Revista Contra-Relógio
// Comrades //

Comrades para cima: a mesma emoção!

Edição 178 - JULHO 2008 - TOMAZ LOURENÇO

Como os leitores acompanharam nos últimos meses, voltei à África do Sul em junho, para novamente correr a Comrades, agora no sentido subida e, dessa forma, me tornar um verdadeiro “comradeiro”, como dizem por lá. Não apenas eu, mas vários outros brasileiros e leitores da CR repetiram a dose, com sucesso, ganhando assim, além da medalha convencional, também a “back to back”, dada para quem completa em anos seguidos a mais famosa ultramaratona do mundo.


Desta vez a preocupação sobre como me sairia na empreitada era um pouco menor, apesar do percurso "em subida", na distância de 87 km, contra os 89 km do ano passado, "em descida". Para quem não sabe, o trajeto na Comrades é praticamente todo em sobe e desce, sempre por estradas asfaltadas, com a diferença de que nos anos pares sai-se de uma altitude zero (nível do mar) e chega-se a 400 metros (passando-se por pontos a mais de 500 metros) e o inverso nos ímpares.

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A maior confiança era por já conhecer o percurso e também por me considerar melhor preparado (e mais leve), tendo feito praticamente os mesmos treinos de 2007, só que um pouco mais rápidos. Inclusive em meus dois "treinos de ritmo", nas maratonas de Floripa e Porto Alegre, acabei conseguindo tempos melhores do que esperava (3h49 e 3h46, respectivamente) o que me deu ânimo a tentar reduzir o tempo na Comrades, apesar do trajeto para cima.


A saída em Durban torna mais fácil a vida dos participantes, já que a maioria mora nesta região ou aqui se hospeda, assim como para os estrangeiros, entre eles os 40 brasileiros que lá estiveram. Em contrapartida, depois da chegada, em Pietermaritzburg, tem-se que voltar nos ônibus da organização ou em veículos particulares. Quando a saída é no alto, quase todos viajam de madrugada para lá chegar antes da largada, sempre às 5h30.


O CANTO DO GALO. A largada seguiu a mesma rotina, com os corredores se posicionando tranqüilamente em suas baias (apesar de serem 12 mil...), ouvimos o locutor falar dos países participantes e uma parte de seus hinos, o sul-africano na íntegra, depois a canção popular "Shosholosa" cantada pela multidão (especialmente os negros), "Carruagens de fogo" e finalmente o canto do galo, seguido do tiro de canhão.


Estava na 4ª baia (D) e em apenas 2,5 minutos cruzei o tapete de chip, começando a correr lentamente, mas sem problemas, graças à separação por tempo previsto na prova. Aliás, por quase todo o percurso tive como companhia predominantemente cor­redores com números começando pela letra D e uma coisa curiosa acontece: passamos um determinado corredor, algum tempo depois ele nos ultrapassa, horas depois a coisa se repete e por aí vai.


Também em relação a este aspecto constatei uma mudança no "perfil" dos corredores ao meu redor. Enquanto no ano passado, quando saí na baia G, muitos começam a caminhar logo nas primeiras subidas, agora isso só foi acontecer principalmente na segunda parte. Também raros os que corriam e usavam celular e nada de casal fazendo as subidas de mãos dadas, com em 2007. Enfim, estava correndo 30 segundos mais rápido por quilômetro, em relação ao ano anterior, e isso trazia essas diferenças.


Corria fácil e ao passar a marca da metade em 4h45 (5h05 em 2007) comecei a imaginar que poderia até, quem sabe, completar em menos de 10 horas, o que seria sensacional, já que tinha fechado em 10h54 em 2007. E o andamento da prova foi me dando mais segurança ainda, pois praticamente mantinha o ritmo (em torno de 6:30/km), apesar das subidas, algumas muito longas. Nestas decidi acompanhar a turma, ou seja, passei a também caminhar, especialmente porque via os números verdes e amarelos (mais de 10 e de 20 Comrades completadas, respectivamente) assim fazerem. E experiência é para ser respeitada quando se fala de longa distância.


TUDO BEM, ATÉ... Seguia utilizando o abastecimento da prova, a cada 1.600 metros, tomando água, isotônico e coca-cola, e meu próprio (2 carbo em gel, 1 sachê de sal e 1 analgésico que tomei na metade da prova para diminuir as dores da minha hérnia de disco). Quando cheguei na placa de 20 km (a marcação é regressiva) achei que fecharia mesmo em menos de 10 horas, já que tinha 2h30 para fazer essa distância e estava me sentido bem, com um cansaço normal. Aí...


Aí apareceram (mais uma vez, como no ano passado) cãibras na parte posterior das duas coxas, que me impediam de correr. Como estava com folga no tempo, decidi caminhar para ver se o problema ia embora; tentava retornar à corrida, mas elas voltavam, e foi assim por vários quilômetros. Então apareceu um posto de massagem, e pedi que me passassem gelo; depois de 1 minuto, agradeci e fui embora, constatando que dava para correr, mas a alegria durou pouco. Elas voltaram.


E eu fui ficando irritado, pois estava com vontade de correr e disposto, mas as cãibras não permitiam. E havia um "agravante": já há algumas horas eu vinha sendo estimulado pela constante platéia, que ao ver o nome Brasil na camiseta, gritava o nome do país e falava palavras de incentivo, além de outras do tipo "ronaldinho", "samba", "caipirinha" e até "santana" e esta só fui entender depois ao saber que o técnico da seleção de futebol da África do Sul é Joel Santana. Então, eu sendo estimulado e caminhando, não correspondendo à platéia...


NOVAMENTE CORRENDO. Essa situação foi se arrastando até mais um posto de apoio. Ao sair da massagem com gelo, experimentei correr e como estava meio anestesiado vi que era possível e fui embora, até que em bom ritmo, mas controlando, com medo que elas voltassem. Estava então a 7 km da chegada, já sabendo que não completaria em menos de 10 horas, mas voltei a ficar feliz, pois as cãibras não davam sinal e fui me animando, acho que passando a correr a menos de 6:30/km.


Só que a 4 km da chegada aparece uma subida forte e curta, a Polly Shorts, e aí não tinha jeito, todo mundo caminhava. Fiz o mesmo e torci para que depois pudesse voltar a correr e assim aconteceu e eu fui todo contente para o final, cruzando a linha em 10h12. Estava tão bem, que ainda parei ao lado do pórtico para acertar com a assessora de imprensa da prova o envio de fotos na semana, de forma a podermos dar uma boa cobertura.


Então depois encontrei a Cecília e os outros brasileiros na área reservada, pedi a ela que conseguisse gelo para que eu massageasse as pernas, pois tinha medo que as cãibras voltassem, como já tinha me acontecido de forma extremamente forte após terminar uma Maratona de São Paulo em que caminhei grande parte, pela mesma razão. Mas o gelo ajudou e elas não apareceram.


Ficamos com os outros brasileiros, aguardando os demais, até o sempre emocionante final. Pouco antes do tempo-limite das 12 horas, chegou o "ônibus" sub 12, como são chamados os grupos que se formam liderados por corredores experientes, para terminar em determinado horário, este último com uns 200 corredores. Depois aguarda-se o encerramento pelo prefeito, que fica de costas para a chegada e ao dar o tiro de término da prova todos os competidores são recebidos, mas ficam sem medalha. E chega muita gente, que consegue passar no último "corte" do percurso, mas depois vem muito lentamente e, dessa forma, acaba sendo desclassificado.


EM QUAL SENTIDO É MAIS DIFÍCIL?


A revista já tinha publicado acreditar que a Comrades para cima e para baixo apresenta a mesma dificuldade, até lembrando a pequena diferença dos recordes nos dois sentidos, não importando tanto a parte inicial (em subida nos anos pares) ou a final (em descida nos anos ímpares), ou seja, o mesmo trecho. Isto porque quando começa a prova se está em ótima forma, encarando as subidas com vontade, enquanto ao descer os últimos 30 km podem ser bem sofridos, porque já se está bem dolorido.


Foi assim comigo em 2007, me "arrastando" nessa parte final, com muitas cãibras e dores musculares, ou seja, não aproveitando o percurso favorável, o que acabou prejudicando bastante o tempo final, que poderia ter ficado em torno de 10 horas e não em 10h54, como aconteceu. O mesmo vale para este ano, com a diferença que caminhei por menos quilômetros desta vez e dessa forma foi possível fechar em 10h12.


Mas, enfim, foram 42 minutos mais rápidos na subida do que na descida e portanto seria possível concluir que é mais fácil encarar a Comrades up hill do que down hill? Nada feito! Mesmo com os 2 km menos (87 contra 89 km), o percurso em subida é mais duro e ainda com um agravante: os últimos 20 km são em pleno sol, o que não acontece quando se está chegando em Durban, que oferece mais sombras. E muita gente não conseguiu acabar este ano, como se constata no destaque. Já entre os brasileiros, apenas 3 dos 38 que largaram não conseguiram completar no tempo-limite de 12 horas. Destaque para Maria das Graças Bernardino, que ficou em 1º lugar de sua faixa etária.


Portanto, aqueles que deixaram para encarar o desafio em 2009 podem ficar mais animados. Apenas uma sugestão final: façam bastante musculação, além de vários longões em percurso acidentado, que tudo ficará mais fácil.

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