Revista Contra-Relógio
// Minha Prova Inesquecível //

As emoções da corrida

Edição 291 - DEZEMBRO 2017 - ANDRÉ SAVAZONI

Fazer 3 maratonas em 15 dias, completar uma meia após uma lesão séria e enfrentar um desafio diferente são as histórias deste mês.

Quais momentos ficam para sempre na memória e no corpo, após uma corrida? Esta seção deixa claro, a cada mês, que as emoções são as mais diferentes e essa heterogeneidade faz com que nosso esporte seja ainda mais apaixonante. As quatro histórias contadas a seguir exemplificam muito bem essa característica.
Marcos Scharnberg Neto, de Porto Alegre, fez 3 maratonas percorrendo 5 países, em 15 dias na Europa. Selva Helena, de São José dos Campos, imaginava ter sentido a emoção maior da vida em Paris, mas estava completamente enganada. Regis Fernando Freitas da Silva, também de PoA, buscou um desafio diferente: enfrentar os 25 km da Mizuno Uphill na Serra do Rio do Rastro. Mas nada melhor do que deixar cada um contar sua própria história!

Publicidade


3 maratonas em 15 dias
"O planejamento foi feito para correr 3 maratonas em 2 semanas na Europa. Chegando ao Aeroporto de Frankfurt, peguei o carro que havia alugado e, passando pela famosa rota romântica, fui rumo à Bregenz (Áustria). Essa cidade era onde eu deveria pegar meu kit para correr a primeira maratona da sequência: Sparkasse Marathon (www.sparkasse-3-laender-marathon.at/home/). Enfim, chegou o momento do início: dia 8 de outubro de 2017, com a temperatura beirando os 12°C, sem vento, ou seja, ótimo para correr os 42 km.
A Maratona de Sparkasse é bem interessante, pois a largada ocorre em Lindau (Alemanha), uma ilha dentro do Lago Constanza. A prova então segue até a Suíça, com a chegada em Bregenz, na Áustria. Além de ser praticamente toda plana e bem organizada, conta com um excelente serviço de hidratação e, claro, o que não podia faltar estando naquela região: cerveja à vontade no final!
Da Áustria, parti para Portugal para correr a Rock'n Roll Lisboa (www.runrocknroll.com/lisbon/) no dia 15 de outubro. A largada é em Cascais, cidade próxima à capital. Assim como a anterior, prova com apenas algumas subidas. A temperatura alta (em torno de 30°C na chegada) fez com que muita gente caminhasse durante o percurso. Mas foi bonito ver o público incentivando os atletas a não desistir. A maratona se encerra em espaço às margens do Rio Tejo: Terreira do Paço, ponto turístico importantíssimo de Lisboa.
De Portugal, era hora de voar rumo à última maratona da sequência: a de Veneza (www.huaweivenicemarathon.it/it/venicemarathon/), no dia 22 de outubro, na Itália. A prova começa em Stra e vai passando por várias cidades antes de entrar propriamente em Veneza. Mais uma vez, maratona plana. A temperatura ajudou bastante no início (em torno de 14°C) e, embora tenha aumentado durante o percurso, não teve interferência relevante do clima. Vale ressaltar também a organização exemplar e a boa hidratação durante todo o trajeto.
Uma curiosidade de Veneza é o fato dos atletas terem de atravessar os canais da cidade através de 14 pontes com degraus transformados em rampas para facilitar a passagem. Um pouco antes da chegada, o percurso dá uma volta pela famosa Piazza San Marco, com a presença de bom público aplaudindo e incentivando corredores durante todo o quilômetro final. Enfim, a maratona se encerra em Riva Sette Martire, outro local turístico. É importante lembrar que esta foi a única prova que exigiu atestado médico para participar, então é relevante consegui-lo antes de ir.
Um ponto negativo comum a essas três maratonas: as feiras não contam com produtos alusivos às provas, ficando restrito apenas a camisetas das mesmas. Resumindo essa viagem inesquecível: para quem tem um pouco de experiência em provas de longa distância e quer fazer turismo, recomendo muito essa aventura."
Marcos Scharnberg Neto


A prova da vida
"Comecei na corrida em 2004, quando resolvi melhorar o rendimento na natação e decidi mudar a minha atividade física, sempre feita na madrugada ou à noite, depois dos afazeres domésticos, família e vida profissional. Essa transição foi gradativa e apaixonante. Comecei com provas curtas e, quando estava para me aposentar (em 2007), passei a me empenhar mais, sentindo a recompensa nos vários troféus na categoria. Estava tão bem que em 2009 estabeleci uma meta: fazer meias-maratonas em todas as capitais brasileiras, mais o Distrito Federal. Algo que venho perseguindo, já tendo corrido os 21 km em 23 capitais (resta ainda Rio Branco, Boa Vista, Macapá e Belém).
Nesse momento, nunca tinha pensado em fazer uma maratona. Mas em um belo sábado ensolarado e bem disposta, resolvi me testar, correndo 43 km. Feliz da vida, ainda fui para a festa junina na escola de minha neta. Assim, resolvi comemorar os meus 60 anos na Maratona de Paris, fechando em 3:19:35, no dia 12 de abril de 2015.
Considerava essa ter sido a minha prova inesquecível, porém meu objetivo continuava sendo as meias-maratonas nas capitais brasileiras. Já no Brasil, estando inscrita em diversas meias em 2015, cometi a imprudência de me queimar com a bolsa de gelo, em um dia em que a panturrilha doía. Depois de um treino, voltei para casa e coloquei a bolsa, mas acabei adormecendo por 50 minutos! Resumo: no final da tarde estava no hospital com queimadura de 3º grau, cirurgia e enxerto na panturrilha necrosada. Dez dias de recuperação intensa e viagens canceladas.
A minha vontade de correr era tanta que, após quatro meses, fiz a prova da minha vida no dia 11 de outubro de 2015, a Meia de Recife, fechando em 1:56:09 e recebendo o troféu de primeira na categoria. A sensação desta prova foi de superação. Mesmo tendo conseguido tempos melhores em algumas das mais de cem corridas, entre maratonas, meias e outras menores concluídas, esta foi um marco por ter me superado."
Selva Helena

Dores inesquecíveis
"Corredores são movidos por desafios. Uma distância maior, tempo menor, piso diferente, temperatura... Após a escolha, nos inscrevemos para uma prova. Vem então a preparação e, finalmente, o grande dia. Estamos rotineiramente envolvidos neste ciclo, que nos traz novas histórias, sensações e emoções.
Em 2017, busquei um desafio diferente: correr a Mizuno Uphill. Na verdade, não escolhi, tive a sorte de ser sorteado para os 25 km, ainda em meados de 2016. Na época, fazia cerca de quatro meses que havia corrido a primeira maratona. Obviamente, sabia que, caso fosse escolhido, encararia uma prova bem diferente do que estava acostumado, que exigiria bastante das minhas competências de corredor amador.
Como não conhecia a Serra do Rio do Rastro e morando no Rio Grande do Sul, relativamente perto, aproveitei um feriado prolongado em junho e fui até o local. Depois, retornando aos treinos, os percalços começaram a aparecer. Primeiramente, uma crise na hérnia lombar. Recuperado, faltando apenas dois meses para a prova, uma prostatite (doença inflamatória da próstata). Nesse momento veio a dúvida: correr ou não?
Como corredor é casca dura, a recuperação vem e com ela toda a ansiedade e expectativa novamente. A prova chegando perto, o calendário desaparecendo, até que, pronto, chega o final de semana. A minha experiência ocorreu em um dia atípico, nem mesmo a temperatura estava como habitualmente. Aquele friozinho tradicional do Sul deu espaço a um grande calor. Duvido que algum corredor tenha imaginado que a Uphill teria aquela condição climática, principalmente os dos 25 km, cuja largada ocorreu às 16h.
A Mizuno Uphill faz jus ao nome: quase toda em subida, ao menos os 25 km. Do início ao fim, existem pouquíssimas descidas e apenas alguns trechos maravilhosamente planos. Mais do que qualquer outra prova da qual eu já tenha participado, uma boa preparação faz toda diferença. Se pudesse dar uma dica aos interessados, seria: treine bastante!
O que não paramos para pensar é que correr com tantas curvas, não podendo tangenciá-las, é algo desafiador. São tão sinuosas que parecem nos abraçar. A cada subida vencida, me senti passando para o próximo nível, como nas fases de um jogo de videogame. Engraçado que, mesmo dias após ter participado da prova, ela ainda permanecia nítida na minha cabeça e muitas lembranças vêm até hoje, durante os treinos, conversas ou vendo as fotos.
No meu caso, o calor incomodou bastante. Começou então aquele embate: não posso caminhar agora, preciso correr ao menos 2/3 da prova e, se necessário, deixar para caminhar na parte final e mais crítica. Além de seguir correndo em subidas constantes, é importante manter o ritmo planejado. Particularmente, pensei: caminhar só depois dos 15 km. Quando cheguei, me impus uma nova meta: caminhar só após a capelinha azul! O objetivo era chegar ao km 18 em sub 2h, pois sabia que seria um tempo confortável para acabar a prova dentro do limite de corte de 3h30. A corrida nos 7 km finais seria a cereja do bolo, somente para fazer pose para as fotos.
Este trecho final tem muitas subidas íngremes e curvas fechadíssimas. Mesmo quase anoitecendo (quando cheguei a este ponto estava próximo das 18h) e com a serra já escondendo o sol, a vista é maravilhosa. Certamente, a parte mais esperada da Uphill. Lembro que em algum momento da subida vi uma bandeira hasteada lá no topo da Serra do Rio do Rastro. Fiquei pensado: vou subir tudo isso, vou chegar lá. O grande alívio para a panturrilha foi o último quilômetro, um trecho plano, quase um bônus por ter conquistado a serra. Conforme os metros vão diminuindo, tudo fica mais iluminado, quase como um portal mágico. Quando cruzamos por ele, que sensação! É hora de estampar um sorriso no rosto, receber a medalha, abraçar a galera e saborear a conquista do novo desafio. A lição que a Mizuno Uphill me deixou é a de que ritmo e tempo de conclusão são apenas números. Dores, por sua vez, são inesquecíveis!"
Regis Fernando Freitas da Silva



Conte a sua história
Quer participar da seção? Então mande a sua história. Não precisa ser somente de performance, desempenho ou recordes pessoais. A corrida é muito mais do que isso. Entre em contato pelo e-mail andre@contrarelogio.com.br ou deixe uma mensagem na página da revista no Facebook.


Deixe o seu comentário


Publicidade

















11 3031.8664
Rua Hermes Fontes, 67
São Paulo - SP





© 1993 - 2014
Todos os direitos reservados