Revista Contra-Relógio
// Fisioterapia //

Como enfrentar e conviver com o joanete

Edição 158 - NOVEMBRO 2006 - ALESSANDRA ARKIE E KENIA GUERRA BAUMANN

Um problema muito comum nos pés é o hálux valgo, mais conhecido como joanete, que aparece relacionado ou não à atividade esportiva. Porém, alguns fatores podem aumentar a predisposição do atleta à essa alteração, o que pode comprometer a performance na corrida. Uma maior freqüência dessa deformidade entre os corredores está relacionada à participação crescente em atividades esportivas, principalmente de pessoas com mais de 40 anos, o que resulta num aumento considerável do número de lesões ligadas ao joanete.


O tratamento mais divulgado para o joanete é a cirurgia, contudo, como fisioterapeutas, além de informar o que é e porque acontece, vamos focar nesta matéria a possibilidade de um tratamento conservador, pouco explorado no meio ortopédico.

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O hálux valgo é um desvio lateral do dedão do pé com o desvio medial do primeiro osso do metatarso (osso longo do "peito" do pé), como ilustrado na figura 1. Essa deformidade pode progredir para uma subluxação da articulação metatarsofalangeana, ou seja, resulta na perda do contato articular desses dois ossos que sofrem o desvio.


Muitas causas possíveis. O joanete ocorre quase que exclusivamente nas sociedades que usam sapato, o que historicamente é evidenciado com um grande aumento na incidência dessa doença após a Segunda Guerra Mundial, quando foram introduzidos modelos de sapatos mais modernos, principalmente com bicos mais finos. Isso também explica a alta prevalência de joanetes em mulheres entre quarenta e sessenta anos.


Apesar do uso de sapatos inapropriados parecer ser a principal causa, fatores intrínsecos têm um papel muito importante na formação do joanete. As principais alterações músculo esqueléticas que causam essa deformidade são: pé plano, pé pronador, contratura (tensão exagerada) do tendão de Aquiles, frouxidão ligamentar, genu valgo (joelho em "x") e hereditariedade.


Exame físico. A principal queixa do atleta com joanete é dor na articulação metatarsofalangeana do dedão, que é a articulação do dedão com o pé. Com a alteração do alinhamento ósseo, forma-se uma bursa (bolsa de líquido) na lateral dessa articulação, que facilmente se inflama (observe a localização dela na figura 1). Essa bursa sofre irritação e inflamação devido ao trauma direto e a pressão repetitiva decorrente da corrida e do uso de sapato estreito. A pressão exercida pelo sapato pode causar o pinçamento do nervo do dedão, resultando em dor e adormecimento. O adormecimento é muito comum em corredores e pode envolver todos os dedos do pé.


O exame físico deve ser realizado com o atleta sentado e em pé, já que ao colocar o peso do corpo sobre o pé a deformidade, tanto do dedão como qualquer outra alteração biomecânica (de alinhamento), será acentuada. O exame minucioso da musculatura do pé e dos nervos dessa região deve ser realizado.


Em corredores é importante observar a caminhada e a corrida. A observação detalhada da caminhada e corrida na esteira pode revelar alterações mecânicas (músculo-esqueléticas) importantes para a escolha do tratamento adequado. Na nossa experiência, pacientes com joanete comumente apresentam fraqueza do músculo tibial posterior, pé plano (chato) e hiperpronado.


Além do exame físico e da análise da caminhada e corrida, o raio-X pode auxiliar na identificação de outras anormalidades, como dedos em martelo (figura 2) ou em garra (figura 3), subluxações e luxações do segundo dedo decorrente da gravidade do joanete. O raio-X também esclarece o quanto severo é o joanete.


A formação do joanete resulta na limitação do movimento da articulação do dedão. Se levarmos em consideração que a corrida acarreta em uma sobrecarga (250% do peso corporal) sobre os ossos da parte da frente do pé, enquanto que a caminhada resulta em apenas 80% do peso corporal, fica claro o quanto a limitação funcional do movimento do dedão pode comprometer a performance do atleta.


Tratamento conservador. O tratamento conservador deve ser a primeira alternativa, principalmente no caso de corredores, já que a cirurgia de correção do hálux valgo tem como principal conseqüência a rigidez ou diminuição do movimento da articulação metatarsofalangeana. Conseqüência essa que pode prejudicar o rendimento do corredor e principalmente alterar a pisada, formando um mecanismo compensador que pode levar a outros problemas ortopédicos.


O tratamento do hálux valgo deve focar não apenas a deformidade do dedão, mas também as alterações biomecânicas que, associadas, podem causar essa deformidade.


O tratamento inicial tem como objetivo diminuir a dor e a inflamação. Para atingir esses objetivos a fisioterapia pode fazer uso da aplicação do ultra-som, gelo e mobilização articular do hálux. A utilização de medicação antiinflamatória auxilia o tratamento fisioterápico e deve ser prescrita por um especialista (ortopedista). É de extrema importância que as atividades atléticas sejam modificadas para reduzir o stress causado no joanete. Deve-se evitar corrida em terrenos irregulares (principalmente com subidas), treinos de tiro e atividades que envolvam chutes (futebol e lutas marciais) ou posturas ajoelhadas. As atividades mais indicadas para essa fase são: ciclismo, natação, remo e deep running (corrida dentro da água com uso de flutuadores).


Com a redução da dor o fisioterapeuta deve focar na restauração da mecânica normal da marcha, o que envolve equilíbrio muscular e adequado alinhamento das articulações do membro inferior. Assim que o atleta referir melhora da dor, devem ser iniciados o relaxamento e alongamento dos músculos e tendões da perna e pé que se apresentam encurtados, para que se evite qualquer limitação do movimento nestas regiões.


Os principais músculos a serem alongados são: os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) e o músculo que dobra o dedão (flexor longo do hálux). O alongamento do músculo do dedão deve ser realizado e instruído pelo fisioterapeuta, que ao aplicar suave tração na articulação buscará primeiramente o alinhamento da articulação, já que deformidade deve ser corrigida manualmente antes da aplicação de força na direção que se deseja alongar. O fisioterapeuta deve ensinar e treinar o atleta para que este repita o alongamento três a quatro vezes ao dia.


Simultaneamente com os exercícios de alongamento deve ser iniciado um programa de fortalecimento para a musculatura intrínseca do pé e músculos da perna. Os músculos mais importantes a serem fortalecidos são: músculos abdutores e rotadores externos do quadril, tibial posterior (este músculo ajuda no suporte do arco do pé, controlando a pronação) e os músculos da sola do pé.


A progressão do número de repetição e resistência indicada para cada exercício depende da força inicial de cada músculo e da presença de dor um dia após os exercícios. Portanto, deve ser definida pelo fisioterapeuta que está guiando o seu tratamento.


O programa de fisioterapia dura em média duas a cinco semanas. Ao retornar à corrida o atleta deve manter os exercícios de alongamento e fortalecimento duas a três vezes por semana.


Cirurgia. Alguns corredores po­dem não obter sucesso com o tratamento conservador, principalmente nos casos em que a alteração da articulação é mais acentuada. Para estes casos a cirurgia pode ser uma boa opção, já que atualmente a correção do alinhamento do dedão é menos agressiva, permitindo uma recuperação mais rápida e com menos seqüelas.

16 Respostas para “Como enfrentar e conviver com o joanete”

  1. Boa noite eu realmente gostaria de saber se apos um cirurgia de joanete e proveval ela voltar , por que ja ouvi varios comentarios que tem pessoas que operam e depois ele retorna obrigado flavio

  2. Sou atleta maratonista veterano e tenho este problema e que me tem muito prejudicado nos meus treinamentos.O meu dedão do pé direito tombou para o lado dos dedos pequenos e fez com que ele puchasse o couro e apertando os dedos pequenos. Além de eu ser corredor de rua sou também ciclista de competição em magrelas.O pé dói muito e fica muito quete, até quando eu coloco a sapatilha para fazer ciclismo. Antes eu fazia no final da semana 100 kms de ciclismo. Hoje após os 40 kms o pé começa esquentar. Nos treinamentos à pé, depois de 20 kms o pé também esquenta. Estou procurando conviver com o problema. Entretanto, é difícil. Diminuí meus rítmos de treinamentos e com isto aumentei um pouco de peso. Quero evitar cirurgias. É sofrível. Os meus tênis que era n. 40 já estou usando 42 e 43. Estou tentando conviver com o problema. Desejo explicações dos médicos sobre o assunto. Obrigado. De Milton em Natal RN.

  3. sofro muito com joanetes, doi muito e é a maior gozação com meus pes, sou tao bonita e os pes me matam, o que faço….

  4. Boa noite, tenho joanete é insuportavel dai pergunto; qual a marca de tenis mais indicado para quem tem esse problema?
    Comprei um da Kolochi que é bem leve mais mesmo assim me dói no local do joanete. Fico no agurdo da respostas, muito obrigada!

  5. Lila, não esquente a cabeça. Eu também tenho joanetes e sempre brincavam comigo. Hoje em dia, não me incomoda. O que vc precisa ficar atenta é em usar sempre pelo menos 1/2 ponto maior na numeração dos seus tênis para que a joanete não te incomode nos treinos.

    Abs

    Sergio

  6. Olá Mailde,

    O Vomero da Nike e o Gel 3020 da Asics são tênis que tem uma espécie de trama elástica exatamente na região onde fica a joanete e evitam o atrito com o local.

    Bons treinos,

    Sergio

  7. Fiz a cirurgia de joanete e gostaria de saber se preciso fisioterapia para aprender a pisar direito. Fico preocupada do problema voltar, mesmo com todos os cuidados que tenho tido. Adoro correr, mas por enquanto estou parada. Não senti dores no pós-operatório, apenas precisei de uma dose extra de paciência, pois fiquei sem andar 3 semanas. Agora já estou andando, mas ainda no período de recuperação. O pé ainda está inchado.

  8. Boa noite Sérgio!
    Moro em Brasília, e lendo a sua explicação sobre a fisioterapia para o tratamento de joanetes, me animei.
    Gostaria de saber se você conhece algum profissional que faça esse tratamento aqui em Brasília ou se você tem alguma indicação para Brasília. Obrigada, Andréa Lopes

  9. Tenho problema grave de joanetes,penso em operar mas tenho receio pq recente uma amiga fez cirurgia e sofreu muito no pós operatorio. Fiquei animada com depoimento de Cristina Alvez e gostaria que ela me indicasse o médico que a operou,e se é do Rio de janeiro. Obrigada

  10. Olá! tenho joanete a muitos anos nunca senti dor posso usar qualquer sapato, mas sinto muita dor no calcanhar e no tornozelo, o medico me indicou a cirurgia da joanete, e diz que a dor é por pisar errado, estou confusa, não sei o que fazer! alguém sabe alguma coisa a respeito. Obrigado

  11. A dor nos pés é insuportável…agora que tomei coragem para fazer a cirurgia, o que mais escuto é ” a dor da cirurgia é pior ..sempre volta..”! É tudo isso ..mesmo ??

  12. Tem uma cirurgia inovadora, mini incisiva, que no outro dia a pessoa já está caminhando, não precisa colocar parafusos. é muito tranquila, é ´so 3 furinhos no pé, anestesia local e corrigi. só que para minha decepção a unimed ainda não cobre, é particular.
    No momento que várias pessoas se interessarem e pressionarem os planos de saúde, quem sabe, pe questão de tempo. Então vamos fazer a nossa parte. essa cirurgia é a ideal. cirurgia percutÂNEA ou mini invasiva para correção de joanetes.

  13. ola gente gostei de ver que não estou só temos alguma coisa em comum
    gostei das pesquisas.

  14. tenho joanetes nos dois pés, fui à médica e ela me disse q o meu caso é um joanete grau médio e é cirúrgico. tomei coragem e já marquei os RXs dos pés com carga e oblíqua e tb doppler arterial e venoso dos membros inferiores para depois levar o resultado a um angiologista, pois fui fumante por anos e esse exame é importante. Gostaria de ler um depoimento de alguém q já fez a cirurgia e, principalmente, o pós-operatório, quanto tempo com gesso (a minha médica disse 15 dias e um mês e meio mais ou menos de muletas), se dói, se é esse tempo memso. É incrível de quando a gente decide fazer uma cirurgia dessas como de repente vc começa a ver, até na rua, pessoas com joanetes e ouvir q aquela ou aquela outra pessoa fizeram. Se alguém tiver um depoimento de pós-operatório agradeceria se me enviassem.obrigada

  15. Eu fiz a cirurgia do joanete nos dois pés em set/2002. Eu tinha deformidade nos pés devido ao grande joanete. O pós operatório foi ótimo, nunca senti dor e em 15 dias retirei os pontos. Precisei usar um sapato especial que vc só caminha com o calcanhar (tem em casas ortopédicas). Não é necessário o uso de gesso e o processo é muito tranquilo. O pé incha muito e é necessário esse cuidado, com gelo, pé levantado e repouso. Como precisei usar pinos para correção dos ossos, precisei ficar 40 dias em casa e retornei ao trabalho 5 dias após. Iniciei fisioterapia no 30 dia para reaprender a caminhar com a nova passada. Enfim, recomendo a todos procurar um bom médico e fazer a cirurgia, de preferência os dois pés juntos, pois a recuperação é muito tranquila e vc já pode caminhar com os sapatos especiais desde o 2º dia. Boa sorte!

  16. SOU MOISÉS PEREIRA E TENHO HALUX VALGO GRAVE NOS DOIS PÉS É MUITO GRANDE, ESTOU CORRENDO ATÉ 10KM. PERGUNTO QUERIA DEPOIMENTO DE PESSOAS QUE VOLTARAM A CORRER DEPOIS DA CIRURGIA DE JOANETS. TENHO 52 ANOS , TENHO MEDO DE NÃO VOLTAR A CORRER. USO PAMILHAS VALENTE II FEITAS NA PALMIPÉ, NÃO ESTÁ ADIANTANDO MUITO, ESTOU PENSANDO EM IR NA PES SEM DOR.

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