Revista Contra-Relógio
// MEMÓRIA //

A MILHA PERFEITA

Edição 261 - JUNHO 2015 - NELTON ARAÚJO

Tal como um experimento científico, o então estudante de medicina Roger Bannister provava em 1954 que os limites fisiológicos do homem estavam muito distantes do que se acreditava. Mais do que inovações tecnológicas e de treinamento, o que era necessário era mudança na mentalidade. Leia agora a história da quebra do “recorde impossível”.

Romper limites. Eis uma das poucas "verdades absolutas" dentro da história do esporte, sobretudo quando falamos de atletismo e das corridas de rua. É que o iguala profissionais e amadores: quanto mais rápido ou mais longe, mais endorfina, mais prazer. Exige, para ambos, preparação intensa, sacrifício e, sobretudo, preparação psicológica: faz-se necessário acreditar que é possível.
Foi assim que o grego Louis Spiridon conseguiu ganhar a primeira maratona olímpica em 2:58:50 (Atenas 1896), e pode ser uma das chaves de explicação para o sonho dos maratonistas amadores, desde o século 20, em completar os 42,195 km abaixo das três horas. E os avanços entre os profissionais já nos fazem prospectar não mais se é possível rompermos com a barreira das duas horas na maratona masculina, mas quando ela será derrubada.
Na pista, homens e mulheres ao longo do século passado disseram não ao impossível e romperaram limites, que especialistas diziam que causariam a morte inevitável caso fossem alcançados. De todas as distâncias, aquela que mais viveu sob esse ambiente foi a prova da milha (equivalente a 1.609 metros).
Embora não esteja no calendário olímpico, que segue o padrão métrico (a prova olímpica que mais se aproxima é a de 1.500 metros), a competição de 1 milha ainda está presente em grandes campeonatos e é muito difundida em países onde o atletismo é difundido desde a infância, como nos EUA e na Inglaterra. Completar as quatro voltas na pista abaixo de 4 minutos (ou seja, em um ritmo de 2:29/km) é uma façanha e conquista para poucos até hoje. E até o dia 6 de maio de 1954 era considerável algo impossível, fisiologicamente falando. Foi quando o inglês Roger Bannister fez oficialmente o primeiro sub 4 na milha. E a história de como os limites humanos foram redefinidos a partir desse evento é o que vamos acompanhar nas próximas linhas.

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PRIMEIRO? Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro a fantasiar sobre a quebra dos 4 minutos na milha e, sobretudo, quem de fato a conseguiu tal feito. Afinal, apesar de Roger Bannister constar como o primeiro oficialmente, documentado e registrado, há diversos rumores e história de pessoas que, antes dele, teriam alcançado tal proeza, durante os anos 1930, e até mesmo um índio americano, em 1876.
No entanto, não há prova de que tais distâncias tenham sido precisamente medidas, ou que a inclinação da pista tivesse satisfeito as regras do século 20 para a ratificação de recordes. O máximo que podemos encontrar são alguns diários que falam da quebra da milha durante treinamentos, mas sem a presença da imprensa ou de órgão fiscalizador, tendo apenas técnicos e colegas como testemunhas.
Tais boatos só alimentavam a intransponível idéia (para fisiologistas e treinadores da época) que era impossível correr os 1.609 metros abaixo de 4 minutos, sendo, assim, "perigoso para a saúde de qualquer atleta que tenta alcançar a marca". O treinador da Universidade da Califórnia em 1935, Brutus Hamilton, era ainda mais detalhista ao dizer que "Ninguém pode correr uma milha em menos de 4:01.66."
Mas a rara combinação do aparecimento de um exímio pesquisador, que ao mesmo tempo era excepcional esportista, visando a um recorde mundial, algo inédito e avançado para a época, aliado ao meio acadêmico vivido na Inglaterra pós Segunda Guerra Mundial, encarnado na figura de Roger Bannister, iria transformar o padrão vigente.
Nascido em 23 de março de 1929, em Londres, Roger Gilbert Bannister apresentava, desde sua infância, uma diligência e sistematização de pensamento que o levariam a conquistar uma bolsa de estudos na tradicional Universidade de Oxford e realizar seu sonho de se tornar um médico, em 1946.


AMBIENTE FAVORÁVEL. Oxford já possuía um ambiente acadêmico que incentivava ao saudável hábito de se praticar esportes, em especial o atletismo. Os estudantes-atletas em Oxford tinham uma boa vida: havia uma pista de corrida muito próxima e um sistema implementado para cultivar bons esportistas, o que já tinha lhe proporcionado a formação de uma série de campeões olímpicos. Bannister, fazendo parte desse grupo, tinha vantagens em comparação a um outro amador que não fosse daquela universidade, como pista apropriada, treinador localmente disponível e mais tempo para aquela prática.
Já no primeiro ano de faculdade, Roger Bannister fez sua estréia na corrida de 1 milha, com o razoável tempo de 4 minutos e 53 segundos. Interessado em melhorar sua capacidade atlética, foi aliando seus conhecimentos científicos ao refinamento do seu treinamento e fortalecimento do corpo. Tudo isso feito sem muito alarde, ou mesmo em segredo: Bannister não revelava seus métodos de preparação, seguindo a boa tradição oxfordiana de não querer aparentar muito treinamento, porque, afinal, era uma atitude extremamente impopular um amador britânico levar o esporte tão a sério.
Logo, a literatura sobre os treinamentos do inglês é difusa, com alguns dizendo que ele treinava três vezes na semana por 45 minutos, enquanto outros dizem que ele fazia quatro sessões.
O fato é que ele, como estudante e futuro médico passava muito tempo no laboratório, sobretudo após se formar em Oxford, em 1951 e se mudar para o Hospital St. Mary, em Londres, para completar seu aprendizado médico. Lá, tornou-se cobaia de si mesmo durante as dezenas de horas que passava dentro do laboratório. Ajustava a esteira que lá existia e estudava, dessa forma, as reações do seu corpo em alto rendimento, tais como a temperatura do seu corpo, a acidez no sangue e a composição do ar respirado. Seu treinamento autodidata ia além daquele feito por "senso comum" de um atleta amador.


RECORDE BRITÂNICO. Apesar de uma frustrante participação nos 1.500 metros nas Olimpíadas de Helsinque, em 1952, os resultados começaram enfim a aparecer e em 1953 ele estabelecia o recorde britânico na milha, mas já estava concentrado e preparado para romper a barreira dos 4 minutos no ano seguinte. Sabia que não teria muito tempo para ser o pioneiro, uma vez que o ambiente esportivo mundial na época já dava sinais de que tal limite estava prestes a cair. Atletas de ponta de outros países melhoravam progressivamente seus tempos, como americanos, escandinavos, húngaros e, sobretudo, o australiano Jon Landy, que em dezembro de 1953, chegava ao impressionante tempo de 4:02, sem a ajuda costumeira de "coelhos".
Tal como um experimento científico, Roger Bannister estava à frente de todo o processo. Marcou dia e local de sua primeira tentativa de superar a marca: 6 de maio de 1954 na Iffley Road, pista da Universidade de Oxford (e talvez por isso a confusão de que Bannister era ainda um estudante de Oxford, quando superou a marca).
Para fiscalizar sua tentativa e dar o aval oficial, chamou os irmãos gêmeos McWhriter, criadores do Livro Guinnes dos Recordes e também formados na mesma instituição que Bannister. Além disso, se aliou ao técnico austríaco Franz Stampfl e aos amigos de seu tempo de estudante Chris Brasher e Chris Chataway, que fariam o papel de "coelho". Sistemático, cuidava de sua própria sapatilha, feita à mão, com todo peso supérfluo removido, os rebites afiados em seu laboratório e cobria as solas com grafite, para que a sujeira não se acumulasse, aumentando seu peso. Apesar disso, Roger Bannister correu em cinzas macias, o que roubou mais energia de suas pernas que os pisos sintéticos de hoje em dia.


O GRANDE DIA. No dia marcado, as condições meteorológicas não se mostraram a princípio favoráveis, com vento muito forte, a quase 40 km/h, e tempo instável. Apesar dos quase 2 mil espectadores que se espremiam no estádio (que tinha a capacidade modesta de 500 pessoas), cinegrafista da BBC com equipamento já montado, Bannister, orientado pelo seu treinador, diz não a tentativa por duas vezes antes do início, uma vez que o sub 4 só poderia ocorrer em um dia perfeito, onde vento e meteorologia estivessem em sintonia. Fora dessas condições, o esforço seria em vão e poderia prejudicá-lo para uma posterior tentativa.
Tal como Éolo (Deus do Vento) tivesse escutado as preces da multidão ali presente, o tempo se acalmou e Bannister e seu técnico foram convencidos a fazer a tentativa. O médico-atleta se alinhou junto com outros cinco corredores: Chataway, Brasher, Alan Gordon, Tom Hulatt e o norte-americano George Dole. O plano para as quatro voltas da competição já estava traçado: Chris Brasher (que posteriormente ficaria conhecido por ser um dos idealizadores da Maratona de Londres) lideraria a prova por duas voltas, entregaria a dianteira para Chataway que cortaria o vento e ditaria o ritmo por mais uma volta, deixando a última volta por conta e empenho de Bannister. Os outros competidores foram instruídos a correr suas próprias corridas.
Com largada pontualmente às 18 horas. Chris Brasher passou a primeira volta para 58 segundos, 1 mais rápido que o planejado e a meia milha para 1:58. Bannister estava escondido logo atrás de Brasher e Chataway um passo atrás de Banister. Chris Chataway tomou a ponta, mantendo o ritmo e passando a terceira volta para 3:01. Continuou a liderar por mais 150 metros, deixando o caminho livre para Bannister disparar, com as passadas largas e elegantes, contrastando com seu esforço estampado em rosto contorcido de dor, executando a última volta em pouco menos de 59 segundos e completando a milha em 3:59.04, para delírio de todos ali presentes.
Naquele momento, as conclusões de Brutus Hamilton e fisiologistas desde a década de 1930 iam por água abaixo: sim, o homem era capaz de realizar uma milha abaixo de 4 minutos sem ter um colapso e morrer. Tudo bem que o pulso de Bannister levou três horas para voltar ao seu basal de 40-50 batimentos por minutos e sua visão das cores estava borrada, mas ainda assim estava vivo. Anos mais tarde, em seu livro, Bannister dava a exata dimensão de como se sentira: "Desabei, quase inconsciente, com os braços ao lado do corpo. Foi só aí que a dor verdadeira tomou conta de mim. Eu me senti exausto e sem vontade de viver. Continuava existindo no mais passivo estado físico, sem estar realmente inconsciente."
Modesto, Bannister aparece diante das câmeras e se diz feliz por ter conseguido e enfatiza que fazia aquilo por puro hobby, sem receber por seus feitos esportivos, embora aqueles que estavam dentro daquele processo soubessem que poucos no mundo treinavam tanto e tão sistematicamente quanto o médico inglês. Seu nome correu o mundo e sua foto cruzando a linha de chegada simbolizava um feito sobre-humano, tal qual a primeira escalada do Monte Everest no ano anterior.


RECORDE SUPERADO. O mundo do atletismo se redefinia ao mesmo tempo em que evoluía. Os principais concorrentes de Bannister, o americano Wes Cantei bateu o recorde mundial dos 1.500 metros um mês depois do feito em Oxford e não muito tempo antes de ser banido por receber pagamentos por suas aparições, um ato de profissionalismo passível de condenação na época. E 46 dias depois, o australiano John Landy superou a marca de Bannister, com o tempo de 3:57.09 e um sorriso no rosto, sem contar com coelhos, maior crítica dos americanos e australianos ao feito de Bannister.
A disputa entre ele e Landy se tornava evidente e necessária, e não tardou a surgir concretamente. Ela veio em agosto de 1954 e foi anunciada como a "Milha Milagrosa", nos jogos da Commonwealth, em Vancouver, Canadá. Landy liderou boa parte da prova, mas foi superado por Bannister, que venceu com 3:58.08.
Mas a principal redefinição foi quanto à mudança de mentalidade. Após o feito de Bannister, começou uma avalanche de atletas que quebrariam a barreira mágica. Especialistas, como o lendário finlandês Paavo Nurmi (recordista mundial de várias distâncias e medalhista olímpico), prevêem rápidas melhoras. O limite já tinha sido redefinido e ele estava bem longe do que muitos pensaram. Até o início de 2014, 1.314 atletas já tinham realizado a mesma proeza de que Bannister e o recorde já caiu dezessete segundos, com o melhor tempo feito pelo marroquino Hicham El Guerrouj com 3:43.13, em Roma 1999.
E a mudança de mentalidade, que se iniciou com Bannister, de acreditar que algo que era considerado uma "marca impossível" podia ser algo factível, foi o principal elemento para as quebras de recordes mais à frente. A tecnologia pode avançar a mares nunca antes navegados e as técnicas de treinamento se aperfeiçoarem a cada ano, mas nenhuma marca será quebrada se não houver a confiança e a mentalidade do atleta. Seja para o sub 2h na maratona masculina profissional, seja para os recordes pessoais dos amadores.


Recorde brasileiro
O recorde brasileiro na distância de 1 milha pertence a Hudson Santos de Souza, com 3:51.05, obtido em Oslo (Noruega) em 29/07/2005.



A evolução das pistas
Você deve estar se perguntando como foi (e é) possível correr uma milha, cuja distância é de 1.609 metros, em uma pista de 400 metros. Primeiro temos que entender que os primórdios do atletismo ocorreram em países direta ou indiretamente influenciados ou dominados pelo reino Britânico, cujo padrão vigente de medida até hoje é o imperial (que tem como medidas jardas e milhas).
Em tais países, no final do século 19, as provas eram realizadas em percursos dentro do padrão imperial, mas nem sempre em pistas ovais. Assim, homens corriam provas de 110 jardas (100,5 m), 220 jardas (201,16 m), 440 jardas (402,33 m), 880 jardas (884,67 m) até 1 milha.
Com o advento das Olimpíadas Modernas, em 1896, houve a metrificação do atletismo e a mudança na extensão dessas competições. Isso porque seus organizadores se inspiraram não apenas nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, mas também nos da então Nova República Francesa (1796 a 1798), que usou pela primeira vez o sistema métrico como padrão.
Dessa forma, foram adaptadas as provas clássicas: as 110 jardas passaram a ser os 100 metros, as 220 jardas se tornaram 200 metros, 400 metros tomaram o lugar das 440 jardas, e os 1.500 metros seria a mais próxima da clássica prova de 1.609 metros.
E as pistas foram sendo modificadas. Em primeiro lugar, no formato oval para se adequar aos estádios usados nas primeiras Olimpíadas. Em segundo, foram padronizadas quanto à sua extensão. Por exemplo, as provas de atletismo em Paris, em 1900 e 1924, aconteceram em uma pista de 500 metros. Já as competições olímpicas de 1908, em Londres, foram numa pista de 536,45 metros.
A partir das Olimpíadas de 1928, em Amsterdã, e com o processo de padronização em nível mundial pela IAAF, as pistas, enfim, passaram a ter exatamente a metragem atual para serem reconhecidas como oficiais, bem como imposto o sistema métrico para todas as competições de atletismo organizadas pela instituição.
Apesar de algumas raríssimas pistas ainda terem 440 jardas a volta (ou seja, um quarto de milha), as oficiais, sobretudo a partir de 1928, possuem exatamente 400 metros na raia 1, aumentando sete metros a cada raia, e tendo uma marcação nove metros antes da linha de partida, que é a marcação para as provas de milha, a única com medida imperial que ainda é aceita pela IAAF.
Assim, Roger Bannister largou nove metros e vinte e três centímetros atrás da linha de largada, como é feito até hoje. Não possuímos fontes concretas para afirmar como era o modelo em pistas de tamanhos diferentes, embora possamos deduzir que havia uma mensuração prévia de quanto os competidores deveriam largar antes da linha de chegada, para correrem 1.609 metros.

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