Revista Contra-Relógio
// Brasileiros lá fora //

Berlim a 7 segundos do recorde mundial

Edição 278 - NOVEMBRO 2016 - FERNANDA PARADIZO

A maratona alemã continua com resultados extremamente rápidos, atraindo profissionais e amadores, como os 620 brasileiros que lá terminaram este ano.

O etíope Kenenisa Bekele por pouco não entrou definitivamente para a história da Maratona de Berlim, realizada no dia 25 de setembro. Depois de uma dura batalha com o queniano Wilson Kipsang, que prometia recuperar o recorde estabelecido em Berlim 2013, quando correu os 42 km em 2:03:23, Bekele resistiu às várias tentativas de escapada do rival e assumiu a liderança no último quilômetro, para vencer pela primeira vez na capital alemã, com o tempo de 2:03:03, apenas 6 segundos acima do recorde mundial (2:02:57), obtido lá mesmo em 2014, pelo queniano Denis Kimetto.
Wilson Kipsang terminou a prova na 2ª colocação, com 2:03:13, melhorando sua marca pessoal. Na 3ª posição, ficou o também queniano Evans Chebet, em 2:05:31.
Na corrida feminina, a etíope Aberu Kebede fez a segunda melhor marca do ano. Ela assumiu a liderança a partir do km 17, fechando em 2:20:45 e vencendo pela terceira vez em Berlim (2010 e 2012). Com o resultado, Kebede junta-se à alemã Uta Pippig e à polonesa Renata Kokowska, também tricampeãs. O pódio foi completado por mais duas etíopes: Birhane Dibaba (2:23:58) e Ruti Aga (2:24:41).
A 43ª edição da Maratona de Berlim, que já foi palco de 10 recordes mundiais, contou com 41.283 inscritos de 122 países, entre eles 750 brasileiros, mas em torno de 10% acaba não aparecendo.

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QUEDA NO PERCURSO. Nascida em Santana do Livramento, Rio Grande Sul, bem na fronteira da Uruguai, a médica Ana Berenice Planella Acauan, de 47 anos, sempre teve a facilidade de correr duas provas consideradas rápidas na América do Sul: Porto Alegre e Punta del Este.
Corredora há 13 anos, seu melhor tempo para os 42 km foi conquistado este ano em PoA, quando fez 3h20. A expectativa em Berlim era baixar a marca. Com 16 maratonas no currículo, Ana sempre sonhou em correr essa Major, mas a oportunidade só surgiu depois que passou a treinar com um grupo de corrida, a Cia. dos Cavalos, de Porto Alegre. "O Ronaldo Dantas estava indo e daí me convidei para ir junto", brinca a médica, que tinha as melhores expectativas em relação ao evento e não se decepcionou. "A prova é exatamente aquilo o que eu esperava. Na verdade, surpreendi-me positivamente em todos os quesitos. Um evento com mais de 40 mil pessoas e não haver espera em nenhum setor é incrível."
Como todas as Majors e as grandes maratonas ao redor do mundo, a largada organizada por ondas e currais permite que corredores larguem conforme o nível técnico, bastando para isso apresentar um comprovante de um resultado recente. E em Berlim é possível até alterar a baia na entrega de kit, favorecendo corredores que consigam resultados melhores nos 42 km entre a inscrição e a data da prova, como foi o caso de Ana, que ficou surpresa com a facilidade e a boa vontade da organização. Dessa forma, ela caminhou até a linha de largada e assim que pisou no tapete do chip já começou a correr no ritmo que queria.
Ana terminou a prova com seu segundo melhor tempo de maratona, 3h23. O recorde pessoal não veio por conta um tombo no km 24 da prova. "Numa curva fechada, fui derrubada por um corredor e me estatelei no chão, machucando todo o lado direito do corpo. Mas imediatamente fiquei em pé e continuei minha prova. Ao constatar que a marca almejada seria impossível, resolvi relaxar e apenas concluir. "


14ª EM BERLIM. Companheiro de equipe de Ana, o carioca radicado em Brasília Ronaldo Dantas, de 52 anos, já tinha corrido em Berlim 2015 e sabia muito bem o que encontraria pela frente. Corredor desde os 12 anos de idade, Ronaldo, que é militar do Exército, completou agora sua 14ª maratona. "A organização impecável e a excelente receptividade da população em Berlim, aliada às bandas de músicas tocando músicas brasileiras, durante a prova, me motivaram a voltar", conta Ronaldo, que tem como recorde nos 42 km o tempo de 2h55, conseguido em Punta em 2013.
"O percurso é 100% plano, o que facilita fazer uma corrida ritmada. Fiz a primeira metade em 1h28 e a segunda em 1h29. Os corredores em Berlim são sempre muito rápidos. Corri o tempo todo com gente ao meu lado. Uma característica da prova deste ano foi a temperatura um pouco mais quente. Vimos muita gente indo para a largada já com a roupa de corrida ou mesmo um agasalho fino para jogar fora", conta o corredor.


DEPOIS DA COMRADES. O também militar do Exército e engenheiro de produção Mateus Gómez Sacchett, de 24 anos, foi a Berlim com o objetivo de recorde pessoal. A meta era bater a marca das 2h39, conquistada em Punta del Este em 2015. Apesar do objetivo, a ida para Berlim foi planejada de última hora, uma vez que Mateus, que é de Porto Alegre, vinha de uma Comrades, disputada em junho, prova em que fez os 89 km em 6h43. "Resolvi correr uma maratona para recuperar a velocidade que perdi com os treinos para a ultra. Consegui a inscrição faltando 3 meses para a prova", lembra o gaúcho.
"Larguei no curral A, logo atrás da elite. Foi um dos momentos mais emocionantes para mim, pois era uma baia destinada a corredores sub 2h40, praticamente vazia. Consegui me posicionar na fita que divide o curral dos atletas profissionais. Estavam todos lá na minha frente, a apenas 5 metros de distância. Faltando um minuto para a largada, a fita foi retirada e eu pude ficar junto com a elite", lembra Mateus. "Não consegui correr com um mesmo pelotão a prova inteira. Antes da meia eu estava no pelotão de 3:40 por km, puxado por uma africana, mas a mesma aumentou o ritmo para baixo de 3:30 e quebrou todo mundo. Preferi manter meu pace e no fim a passei por volta do km 37." Com uma prova constante, praticamente dobrando as duas meias, Mateus conseguiu melhorar sua marca, terminando a maratona em 2h37 e feliz por ter sido o melhor brasileiro.


PRIMEIRA SUB 3H. Muitos desembarcam em Berlim não apenas em busca da melhor marca pessoal, mas com a meta de tentar correr abaixo das 3h. Foi o caso da médica mineira Naiara Naiara Faria Xavier, de 40 anos, que nasceu em Ituiutaba (MG), mas mora em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O sonho de correr uma sub 3h já a perseguia por um tempo. Das nove maratonas completadas antes de Berlim, Chicago 2015 era a que ela mais tinha chegado perto, quando marcou 3:00:07. "Imagina meu sofrimento por conta desses 8 segundos", brinca Naiara, que já tinha corrido a corrida alemã em 2011, na sua estreia nos 42 km.
"Sabia que me beneficiaria de um percurso plano e com muita animação nas ruas. Neste ano, as bandas estavam espetaculares e a animação do público também", diz Naiara, que, com o aumento da temperatura, diz ter sentido um pouco de calor na segunda metade. Assim como Mateus, ela também confessa que "apanha um pouco" com o copo aberto de plástico. "Acho que ajudaria muito se fossem garrafinhas, como em Buenos Aires e Paris, ou copo fechado, como no Brasil."
Mas nem a hidratação nem a temperatura um pouco mais alta do que o normal foram empecilhos para que a maratonista conseguisse enfim sua sub 3h. "Larguei no curral D. Demorei poucos segundos para passar pelo tapete, mas devido ao grande número de pessoas não consegui imprimir exatamente o ritmo que planejava nos primeiros 5 km, mas isso não atrapalhou. Em Berlim, corre-se o tempo todo com muita gente e, graças à divisão das baias, várias pessoas que estavam próximas na largada continuaram comigo a prova toda. Minha estratégia era correr num pace constante."
Mantendo o ritmo do pelotão, ela ficou um pouco distante dos marcadores das 3 horas, preferindo seguir o bloco que estava. "No km 7, fui avisar um rapaz que ele deixara o bolso do short com o zíper aberto. Por coincidência era um brasileiro, de Ribeirão Preto e que também buscava a sub 3h", conta a corredora, que ganhou uma companhia para manter o ritmo. "Perguntei se podia segui-lo. Eu descanso muito quando alguém fica na minha frente. Ele não se opôs. Minha estratégia passou a ser torcer para ele conseguir fazer tudo certo e eu conseguir me manter ali, no vácuo." Mesmo com os segundos a mais perdidos no começo um pouco aglomerado de prova, os dois passaram a meia em 1:30:10. "Aceleramos levemente e fechamos com split negativo", conta Naiara, que completou em 2:59:19 e voltou para a casa com a tão sonhada marca.


ESTRATÉGIA CERTA. Outro corredor que buscava a sub 3h era biólogo paulista Eduardo Kenji Hamasato, de 35 anos, que também tinha como melhor resultado Chicago 2015, quando terminou em 3h08. Em Berlim, a estratégia era fazer um início não muito forte.
"Estabeleci correr os 3 km iniciais entre 4:15 e 4:20/km e daí em diante manter o ritmo entre 4:11 e 4:15. Passei a meia em 1:29:28 e concluí em 2:58:38", conta Eduardo, que manteve os marcadores de ritmo para sub 3h à vista, sendo para ele uma boa referência de que tudo estava ocorrendo como o esperado. Ainda que tenha corrido focado no objetivo, o paulista não deixou de curtir o clima festivo da prova. "Em alguns momentos, fiz o 'high five' com as crianças que estendiam as mãos durante o percurso. Destaco ainda a largada, com músicas e vídeos motivacionais, o público incentivando a todo momento e a chegada passando pelo Portão de Brandemburgo."


ESTREIA COM FESTA. Além de uma excelente prova para recordes, Berlim também acaba sendo um prato cheio para aqueles que querem estrear na distância já com chave de ouro. A também médica Marilu Christine Ruiz Goehr Azevedo, 46 anos, que nasceu na cidade de Temuco, no Chile, mas vive em Curitiba, escolheu a prova alemã para correr pela primeira vez os 42 km.
"Era uma cidade que gostaria de conhecer e tem trajeto plano, além de ser uma das 6 Majors", conta ela, que fechou a prova em 4h43, somente 3 minutos acima do programado. Marilu cita o incentivo das pessoas e o quilômetro final da prova como pontos altos da festa. "Foi impressionante. A cidade toda estava em festa. Não havia um quilômetro sem gente incentivando e muitas crianças nas ruas. E a passagem pelo Portão é de chorar. Uma sensação que não tem preço", lembra a corredora, que confessa que voltaria à cidade para correr sem dúvida nenhuma. "Foi minha primeira maratona. Não tenho como comparar com outras, mas a cidade é um livro de história e vale a pena voltar."

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