Revista Contra-Relógio
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ATALHOS, MENTIRAS E TRAPAÇAS NAS CORRIDAS

Edição 289 - OUTUBRO 2017 - NELTON ARAÚJO

Em um período tão fértil para discussão sobre má conduta dos corredores, contamos aqui quatro histórias envolvendo profissionais e amadores.


São Silvestre 2017: um grupo de corredores que burlou o acesso à arena da prova, fazendo fotocópias do mesmo número de peito, ressuscita uma velha discussão sobre a lisura das pessoas com o esporte. Sem precisar se encaminhar para o uso de substâncias dopantes, nos dirigimos para algo mais logístico: qual seria a forma mais rápida de se ir da partida à chegada, sem necessariamente completar o percurso inteiro? Toda sorte de respostas foi dada ao longo da história e fizemos um "Top 4" com as principais.

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PEGADINHA OLÍMPICA


Em 30 de agosto de 1904, trinta e dois atletas de apenas quatro nações se alinharam para aquela que seria considerada a "pior maratona olímpica da história". E, curiosamente, onde aconteceu a primeira "trapaça" na história da corrida. Olhando à distância, uma maratona olímpica na cidade norte-americana de Saint Louis era a receita pronta para o desastre. Quando o tiro de largada foi dado, às 14h30, o termômetro oficial marcava 34º C, algo previsível para a cidade naquela época.
Antes fosse só o clima adverso: o percurso de 40 quilômetros começava com cinco voltas ao redor do Estádio Olímpico e depois se dirigia para estradas de terra batida, que contavam com sete grandes colinas. Podia ainda piorar? Sim: os corredores foram "escoltados" por dezenas de carros - seja da imprensa, seja do staff de alguns atletas - que colocaram os maratonistas dentro de uma nuvem de poeira. Dá para piorar? Claro: só tinha um posto de hidratação, lá na altura do quilômetro 20.
Agora dá para explicar o caos que foi toda a corrida: os lideres foram abandonando um a um, em geral por motivos de ataque de vômitos, desmaios, e até o caso de um atleta que teve uma hemorragia no estômago. E isso explica também o porquê do nova-iorquino chamado Frederick Lorz, pedreiro durante o dia, corredor pela noite, sucumbiu à maratona logo no km 15. Sozinho no meio da estrada, sob o forte calor, e sem paciência para esperar o ônibus da organização, não pensou duas vezes quando um carro que ali passava o convidou para levar de volta ao Estádio Olímpico.
Até aí, tudo bem, ele era só mais um entre os dezoito atletas que também abandonaram e pegaram uma carona de volta. Porém, o automóvel que levava Lorz pifou a oito quilômetros da chegada. Foi quando o nova-iorquino, que já tinha recobrado as forças, teve a "brilhante" ideia de correr o final da prova e - por que não? - entrar no Estádio Olímpico, romper a fita de chegada e pregar uma grande "pegadinha" em todos ali. E foi que ele fez: começou a correr, logo ultrapassou o também norte-americano Thomas Hicks, então líder, entrou no estádio, ouviu os aplausos efusivos da multidão, e recebeu os cumprimentos da filha do presidente Theodore Roosevelt.
Ao invés de logo admitir a farsa, Frederick Lorz vestiu a mentira até chegarem as primeiras acusações de que, na verdade, o real vencedor era Thomas Hicks, que, por sua vez, também tinha completado a prova por, digamos, "vias tortas": forçado a não abandonar pelos seus ajudantes, tomou, ao menos, duas doses de estricnina com clara de ovo para ter energia para completar os 40 km, em 3:28:53 - a maratona olímpica mais lenta até hoje. E sim, a distância na época era 40 km e não a bobagem dos 42.195 m, que surgiria anos depois em Londres.
As autoridades não acharam graça alguma na pegadinha de Lorz e não somente o desqualificaram da prova, como ele foi "banido para sempre" pela Associação Amadora de Atletismo. Punição que não durou nem oito meses, depois que pediu desculpas públicas pela trapaça. Liberado, venceu - agora sem carona - a Maratona de Boston de 1905, na qual Thomas Hicks foi quem abandonou.




TRAPAÇA EM MASSA



Não adianta: toda corrida de porte vai ter seus problemas. Às vezes chove como em um dilúvio, ou tem um sol para cada um. Às vezes, o percurso não está aferido, em outras a sinalização está equivocada e alguns corredores menos atentos vão para o caminho errado ou os corredores parando sua maratona para esperar um trem passar. Todos os exemplos anteriores são até pitorescos quando vemos que, cada vez mais, o maior problema tem sido lidar com corredores tentando trapacear, cortando caminho. Não é raro vermos alguns gatos pingados (cada vez menos pingados) cortando caminho em provas por aí. Porém, nada abalou tanto a história das corridas quanto o que aconteceu no último 27 de agosto, na Maratona da Cidade do México.
Quatro dias após o evento, a organização divulgou os resultados da competição e os números dos concluintes: notáveis 28.206 atletas correram os 42,2 km na capital mexicana. Mais. Dessa multidão de finalistas, 1.296 teriam tempos elegíveis para correr a Maratona de Boston. Mas será que todos eles fizeram mesmo os 42 km?
Bem, redes sociais estão aí dando megafone para quem quiser. Nem sempre isso é algo positivo, mas no caso da prova mexicana foi fundamental: antes mesmo da divulgação dos resultados, na verdade horas depois da prova ter se encerrado, foi criada uma página no Facebook, onde o moderador começou a citar casos de pessoas que foram vistas cortando o percurso. Alguns chegaram a postar uma foto onde grupos de corredores mudaram a rota e entraram numa estação de trem. A página repercutiu tanto que chamou atenção do americano Derek Murphy, o criador do site "Marathon Investigation", que se dedica a analisar fraudes nas corridas pelos amadores e faz consultoria a grandes maratonas norte-americanas, ajudando-as a não facilitar a vida dos desonestos.
Seus resultados não foram nada agradáveis: ao todo, 5.600 indivíduos trapacearam na maratona! Isso mesmo, mais de 20% dos participantes não completaram integralmente o percurso. As formas de trapacear eram várias e comprovadas por fotos: havia desde os que cortaram na cara dura o percurso, até aqueles que pegaram trem, ou seguiram o modelo "Frederick Lorz" e combinaram pegar carona em carros, motos e bicicletas, passando pelos que correram com dois números de peito e dois chips. Um dos participantes enquadrado estava com número de peito pertencente a uma "Maria", que, se nada fosse constatado, entraria na primeira baia, da primeira onda, em Boston. Esse é um exemplo que ilustra bem o quão perigoso pode ser a questão da desonestidade e de pessoas se passando por outras para organizadoras das maiores maratonas que têm, cada vez mais, usado o tempo de provas anteriores como pré-requisito no seu processo de inscrição.
Ao contrário de algumas corridas onde, descobertas as fraudes, silenciaram-se e deixaram os resultados sem alteração, a organização da Maratona da Cidade do México não apenas desqualificou os trapaceadores, como solicitou à Associação de Atletismo de Boston que não aceitasse os tempos desses, mesmo que insistissem.


REVEZAMENTO NA COMRADES


No topo do panteão das ultramaratonas está a Comrades, na África do Sul. Não precisamos gastar linhas aqui para chegarmos ao consenso de que a ultramaratona mais antiga do mundo, com 89 km em descida em um ano e 87 km em subida no outro, está entre as mais desejadas pelos ultramaratonistas. A Comrades, inaugurada em 1921, também não escapou a trapaceadores. Só que dessa vez, ao invés do doping, dois atletas decidiram ser um pouco mais criativos.


Então, apresento o sul-africano Sergio Motsoeneng, nosso primeiro personagem dessa história. Em 1999, ao chegar em oitavo lugar na ultramaratona, contou uma comovente história sobre sua origem paupérrima, numa aldeia longínqua na África do Sul e que, por isso, voltaria, naquele momento à Bantustan - sua aldeia - e doaria a medalha de ouro (para os dez primeiros) e o prêmio de 980 dólares ao seu pai, que ainda vivia lá.


Só que um atleta, que tinha terminado na 15ª colocação naquele dia, colocou em dúvida a corrida de Sergio. Por ser um veterano na Comrades, sua reclamação foi aceita pelos organizadores, porém, olhando as parciais do nosso personagem, não havia nenhum indício de irregularidade na prova. Se não demorou muito para que Sergio respirasse aliviado, demorou o suficiente para atiçar a curiosidade da imprensa.
E um repórter local, olhando para as fotos ao longo dos 89 km, começou a se ver dentro daqueles "jogos dos sete erros": numa das primeiras fotos, o relógio estava no punho esquerdo. Na foto seguinte, estava no direito. Já no final da prova, uma foto revelava que o relógio estava de volta ao punho esquerdo. E como explicar uma cicatriz na canela esquerda que, subitamente, apareceu na primeira foto em que o tal cronômetro tinha mudado de posição? E que, milagrosamente, tinha sumido no final da prova?
Pois é, havia algo estranho no ar. E tão logo as fotos foram divulgadas, Sergio veio a público assumir a trapaça. Mas qual era o truque? Vamos agora a Fika Motsoeneng, nosso segundo personagem e irmão gêmeo de Sergio. Este começou a prova, correu por 45 minutos, e, na hora certa e no lugar certo, entrou no banheiro químico pré-determinado, onde trocava de número, boné e tênis com Fika, que, logo saía pra correr. Fizeram o "revezamento" por duas vezes, até Sergio completar a prova.
Perderam o prêmio e foram proibidos de correr qualquer ultramaratona por cinco anos, e da Comrades, em especial, por dez anos. Alegaram que a pobreza levou a ideia da trapaça, e seu advogado, também corredor da Comrades, disse, em comunicado oficial, que "Se ele (Sergio) aproveitasse a energia que ele colocou na trapaça correndo a prova corretamente, quem sabe, ele poderia ter terminado entre os cinco primeiros".
Quando a punição acabou, em 2010, Sergio Motsoeneng voltou a Comrades e quase cumpriu a profecia, chegando em terceiro. Por que quase, se ele chegou em terceiro? É que, logo após a prova, Sergio mostrou positivo para uma substancia proibida. Ele tinha trapaceado, de novo.


QUER VENCER EM BOSTON?


Na primeira colocação, sem sombra de dúvidas, está ela, a musa das trapaças nas maratonas: a cubana Rosie Ruiz. Sua história começa com todos vibrando ao ver uma moça de 26 anos, com biotipo um pouco rechonchudo para uma atleta de classe mundial, correr vibrando e cruzar a linha de chegada da Maratona de Boston de 1980, com o tempo de 2h31, até então o recorde do percurso e o terceiro tempo feminino mais rápido já registrado em qualquer maratona. E chegou plena: simulou que precisou ser carregada por dois policiais, mas quase não transpirava e seus cabelos estavam como se tivessem sido recém penteados.
Não deu nem cinco minutos, e ela já estava dando entrevistas com a animação de quem acabou de tomar seu café da manhã. Mas foi abrir a boca e começaram as desconfianças. Quando questionada porque aparentava estar com um ar de quem poderia correr outra maratona, sua resposta foi um infantil "Hoje eu acordei com muita energia". Quando a primeira mulher a correr oficialmente a maratona de Boston, Kathrine Switzer, agora comentarista de TV, foi até ela perguntar o que tinha achado das suas parciais durante a prova, Ruiz deu mostras de que não conhecia nada de corrida "O que são parciais?"
Mas o que passou a incomodar os organizadores era que Rosie Ruiz não apareceu em nenhuma imagem ou filmagem e, absolutamente ninguém - nem corredores, espectadores, funcionários - se lembravam de Ruiz até ela surgir, nos últimos 800 metros. Oito dias depois, dois estudantes de Harvard foram até a organização acusar o óbvio: eles tinham visto Ruiz aparecer subitamente de um aglomerado de espectadoras na Commonwealth Avenue, que fica a exatamente a 800 metros do final da prova.
Rosie Ruiz empregou a política do "negue, negue sempre", mas contou que era nova no esporte e que passou a correr não tinha dezoito meses. Outra mordida na língua da "maratonistas de 800 metros": como alguém que treina há tão pouco tempo conseguiria fazer sua primeira maratona, no difícil percurso de Nova York, seis meses antes, com o impressionante tempo de 2h56, que não deu a ela o título, mas a qualificava para correr Boston?
Uma fotógrafa, que tinha feito as fotos da largada e estava se dirigindo para a chegada no Central Park, encontrou Rosie Ruiz na primeira estação de metrô após a largada: ela afirmava que tinha machucado o tornozelo e queria ver a chegada. Quando chegaram ao Central Park, Ruiz chegou perto do pórtico final e simulou uma entorse e pediu ajuda médica. Foi levada ao posto, mas antes olharam para o relógio e colocaram no seu prontuário o tempo que ela tinha concluído a prova. Ela fez quase todo trajeto de metrô e agora era uma das 10 melhores mulheres da maior maratona do mundo.
Ou seja, quer ganhar uma maratona sem suar, diva e plena? É simples: não corra. Ou faça só os últimos metros. E, sobretudo, negue, negue sempre. Rosie Ruiz nunca admitiu ter trapaceado. E as trapaças dela não foram apenas na corrida, mas até para se inscrever: como perdeu o prazo de inscrição, conseguiu uma "dispensa especial" após informar que queria correr a prova para mostrar ao mundo que tinha sido capaz de superar um tumor cerebral fatal.
Ela sofreu como punição a desqualificação em Boston 1980 e, retroativamente, em Nova York 1979. A vergonha pública que ela sofreu a afastou do mundo da corrida. Mas, se você conseguir falar com Rosie hoje, ela ainda vai dizer que correu os 42 quilômetros em Boston e Nova York...

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