Revista Contra-Relógio
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Adriana Aparecida, 5ª melhor maratonista brasileira da história!

Edição 206 - NOVEMBRO 2010 - TOMAZ LOURENÇO

Na Maratona de Berlim, dia 26 de setembro, Adriana Aparecida terminou em 7º lugar, em 2:32:30, o 5º melhor resultado brasileiro feminino da história, destacando a atleta de 29 anos, nascida em Cruzeiro, SP, e que corre desde os 12. Conheça um pouco mais dessa corredora, hoje defendendo o Esporte Clube Pinheiros da capital paulista e treinada por Claudio Castilho

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Contra-Relógio: Você tem subido ao pódio em várias corridas pelo país nos últimos anos, conseguindo agora, em Berlim, um feito sensacional. Mas por trás desses resultados há uma longa história, certo?


Adriana Aparecida: Sem dúvida, são muitos anos de treino e competições, mais precisamente 17 anos, já que eu corro e participo de provas desde meus 12 anos. Aliás, um fato curioso é que venci a primeira corrida em que entrei, uma prova pequena em minha cidade, Cruzeiro, no Vale do Paraíba.


Mesmo sendo uma corrida modesta, essa vitória deve ter lhe estimulado a começar a treinar mais seriamente.


Eu diria... começar a treinar mesmo, porque entrei naquela prova mais de brincadeira, "empurrada" por amigos. Mas com o troféu ganho, voltei para casa toda orgulhosa e então foi meio que natural passar a me interessar por outras competições e a dar umas treinadinhas.


Você tinha algum tipo de orientação nessa fase inicial?


Sim, praticamente desde o começo eu corri pela equipe Papa Léguas, de Cruzeiro, cujo treinador, dirigente e faz tudo era o "Carioca", um abnegado que recebia apoio da prefeitura, para os nossos deslocamentos, e um ou outro suporte. Como era um clube federado, eu participava de provas da categoria infantil, tendo ficado no Papa Léguas até o juvenil.


Quer dizer que você fazia mais provas de pista? Nada ou quase nada de rua?


Exato, apesar de que com 15 anos resolvi debutar na São Silvestre, que era um sonho antigo meu. Mas, de verdade mesmo, só fui correr a SS quando tinha 20 anos e consegui lá meu maior resultado, ao ser 3ª colocada no geral, em 2004. E para coroar esse ano, fui a melhor brasileira na Meia do Rio.


Então, pode-se dizer que 2004 marca o começo da sua nova e vitoriosa carreira como corredora de elite?


Sim, mas em 2005 tive uma lesão no pé, que me afastou das corridas por mais de um ano. O que me ajudou foi já estar contratada pelo Pinheiros, por iniciativa do técnico Claudio Castilho, saindo então do Papa Léguas, depois de quase 12 anos. Eu tinha patrocínio pessoal enquanto estive no PL, além de outros apoios da equipe, mas a ida para o Pinheiros representou um salto de qualidade em minha vida profissional de atleta, especialmente em termos de suporte, ao ter um grupo de profissionais cuidando de mim.


Mas em termos financeiros a participação em corridas de rua foi e tem sido fundamental para você.


É verdade. Desde garota os prêmios das provas representavam mais do que recebia de meus patrocinadores e da equipe, e especialmente nos últimos 5 anos essa participação ficou expressiva, a ponto de ter conseguido comprar uma casa em Cruzeiro e um carro zero. Atualmente moro em uma república (a 3 quadras do escritório da Contra-Relógio...), junto com outras 3 atletas do Pinheiros, e praticamente não temos gasto algum, além de receber uma ajuda de custo do clube. Eles também pagam a faculdade de educação física que curso e que estarei terminando no próximo ano.


Em função daquela lesão no pé, que a obrigou inclusive a passar por cirurgia, você só voltou aos treinos em 2006, certo?


Pois é, mais de um ano parada, mas voltei 100% e passei a treinar com vontade, orientada pelo Claudio Castilho, que depois de muitas avaliações comentou acreditar que eu tinha boas perspectivas na maratona. Então, debutei em Florianópolis, no ano passado, e já venci minha primeira maratona, no tempo de 2:41:40, conseguindo índice para o Mundial de Atletismo de Berlim.


E no Mundial você fez nova melhor marca na distância.


Consegui lá 2:40:54, mas bem aquém do que tinha me preparado, em função de uma infelicidade. Em um treino em terreno acidentado, na cidade universitária da USP, torci o pé e acabei seguindo para o apronto final, em altitude, em St. Moritz, na Suíça, junto com os demais maratonistas da seleção brasileira, com esse problema. Lá, boa parte dos meus treinos foi feito em piscina, que me ajudaram na recuperação, mas acabei não entrando na competição na minha melhor forma.


Na Maratona de São Paulo deste ano você acabou repetindo o resultado de Berlim. Desta vez foi o previsto?


Novamente não, em parte por não ter seguido exatamente as orientações do meu técnico. Tínhamos estabelecido como principal meta no primeiro semestre um bom resultado na MSP, algo em torno de 2h38, já dentro dos preparativos para a prova de Berlim, mas acabei entrando em algumas corridas em abril, que acabaram por atrapalhar meu apronto final para a competição da Globo.


Então chegamos à Maratona de Berlim. Como ela aconteceu para você?


Tínhamos uma meta, que era completar entre 2h33 e 2h34, e os treinos que havia feito me davam certa segurança para essa marca, especialmente o período que passei no mês anterior, na altitude, em Paipa, Colômbia. O objetivo era conseguir um resultado rápido, não importando tanto a classificação. Aliás, até perto do final, quando vi e ouvi o Claudio no km 39, não sabia em que posição estava, uma vez que eu corria entre homens, já que a elite, masculina ou feminina, larga ao mesmo tempo que o geral.


Dessa forma, você correu, literalmente, contra o relógio?


Eu diria que corri de olho no relógio, fazendo as passagens de 5 km exatamente conforme o acertado com meu técnico, sendo a marca da meia-maratona alcançada em 1:16:45. Mas neste ponto vi que não estava me esforçando no limite, que poderia aumentar um pouco o ritmo, sem risco de quebrar mais para frente e assim fiz, ganhando segundos a cada quilômetro.


Você acabou fazendo split negativo, já que a segunda metade completou em 1:15:45.


Sim, mas foi algo meio natural, estava correndo nada ofegante e o clima chuvoso e um pouco frio ajudava. Também recebia estímulo dos homens que estavam em minha volta, pegando por vez o vácuo de alguns. Só bem no final tive a companhia de outra mulher, que chegou em 8º.


E como foi seu abastecimento durante a maratona?


Como atletas de elite temos direito a colocar nosso próprio hidratante em alguns pontos do percurso, e que no meu caso era composto de soro fisiológico com maltodextrina. Além disso, levei 3 geis de carboidrato, para o caso de não conseguir pegar algumas das garrafinhas posicionadas, mas isso não aconteceu e acabei só usando 1 gel.


Agora, com a 5ª melhor marca da história entre brasileiras, o objetivo é conseguir ser uma maratonista sub 2h30?


Para 2011 o principal objetivo é uma medalha no Pan-Americano, mas quem sabe eu não faça uma maratona sub 2h30 na Europa (Hamburgo ou Paris), até como parte do planejamento para o Pan.



UM TÉCNICO CUIDADOSO


Claudio Castilho é técnico de atletismo de alto rendimento do Esporte Clube Pinheiros desde 2002, mas arruma tempo para coordenar também a equipe que criou em 1996, a Saúde & Performance, hoje com 7 funcionários (5 treinadores e 2 administrativos) e orientando mais de 200 corredores amadores na capital paulista.


Contra-Relógio: Você treina a Adriana desde 2005. Quando descobriu nela seu potencial como maratonista?


Claudio Castilho: Depois de várias avaliações físicas, assim como de seu espírito competitivo e de dedicação aos treinos, vi que Adriana poderia ter uma carreira de sucesso como maratonista de nível internacional e comecei a prepará-la para tal, em 2008, com um bom resultado já na sua estréia nos 42 km, em Florianópolis no ano passado.


E em Floripa ela não só venceu ao debutar na distância, como já conseguiu índice para o Campeonato Mundial de Atletismo.


Exato; este era o objetivo, até mais do que a vitória. O exigido para ir ao Mundial de Berlim era ter uma maratona sub 2h44 e Adriana fez em Floripa 2:41:40, já dentro do previsto, ou seja, a partir do que ela tinha conseguido nos treinos e que a preparação prévia, como um todo, indicava como possível. E lá ela acabou se saindo até melhor do que eu esperava (2:40:54 e novo recorde pessoal), em função do problema no pé, que nos obrigou a reduzir drasticamente o treinamento e 50% deste acabou acontecendo dentro de piscina, enquanto estávamos com a delegação brasileira na Suíça, antes de seguir para a Alemanha.



Como Adriana comenta em sua entrevista, as outras duas maratonas (Mundial e São Paulo) não foram o esperado, mas de qualquer forma lhe deram bagagem para encarar Berlim em setembro. A participação na capital alemã foi acertada quando?


O ingresso como elite nas maratonas mais badaladas não é algo simples. É preciso ser aceito pela organização, o que exige a intermediação de um agente. Há alguns anos tenho relacionamento com o manager Hugo Souza, português, que conseguiu nossa participação, ou seja, a Adriana, o José Telles (que acabou desistindo) e o Sérgio Celestino (17º, com 2:19:38). Mas em função do currículo desses atletas, recebemos apenas hospedagem e alimentação, ficando o aéreo e outras despesas por conta do Pinheiros.


Como foi então a preparação para Berlim?


Trabalho com dois macroperíodos no ano. Tínhamos definido que a Maratona de São Paulo seria o objetivo principal no primeiro semestre e aí quando recebemos o sinal verde para Berlim, em maio, estabelecemos o planejamento de 4 meses. Foram 22 semanas de treino específico para Berlim, que incluiu um estágio de 28 dias em altitude (entre 2.600 e 3.200 m), em Paipa, Colômbia. Apenas acabei optando por fazer uma periodização invertida, ou seja, ao invés dos treinos em altitude no começo, decidi realizar o trabalho de velocidade primeiro, em SP, e só no final seguir para Paipa.


Durante esse período a quilometragem semanal superava os 200 km, naturalmente.


Sim, como todos os maratonistas de elite fazem. E os treinos compreendiam geralmente 12 seções por semana, havendo casos de até 3 treinos no dia, como, por exemplo, 15 km progressivo (em ritmo crescente) pela manhã, depois 8 km leve no começo da tarde e terminando com 10 km moderado.


Com base nesse treinamento e nas avaliações físicas feitas no período, você estabeleceu para Adriana que ela teria condições de correr para 2h33/2h34. E acabou "errando" por muito pouco. É possível estabelecer metas assim tão rígidas?


Quando se faz um trabalho cuidadoso de preparação, e se conhece bem o atleta, elaborar uma meta e recomendar o ritmo para as passagens em uma maratona não é algo tão complicado e pode-se prever com certa precisão, desde que o corredor siga o indicado, como aconteceu com a Adriana, só se soltando um pouco na segunda metade, ao ver que estava correndo com alguma sobra.


Você acredita que Adriana consiga uma marca sub 2h30 já em 2011?


Se fizermos o treinamento correto e que não será muito diferente do realizado este ano, posso dizer que é praticamente certo esse resultado e muito provavelmente na Maratona de Hamburgo, dia 22 de maio de 2011, onde Márcia Narloch obteve 2:29:59, em 2004. Vamos trabalhar para isso a partir do começo do próximo ano.


2 Respostas para “Adriana Aparecida, 5ª melhor maratonista brasileira da história!”

  1. Valeu, Adriana!!!Contamos com vc em Londres para brigar sub-30 e
    ser umas das tres finalistas no Rio de janeiro.
    Um grande abraço prá ti e os seu treinador.

  2. […] Leia aqui a entrevista que Adriana e Cláudio deram à CR, quando Adriana fez 2:32:30 em Berlim 2010, até então, seu melhor tempo. […]

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