Revista Contra-Relógio
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Carmem de Oliveira continua reinando

Edição 224 - MAIO 2012 - ANA CRISTINA SAMPAIO

Quase 18 anos após ser a primeira atleta brasileira sub 2h30 em uma maratona, Carmem ainda detém o recorde do país na prova.

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No momento em que o Brasil comemora o passaporte para a Olimpíada de Londres de Adriana Aparecida da Silva, que obteve sua melhor marca na Maratona de Tóquio em 26 de fevereiro com o tempo de 2:29:17, o recorde dos 42 km continua com a maior corredora brasileira de todos os tempos: a brasiliense Carmem de Oliveira Furtado. Com os tempos de 2:27:41 conquistados na Maratona de Boston 1994 e 2:29:34 em Nagoia 1996, Carmem foi também a primeira brasileira a vencer os 10 mil metros em Jogos Pan-Americanos, assim como a pioneira em vitória para o país na Corrida de São Silvestre, em 1995. Aos 46 anos, ela está à frente da Federação de Atletismo do Distrito Federal e participa de inúmeros projetos no esporte.


Em entrevista à CR, ela fala sobre a conquista de Adriana, o domínio atual das corredoras africanas, as dificuldades que enfrentou para se tornar uma campeã e sugere parceria entre a CBAt e os promotores de corridas de rua para o crescimento do esporte no Brasil.



Adriana Aparecida é, ao seu lado e de Márcia Narloch (2:29:59 em Hamburgo 2004), mais uma corredora brasileira sub 2h30. Quais as perspectivas de Adriana em Londres? A Adriana ter corrido abaixo de 2h30 em Tóquio é uma perspectiva muito positiva. Acredito que por ser nova ela tem potencial olímpico. É cedo para dizer que teremos uma medalha, pois para pensar friamente em pódio temos que vê-la correndo mais vezes ao lado dos grandes nomes.


O auge da sua carreira foi no início da década de 1990, quando o domínio das africanas não era tão presente. Quais as diferenças dessa época para agora? É difícil ser crítica nesse assunto, mas creio que houve uma mudança de foco das européias, em especial das portuguesas e das alemãs socialistas, o que levou à ascensão das africanas. A corrida sempre foi uma ferramenta de inclusão social, de mudança, daí a ascensão da África no atletismo. Quando eu estava encerrando minha carreira já se ouvia que logo não teríamos mais recursos humanos para as provas de resistência. Já era o início da mudança de foco dos grandes nomes da época.


O treinamento das africanas tem influência no resultado delas, além da motivação financeira e social? Eu acho que a biomecânica é uma ferramenta natural delas, pela condição física e cultural. Além disso, elas carregam uma tremenda força mental: "Eu quero mudar, eu desejo mudar". Quanto ao treinamento, percebo que o atleta africano cresce, fica no auge por uma ou duas temporadas, e declina. É raro você ver um africano que permaneça várias temporadas. Por isso não acho que exista uma escola africana específica. Acredito que a massificação dos corredores dê a eles a possibilidade de ter expoentes no esporte.


Você também usou o atletismo para mudar de vida. Quais foram suas principais dificuldades no esporte? Comecei a correr tarde, com 17 anos, e já era mãe, o que se mostrou positivo, pois me dava muita maturidade. Acho que eu tinha uma resistência natural, que me ajudou muito, além do desejo de fazer a diferença no atletismo, de mudar a minha vida. Vinha de uma família de oito irmãos, por isso quando conheci o atletismo já tive como foco marcas e dinheiro. Esse era meu diferencial. Mas eu tinha uma dúvida dentro de mim: será que eu era uma mercenária? Meus valores na época e a religião me deixavam com essa dúvida. Mas o que eu queria saber do meu treinador era: isso dá dinheiro? Esse era meu grande foco. Logo em seguida consegui patrocínio do Banco do Brasil e pude me dedicar apenas à corrida, o que me deixou muito tranquila, pois podia fazer o que gostava e ainda com alguém me pagando. Eu montava minha planilha com foco: preciso correr na Europa, preciso estar juntos dos melhores atletas. Minhas melhores marcas foram em 1996, depois foi o meu declínio, e encerrei minha carreira em janeiro de 1998. Corri durante 16 anos. Tive carreira longa, apesar do empirismo com que lidávamos. Não existia cientificidade na época. Hoje um exame de sangue após um treino duro determina se o atleta aguenta mais uma repetição ou se aquele é o seu máximo. Naquele tempo fiz o melhor que a gente conseguia.


A que você credita após 18 anos ainda deter recordes? Credito à atenção do patrocinador. Hoje vejo atletas que têm um plano de trabalho, mas precisam competir nos intervalos para ganhar a vida. Além disso, ainda se buscam atletas usando as mesmas ferramentas de antigamente: pessoas de vida dura, do campo, por exemplo, mas não com políticas que visem formar atletas. É preciso traçar políticas de oportunidades. Por exemplo, se o atleta chega a 35 minutos nos 10 km ele vai ter este ou aquele incentivo e apoio. Hoje alguns clubes recebem ajudas, mas qual o parâmetro para o atleta recebê-las? Onde está a política nacional de apoio que dê chance a quem não está num grande centro urbano e não tem um bom patrocínio para deslanchar? Eu acredito que são as competições de pista, a política de recordes nas ruas e o atrativo financeiro do prêmio os diferenciais para o crescimento do atletismo. Uma política de marcas nas grandes corridas de rua pode ajudar o esporte a ganhar visibilidade.


Qual sua opinião sobre a ascendência da corrida de rua no Brasil? Dou Brasília como exemplo, que é considerada uma das melhores praças de corrida de rua no país. Praça já dá uma ideia de comércio. Aqui, o índice de qualidade de vida é elevado e as pessoas querem gastar bem o seu dinheiro, principalmente com saúde. Você vê cada vez mais pessoas querendo praticar corrida com esse foco: do lazer e da saúde. Só acho que a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) não está preparada para esse crescimento e explorar esse fato para alavancar o esporte. Os promotores de eventos de corrida dizem que os públicos são diferenciados: o das pistas e o das ruas. Mas acho que quem está nas ruas também busca marcas. A CBAt poderia capacitar profissionais para as assessorias esportivas, contribuindo para banir a idéia de que os atletas amadores podem buscar marcas a qualquer custo. Falta zelo do treinador que afirma ser possível baixar rapidamente uma marca em 5 minutos, por exemplo. No meu entendimento, o atleta poderia chegar à Confederação via um clube, com treinadores capacitados. Isso levaria às federações de atletismo locais o público que tem recursos financeiros e busca saúde e lazer. Falta uma gestão voltada para essa união.


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