Revista Contra-Relógio
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Dean Karnazes põe brasileiros para correr

Edição 193 - OUTUBRO 2009 - YARA ACHÔA


Ele é bem conhecido dos corredores brasileiros - pelo menos os apaixonados por corrida, que vêem nele uma fonte de inspiração. Em seu primeiro livro, O Ultramaratonista, Dean Karnazes, norte-americano de origem grega, contou que no exato dia em que completou 30 anos decidiu deixar para trás a vida sedentária que levava. Para provar sua convicção, saiu do bar onde bebia com os amigos e correu 30 milhas - cerca de 48 quilômetros - sem parar. De lá para cá se passaram 17 anos e mais de 260 mil quilômetros rodados - o equivalente a quase 30 vezes à distância entre o Oiapoque (AP) e o Chuí (RS), os pontos mais extremos do Brasil. Cerca de 165 desses quilômetros foram rodados em São Paulo, no mês passado, durante 24 horas, com apoio de muitos fãs (como eu). Dean aproveitou também para promover o lançamento de seu novo livro 50 Maratonas em 50 Dias - Segredos que Aprendi Correndo, no qual relata as 50 provas que correu em 50 estados americanos em 2006.


A idéia de compartilhar trechos desse desafio ao lado do ultramaratonista movimentou muitos corredores. Os sortudos foram selecionados por meio de uma promoção da The North Face, patrocinadora do evento, que também levou convidados como os ultramaratonistas Valderes Pereira da Silva, de São Paulo, e Jorge Cerqueira, do Rio de Janeiro (veja box), e corredores influentes como o empresário João Paulo Diniz. Como representante da Contra-Relógio, corri 26 emocionantes quilômetros com o grupo e senti de perto todo o carisma de Dean, que a certa altura do percurso, me vendo um pouco mais atrás, parou e fez questão de saber se eu estava bem.

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O certo é que o americano brincou, conversou, se empolgou com nossos corredores e se encantou com os principais cartões postais da cidade, como o Museu do Ipiranga, o Mercado Municipal e a Ponte Estaiada. Dois dias depois, nos recebeu e concedeu a seguinte entrevista:


O que achou da experiência de correr em São Paulo?


Foi fantástico! Correr é a melhor maneira de conhecer uma cidade. Vi uma diversidade muito grande de bairros e fiquei fascinado com o Mercado Municipal (o mercadão foi o primeiro ponto de parada do grupo, após 33 km, na madrugada de sábado para domingo, quando os comerciantes começavam a descarregar suas mercadorias).


Pouco antes de iniciar a corrida você escreveu em seu twitter (@deankarnazes) que não tinha dormido nas 48 horas anteriores... Como é que consegue correr assim, já que os médicos consideram o sono essencial para uma boa performance?


Fico cansado, claro. Mas não consegui dormir nem no avião. E quando vi a multidão que me aguardava, o cansaço até foi embora. Correndo também renovo minhas energias. Amo meu estilo de vida e não quero perder um momento sequer. Vou deixar para dormir quando morrer.


O que achou dos corredores brasileiros? Dois deles foram a seu lado o tempo todo...


Senti um companheirismo incrível, um verdadeiro espírito de fraternidade. Os dois que foram comigo até o fim disseram que se inspiravam em mim, então dei estímulo para continuarem firmes. Mas eles também me inspiraram. Nos ajudamos mutuamente.


Tem idéia da sua responsabilidade como corredor? Vendo você muita gente pode achar que é fácil vencer longas distâncias, às vezes sem o devido preparo...


Meu trabalho ao redor do mundo me faz entender o tamanho da minha responsabilidade. Mas sigo o lema do meu patrocinador The North Face: "nunca pare de explorar". Ou seja, procuro me superar cada dia um pouco mais. E acho que todos podem fazer isso, seja o desafio correr 1 ou 24 horas. O importante é ampliar os horizontes sempre.


Qual o seu volume de corrida? E como realiza os treinos?


Faço de 100 a 400 km semanais, conforme meus compromissos profissionais. E procuro variar os treinos, mudar os percursos e os terrenos, para não cansar. Gosto bastante de trilhas. Cruzando a Golden Gate (Karnazes mora em São Francisco) tem uma área muito boa para isso. Geralmente acordo às 3 ou 4 da manhã para correr de 30 a 40 km. No final da tarde, quando é possível, ainda realizo treinos de tiros.


Você faz musculação?


Sim, seis vezes por semana. É importante para complementar a corrida. Faço três séries, de 50 repetições cada, de flexões, exercícios na barra, exercícios para o tríceps e abdominais.


Como é sua alimentação? Faz uso de suplementação?


Não faço nada em especial e não tomo suplementos, apenas como muito salmão fresco, que é rico em ômega 3 (poderoso antioxidante que fortalece o sistema imunológico, combate doenças e envelhecimento precoce).


Alguma preparação mental especial para encarar longas distâncias?


Uma vez por semana corro durante toda uma noite para pensar na vida e equilibrar a cabeça.


Já pensou em desistir durante uma prova?


Sim, algumas vezes. Mas em seguida digo a mim mesmo que não vou fazer isso. Só paro se sentir que vou prejudicar meu corpo.


Em seu livro você fala: "o sofrimento é a única fonte de consciência". Acredita que a dor ajuda a elevar o espírito?


A dor ensina importantes lições para você, que podem ser aplicadas ao dia-a-dia.


Você já foi um executivo, trabalhava em um escritório... Hoje vive da corrida?


Sim, consegui fazer da corrida a minha vida. Ainda apresento palestras motivacionais e ajudo a desenvolver projetos com a The North Face.


Seus filhos e mulher correm?


Minha mulher, Julie, fica no apoio. Meus filhos, Alexandria, de 14 anos, e Nicholas, 11, amam correr. Se bem que acho que Nicholas gosta mais de futebol. Quando soube que eu viria ao Brasil perguntou se iria encontrar o Ronaldo (o fenômeno).


O que faz para relaxar?


Eu surfo, pedalo, faço escalada e esportes de aventura em geral.


Você é bom no que faz. Seus feitos são impressionantes. Mas algumas pessoas o acusam de ser um grande marqueteiro. O que acha disso?


Às vezes nem me conhecem e ficam falando. Basta me ver em ação para perceber que o que sinto é paixão pela corrida. Eu venci a Badwater (ultramaratona de 217 km pelo deserto do Vale da Morte, nos Estados Unidos, sob um calor que ultrapassa os 50ºC), que é a prova mais difícil do mundo, e às pessoas vem dizer que isso é marketing?


Qual sua opinião sobre Pam Reed (ultramaratonista americana de Tucson, no Arizona, tão boa quanto Karnazes)? Existe mesmo rivalidade entre vocês?


Pam e eu somos amigos. A mídia é que alimenta essa idéia de rivalidade, nos tratando como se fôssemos inimigos. Ela é uma excelente atleta e eu a admiro muito.


Das 50 maratonas que correu nos Estados Unidos, alguma o marcou em especial?


Todas foram incríveis e no livro você encontra detalhes de cada uma dessas experiências. Mas a última, em Nova York, o trecho final no Central Park, representou um momento especial. Significava que eu já podia ir embora para casa.


Qual será o próximo desafio?


Quero correr uma maratona em cada país do mundo, no prazo de um ano. Serão 195 países.


Pretende voltar ao Brasil?


Sim, claro. Tenho muitos amigos por aqui, como o Valmir Nunes e o Carlos Dias (ultramaratonistas). Além do mais, adorei a pizza de São Paulo. Já comi em Nova York, em Chicago, em várias cidades italianas, mas nenhuma como essa.

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