Revista Contra-Relógio
// História //

A MAIS EMOCIONANTE MARATONA DE BOSTON

Edição 283 - ABRIL 2017 - NELTON ARAÚJO

Em 1982, dois maratonistas duelaram por mais de duas horas, com a definição da vitória acontecendo apenas nos metros finais.

A vitória já parecia definida quando as motos dos batedores entraram na Boylston Street, a rua que conduz ao pórtico de chegada da Maratona de Boston. Eles já cercavam o cubano, radicado nos Estados Unidos, Alberto Salazar, certos da sua vitória na 86ª edição. No entanto, os gritos das centenas de milhares de espectadores que se acotovelavam ali ficaram cada vez mais fortes, alucinados. E não era só para Salazar, mas também para o americano Dick Beardsley.
Renascendo das cinzas e suportando a dor no isquiotibial direito, a plateia viu Beardsley driblar as motos, chegando a ficar a menos de dois segundos de Salazar, que percebendo sua chegada, esbugalhou seus olhos como quem não acreditasse, e começou a acelerar o máximo que podia. Qualquer vacilo nas pernas poderia ser fatal à sua vitória, pois seu oponente também deixava tudo de si nos últimos 100 metros. O relógio oficial marcava o tempo de 2 horas e 8 minutos e, naquele momento, ninguém, absolutamente ninguém que estivesse presente ou assistindo a transmissão, saberia qual seria o desfecho.
A chegada da edição de 1982 é considerada, mesmo 35 anos depois, a mais emocionante da história da Maratona de Boston. Não somente o seu final, mas também a prova como um todo: ela representou o clímax do primeiro boom das corridas de rua nos Estados Unidos, que tinha começado em meados dos anos 60. Como consequência de todo clímax, é também considerada como um dos marcos para o fim desta fase.
No campo profissional, a fonte norte-americana de produzir maratonista de classe mundial tinha se esgotado e, de lá para cá, apenas três Majors foram vencidas por americanos. Já no campo amador, o principal marco que levou a uma estagnação nos números de praticantes de corrida apareceu em 1984, quando o maior apóstolo da corrida de rua, o americano James F. Fixx, autor do principal livro de cabeceira de todo corredor, "O Guia Completo de Corrida", morreu de um ataque cardíaco fulminante durante um treino, o que foi associado a um risco desta atividade física e ignorado todo o passado de Fixx como um fumante inveterado e com consequências de um homem com sobrepeso.
Mas hoje vamos relembrar a prova de 1982, chamada pelos especialistas de "Duelo ao Sol", o embate entre os dois maiores maratonistas americanos da época, cujas vidas mudaram após este evento. Era um confronto de duas personalidades opostas. Dick Beardsley era o típico menino de fazenda, quieto, sem grandes traquejos com a imprensa. No entanto, tornou-se capa dos principais periódicos americanos ao vencer a primeira edição da Maratona de Londres, em 1981, com tempo de 2:11:48. Meses depois, já entrava no seleto rol dos maratonistas sub 2h10, ao ganhar a Grandma's Marathon, nos EUA, com 2:09:37, recorde que só foi batido em 2014. Convidado para correr Boston, ele sabia que seria o azarão, pois lá estaria também o maratonista mais popular da época: Alberto Salazar.

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O GRANDE SALAZAR. Sua fama vinha, sobretudo, pelo seu bicampeonato na Maratona de Nova York em 1980 e 1981, este último, inclusive, batendo o recorde mundial, mas que foi não validado, pois a prova tinha 150 metros a menos. Mas que lhe valeu entre outras honras, uma audiência na Casa Branca com o presidente Ronald Reagan, tornando-se uma celebridade. Em março de 1982, ele terminou em segundo lugar no Campeonato Mundial de Cross-Country.
E apenas uma semana antes de Boston, ele teve a ideia de disputar uma prova particular de 10.000 metros com um dos maiores nomes do atletismo do Quênia, Henry Rono. Ocorrendo apenas nove dias antes da maratona, ele violou todos os códigos no cânone de treinamento do esporte da época. Na pista da Universidade de Oregon, Alberto Salazar fez o impressionante tempo de 27:30, mas não o suficiente para ganhar do queniano. E isso nem importava tanto para o americano: essa competição tinha a função de deixá-lo confiante de que não somente venceria a maratona mais tradicional do mundo, como também quebraria o recorde do percurso, conquistado pelo japonês Toshihiko Seko um ano antes, com 2:09:26.
Obviamente, todos os holofotes estavam voltados para Salazar. E ele mesmo anunciou aos repórteres logo ao chegar ao aeroporto com sua esposa Molly: "se não houve lesões ou imprevistos..." Bem, os fatos estavam claros: Ele era o homem mais rápido na corrida. Sempre se mostrou nítido que seu objetivo era demolir seus concorrentes, correr tão à frente que não poderia haver dúvida de sua grandeza. Segundo palavras dele "Não era o suficiente eu ganhar a corrida; eu queria enterrar os outros caras." Já evitar os holofotes era justamente o que Beardsley e seu treinador, Bill Squires, desejavam, chegando discretamente e falando apenas o imprescindível aos jornalistas nos dias que antecederam a competição.


DESCANSO OPORTUNO. Chegava então o grande dia. Tradicionalmente, a Maratona de Boston acontece na terceira segunda-feira de abril, feriado estadunidense do "Dia do Patriota". Da mesma forma que os amadores eram trasladados nos famosos ônibus escolares amarelos com faixas pretas até a cidade de Hopkinton, a elite tinha um ônibus próprio. Todos embarcaram no ônibus, menos Dick Beardsley, que foi levado de carro pelo seu treinador. E para evitar que seu atleta perdesse a concentração vendo Alberto Salazar, sua maior preocupação nos quatro meses de preparação para maratona, eles pediram abrigo a uma casa comum, onde habitava apenas uma mulher. "Bom dia, senhorita, que casa encantadora. Deixe-me apresentar Dick Beardsley. Ele é um fazendeiro de leite, tem feno em seus dentes, mas não se deixe enganar: em poucos minutos ele vai correr a Maratona de Boston e, com a sua ajuda, ele terá chance de vencê-la".
E com essas palavras, o treinador conseguiu que Beardsley pudesse, anonimamente, se espreguiçar, ir ao banheiro, e esperar a chamada para os corredores, que aconteceu faltando quinze minutos para o meio dia, hora de início da prova. Beardsley quase não conseguiu chegar a tempo na primeira fila de partida, o que só aconteceu quando um dos participantes finalmente o reconheceu e começou a gritar "Dick Beardsley está aqui! Abram o caminho!".
Dada a largada, já é previsível que o primeiro pelotão iria se formar e manter ritmo em função dos três grandes nomes que estavam ali: além de Salazar e Beardsley, Bill Rodgers, um dos principais rostos da corrida de rua nos Estados Unidos e tetracampeão de Boston. Mesmo com o sobe e desce do percurso, no qual o plano não tem vez, o ritmo estava tão tranquilo que no quilômetro oito, Rodgers e Beardsley conversavam amenidades. O passeio no parque acabou quando os atletas Ron Tabb e Dean Matthews resolveram fazer uma fuga. Era muito cedo para ser uma aposta séria, mas, já com um terço de maratona, o pelotão não poderia se dar ao luxo de ignorá-la. O bloco foi se dissolvendo ao buscar Tabb e Matthews e já tinha ficado evidente que a disputa seria entre o vencedor da Maratona de Londres e o bicampeão de Maratona de Nova York.
Paralelamente, ocorre outra competição durante o percurso até a Boylston Street: qual das oito cidades entre Hopkinton e Boston é a mais acolhedora para os atletas. Logo, milhares de pessoas começaram a aplaudir o que sobrou do pelotão: Rodgers, Ed Mendonza, Beardsley e Salazar. Todos retribuíam o carinho acenando, mas enquanto Beardsley estava com sorriso no rosto, Salazar não estava se divertindo: a temperatura já chegava à casa dos 20 graus, eles tinham feito um esforço desnecessário para alcançar os atletas que tentaram fugir e ainda nem tinham chegado a tão temida Heartbreak Hill. Qualquer sorriso a mais seria perda de energia.


ABASTECIMENTO INFORMAL. Se hoje reclamamos dos postos de hidratação, saiba que, na época, para se hidratar você precisaria da ajuda de um morador com boa vontade, pois não havia nenhuma estação oficial de abastecimento. Você aceitava copos que os espectadores serviam. Beardsley pegava os copos que recebia, colocava em seu boné de pintor e bebia como se fosse uma cuia. Salazar não pegava água alguma e recusou todas as vezes que seu oponente o oferecia.
Passado a primeira metade da prova, Rodgers e Mendonza começaram a perder contato com os líderes. Nada que surpreendesse Salazar, afinal, sua única preocupação era Beardsley, a quem ele considerava um "cavaleiro talentoso". Entretanto, apesar do respeito às boas marcas em maratonas do seu rival, Alberto Salazar tinha certeza que o último terço da prova era dele, já que Beardsley não tinha boas credenciais na pista: seu melhor 10.000 metros era um minuto e meio mais lento que o de Salazar.
Com Rodgers e Mendonza cada vez mais distante, Beardsley deu uma suave acelerada para tomar a liderança justamente na altura do km 25, quando começa o trecho mais crítico da prova até hoje: as colinas. Quase ombro a ombro com seu único oponente, Salazar corria com a mesma facilidade de quando estava no plano. Em seus pensamentos, ele era mais rápido, mais forte e tinha se preparado melhor. As subidas pertenciam a ele.
Beardsley mostrava a mesma confiança. Tinha saído de sua cidade natal, Minessota, para treinar em uma região com várias colinas, que lembravam as da maratona. E veio a Boston para um treino específico: tiros de velocidade na colina que leva a Heartbreak Hill. Só não contava que iria cair uma tempestade que deixou a cidade com um palmo de neve nas ruas. Seu técnico tentava mostrar que era impraticável fazer qualquer treino ali. Mas Dick convenceu o técnico e acabou completando os oito estímulos de ida e volta a Heartbreak, como planejado. No final do treino, ele calmamente informou ao técnico que estava pronto. As subidas pertenciam a ele.


DUELO NAS SUBIDAS. E foi Beardsley quem começou a dar as cartas durante as colinas que culminavam na emblemática Heartbreak Hill, um pouco antes do quilômetro 35. O até então azarão começou a testar a resistência do favorito, ao correr numa estratégia de fartlek, isto é, acelerando bem forte por pouco mais de 400 metros, depois diminuía o ritmo por 200 metros. Fez esse ciclo duas ou três vezes. No entanto, o objetivo de quebrar o ritmo de Salazar foi em vão, pois este acompanhava cada movimento sem se abalar. Num dia de céu claro e sol forte, Dick não precisava olhar para trás para saber que Alberto estava perto dele; ele observava pela sombra que se formava no asfalto. Psicologicamente, ele não podia permitir que Salazar assumisse a liderança, então forçava o ritmo para ficar na frente. A Heartbreak Hill pertencia a ambos, tanto é que veio e foi, e os dois corredores permaneceram lado a lado.
Quem tinha resolvido ficar dentro de casa e assistir a prova pela TV, mudou de ideia ao ver o grande duelo que estava se desenrolando. Homens e mulheres saíram as ruas para testemunhar o fim do combate. Pais colocavam seus filhos sobre os ombros e pediam que prestassem atenção. O público nas ruas foi estimado em mais de dois milhões de pessoas. As largas ruas ficaram estreitas, com apenas um pequeno vão para que Beardsley, que sentia a respiração de Salazar em seu pescoço, pudesse passar.
Quando conseguiu escutar seus pensamentos, emudecidos pela gritaria histérica do público, Beardsley buscava encontrar forças para continuar à frente de Salazar. Se ele estava sofrendo, seu oponente também, afinal, se não estivesse, já teria passado por ele. Contudo, Beardsley pagava o preço do esforço feito nas colinas e começava a não sentir mais suas pernas. A região isquitiobial do lado direito já formava um pequeno nó e incomodava, a ponto de atrapalhar sua biomecânica.
Correr os últimos oito quilômetros era impensável, então adotou a estratégia de "uma milha por vez". Tentava enganar seu cérebro, negociando em ficar só mais uma milha liderando. Depois, só mais uma milha. As coisas para Alberto Salazar também não estavam nada boas: seu tendão esquerdo parecia mais uma taça estilhaçada. E na sua cabeça não importava mais o recorde, pois tudo que queria agora era vencer. Seu orgulho falava mais alto: nunca tinha perdido nenhuma maratona que participou e não seria agora. O que vai acontecer com o tendão ele veria depois da prova.


ESTREITAMENTO. E a multidão afunilava tanto as ruas que o ônibus que levava a imprensa teve que andar na faixa reservada aos atletas. Como tinha que chegar ao pórtico final antes deles, precisava ultrapassá-los. Salazar conseguiu se desviar, mas a mesma sorte não teve Beardsley, que teve seu ombro cortado pelo retrovisor do veículo e, cheio de raiva, socou a lataria do ônibus.
Mas ainda assim, não se abalou psicologicamente: a estratégica de "uma milha de cada vez" estava funcionando e ele estava há pouco mais de uma milha de vencer a prova. Tentou mais uma vez fazer uma fuga de Salazar, só que dessa vez o seu isquiotibial direito se contraiu de tal forma que formou um nódulo e a perna virou borracha, o fazendo perder toda a potência que ainda lhe restava. Salazar passou por ele e, logo em seguida, os batedores já o cercavam como se fossem uma falange. Dick Beardsley perdeu de vista seu oponente.
E por alguns segundos, Beardsley conviveu com a ideia de que nada é tão ruim que não possa piorar: exatamente na milha 25, ele pisou em um buraco justamente com a perna direita. Mas o que seria a maldição final tornou-se uma benção: ao pisar no buraco ele estendeu o tendão da perna, desfazendo o nó. Voltava a sentir suas pernas. As chances eram mínimas, mas a caçada a Salazar não tinha terminado.


ABAIXO DE 2H09. Contornando motos, policiais, público, Beardsley foi tirando a distância até estar a menos de vinte metros de Salazar. Os últimos 100 metros até a faixa de chegada foi digno de uma final olímpica dessa especialidade. Porém a história não é como nos filmes, onde o azarão acaba se superando e ganhando. Alberto Salazar venceu a prova com o tempo de 2:08:52, apenas um segundo à frente de Dick Beardsley. Foi a primeira vez na história que dois homens tinham corrido abaixo de 2h09, na mesma prova, e suas marcas ainda os classificam como o quarto e o quinto americanos mais rápidos em Boston.
Naquele 19 de abril de 1982, não foram só eles dois que deram tudo que tinham: 156 corredores, praticamente todos americanos, terminaram a corrida com tempos abaixo de 2h30. Na última edição em 2016, em contraste, apenas 28 corredores conseguiram esse feito.
O declínio em suas carreiras marcou o pós "duelo ao sol" para Alberto Salazar e Dick Beardsley. O primeiro até conseguiu o tricampeonato na Maratona de Nova York em novembro daquele ano, vencendo com muito mais facilidade Beardsley - machucado - na revanche entre os dois. Depois, ambos não conseguiram mais treinar como antigamente, lesões foram se avolumando e os resultados ficaram medianos. Beardsley se entregou ao vício do álcool e chegou a ser preso por falsificação de receita de remédios com morfina, que anulam a dor. Alberto Salazar também conviveu na década de 1980 com inúmeras doenças, chegando ao ponto de odiar com todas as forças correr. Abriu uma exceção em 1994, ao correr e vencer a Comrades, por pressão de seu patrocinador (Nike). Hoje, enquanto Beardsley vive quase de forma anônima em sua fazenda, Salazar continua com os holofotes sobre si, agora envolvido em um esquema de doping sistemático em seus atletas.
Se Boston é o Santo Graal dos corredores, o duelo de 1982 é uma aula de como devemos correr quando buscamos desempenho e que pode ser resumido por Dick Beardsley: "Amanhã, na sua maratona, você vai dar tudo de si e quando acabar, você pode olhar para trás e ver que fez um bom trabalho. Aí será capaz de relaxar. Você terminou!"


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