Revista Contra-Relógio
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A Maratona do Rio na década de 80

Edição 285 - JUNHO 2017 - NELTON ARAÚJO

Criada por um jornalista apaixonado por corrida, a Maratona Atlântica-Boa Vista/Jornal do Brasil foi o maior exemplo de como a corrida crescia a passos largos no início dos anos 1980. Mas como era correr uma maratona nessa época?

Hoje restam poucas dúvidas de que a Maratona do Rio de Janeiro é um dos principais eventos na distância no Brasil, se não o principal. Se o calor e a umidade carioca podem atrapalhar os planos daqueles que buscam uma prova rápida, isso é compensado com um visual deslumbrante - mesmo em dias de chuva - e uma organização impecável, que levou à marca de 5.511 concluintes na edição do ano passado, relembrando uma época de ouro da prova, entre 1980 até 1984, quando ela era chamada de Maratona Atlântica Boavista/Jornal do Brasil (mais tarde Maratona Bradesco/Jornal do Brasil), quando chegou a ter 7 mil inscritos.
Importante relembrar que a Maratona Atlântica Boavista não foi a primeira maratona no Rio, estando o pioneirismo nas mãos da organizadora Printer, que tinha como um dos sócios a atleta Eleonora Mendonça (primeira brasileira a correr uma maratona Olímpica, em 1984), que realizou a primeira edição em 1979. Contudo, os corredores viam-se identificados nas letras do jornalista e esportista José Inácio Werneck. Este possuía uma coluna no Jornal do Brasil intitulada "Campo Neutro", cujo principal espaço era reservado para divulgação do calendário de provas de ruas, análise do cenário do atletismo à época e até mesmo convidar os leitores para correrem com ele nos longões aos domingos.
Não demorou muito para que alguns problemas estruturais na maratona da Printer aparecerem, como medição errada, congestionamentos nos primeiros postos de água e ausência de fiscais de percurso em alguns pontos chaves, que fizeram vários corredores cortarem caminho durante o trajeto. Aproveitando-se disso, José Werneck convenceu o grupo de comunicação ao qual fazia parte e logo conseguiu que o grupo Atlântica Boa Vista desse suporte financeiro para a organização de uma maratona no Rio de Janeiro que tivesse padrão internacional.

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A PRIMEIRA, EM 1980. Logo era anunciado, em fevereiro 1980, o novo evento já com dia e hora marcados: sábado, 15 de novembro de 1980, às 17 horas. Sim, o que parece meio controverso hoje em dia, largar num final de tarde em novembro (ainda mais no Rio de Janeiro), era algo comum na época. Informalmente, Werneck combinava com seus leitores, através da sua coluna, os "treinões" para a maratona. Ele dizia a hora, o local do evento e a distância. Em geral realizavam no trajeto que seria a maratona ou na região das Paineiras, na Floresta da Tijuca, com a participação de atletas de elite. Foram em torno de 30 "treinões", que chegavam a reunir mais de 200 pessoas.
Os 1.098 atletas, que se inscreveram pelo valor de 100 cruzeiros, retiraram seu kit, que se resumia ao número de peito e uma camisa de algodão, no dia anterior, na própria sede do Jornal do Brasil. E quem quisesse poderia comprar o ticket para o jantar de massas na Churrascaria Copacabana. Porém, o mais interessante era ser realizado um simpósio, com inúmeras palestras, que contavam com atletas internacionais convidados. E estes eram de peso: o australiano Derek Clayton, duas vezes recordista mundial na distância, o americano Greg Meyer (até então recordista dos 10, 15 e 25 km) e a neozelandesa Lorraine Moller, que, doze anos depois, seria bronze nos Jogos Olímpicos. O americano Bill Rodgers não compareceu na última hora, muito provavelmente pelo desgaste da Maratona de Nova York, que tinha corrido três semanas antes. O simpósio aconteceu no Othon Palace, no Rio de Janeiro e em São Paulo, no auditório da seguradora que patrocinava o evento, na Avenida Paulista. A entrada era livre para todos escutarem, por exemplo, Derek Clayton afirmar a pleno pulmões que "Há estudos provando que o organismo humano não tem condições de correr 42,195 km em menos de 2h02". Trinta e sete anos depois, essa frase soa ainda bem atual.
Sob a já previsível alta umidade, mas com uma temperatura amena (para os cariocas) de 20 graus, apenas 584 atletas concluíram a competição, que não saía da Praia do Pontal, como hoje, mas sim do Forte do Leme em direção ao aeroporto Santos Dumont, retornava à orla, seguia para Copacabana, Ipanema e Leblon, dava a volta completa na Lagoa, e voltava enfim, do Leblon até o Forte do Leme. Um percurso bem bonito, mas que dava um nó no trânsito da cidade. Greg Meyer e Lorraine Moller venceram facilmente e disseram que poderiam ter feito mais, se não fosse o calor. Mas o evento foi um sucesso entre os organizadores e a edição de 1981 já estava garantida.
A prova se diferenciava também pela instalação de um terminal de teleprocessamento da Embratel, que computaria o tempo exato dos resultados, muito embora ainda existisse o procedimento de entregar algumas senhas ao longo e ao final do percurso. Uma forma para confirmar o seu tempo, longe de ser o líquido, porém mais próximo da realidade em comparação com a São Silvestre da época, onde se demorava mais de 10 minutos para entregar a senha na chegada, às vezes tendo que parar numa fila antes do pórtico final. Realmente, 48 horas depois, todos os participantes viam orgulhosamente seus tempos estampados nas folhas do Jornal do Brasil. O que se tornou um padrão nos anos posteriores. A classificação foi divulgada por faixa etária e sexo.


COMEÇA O CRESCIMENTO. No ano seguinte, a Maratona do Rio organizada pelo Jornal do Brasil foi abraçada pelas autoridades políticas, em especial pela prefeitura, que fez questão de oferecer todo suporte possível, e ainda de receber os principais atletas de elite que vinham para a prova. Em especial, o detentor do título Greg Meyer e, sem mais desculpas, Bill Rodgers. Sabiamente, alteraram a data para dia 2 de agosto, com intuito de buscar uma data que propiciasse um clima mais ameno. Ironia do destino: de 1981 a 1985 a prova sempre aconteceu sob intenso calor, ao contrário do tempo ameno da primeira edição.
E daí surge o grande boom de maratonistas, ultrapassando a casa de 2 mil inscritos e 1.785 concluintes. Aos poucos ia se consolidando a ideia de que o jogging era um estilo de vida e os corredores queriam mais do que provas de 5, 10 ou 13 km (como a São Silvestre nesse ano). Viajar para provas internacionais ainda era algo raro, logo, o epicentro desses corredores passava a ser a nova maratona carioca.
A estrutura da expo e do simpósio seguiu o mesmo procedimento do ano anterior, bem como o percurso. Mas a hidratação passava a ser distribuída a cada 5 km, com postos também de isotônicos nos km 17, 27 e 37. E o Jornal do Brasil fez uma parceria com a TV Bandeirantes para a transmissão na íntegra da competição, vencida por Bill Rodgers com o tempo de 2:14:13, que só seria superado doze anos depois. A exposição na TV de provas de rua é um dos principais combustíveis para o crescimento delas. Isso até hoje. Assistir a uma prova no Brasil onde o vencedor era nada mais nada menos que o tetra campeão da Maratona de Boston e de Nova York, gerava um desejo para corredores de todo Brasil de também participar, um fenômeno que já tinha acontecido (e acontece) com a São Silvestre.


4 MIL INSCRITOS! O impacto foi imediato já em 1982: 4 mil inscritos, 3.496 concluintes, o dobro da edição anterior. A prova tinha que passar por mudanças para receber esse contingente. O próprio diretor da prova, José Inácio Werneck, que agora também era membro da AIMS (Associação Internacional de Maratonas), em entrevista, afirmava que uso de toda tecnologia possível era imprescindível para provas com mais de 1.500 atletas, sobretudo as que teriam premiação por faixa etária.
A Maratona do Rio usaria recurso de videocassetes para posteriormente premiar com medalha os três primeiros das nove categorias etárias que a prova possuía. Afora isso, outra novidade: um carro-madrinha, com um relógio digital (algo novo e tecnológico à época) seguiria à frente dos líderes, e seria proibido qualquer apoio ou mesmo a presença de motos e bicicletas, que já tinham sido motivo de acidentes em edições anteriores.
Como já dissemos, o percurso das duas primeiras edições era bem bonito, mas horrível para o trânsito num sábado à noite, ainda mais que não possuía horário de término para a prova. A novidade então foi a retirada da Lagoa Rodrigo de Freitas, para evitar o congestionamento do trânsito no Leblon e Ipanema. Para substituí-la, foi escolhido um grande trecho no centro da cidade, entrando na Avenida Presidente Vargas, indo até a altura do Prédio dos Correios (muito próximo de onde fica localizada, hoje, a expo da Maratona do Rio), e, embora propagassem que o resultado propiciou "um aspecto visual até superior", boa parte dos atletas, inclusive o português Delfim Moreira, campeão daquela edição, lamentava a retirada da Lagoa Rodrigo de Freitas.


PERCURSO NÃO AFERIDO. Pela primeira vez, a maratona teria medição "oficial", feita com o aparelho Truemeter. Dessa forma, a prova passava ser elegível pela AIMS para um eventual recorde. Ainda bem que não houve, pois, curiosamente, dois anos depois, Werneck admitiu que, apesar da boa-fé deles em ter um percurso aferido, a pessoa que fez a medição não tinha agido da maneira correta, mas sim subido na garupa de uma moto, para agilizar o trabalho. Ou seja, a prova provavelmente teve menos que os 42,195 km.
Passaram a ter o staff vindo da Escola de Educação Física do Exército, com apoio da Policia Militar e do Departamento de Trânsito, num total de 400 fiscais ao longo do percurso e quatro postos de controle, dois deles equipados com "vídeo-tape", para evitar eventuais trocas de números e corte de caminho. O sistema de retirada do número (a camisa de finisher só era dada aos concluintes) permanecia o mesmo, mas para controlar a quantidade de pessoas no simpósio, cada atleta recebia um papel dizendo o horário que poderia participar; as seções geralmente duravam duas horas e tratavam sobre treinamento, medicina esportiva, entrevistas com os atletas de elite e até mesmo palestras de cunho sociológico acerca do crescimento da corrida de rua no Brasil.
Em entrevista em 2013 para a Contra-Relógio, Bill Rodgers, ao saber que éramos do Brasil e, em especial, do Rio de Janeiro, disse que não precisávamos de dicas para correr uma maratona, pois "quem corre uma maratona no Rio, corre em qualquer lugar do mundo". Uma observação pertinente de alguém que abandonou a edição de 1982 antes dos 21 km pelo calor de 28 graus, na altura do aterro do Flamengo. Sua tática não tinha sido muito feliz, uma vez que, querendo quebrar o português Delfim Moreira, correu a uma média de 3:01 por km e acabou desistindo. O português, que sabia que esse clima seria o único no qual ele teria chances contra Bill Rodgers, administrou desde o início e venceu facilmente com 2:15:17. Mesmo com a alta temperatura, a organização se orgulhava em dizer que os problemas médicos foram bem menores do que das duas outras edições juntas.


LARGADA DUPLA. A 4ª edição da agora Maratona Bradesco/Jornal do Brasil, no início de julho de 1983 - mais uma forma de tentar fugir do calor da edição passada - já superava 7 mil inscrições, quase o dobro do ano anterior. Por isso mesmo, decidiu-se por fazer uma "largada dupla", ou seja, em uma das pistas da Avenida Atlântica sairiam as mulheres e, na outra, os homens, para evitar atropelos e uma melhor dispersão, e apenas 1 km depois haveria o afunilamento em uma via única, na Avenida Princesa Isabel. O número de staffs também aumentou de 400 em 1982 para 3 mil nessa edição e a transmissão pela TV agora estava nas mãos da Record.
Todavia, a esse crescimento em proporções geométricas, surgiram dois problemas. O primeiro foi da hospedagem dos atletas, que vinham de todo o Brasil e também do exterior, muitas vezes com familiares, e, logo, os hotéis estavam com sua capacidade máxima. O Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN) resolveu parte do problema, abrindo suas instalações, que incluía alimentação e uso da pista por uma diária muito abaixo do valor de mercado.
O segundo problema é que quanto maior a prova, maiores os custos, e o banco que agora era o patrocinador sênior do evento não se mostrava muito disposto a aumentar a cota de seu investimento, estimado em 250 milhões de cruzeiros, entre despesas de material e de pessoal. A solução foi a inclusão de patrocinadores juniores, cujos produtos ou serviços oferecidos se identificavam diretamente com o evento. Assim, empresas como a água mineral Petrópolis, a marca esportiva Topper, a Pan Am e Hotéis Othon entravam com cotas menores de patrocínio.
Esse orçamento um pouco mais apertado se refletiu na quantidade de atletas de nível mundial a virem à prova, mesmo que houvesse a proibição de pagamento aos atletas (isso de forma direta, pois, indiretamente, é sabido que foi o pagamento de cachês que trouxe Greg Meyer, Bill Rodgers e Derek Clayton para correr na cidade que, apesar de maravilhosa, não tinha tradição nenhuma em maratonas e não oferecia condições para grandes tempos).
Assim, a elite passava a ser composta por atletas de segundo esquadrão, como o inglês Malcolm East, o mexicano Carlos Victorino e o australiano Laurie Whitty, que compuseram o pódio de 1983, edição que teve 4.383 concluintes. Delfim Moreira dessa vez foi apenas o 4º colocado. Entre as mulheres, o principal investimento estava na alemã Charlotte Teske, que não decepcionou e conquistou seu bicampeonato, fechando tranquilamente a prova em 2:40:35, 12 minutos mais lento que seu recorde pessoal, obtido dois meses antes.


SELETIVA OLÍMPICA. Em 1984, todo o esforço para transformar a Maratona Bradesco/Jornal do Brasil na principal corrida do país foi coroado com a escolha do COB para o evento sediar a seletiva para os atletas que fossem competir na Olimpíada de Los Angeles. E a grande novidade foi que a entrega de kit e o simpósio aconteceriam em um evento único: a feira da maratona. Localizada no Shopping Fashion Mall, em São Conrado, contou com a presença de trinta estandes, palestras, exibição de vídeos e venda de produtos de "moda esportiva", tendo ficado aberta entre 26 de maio até 3 de junho, dia seguinte da competição, para a premiação dos vencedores e a entrega das camisetas comemorativas a todos que tivessem efetivamente completado a prova.
O percurso mudou novamente, trocando-se as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco pelo já extinto Viaduto da Perimetral, com objetivo de maior segurança, já que este não possuía transversais. Os três primeiros colocados na classificação geral nas categorias masculina e feminina, assim como por faixa etária, receberiam troféus. E as medalhas de conclusão era algo exclusivo para os primeiros 50 homens e 20 mulheres. Os outros maratonistas que completassem receberiam uma camisa comemorativa.
Como sede das seletivas, houve toda a preocupação para que não houvesse nenhum incidente, já que ela seria transmitida pela TV Manchete e teria cobertura das principais revistas estrangeiras especializadas. A começar pela largada dos 300 atletas de elite, que saíram 100 metros à frente dos 6.900 amadores inscritos, para evitar que fossem prejudicados. Outra medida foi a divulgação, a cada cinco quilômetros, dos primeiros colocados. E, por fim, a vitória do atleta só seria homologada se ele estivesse vinculado a algum clube, inclusive este deveria usar o uniforme respectivo durante a competição.
Entre os atletas de elite, a nata da corrida de fundo estava presente: João da Matta (favorito), Elói Schleder, Édson Bergara, José Baltar e José da Silva despontavam da lista. Entre as mulheres, Angélica de Almeida, Margareth Dias, Magaly Aparecida, Marla Casemiro e Eleonora Mendonça, que já tinha saído da sociedade da Printer.
A prova, que ainda tinha largada às 16h, foi vencida por Elói Schleder sem muita resistência, já que João da Matta teve um estiramento muscular e abandonou; Bergara não aguentou o ritmo e o mais próximo de Elói, Kleevansóstenes de Albuquerque, foi atropelado por um carro da rede Globo na altura do km 34. Já entre as mulheres, vitória fácil de Eleonora Mendonça. Mas os tempos de ambos os campeões - 2:24:35 e 2:55:54 - foi alvo de intensa crítica do diretor da prova, que já via a disparidade com os atletas de nível mundial. Mas, resultados à parte, ambos representaram o Brasil em Los Angeles dois meses depois. E o número de concluintes aumentava para 4.710.


EM 1985, 5.361 CONCLUINTES! A Maratona do Rio já estava gravada nos corações de todos os corredores amadores, com uma organização lembrada até hoje. Em 1985, a prova chegou ao número máximo de concluintes, 5.361 atletas (pouco menos que os da edição de 2016!), que pegaram seu kit e desfrutaram da expo dentro do Copacabana Palace. O know-how da edição de 1984 foi aproveitado e, agora, sem atropelamentos de carro de emissora de televisão, a prova tinha tudo para se estabelecer e tornar-se uma das principais maratonas do mundo.
Mas as brigas entre o diretor da prova, Werneck, e patrocinadores e diretoria do Jornal do Brasil aumentaram, ao ponto dele sair do periódico, bem como da direção da maratona. O crescimento de novos maratonistas no Brasil parece ter estagnado, sobretudo depois da propagada morte do James F. Fixx, um dos maiores nomes na divulgação da modalidade, durante um treino. Além disso, outras boas maratonas, como as de Porto Alegre e Blumenau, começaram a despontar no cenário brasileiro, assim como os novos adeptos da corrida não sentiam mais a necessidade de completar uma maratona para se sentir um corredor.
Com isso, o número de inscritos da Maratona do Rio começou a cair a partir de 1987, os patrocinadores se retiraram do evento e a competição foi minguando, até que, em 1992, ela não foi realizada. E tornou-se uma prova instável até 2003, quando passou a ter o formato atual (daí a comemoração dos 15 anos em 2017) e tem voltado a crescer ano a ano, relembrando os momentos de glória do início dos anos 80.

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