Revista Contra-Relógio
// Polêmica //

Correr no Brasil ou no exterior?

Edição 293 - FEVEREIRO 2018 - FERNANDA PARADIZO

Quando chega a hora de fazer o planejamento da temporada, qual sua opção: correr por aqui no Brasil ou programar uma competição lá fora? Reunimos aqui a opinião de alguns corredores e técnicos sobre o tema.

Ainda que a posição da maioria seja favorável a fazer provas internacionais, principalmente quando o assunto em questão é maratona, não é todo mundo que consegue realizar esse sonho com facilidade, até por conta dos valores despendidos numa viagem para as grandes provas pelo mundo afora. Hoje em dia, quem quer fazer uma Major no exterior, sonho de consumo de muitos corredores, deverá despender no mínimo entre 7 e 10 mil reais, dependendo da forma de inscrição, e ainda programar tudo com muita antecedência, para conseguir uma vaga, uma vez que as inscrições são sempre bem concorridas.
Claro que existem opções mais acessíveis, em provas também grandes, mas menos badaladas, como a CR mostrou na série "Especial", envolvendo provas em todos os continentes. Mas mesmo assim deve-se considerar um alto valor investido, principalmente quando comparado às opções oferecidas no Brasil. Até para competições na América do Sul, como Buenos Aires ou Santiago, é preciso fazer tudo com muita antecedência, para que os valores valham a pena.
Para o treinador Diogo Gamboa, de 35 anos, que comanda a equipe Gamboa Sports, sediada em Balneário de Camboriú, quando o aluno tem o objetivo de correr uma prova, seja maratona ou meia, algumas situações devem ser observadas. Para ele, é óbvio que todos querem correr no exterior, aproveitando a oportunidade de turismo, mas a situação financeira do atleta sempre tem que ser levada em conta. Ou seja, o que prevalece é o que cabe no bolso.
"Como atendemos várias classes financeiras, não é todo mundo que consegue investir numa viagem que vai gerar despesas relativamente altas para sua participação. Conheço bem meus alunos e tenho que ter esse termômetro. Não posso frustrar um deles achando que maratona só dá para correr fora do país, até porque temos boas opções no Brasil. Por isso, tento sempre adequar e procurar uma solução por aqui mesmo", explica Diogo.
Quando a situação financeira do aluno é favorável e ele visa uma performance audaciosa, como correr uma prova sub 3h ou sub 4h ou conseguir algum índice específico, aí sim o técnico acredita que a melhor opção é tentar encontrar uma prova lá fora, mesmo que seja na América do Sul, que permite um custo mais acessível. "A opção de correr em clima mais frio, tipo europeu, é sempre melhor e os percursos lá fora são mais motivantes e rápidos para quem busca performance."

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VIAGENS MIRABOLANTES. Para a treinadora Rosa Naimara, de 38 anos e que está à frente da equipe Maxxyma Assessoria Esportiva, de Curitiba, as provas lá fora são em geral muito legais, mas ela faz questão de brincar com seus alunos que não existe vida apenas no exterior. "As Majors são fantásticas tanto pelo número de pessoas como pela organização e visual, mas não há nada como correr em casa sem se preocupar com alimentação ou viagens mirabolantes", conta ela, que procura indicar provas com boa organização por aqui.
"Como em Curitiba há poucas provas de 21 km, acabamos viajando bastante pelo país, pois essa distância pode ser feita várias vezes no ano", explica Rosa, lembrando que correr no exterior envolve custos muito altos, problemas com adaptação a fuso horário e alimentação, além de viagens muito longas. "Como aqui no Brasil as maratonas não são tão concorridas, não precisamos efetuar inscrição com um ano de antecedência e isso para quem 'não sabe o dia de amanhã', principalmente no trabalho, poder se inscrever em uma maratona seis meses antes da prova ou mais perto ainda já é uma ajuda."



BOAS OPÇÕES POR AQUI. O publicitário paulista Pedro de Oliveira e Silva, de 54 anos, já correu muitas provas no estrangeiro, mas por falta de tempo ultimamente tem preferido ficar por aqui mesmo. "Quando você opta por uma maratona lá fora, muita coisa está envolvida. E hoje em dia, por conta de trabalho e família, é muito difícil que eu consiga me ausentar por cerca de uma semana, que é mais ou menos o tempo que precisamos quando corremos no exterior", explica o maratonista, que corre há mais de 25 anos.
Apesar de muitas provas lá fora, o corredor faz questão de destacar que as opções hoje no Brasil são muito boas, principalmente quando comparadas com as de 10 ou 15 anos atrás. "Hoje em dia você não precisa sair do Brasil se quer correr bem uma meia-maratona, por exemplo. Temos alternativas de sobra aqui, em várias cidades, com condições de percursos e de clima bem favoráveis para quem busca performance. E nossa organização também não fica devendo em nada hoje para as provas lá fora."
Com mais de 30 maratonas no currículo, sendo a maioria delas fora do Brasil, o corredor lembra que no país temos algumas interessantes maratonas para quem corre para tempo. "Vários amigos tentaram por anos o índice para Boston ou uma sub 3h em provas no exterior e acabaram conseguindo aqui mesmo no Brasil, no Rio de Janeiro ou em Porto Alegre", conta Pedro, que hoje acredita que correr perto de casa, sem mudanças bruscas na alimentação, por exemplo, e tendo a possibilidade de ter amigos e família por perto, pode contar pontos a favor.


APOIO DA FAMÍLIA. Esse é na verdade um dos fatores que mais influenciam a advogada e corredora gaúcha Ana Karine Caffarate Ribas, de 39 anos, na hora da escolha das provas que vão compor sua temporada. Com sete anos de corrida e seis maratonas no currículo, todas no Brasil, a facilidade de correr por aqui acaba prevalecendo sempre, uma vez que o custo também é bem menor. "Moro sozinha com meus filhos de 9 anos e é difícil deixá-los alguns dias para viajar", conta a corredora, que destaca o fato de conseguir mais facilmente as inscrições e de ter a família por perto como uma das principais vantagens. "Meus filhos participam comigo de todas as provas (quase todo fim de semana), exceto nas maratonas. Curtimos muito juntos, desde escolher a corrida e fazer a inscrição até a retirada do kit e o grande momento."
Apesar de gostar de correr "em casa", a corredora sabe que as provas lá fora tem um apelo muito forte, pelo grandiosidade do evento e por haver tanta coisa envolvida. "Nunca estive no exterior, mas converso muito com pessoas que costumam correr lá fora, que comentam que a organização é impecável, a hidratação é ótima e que há pessoas nas ruas se mobilizando e torcendo pelos corredores. Ao contrário do que acontece aqui no Brasil, a cidade se mobiliza para a maratona, ou seja, vive a corrida."
Quem também gosta de correr por aqui é o corredor e contador paulista Iury Zamarian Siroli, de 26 anos. Embora ainda tenha o sonho de participar lá fora, ele acredita que ainda há muito a explorar por aqui. "Além do menor custo e da praticidade, o país possui lugares tão fascinantes e inspiradores quanto os de uma prova no exterior, como os 21 km de Fernando de Noronha, que é um espetáculo à parte", lembra Iury, que corre há seis anos e já participou de várias meias maratonas por aqui. Além da possibilidade de explorar o Brasil, Iury cita ainda como vantagem a comodidade da logística, uma vez que não existe burocracia com passaportes e vistos para viajar.


MARATONA SÓ LÁ FORA. Depois de correr três vezes o Desafio do Dunga na Disney, a professora paulista Michele Reis Costa Beraldi, de 36 anos, não se vê nem um pouco disposta a fazer uma prova aqui, quando o assunto é maratona. Afinal, para ela, assim como para a maoria dos corredores, a estrutura das provas lá fora, principalmente das norte-americanas, são os principais fatores que a fazem optar por competições no exterior quando traça os objetivos do ano.
"É a organização como um todo, que vai da expo até a estrutura de médicos em todo o percurso, com postos com ambulâncias e enfermeiros, além de hidratação com água e isotônicos durante o trajeto", lembra ela, destacando também o fato de não ter os chamados "pipocas" na corrida, como acontece por aqui. Outros fatores que pesam a favor são o clima mais ameno, que favorece a performance, e ainda a grande quantidade de público ao longo do trajeto, apoiando os corredores, o que dificilmente se vê em provas nacionais.
Mesmo preferindo correr os 42 km fora do Brasil, para meia-maratona Michele considera opções oferecidas no calendário nacional. "Eu gosto muito da SP City Marathon, mas faço a meia devido ao percurso. Não tenho coragem de fazer uma maratona no Brasil. Há muita pressão dos 'conhecidos' para tempo que eles julgam dignos de um maratonista", diz a corredora, que aponta a menor infra-estrutura, os preços não compatíveis com a estrutura oferecida e o clima desfavorável como principais empecilhos. Apesar de preferir correr lá fora, a professora admite que o custo da viagem e também o calendário não favorável ao ano letivo são alguns dos dificultadores que ela encontra ao optar por uma prova estrangeira.


O engenheiro de produção gaúcho Mateus Gómez Sacchett, de 25 anos, procura fazer as provas lá fora principalmente quando o objetivo é conseguir um bom resultado. Em sete anos de corrida, Mateus já correu Berlim, Punta, Buenos Aires e Comrades, mas também Porto Alegre.
"Prefiro correr no exterior por alguns motivos. A feira da entrega dos kits nos deixa por dentro das novidades do mundo da corrida, dando também a possibilidade de adquirir produtos das mais novas tecnologias que muitas vezes não encontramos em território nacional. O corredor se sente respeitado, com uma largada dividida por baias, com fácil acesso, percurso bem sinalizado e poucos cotovelos, principalmente sem encontro de corredores de distâncias diferentes, além de hidratação digna e chegada celebrada."
O maratonista reconhece que há algumas desvantagens em correr no exterior, como a diferença de fuso horário, a alimentação, o clima (dependendo da localidade) e o alto valor que se paga, inclusive da inscrição. Ainda assim, Mateus não abre mão das suas escolhas e prefere usar as provas nacionais apenas como treino para as competições-alvo da temporada.


PRÓS E CONTRAS, AQUI E LÁ FORA


Vantagens Desvantagens
No Brasil - menor custo
- fuso-horário favorável
- facilidade na alimentação
- apoio e suporte dos amigos e da família
- menor tempo despendido numa viagem nacional
- maior facilidade para inscrições
- provas mais vazias
- sem apoio e suporte do público
- clima e percurso desfavoráveis (salvo exceções)
- expo não atrativa (a da Maratona do Rio é exceção)
- largadas sem baias por tempo


No exterior - clima mais ameno e mais opções de percursos favoráveis
- expo atrativa
- boa organização, proporcional ao que se paga
- grande número de corredores
- cidades envolvidas com o evento
- suporte do público ao longo da prova
- staffs (a maioria voluntários) prestativos
- turismo favorável
- possibilidade de aproveitar férias com a família
- alto preço da inscrição
- dificuldade de vaga nas grandes provas
- planejamento com muita antecedência
- viagem solitária para minimizar custo
- fuso-horário desfavorável (exceto na América do Sul)
- tempo de viagem (pelo menos 1 semana fora)
- dificuldade de alimentação
- burocracia para conseguir documentos de viagens, como passaporte, vistos e vacinas



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