em direito, pela PUC do Rio, em 1974 Eleonora recebeu uma proposta para retornar aos Estados Unidos e trabalhar como advogada. "Fui morar em Boston, onde o movimento de corrida estava muito forte. Todos os meus amigos e conhecidos queriam correr a Maratona de Boston. Então falei, bom, vou experimentar, aí o resto é história" (risos).


MUDANÇA. Sair das provas de 3.000m para as maratonas não foi fácil. "Levei muita surra, foi muito difícil, participava de corridas de meia distância, de 5 km, 10 km, e aprendi bastante, pois convivia no meio de atletas e, à medida que as mulheres iam aumentando as suas distâncias, adaptávamos o treinamento masculino para o feminino. Mas o pessoal de Boston não era muito cauteloso, então, já logo no início, começamos a fazer 60, 70, até 90 km por semana, depois passamos para 120, achando tudo muito normal".


NEW BALANCE. Além de atleta, cartola, editora de revista e organizadora de provas, Eleonora ainda teve uma passagem como designer de tênis de corrida, ao conhecer o novo dono da New Balance, Jim Davis, que havia comprado a empresa - originalmente criada em 1906 - no dia da Maratona de Boston de 1972, então com apenas seis funcionários. "Naquela época também não havia sapatos próprios para corrida. Lembro que depois de dois ou três anos que eu já estava competindo comprei meu primeiro sapato de corrida, de uma fábrica ali mesmo em Boston, de um amigo de um conhecido meu, que estava começando a fazer sapatos de corrida. O nome dele era Jim Davis, me levaram lá e me apresentaram a ele. Experimentei e alguns anos depois acabei vindo a trabalhar para eles como consultora, desenhando sapatos de competição, o que foi muito interessante".


PRIMEIRA MARATONA. Morando em Boston, centro das corridas de rua dos Estados Unidos nos anos 1970, Eleonora logo foi fisgada pela magia dos 42,195 km. "Minha primeira maratona eu corri debaixo de neve, um gelo, em fevereiro de 1976; fiz 3h28 e consegui me qualificar para a Boston daquele mesmo ano, que foi a minha segunda prova", lembra, com saudades.


MUITAS MARATONAS. "Naquele tempo corríamos uma maratona a cada dois meses ou pouco mais, era back to back, como dizem os americanos. Não havia muitas maratonas, então viajávamos muito; foi um período muito interessante. Nos primeiros cinco, seis anos, eu fazia de três a quatro maratonas por ano. Devo ter feito umas 50 entre 1976 e 1988, quando corri a minha última. Não é a toa que fiz artroscopia no joelho, por isso não recomendo correr tantas maratonas em tão pouco tempo, mas também não me arrependo. Acho que a turma toda que viveu aquela época tem ótimas recordações, foi muito gratificante; corríamos por amor ao esporte".


PRINTER. Eleonora voltou novamente ao Brasil, no fim de 1976, para correr a São Silvestre, que pelo segundo ano permitia a participação de mulheres - em 1975, em homenagem ao Ano Internacional da Mulher, a São Silvestre recebeu pela primeira vez corredoras, com nove inscritas. Foi quando ela teve o estalo de começar a organizar corridas por aqui. "Conversei com as pessoas e vi que não havia provas, especialmente femininas. No final do ano seguinte, 1977, quando voltei novamente para a São Silvestre, soube que um jornalista norte-americano que morava no Rio, Yllen Kerr (Nota da redação: autor do livro pioneiro no Brasil sobre corrida, "Corra para Viver", Editorial Nórdica, 1979), iria organizar uma prova de veteranos no Rio, no dia 31 de dezembro. Como eu ia correr a São Silvestre, trouxe dos Estados Unidos material da New Balance, roupas e sapatos. Me apresentei ao Yllen Kerr, falei ‘sua iniciativa é muito louvável e como um gesto para ajudar trouxe esse material da New Balance, onde estou trabalhando, para ser dado como prêmio'. Ele gostou, conversamos e, no início de 1978, resolvemos fazer uma corrida aberta, não só para veteranos, que foi a Corrida de Copacabana, de 8 km. Abrimos uma firma, a Printer, juntamente com o Paulo Cesar Teixeira, formado em administração e que gostava de esporte".


Leblon-Leme. Em 1978, depois de correr novamente a São Silvestre, Eleonora teve a idéia de chamar os principais corredores estrangeiros que iam a São Paulo para correr, no domingo seguinte, uma prova de 8 km pela orla da Zona Sul do Rio. Nascia, em janeiro de 1979, a Corrida Internacional Leblon-Leme, que marcou época e teve a participação de grandes estrelas, como Rosa Motta, campeã em 1985. A Leblon-Leme foi realizada ininterruptamente por 15 anos, de 1979 a 1994, quando foi extinta. Eleonora venceu a terceira edição, em 1981.


"Naquela época os corredores estrangeiros da São Silvestre vinham, pois dávamos passagem e alojamento; eles queriam era conhecer o Rio. Foi quando começamos a fazer o circuito de corridas da Printer, que teve uma receptividade muito boa, com provas infantis e de veteranos, inclusive, além de corridas de academia. Também fazíamos provas nos subúrbios e fora do Rio, como Nova Friburgo, Niterói e Nova Iguaçu".


AVON. Sempre pioneira, também em 1979, Eleonora, através da Printer, organizou a primeira corrida exclusivamente feminina no Brasil, que fez parte do circuito internacional da Avon. "Eu já conhecia a Kathrine Switzer (Nota da redação: americana que se tornou a primeira mulher a correr a Maratona de Boston, em 1967, quando a prova ainda não permitia a participação feminina. Inscrita como "K. Switzer", ela driblou o controle da organização, que, somente em 1972, finalmente acabou cedendo e abrindo a prova oficialmente às mulheres), que era diretora do departamento esportivo da Avon, em Nova York. Eu disse, "No Brasil as mulheres estão prontas para uma corrida só delas e estou oferecendo essa oportunidade para vocês, vamos buscar patrocínio e fazer este evento no Rio de Janeiro". Conseguimos, com umas 500, 600 participantes e, já no seguinte, em São Paulo, a prova da Avon teve o seu recorde mundial, com cerca de cinco mil corredoras. Depois levamos o circuito para Brasília, Porto Alegre; eles ficaram fascinados com o retorno que tiveram".


PRIMEIRA MARATONA NO BRASIL. A Printer de Eleonora organizou, no marcante ano de 1979, a primeira maratona do Brasil, batizada de Maratona Internacional do Rio de Janeiro. A prova continuaria a ser organizada por mais quatro anos, quando acabou extinta e perdendo espaço para a Maratona do Rio, promovida pelo Jornal do Brasil e pela Viva, a Revista da Corrida.


PRIMEIRA REVISTA. No embalo da Printer, Eleonora também editou, em 1979, com ajuda do amigo jornalista Yllen Kerr, a primeira revista especializada em corrida no Brasil. Chamada de A Corrida, a publicação durou até meados dos anos 1980 e marcou mais uma vez o espírito de pioneirismo desta corredora carioca polivalente.


IMPORTANTE É SE EXERCITAR. Feliz com a nova explosão das corridas de rua no Brasil de alguns anos para cá, Eleonora não é saudosista e discorda daqueles corredores das antigas que veem nas corridas de hoje mais badalação social do que compromisso esportivo. Para ela, o importante é que as pessoas pratiquem esporte em busca de uma vida saudável. "O esporte não é só competição e medalha; é um desafio mental, físico e pessoal; cada um encara de uma forma. Independente do objetivo, o importante é manter as pessoas se movimentando, para uma sociedade sadia. Considero a corrida a atividade mais fácil de se desenvolver, pois você não depende de ninguém, basta um sapato de corrida, em qualquer hora, em qualquer lugar. Não precisa de técnica, nem de técnico, basta fazer os exames médicos antes de começar. Cada um faz a sua crítica, mas eu aplaudo e louvo qualquer pessoa que esteja na rua com tênis de corrida se mexendo".


ROTINA HOJE. Mesmo estando longe das competições, a corrida ainda faz parte do cotidiano de Eleonora até hoje. "Todos os dias eu acordo, escovo os dentes e saio para correr, em média uns 40 minutos por dia". De férias no Rio, ela prefere correr nas Paineiras, mas também não dispensa o belo percurso da Lagoa Rodrigo de Freitas. Trabalhando com investimentos imobiliários em Cape Cod, no estado de Massachusetts, Eleonora não participa mais de corridas de rua. Mas garante que, se um dia voltar, é para disputar lugar no pódio na sua faixa etária. "Competir está em mim; entrar numa corrida só para participar não é comigo", diverte-se, com um sorriso de uma eterna grande campeã.

3 Respostas para “Eleonora: pioneira polivalente”

  1. PARABÉNS gente, pela matéria! Adorei isso tudo… eu estava lá… rsrs… A Eleonora merece uma estátua em praça publica… não dessas estáticas,feitas de pedra… mas sim uma construida com toda tecnologia atual… que a mostrasse em movimento… ela sempre foi dinâmica no falar, no lidar com as pessoas, nas idéias… ela é nota mil! Muitas saudades… eu tenho vontade de aplaudi-la sem parar!!! (participei da primeira maratona, de muitas corridas de rua, todas via printer… além de ter sido fiscal de pista na Avon… e duas memóraveis foram a Travessia da Ponte Rio Niteroi e a Subida do Corcovado… quanto ao Ylen Kerr, testei muitos tenis da marca Power prá ele… rs… grato! Daniel Cunha.

  2. Oi Vincent, fantéstica a matéria!!VoCê me consegue algum contato dela? Obrigada,
    beijo,
    Carla

  3. A reportagem esquece de mencionar que a atleta brasileira foi a última colocada na maratona, chegando quase meia hora atrás da vencedora.

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