Revista Contra-Relógio
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Carlos Tramontina: A escalada rumo à corrida

Edição 178 - JULHO 2008 - YARA ACHÔA

O jornalista da Rede Globo conta que para se preparar para subir montanhas (ele já se aventurou pelo Himalaia, Kilimanjaro e Aconcágua), teve de incluir as corridas em seu treinamento. E se apaixonou por elas.


O jornalista Carlos Tramontina, âncora do SPTV 2ª Edição e editor-chefe do programa Antena Paulista, ambos da Rede Globo, sempre praticou esporte. E a corrida fez parte de sua vida 20 anos atrás, quando ele dava seus trotinhos na avenida Sumaré, em São Paulo. Porém, depois acabou perdendo espaço para outras atividades, como o vôlei e a musculação.

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O retorno às corridas começou a ser esboçado de forma inusitada - e até calçar os tênis exclusivamente para esse fim se passaram bons anos. Em 2002, de férias no Vale Nevado, Chile, onde esquiava, ele ficou encantado com a grandiosidade das montanhas e decidiu que iria escalar os maiores picos do planeta. O primeiro seria o Island Peak, com 6.189 metros, um dos mais altos do mundo, nas cordilheiras do Himalaia. "Minha família e meus amigos me chamaram de louco", conta, rindo. Mas como de louco ele não tem nada, começou a planejar bem a aventura. Uma das primeiras atitudes foi contratar um treinador, Carlos Caltabellotta, para prepará-lo ao desafio de enfrentar longas caminhadas e o ar rarefeito da altitude. "O objetivo da corrida nesse momento era me deixar condicionado para a subida da montanha", explica.


TREINOS DELIRANTES. Tramontina passou a seguir planilhas rigorosas. Como fazia seus treinos em esteira todos os dias, bem cedo, ainda tinha de driblar o frio, a solidão e o tédio. "Desenhei uma montanha no espelho à minha frente e ficava ali, subindo essa montanha imaginária, pensando como seria a verdadeira, seus graus de dificuldade. Era o delírio que me fazia continuar". Após longo período de preparação, finalmente concretizou o sonho em março de 2003. No ano seguinte, relatou sua trajetória no livro A Morada dos Deuses - um Repórter nas Trilhas do Himalaia (Sá Editora).


Mordido pelo gostinho de aventura, em 2005 foi a vez de atingir o cume do Kilimanjaro, no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia - ponto mais alto da África, com altitude de 5.895 m. E, em janeiro de 2006, partiu para desbravar o Monte Aconcágua, com 6.962 m de altitude, localizado nos Andes Argentinos, que é simultaneamente o ponto mais alto das Américas, de todo o Hemisfério Sul e o mais alto fora da Ásia. "Foram emoções únicas. Passei a encarar a vida de outra maneira, pensando na real importância das coisas. Vivi o sentido do companheirismo, da ajuda incondicional. Depois de experiências como essas, a gente começa a dar mais valor ao trabalho dos outros, a entender as dificuldades individuais, a aceitar mais as diferenças, enfim, reduz o imediatismo", conta o jornalista.


O VERDADEIRO HERÓI. Quando voltou à rotina em São Paulo, aproveitando o condicionamento que havia adquirido, passou a correr pequenas provas. A primeira foi a do Barro Branco, na capital paulista. Em seguida, algumas de 10 km - com tempo beirando os 50 minutos. A corrida voltava a ocupar lugar em sua vida, desta vez de forma definitiva. Dessa retomada, ele guarda um momento marcante. "Em uma competição, ultrapassei um cadeirante. Lembrei que muitas pessoas me diziam que eu era forte, determinado, mas ali me senti pequeno diante dele. Aquele rapaz, sim, era um herói. Comecei a chorar".


Com a empolgação e a evolução nas corridas, foi natural partir para novos desafios, como a Volta da Pampulha (BH) e a São Silvestre (SP) em 2007. Da tradicional prova do final do ano, ele se diverte com lembrança de um treino. "Uma semana antes, fiz o circuito às seis da manhã, com um pequeno grupo de amigos. Ao passarmos em frente a uma boate que ficava no caminho, no centro da cidade, um bêbado, vendo aquele movimento, gritou: ‘vocês não passam de uns pingaiados enrustidos'".


A essa altura do campeonato, o jornalista também já maquinava vôos maiores. E perguntou a seu treinador quando seria possível partir para provas de 21 km. Colocaram como meta o final do mês de março de 2008. Unindo o útil ao agradável, ele programou 10 dias de férias com a família para conhecer Praga, capital da República Tcheca, e correr a meia-maratona local. "Foi uma realização completar em 2h07", vibra. Embora a chegada represente a alegria do desafio vencido, Tramontina diz que gosta mesmo é da hora da largada. "A partida é maravilhosa, ver aquelas pessoas do bem, reunidas e tomadas pelo prazer de estar ali, com saúde. É um instante lindo de reflexão".


MAIS SUOR E LÁGRIMAS. Como qualquer corredor, ele também já passou por momentos em que se perguntou: Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?!? "Para mim aconteceu quando eu estava sozinho, havia passado da metade da prova, mas ainda faltavam bons quilômetros para chegar ao final", revela. Porém, também como qualquer corredor apaixonado, a determinação falou mais alto e ele seguiu adiante.


Se uma maratona está em seus planos? Sim, mas não para esse ano. "O caminho para se chegar aos 42 km é longo. Vai exigir mais tempo, mais determinação, mais suor e lágrimas", considera o apresentador. Enquanto isso, vai se especializando em meias - estão em programação as do Rio, de Itanhaém, Buenos Aires e da Disney. A família, aliás, está adorando essa união de corrida e viagem. "Minha mulher, Rosana, não corre, mas me dá todo o apoio e começou a olhar o calendário de provas, pensando em nossas férias. Já falou em Paris, Lisboa, Berlim, Londres...", diverte-se.


Para Carlos Tramontina, a corrida passou a ser um prolongamento de sua ida às montanhas. "Exige treinamento, sacrifícios, mas ajuda também a me entender melhor. Correndo eu faço minhas reflexões, tendo no final a possibilidade de crescimento pessoal. Eu corro para ultrapassar meus limites, corro para ter saúde. Quero chegar bem aos 70, aos 80, sempre correndo".

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